"filha de hiena e abutre"

Henrique Lacerda Ramalho

Formatação: Iara Melo

 


Quem era Carlota Joaquina Teresa Cayetanade Borbon e Bourbon? (1)

Nascida em Aranjuez,das casas Bourbon (francesa) , Borbon (espanhola), filha de Carlos IV de Espanha e de Maria Luiza de Parma (itália), portanto aparentemente um casamento político muito conveniente para Portugal, com D. João VI. (2)
Na época, o casamento de monarcas e de nobres de alto gabarito eram pré-destinados e políticos, nada tendo a ver com parte emocional e/ou de vivência íntima.
Mas este casamento de D. João VI, em vez de estabilidade com Espanha e França, se provou inconveniente: Carlota sempre urdiu conspirações na corte a favor dos espanhóis, inimigos de Portugal (aliados a Napoleão e até querendo invadir Portugal) e foi pró-Napoleão , embora tivesse sido anti-revolução francesa. Ela não contava com o traidor Napoleão: substituiu o rei espanhol por seu irmão, José Bonaparte.
D. JoãoVI, que só por morte por varíola de seu primogénito irmão ,subiu ao trono, foi um génio na época: a guerra se baseava na ocupação de capitais e eliminação do poder politico substituído por outro, francês ou pró-francês: Napoleão foi "burlado", incapaz de atingir a corte portuguesa e eliminá-la.
A Inglaterra? Sempre "filha de hiena e abutre", preferiu combater no território português (Beresford (3) matou mais portugueses que as invasões francesas, alem do "saque" inglês aos bens portugueses ..até as bibliotecas portuguesas serviram para serem rasgados os livros para se fazerem as buchas para as espingardas, o mesmo foi feito pelos invasores franceses...), salvaguardando os portos de serem trancados pelos franceses, salvaguardando bens e gentes nas ilhas britânicas(quanto mais se dispersasse os exércitos franceses, menos forças haveria para invadir a Grã Bretanha),impedindo o reabastecimento da marinha francesa, o que facilitou a conquista da Guiana francesa por D. João VI.
D. João, alem de criar escolas e bibliotecas, assinou tratado com a GB , o tratado Luso-britânico que substituiu o Pacto colonial ,ruinoso para Portugal mas importantíssimo para o Brasil, alem de manter os portos brasileiros abertos (privilegiando indirectamente a poderosa armada inglesa), o que teve repercussão a nível mundial.
Foi um homem pacífico, nada a ver com cobarde, oferecendo até seu filho para casamento com a sobrinha do rei francês.
Que foi feito de outros reis e imperadores na Europa ocupada por Napoleão? Não foram substituídos por este?
Só o Imperador Português e sua corte se manteve incólume!
Que seria do Brasil se ele se tivesse refugiado em Angola, por exemplo? Nenhuma colónia de nenhuma potência recebeu o poder politico nacional senão o Brasil (alem de todo o património cultural que foi possível levar para o Brasil) nem foi elevada a reino, com a capital monárquica numa cidade-colónia (Rio de Janeiro):

"O documento mais importante no Rio de Janeiro foi a Carta Régia de 7 de Março de 1810, cuja redacção se deve a D. Rodrigo de Souza Coutinho (4). Em primeiro lugar, sintetiza e justifica as medidas e compromissos estabelecidos pela corte no Rio, procurando tranquilizar politicamente os interesses económicos dos destinatários na metrópole; em segundo lugar, procura minimizar os efeitos do tratado luso-britânico de 1810, anunciando um conjunto de providências que garantiriam o desenvolvimento económico do reino, sobretudo na sua componente continental. O texto desemboca na preferência por um modelo de desenvolvimento centrado na agricultura: a industrialização teria de ser preterida em benefício de um desenvolvimento agrícola que assegurasse simultaneamente uma especialização produtiva vantajosa e uma indução futura de desenvolvimento das manufacturas."
Após a queda de Napoleão, em 16 de Dezembro de 1815 o Príncipe Regente D. João elevou o Brasil a reino, por pressão inglesa e para poder sentar-se entre os plenipotenciários do Congresso de Viena;
(http://pt.wikipedia.org/wiki/João_VI_de_Portugal)

Teria sido tão inconveniente a presença de D. João VI no Brasil?
Não será torpeza a visão negativista do facto, buscando em factos mesquinhos (comuns na época, basta até também olhar para a vida pessoal de Napoleão) da vida pessoal do imperador? (5)
É costume generalizar com o nome do político : D. João VI não foi um solitário, um ditador, mas um conjunto de membros do poder governante em que ele era a figura de topo!

