Paulo Paranhos
 
 


PÁGINA 1

Historiador, membro da Academia Luso-Brasileira de Letras

 (cadeira nº 8, de Carlos Malheiro Dias).

BIOGRAFIA


Sinopse

 



Prefácio



 

São Sebastião do Rio de Janeiro

band.com.br

 

A cidade


São Sebastião do Rio de Janeiro, cidade situada em uma das mais belas e maiores baías do mundo; cidade de tantas belezas naturais que por elas conquistou renome internacional. E, com o passar dos anos, essas belezas se completaram com o empreendimento de uma série de melhoramentos que a tornaram digna do espetacular cenário que a envolve, entre a beleza inigualável de sua baía e um fundo de paisagens que se eternizam na Serra dos Órgãos, espraiando-se até o Atlântico.
Semeada de uma infinidade de ilhas que a flora meridional transformou em tantos jardins, a Baía de Guanabara oferece um espetáculo que constitui o deslumbramento daqueles que lhe cruzam a barra ou aterrissam no Santos Dumont. É, sem dúvida, um quadro fantástico que constitui o êxtase de quantos têm aportado no Rio de Janeiro e figura como registro obrigatório entre as impressões de todos os viajantes em cujo itinerário se encontre a cidade. Não há quem não se sinta deslumbrado com essa visão majestosa, embelezada pelos mais caprichosos acidentes geográficos.
Pela beleza de seu panorama e aspectos pitorescos, a baía que os indígenas chamavam de Guana-para (braço do mar) tem inspirado poetas e compositores, além de extasiar os turistas que a visitam.
Aliás, ouve-se tanta coisa a respeito da cidade, de sua conformação geográfica, que procuramos lembrar a cada instante do relato de viajantes estrangeiros que por aqui aportaram e consideraram única no mundo a visão que descortinaram. Não é à toa que, ainda hoje, tantos quantos vêem a cidade sentem uma forte atração quando se deparam, por exemplo, com a imagem do Cristo Redentor, uma das 7 novas maravilhas do mundo, ou da Igreja da Penha, ou, mais ainda, da nossa beleza maior: a Baía de Guanabara, única no mundo, diferente de qualquer uma incrustada, por exemplo, à beira do Mediterrâneo.
Maria Graham, uma inglesa que por aqui aportou na década de 1820, anotou em seu famoso
Diário: nada do que vi até agora é comparável em beleza à baía. Nápoles, o Firth of Forth, o porto de Bombaim...cada um dos quais julgava perfeito em seu gênero de beleza, todos lhe devem render preito porque esta baía excede cada uma das outras em seus vários aspectos. Altas montanhas, rochedos como colunas superpostas, florestas luxuriantes... cada pequena eminência coroada com sua igreja ou fortaleza..., tudo isso se reúne para tornar o Rio de Janeiro a cena mais encantadora que a imaginação pode conceber.
Outro famoso viajante do século XVIII, o geógrafo inglês John Barrow, um dos fundadores da Royal Geographic Society, salientou: receio muito que todos os meus esforços para descrever o Rio de Janeiro não dêem ao leitor senão idéias bem abaixo da majestade e da beleza desses lugares, essa perspectiva, a mais magnífica das que a natureza pode oferecer, fere os olhos maravilhados.
Muito movimentada, a todo o instante sulcam as suas águas embarcações de toda natureza: sendo as mais constantes aquelas que fazem o tráfego regular entre o Rio de Janeiro e Niterói, além do dia-a-dia da ponte aérea e do caminho que lhe está superposto: a ponte Rio-Niterói.
Assim como o Rio de Janeiro, do outro lado da baía a cidade de Niterói também é construída em um plano que se estende até a base de montanhas. Forma o fundo do quadro a Serra dos Órgãos, recortando em azul o seu imponente perfil, onde se descortina o “Dedo de Deus”.
A cidade do Rio de Janeiro já foi capital da colônia, Distrito Federal, e é, desde 1975, a capital do Estado do Rio de Janeiro. Situada na margem ocidental da Baía de Guanabara, sendo seus limites: ao norte, os municípios de Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Itaguaí, São João de Meriti, Queimados, Seropédica, Mesquita, Nilópolis; ao sul, o Oceano Atlântico que banha de Copacabana à Barra da Tijuca; a leste, a Baía de Guanabara e suas ilhas, além do município de Niterói; e a oeste, a Enseada de Sepetiba, a Restinga da Marambaia e parte do Rio Guandu. Dentro desses limites estende-se, na parte continental, por uma superfície de 1.100 km, acrescidos, ainda, da área das Ilhas do Governador e Paquetá, o que lhe confere um total aproximado de 1.205,8 km.
Existem, no território do Rio de Janeiro, montanhas isoladas ou em pequenos grupos, ramificando-se na Serra do Mar; umas se encontram nas proximidades das planícies da zona rural, outras são de natureza eruptiva, com encostas escarpadas. A baixada, onde se assenta uma grande parte urbana da cidade, está compreendida entre o mar e as montanhas que a circundam, a oeste, tendo por montes culminantes os Picos do Corcovado e do Andaraí. Na zona rural aparece o principal ponto culminante da cidade: o Pico da Pedra Branca, na Serra do Barata, em Bangu, com 1024m de altitude.
Grande parte da baixada foi conquistada ao mar por um aterro de largas zonas de mangues e mesmo do mar aberto. No limiar da cidade, a zona que hoje é urbana constituiu-se de várias lagoas e pântanos progressivamente aterrados e edificados, como as de Santo Antonio e do Boqueirão, aterradas para dar lugar, respectivamente, ao Largo da Carioca e ao Passeio Público.



