"A Travessia do Atlântico"

Do Livro de Bordo

São Luís

A Caminho de São Luís

3ª PARTE

Editor:Carlos Leite Ribeiro

Navio CUCO
Excursão (virtual) ao Litoral do Brasil
(Coordenação e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro)

 

          Brasão do Maranhão
         
Apresenta, contornado por uma moldura, um círculo dividido em quatro partes: As duas da direita, em verde e amarelo, representam as cores nacionais; As duas da esquerda retratam, na parte superior, a bandeira maranhense e, na parte inferior, o emblema da instrução (um pergaminho atravessado por uma pena) O Escudo Estadual foi criado pelo Decreto nº 58, de 30/12/1905, baixado pelo 1º Vice-Governador em exercício Alexandre Colares Moreira Junior e mantido pela Lei nº 416, de 27/8/1906, sancionada pelo Governador Benedito Pereira Leite.
          O modelo original traz a assinatura do desenhista Lucílio. A forma do contorno da superfície do escudo será a mesma do escudo da Confederação Suíça e será limitada por molduras de estilo barroco amoldadas ao contorno; o campo do escudo será dividido em quatro partes - duas, em um dos lados, contendo as cores nacionais, verde e amarelo, e duas, do outro lado, contendo, a de cima, a bandeira do Estado reproduzida, e a de baixo o emblema da Instrução no meio de raios de luz; o escudo será encimado por uma coroa de louros e as molduras, ornatos e a coroa serão da cor dourada.
         
          Bandeira do Maranhão
          Bandeira do Maranhão A bandeira idealizada pelo poeta maranhense Sousândrade, representa, com suas listras nas cores vermelha, branca e preta, as raças formadoras do povo brasileiro:
          índio vermelho;
          português branco;
          africano negro.
          A estrela branca, contida no retângulo azul do canto superior esquerdo, simboliza o Maranhão, no céu do Brasil, como Estado da Federação.
         
          Nestes textos falámos de:
         
          Martim Afonso de Sousa: "Nasceu em Vila viçosa (Alentejo – Portugal) em 1500 e morreu em Lisboa em 1571). Comandou uma frota de cinco navios que lhe foi confiada por D. João lll a fim de combater as pretensões francesas a territórios do Brasil. Explorou e enviou expedições que percorreram o litoral desde o cabo de Santo Agostinho até ao Rio da Prata. Em 1532, fundou as vilas de São Vicente e Piratininga e construiu o primeiro engenho de açúcar do Brasil. Em 1533, foi nomeado capitão-mor do mar das Índias, cabendo-lhe, com a divisão do Brasil em capitanias hereditárias, as de São Vicente e do Rio de Janeiro. Nas Índias, defendeu a fortaleza de Diu contra os ataques de indianos e turcos, derrotou o rajá de Calicute, destruiu a fortaleza de Damão e tomou a ilha de Repelina. Em 1542, foi nomeado vice-rei das Índias (governou durante três anos). Regressou a Portugal para ocupar o seu lugar no Conselho de Estado".
          Para falar da personagem seguinte, foram convocados os homens. Por sorteio, o primeiro a falar foi o Paulo Tamiazo, um perito em História:
         