(01) - (...) D. João, desejando evitar um escândalo público, opôs-se à sua prisão, preferindo confinar os movimentos da esposa ao Palácio de Queluz, enquanto ele mesmo ia morar para o Palácio de Mafra, separando-se dela. Seus inimigos afirmavam que somente cinco dos seus nove filhos (incluindo D. Miguel I) eram filhos de Dom João VI, já que Carlota Joaquina era uma notória ninfomaníaca.
Descrevendo sua fealdade, seus cabelos sujos e revoltos, seus lábios muito finos e arroxeados adornados por um buço espesso, seus dentes « desiguais como a flauta de Pã », a mulher do embaixador francês, a marquesa de Abrantes, Laura Junot, afirma: « Não podia convencer-me de que ela era uma mulher e, entretanto, sabia de fatos nessa época que provavam fartamente o contrário. »
Diz outro historiador que « passava por ser de ânimo perspicaz e de dotes elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente, começou a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico em continua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas praças públicas. D. Carlota dispôs as coisas de forma que criou um partido seu, e em 1805 divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele pela esposa. Ela, tendo a seu lado nobres e eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prendê-lo, declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente, para evitar escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz onde antes viviam juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar fidalgos que mais se manifestavam afetos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em 1807, fez com que os esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra, que em Novembro conduziu o Príncipe regente e D. Maria I ao Brasil, levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio continuaram vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas quando eram obrigados a comparecer nalguma solenidade pública.(...)

Fonte Dicionário de O. Martins

(02) D. João VI

"Estou preocupado com sua alteza real, Dom João. Dom João encontra-se fraco, deprimido, pouco come. O comércio de escravos corre mal a Dom João, as gentes do Porto, as suas revoltas, preocupam Dom João. O nosso Dom João cada vez tá mais sozinho na Corte Real, quase não tem amigos o pobre Dom João e os que o rodeiam Sua Majestade detestam-no e juram-lhe eterna inimizade, pobre Dom João, estou preocupado com Dom João. Ontem somente degustou 6 aves, baixou a média consideravelmente na última primavera. O trabalho de Dom João no palácio é mais difícil que nunca, sente-se enleado entre as partes em confronto, Dom João não está bem, degusta somente 3 Carvalho ribeiro ferreira como o diabo esfrega o olho, e o seu único passatempo é falar francês com as aias técnicas superiores. Os fins de tarde são medonhos, a preguiça e a ronha instala-se em Dom João, sua mulher é mundana, perseguindo Strangford, em trajes não dignos de figura real..Está tudo num estado de letargia, como peço a Deus que a situação mude, que mude o estado de espírito de Dom João, Dom João não está bem. Dom João tem fome. Dizeis que em Lisboa é o lugar de Dom João, que a obras deram início no Palácio da Ajuda, mas por cá pelos trópicos o Palácio São Cristóvão, a 15 léguas daqui, de forma a acomodar Dom João foram feitos consideráveis progressos. Dom João não sabe o que fazer".