O surgimento


Muita tinta foi gasta, ao longo do tempo, para se falar da primeira abordagem ao Rio de Janeiro. Vários foram os historiadores e cronistas que se debruçaram sobre o tema sem que, na maior parte das vezes, se vislumbrasse um consenso entre eles. Para muitos, essa abordagem aconteceu no dia 1º de janeiro de 1502, quando por aqui teria passado uma expedição exploratória onde se encontrava o florentino Américo Vespúcio. Essa expedição teria sido a primeira a por os portugueses em contato com o Rio de Janeiro. Insistem, inclusive, que naquela ocasião a entrada da Baía de Guanabara seria confundida com a foz de um grande rio, daí a denominação de Rio de Janeiro, idéia inadmissível, como mais adiante veremos.
Historiadores, como Varnhagen, Capistrano de Abreu e Carlos Malheiros Dias fazem um discurso diferente do acima descrito. Vejamos que Malheiros Dias anota em sua obra que a expedição que saiu de Lisboa em 10 de maio de 1501 e retornou em 7 de setembro teria como capitão-mor André Gonçalves, estando presente nela o florentino Américo Vespúcio. Malheiros ressalva que, ainda que Aires de Casal entenda ter sido Gonçalo Coelho o comandante de tal expedição, porém o ilustre sacerdote português confundiu a terceira e a quarta navegações de Vespúcio.
Confrontemos, então, a informação do Padre Aires de Casal, a que se reporta Malheiros: sendo Gonçalo Coelho o almirante da primeira esquadra a continuar o descobrimento de Pedro Álvares, é indubitável que a primeira armada que saiu de Lisboa com este intuito, foi a de três caravelas em 501 (maio de 1501), segue-se ter sido o seu comandante, e não o das seis, que saíram em 503. Se, conforme questiona Malheiros Dias, escorado na fundamentação do historiador italiano Giuseppe de La Faitada, não se der credibilidade alguma às informações de Américo Vespúcio em sua Lettera di Amerigo Vespucci delle isole nuovamente trovate in quatro suoi viaggi, carta esta enviada a Pier Soderini dando a descrição das viagens de 1497, 1499, 1501 e 1503, o florentino não teria passado pelo Rio de Janeiro; ao revés, se forem considerados confiáveis os dados ali revelados, o florentino estaria na expedição de André Gonçalves e teria passado pelo Rio de Janeiro entre os meses de janeiro e fevereiro de 1502, ainda que no entendimento de Aires de Casal o “almirante” a que se refere Vespúcio em sua carta seja efetivamente Gonçalo Coelho e não André Gonçalves.
Estranhamente, porém, Malheiros informa em sua obra, de maneira contraditória, que a Baía de Guanabara poderia ter sido descoberta no ano de 1504, pela frota de Gonçalo Coelho. Segundo esse estudioso português, Gonçalo Coelho, após fundar a feitoria de Cabo Frio, teria deixado uma casa de pedra, núcleo de um arraial à beira de um riacho o qual era denominado de carioca pelos indígenas.
De toda forma, ainda que paire esse tipo de contradição, é importante confrontar os dados e os excelentes mapas constantes da obra de Malheiros Dias, estes últimos traçando as derrotas de Américo Vespúcio em suas viagens atlânticas.
Vejamos outra informação: no ano de 1503, Gonçalo Coelho, em uma segunda expedição montada pela Coroa portuguesa para explorar o novo território, passaria pelo Rio de Janeiro e ali, junto à Baía de Guanabara, estabeleceria a primeira feitoria da região, abandonada logo a seguir. Esta informação sim é seguida por historiadores conceituados como o inglês Robert Southey, Capistrano de Abreu, João Ribeiro, Oliveira Lima e o espanhol Martin Fernandez de Navarrete.
O já citado historiador português Duarte Leite, contundente opositor de Varnhagen, reconhece (ainda que mantidas as restrições que apontamos na nota 6) a viagem de Vespúcio narrada na Lettera, tendo a expedição do florentino saído de Lisboa em 13 de maio de 1501 e, após diversas paradas, regressado em 7 de setembro de 1502, depois de percorrer o litoral do Brasil e a costa da África, tendo o reconhecimento litorâneo sido concluído em 15 de fevereiro desse ano. O mesmo historiador afirma que Varnhagen errou não só o ano (1501) como o dia e o mês em que se chegou à Baía de Guanabara e, mais ainda, que em hipótese alguma (e o que consideramos extremamente relevante) os navegadores confundiriam a entrada da baía com a foz de um rio, pois sabiam, sendo marinheiros experimentados, perfeitamente diferençar águas marítimas de águas fluviais.
Felisbello Freire, por exemplo, afirma que a descoberta de Pedro Alvares Cabral das terras de Porto-Seguro, em 1500, levou Portugal a preparar uma frota que fosse ao continente reconhecer a qualidade, o valor e a extensão da Nova-Terra. Esta frota fez-se de rumo para o seu destino em Maio de 1501 e comandava a esquadrilha D. André Gonçalves.
Contudo, em que pesem as anotações sobre a chegada desta ou daquela expedição ao Brasil, o fato é que, de acordo com informações de viajantes e historiadores de renome, é possível afirmar que até a chegada ao Rio de Janeiro da expedição colonizadora de Martim Afonso de Souza, não só o Rio de Janeiro, mas toda a colônia portuguesa na América estaria fadada ao descaso da Coroa, relevando-se que, durante praticamente três décadas, foi uma constante a investida de corsários franceses e ingleses interessados na extração do pau-brasil.


São Sebastião do Rio de Janeiro : 1565

Ilustração da vista da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

http://www.brasil.gov.br


A fundação


Na realidade, somente a partir da década de 1550, já com a intervenção do então Governador-Geral Tomé de Souza, é que se procurou estabelecer uma povoação mais sedentária no Rio de Janeiro, na tentativa de barrar a entrada de corsários franceses e ingleses que, pouco a pouco, degradavam a mata atlântica com a pilhagem do pau-brasil. Por isso mesmo, o governador-geral reclamava junto às autoridades portuguesas o urgente estabelecimento de uma povoação honrada e boa no Rio de Janeiro, como um meio eficaz de atenuar a investida estrangeira na região.

Tomé de Sousa

pt.wikipedia.org

 


Não sem razão aquele governante, uma vez que em 1555, quando era Governador-Geral Duarte da Costa, os franceses apoderar-se-iam de uma ilha na Baía de Guanabara, fincando ali uma colônia que seria, conforme mesmo anotado por eles, uma ponta de lança para conquistar todo o litoral brasileiro.

2º Gov_ Duarte da Costa (1553-1558)

 

 Essa colônia francesa seria denominada França Antártica e o comando da expedição estava com Nicolas Durand de Villegagnon. Naquele momento, os franceses conseguiram o apoio dos índios tamoios e, durante algum tempo, fizeram frente às investidas dos portugueses contra a fortificação da ilha onde erigiram o Forte Coligny.