Oliveira Machado

(03) Terminada a campanha peninsular, e tendo Beresford ido a Inglaterra com licença, voltou a Lisboa a assumir de novo o comando em chefe do exército português. Não se querendo, porém, limitar a esse comando, entendeu que devia também influir na administração do estado, de que resultaram várias questões e conflitos com a regência. Beresford decidiu então ir à corte do Rio de Janeiro, e para ali partiu em Agosto de 1815, voltando em Setembro de 1816 elevado ao posto de marechal-general, e investido de poderes mais amplos dos que anteriormente exercera. Na conspiração de 1817, em que vitimaram Gomes Freire de Andrade, foi Beresford severamente censurado pela forma como tratou aquele dedicado general (V. Andrade, Gomes Freire de). Vendo-se colocado em difícil posição, voltou novamente ao Brasil, e obteve de D. João VI a confirmação dos amplíssimos poderes que tivera, e que desejava ampliar, para evitar os inconvenientes resultantes da má vontade da regência. Regressou a Portugal com o carácter perfeitamente de ditador, mas no intervalo dera‑se a revolução de 1820; os oficiais ingleses, em grande parte, haviam sido dispensados dos seus serviços no novo exército, e o governo revolucionário que se organizara em Lisboa, nem consentiu que Beresford desembarcasse. Mais tarde, estando em Inglaterra, o general inglês publicou um livro em português, pretendendo defender‑se das acusações que lhe faziam acerca de Gomes Freire de Andrade. Entre as honras que recebera de diferentes países, Beresford tinha a grã-cruz da ordem da Torre e Espada, e os títulos de conde de Trancoso, concedido em 1811, e de marquês de Campo Maior, em 1812.

Dicionário O. Martins

(04) D. Rodrigo de Souza Coutinho (Conde de Linhares)

Sendo demitido como partidário da aliança inglesa, quando o ministro francês, o general Lannes, aqui exerceu grande influência, emigrou para o Brasil com a família real, e apenas chegou ao Rio de Janeiro foi nomeado ministro dos negócios estrangeiros e da guerra. Também exerceu os cargos de inspector-geral do Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico da Ajuda; da Biblioteca Pública de Lisboa; presidente do conselho de Fazenda e da Junta económica, administrativa e literária da Impressão Regia; da Junta da direcção geral dos provimentos de boca para o exército, da Junta do pagamento do novo empréstimo ao Erário Régio; presidente honorário da Sociedade Real Marítima; sócio honorário da Academia Real das Ciências de Lisboa. O título foi concedido por decreto de 17 de Dezembro de 1808. O conde de Linhares era muito erudito, muito versado nas ciências naturais e politicas.

(05) Cartas de Napoleão a Josefina:
Verona, 13 de Novembro de 1796.
Já não te amo: ao contrário, detesto-te. És uma desgraçada, verdadeiramente perversa, verdadeiramente tola, uma verdadeira Cinderela. Nunca me escreves; não amas o teu marido; sabes quanto prazer tuas cartas dão a ele e ainda assim não podes sequer escrever-lhe meia dúzia de linhas, rabiscadas apressadamente.
Que fazes o dia todo, Madame? Que negócio é assim tão importante que te rouba o tempo para escrever ao teu devotado amante? Que afeição abala e põe de lado o amor, o terno e constante amor que lhe prometeste? Quem será esse maravilhoso novo amante que te ocupa todos os momentos, tiraniza seus dias e te impede de dedicar qualquer atenção ao teu esposo? Cuidado, Josefina: alguma bela noite as portas se abrirão e eu surgirei.
Na verdade, meu amor, estou preocupado por não receber notícias tuas; escreve-me neste instante quatro páginas plenas daquelas palavras agradáveis que me enchem o coração de emoção e alegria.
Espero poder em breve segurar-te em meus braços e cobrir-te com um milhão de beijos, candentes como o sol do equador.
Bonaparte
Outra carta de Napoleão a Josefina:
Milão, 27 de Novembro de 1796, três horas da tarde.
Cheguei a Milão, corri para teu apartamento, deixei tudo para ver-te, para apertar-te em meus braços. . . Não estavas lá; corres de cidade em cidade, atrás de festas; partes quando estou prestes a chegar; já não te preocupas com o teu querido Napoleão. Foi um capricho o que te fez amá-lo; a inconstância torna-o indiferente a ti. Habituado aos perigos, conheço o remédio para os aborrecimentos e reveses da vida. A fortuna adversa que provo é inacreditável; dela deveria estar isento.
Ficarei aqui até a noite de 9. Não te perturbes; goza todos os prazeres; a felicidade foi feita pra ti. O mundo inteiro ficará feliz de fazer-te feliz, e só o teu marido, solitário, é que é muito, muito infeliz."
 

FORMATAÇÃO E ARTE: IARA MELO