França Antártica

 

NICOLAS DURANT DE VILLEGAGNON
1510-1571
Oficial-naval francês
e
Vice-almirante da Bretanha
Botânico,foi o primeiro europeu a descrever o Pau-brasil, científicamente
Caesalpinia echinata Lam

Serigipe 1560 Forte Coligny


Diante desse quadro, esboçando a perspectiva da perda de uma parte da colônia, o governo português cuidou de expulsar os intrusos que dominavam a baía desde 1555. Coube essa tarefa a Mem de Sá, que no Brasil chegaria em 1557. Os franceses seriam atacados e desalojados da Ilha de Villegagnon e, mais precisamente no dia 1º de março de 1565, Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá, ergueria as bases da cidade do Rio de Janeiro, entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Em carta escrita ao Rei de Portugal, Mem de Sá vangloriava-se: ganhei de novo o Rio de Janeiro.

 

Villegagnon

informativoniteroi.blogspot.co


O consagrado historiador Adolpho Morales de los Rios (pai) marca a fundação da cidade na base do Morro Cara de Cão e não entre este e o Pão de Açúcar, contrariando, desta forma, historiadores como Vieira Fazenda e tantos outros.

 

 

Adolfo Morales de los Ríos

 

 Contudo, no dia 20 de janeiro de 1915, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, presidido por Max Fleiuss, considerou, acatando o parecer do Dr. Vieira Fazenda e contra o voto apenas do Dr. Morales de los Rios, que a fundação da cidade se deu, efetivamente, entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar, local aonde, inclusive, mandaram erigir um marco comemorativo.
Alexandre Passos, citando Baltazar da Silva Lisboa, reproduz trechos da exortação de Estácio de Sá a seus comandados: ....conheça El-Rei, a Pátria, o Brasil, e o Mundo todo nosso denodado valor. Levantemos esta Cidade que ficará por memória do nosso heroísmo, e de exemplo de valor às vindouras gerações, para ser a Rainha das Províncias, e o Empório das riquezas do Mundo.
Ainda sobre o momento da fundação, Felisbello Freire, citando o Visconde de Porto Seguro, brinda-nos com a seguinte página: A 28 (de fevereiro) aparece a capitânea com o navio desgarrado e juntos entram no Rio de Janeiro, debaixo de chuva e a 1 de Março desembarcam e começam a construção da cidade. Estácio fundou logo à entrada, à sombra do Pão de Açúcar, desembarcando na península que se forma ao lado dele, entre o mar e o primeiro saco ou concha da baía, junto ao Morro Cara de Cão de Gabriel Soares, hoje Morro de S. João. Este sítio empunha-se como o local para a fundação da cidade, começando logo a roçar o mato e a fazer, antes de tudo, uma tranqueira, que servisse à defensa contra qualquer surpresa; construíram-se arruados, alguns ranchos ou tujupares de taipa de sebe, ao modo dos índios e abriu-se uma cacimba, na gandara junto a praia, tudo isto apesar das ciladas que por terra e por mar, intentavam os bárbaros, cujo principal Ambiré era destríssimo no armá-las ao inimigo.
João da Costa Ferreira anota que, na realidade, o principal documento de fundação da cidade foi a carta escrita pelo Padre Anchieta, datada de 9 de julho de 1565, da qual cita algumas passagens: ...começaram a roçar em terra com grande fervor e a cortar madeira para a cerca, sem querer saber dos tamoios nem dos franceses, mas como quem entrava em sua terra se foi logo o capitão-mor a dormir em terra e dando ânimo aos outros para fazer o mesmo, ocupando-se cada um em fazer o que lhe era ordenado por ele, a saber: cortar madeira e acarretá-las aos ombros, terra, pedra, e outras coisas necessárias para a cerca, sem haver nenhum que a isso repugnasse, desde o capitão-mor até o mais pequeno, todos andavam e se ocupavam em semelhantes trabalhos...
Sem dúvida, a vitória de Estácio de Sá foi o ato histórico criador da cidade, quando os portugueses garantiram, em 1° de março de 1565, a posse do Rio de Janeiro, rechaçando a partir daí novas tentativas de invasões estrangeiras e expandindo o seu domínio sobre as ilhas e o continente. Construíram na entrada da baía, em uma praia protegida pelo Morro do Pão de Açúcar, uma fortificação composta por simples casinhas feitas de troncos de madeira e barro, que foi mais tarde destruída para dar vez a um novo povoamento no entorno do Morro do Castelo.
O novo povoado marcou de fato, o começo da expansão urbana. Assim é que, ali, praticamente na entrada da Baía de Guanabara, seria erguida, então, aquela que ficou conhecida como a terra mais fértil e viçosa do Brasil no último quartel do século XVI. E isto, efetivamente, seria uma realidade, uma vez que no ano de 1572 o Rio de Janeiro seria escolhido para sediar a repartição sul do Brasil, com a divisão administrativa adotada pela Coroa portuguesa naquela oportunidade.
Um historiador de renome, o português Oliveira Martins, não hesitaria em escrever, também a propósito desse episódio na Baía de Guanabara, que doravante metade do Brasil estava salvo – nem mais nem menos. A Igreja, naturalmente, com a partida dos franceses huguenotes, lucraria também com isso, afastando o Brasil da influência da Reforma protestante.
Por longo tempo empenharam-se os portugueses em escaramuças contra os franceses e os tamoios coligados, até que, a 20 de janeiro de 1567, dois combates decisivos determinaram o desbaratamento absoluto dos invasores. O princípio desses combates deu-se na Praia do Uruçumirim, hoje Flamengo, e o outro na Ilha de Paranapuan, que é a atual Ilha do Governador, combate este que custou a vida de Estácio de Sá, ferido mortalmente por uma flecha envenenada.
Senhores do domínio absoluto da baía, seguros da dispersão e derrota dos invasores, os portugueses transformaram em assentamento definitivo dos alicerces da futura capital do Brasil o acampamento militar que haviam feito no sopé do Cara de Cão, levando-o a um ponto mais adequado, sendo escolhido o Morro de São Januário, o qual, em homenagem ao rei de Portugal e ao santo sob cuja invocação batalharam os portugueses, foi dado o nome de São Sebastião do Castelo.
Do Morro do Castelo, pela encosta norte, desceu a povoação, seguindo até ao morro que lhe fica fronteiriço, o de São Bento, construindo-se com o critério topográfico, em matéria de arquitetura e de higiene desses tempos. O terreno, a bem da verdade, era cheio de lagoas e pântanos que se foram aterrando aos poucos.
Durante quase todo o século seguinte a cidade teve um desenvolvimento lento. Uma rede de pequenas ruelas conectava entre si as igrejas, ligando-as ao Mercado do Peixe, à beira do cais, nascendo a partir delas as principais ruas do atual Centro. Com cerca de 30 mil habitantes na segunda metade desse século (XVII), o Rio de Janeiro tornara-se a cidade mais populosa do Brasil, passando a ter importância fundamental para o domínio colonial. Essa importância tornou-se ainda maior com a exploração de jazidas de ouro em Minas Gerais, no século XVIII, pois sua proximidade consolidou a cidade como um importante centro portuário e econômico. Em 1763, o Marquês de Pombal, então primeiro-ministro de Portugal, transferiu a sede da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro.
A elevação do Rio de Janeiro à condição de capital do Vice-Reinado veio encontrar a cidade já bastante internada para o recôncavo. A ambição e o esforço dos colonos, guiados pela operosidade dos padres jesuítas, montaram grandes lavouras, principalmente de cana-de-açúcar. Grandes engenhos instalaram-se em vários pontos que foram assinalados pela tradição nos bairros do Engenho Novo, Engenho Velho, Engenho de Dentro, montados muitos deles pelos jesuítas, primeiros concessionários de extensas faixas de terras no Brasil.
É nesse momento que o braço negro e escravizado africano presta o seu concurso para o desenvolvimento agrícola da nova terra que, se ainda tinha em estado muito rudimentar a sua organização social e política, representava uma enorme extensão de terra plantada, gerando produtos valiosos por sua fecundidade. A cidade já se abastecia com a excelente água da Serra da Carioca, captada pelo monumental aqueduto, e que tinha a virtude, segundo uma lenda indígena, de tornar belas todas as mulheres que ali bebessem. Uma nova energia animou a cidade: introduziram-se novas culturas, a vida começou a organizar-se, a navegação tornou-se mais freqüente e constante, estabelecendo-se linhas regulares entre a metrópole e a colônia.
Até o princípio do século XIX, abriram-se novas ruas; evoluiu a organização municipal; definiu-se em atribuições mais claras e nítidas o serviço de fiscalização e policiamento. No ano de 1808, um fator inesperado foi decisivo para a evolução rápida da cidade, dando-lhe um impulso ainda mais vigoroso: Napoleão ameaçava a Europa inteira e Portugal teve a mesma sorte de outros países, invadido pelas tropas napoleônicas. A corte portuguesa, ante a iminente ameaça de invasão, transfere-se para o Rio de Janeiro, com o Príncipe Regente, e inicia-se outra fase, um novo impulso desenvolvimentista com a transformação da cidade em sede da Coroa portuguesa.

 

Detalhe do mapa "Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com suas

fortificaçoens", de João Massé, 1713, mostrando a muralha do Rio de Janeiro,

do Morro do Castelo ao Morro da Conceição

http://serqueira.com.br/mapas/muro1.htm


Notas


1 Este artigo, com ligeiras modificações, faz parte do 1º Capítulo da obra do autor História do Rio de Janeiro, os tempos cariocas.
2 Diário de uma viagem ao Brasil, p. 194. Maria Graham viajava com seu marido, o Capitão Thomas Graham, na fragata Doris, com a incumbência de ser professora de literatura inglesa para os guardas-marinha. Retornou ao Brasil em 1824, já viúva, para ser governanta dos filhos de D. Pedro I, papel que desempenhou até o final do ano de 1825. Faleceu na Inglaterra em 1842.
3 Citado por Victor Drummond in Rio de Janeiro capital do Brasil, p. 57.
4 História da colonização portuguesa do Brasil, p. 257, v. 3.
5 Corografia Brasílica, p. 31, obra escrita no ano de 1817.
6 Datada de 1506. Duarte Leite ressalta em sua obra Descobridores do Brasil, p. 118, que a Lettera usa de linguagem semibárbara, florentino vulgar mascavado de espanhol e português, defeito de forma a que se juntam erros tipográficos, mutilações e alterações dos originais, na substância dela abundam negligências, exageros e omissões, e envolta com desastroso arremedo de ciência, daí o cuidado que se deve ter em sua análise.
7 Pier Soderini era, nessa época, gonfaloneiro de Florença, ou seja, exercia o mais alto cargo executivo da cidade, eleito que fora em 1502.
8 O gentílico carioca somente passou a ser usado após o ano de 1834, quando o Ato Adicional criou o Município Neutro (cidade do Rio de Janeiro) separado da Província do Rio de Janeiro. Essa denominação foi analisada por vários estudiosos e anotamos aqui alguns entendimentos:
 casa dos karis ou tamoios, segundo Jean de Léry.
 água corrente de pedra, para o Monsenhor Pizarro e Araújo.
 casa da gruta, para von Martius.
 casa do branco, para Varnhagen.
 descendente do branco (caub-ôca), para Couto de Magalhães.
9 Autor de Colleccion de los viages y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, publicado em Madri no ano de 1825.
10 História da cidade do Rio de Janeiro (1654-1700), p. 5.
11 A Ilha de Serigipe, depois denominada de Villegagnon.
12 O morro mais tarde passou a denominar-se Morro de São João, segundo Felisbello Freire na sua História da Cidade do Rio de Janeiro.
13 Para informações mais detalhadas sobre a fundação da cidade, é imprescindível a leitura da obra de Frederico Trotta, A fundação da cidade do Rio de Janeiro, que anota, com muita propriedade, todas essas linhas de entendimento sobre onde foram lançados os fundamentos de nossa cidade.
14 O Rio no tempo do Onça, p. 22.
15 Gabriel Soares de Sousa, em sua obra Tratado Descriptivo do Brasil, p. 88, informa que ...quem houver de entrar no “rio”, dando-lhe o vento lugar, entre pela banda do leste, e sendo o vento oeste, vá pela barra do oeste pelo meio do canal, que está entre a ponta de Cara de Cão e a lajea, mas a barra de leste é melhor por ser mais larga, e por cada uma delas tem fundo oito até doze braças até a ilha de Viragalham....
16 Obra citada, p. 34.
17 A cidade do Rio de Janeiro e seu Termo, p. 217.
18 O Brazil e as colônias portuguezas, p. 34.

 

 

LIVRO DE VISITAS