          "Fernão Álvares de Andrade: "No ano de 1535 o Rei Dom João III concedeu para Fernão Álvares de Andrade, o mais poderoso e importante dos Fernão Álvares de Andrade: No ano de 1535 o Rei D. João III concedeu para Fernão Álvares de Andrade, o mais poderoso e importante dos agraciados com terras no Brasil que era fidalgo descendente dos Condes de Andrade, Tesoureiro Mor de Portugal e membro actuante do Conselho Real e o principal conselheiro do rei - João de Barros que era Feitor da Casa da Índia, Tesoureiro das Casas das Índias e de Ceuta. – Aires da Cunha navegador e militar experiente afeito às agruras da vida no mar e `a conquista em terras estrangeiras. Sendo o Rei D. João III consciente da importância das dimensões e dos vultuosos investimentos a ser movimentado por aquele projecto colonial, tratou de conceder aos donatários associados vantagens adicionais, além daquelas que já lhes tinham sido asseguradas pelos respectivos forais e no processo de partilha do Brasil. A esses três homens coubera quase todo o vasto território que se prolongava desde a Baia da Tradição na Paraíba, até a Ilha de Marajó no Pará.
          Os três lotes concedidos aos donatários associados perfaziam 225 léguas de costa que abrangia todo o litoral setentrional do Brasil, embora a extensão das terras fossem enormes, havia um grave problema logístico, pois aquelas capitanias ficavam na região chamada de Costa Leste-Oeste uma porção menos conhecida do litoral brasileiro e a que apresentava as maiores dificuldades náuticas para os homens dispostos a percorrê-la nos tempo da navegação a vela. Os donatários já sabiam disto, mas sabiam também que a partir de seus lotes, seria possível tentar a conquista do Peru . O donatário Fernão Álvares de Andrade, embora fosse muito rico, não se lançou sozinho em suas aventuras brasileira, ele decidiu se associar com João de Barros que havia sido agraciado com duas donatárias em parceria com Aires da Cunha, sendo que um dos seus lotes tinha 50 léguas de extensão que iniciava-se no extremo norte do Brasil, no chamado Cabo de Todos os Santos e ao sul era estabelecido pela foz do Rio Gurupi na chamada Abra de Diogo Leite e o outro lote mais tarde conhecido como Capitania do Rio Grande que ficava bem mais ao sul e tinha 100 léguas de larguras que começava na ponta de Mucuripe e ia até a Baia da Tradição na Paraíba e entre os lotes de João de Barros e Aires da Cunha existiam duas outras capitanias, uma que mais tarde passou a se chamar de Maranhão que fora entregue a Fernão Álvares com 75 léguas de costa que principiava na foz do Rio Grande e ia até a foz do Rio Paraíba, e em Novembro de 1535, com Aires da Cunha no comando da expedição, pois Fernão Álvares de Andrade e João de Barros haviam permanecido na corte, onde alias os seus serviços eram indispensáveis ao bom funcionamento dos negócios ultramarinos, que na oportunidade João de Barros foi representado pelos seus filhos Jerônimo e João".
         
          O orador seguinte, foi o Abílio Terra, que embora um pouco afónico, conseguiu ler muito bem o apontamento:
         
          "No dia 6 de Janeiro de 1536 a grande esquadra deu entrada no Porto de Pernambuco, onde o donatário Duarte Coelho e os seus colonos que o acompanhavam na dura rotina dos trabalhos de construção da Vila de Olinda e com a chegada da esquadra que era composta por dez embarcações e armada pelos três donatários coligado, se deu o reencontro de Duarte Coelho e Aires da Cunha, velhos conhecidos de outras jornadas, pois juntos eles já tinham combatidos em Malacá (Índia) e compartilhados a chefia da esquadra dos Açores, e quando Duarte Coelho tomou conhecimento dos planos de seu antigo companheiro de armas, forneceu-lhe alguns mapas, quatro interpretes e uma fusta. Assim, na segunda quinzena de Janeiro a armada de Aires da Cunha partiu de Pernambuco em direcção ao nordeste e depois de navegar ao longo da costa, a frota de Aires da Cunha cruzou pela ampla foz do Rio Potengi, que apesar de ser aquele local um ponto estratégico e ficar dentro dos limites das donatárias que ele compartilhava com João de Barros, Aires da Cunha inexplicavelmente não fez escala ali, indo desembarcar na tortuosa foz do Rio Baquipe onde foram rechaçados pelos índios Potiguar que nesta época estavam unidos com os franceses. Por este motivo Aires da Cunha zarpou com sua frota para as terras de Fernão Álvares de Andrade Acompanhando a linha da Costa até dobrarem o Cabo de São Roque onde entraram na traiçoeira Costa Leste-Oeste onde as correntes corriam paralelamente à costa conduzindo os navios em direcção ao Caribe; por este motivo a frota foi levada bem mais à oeste na zona dos chamados Lençóis Maranhenses e foi justamente ai que a frota de Aires da Cunha perdeu o auxilio inestimável da fusta que a acompanhava, que fora empurrada por ventos contrários, com isto essa pequena embarcação sumiu e se desgarrou da armada. Sem o insubstituível apoio do barco de reconhecimento a tragédia logo se abateu sobre a frota de Aires da Cunha, pois a nau capitaneia foi tragada pelos Corais do Parcel de Manoel Luiz, porém os navios da frota chegaram até a uma ilha junto ao Rio Maranhão onde ao desembarcarem foram bem recebidos pela gente que ali viviam, a ilha foi baptizada como Ilha da Trindade e nela ergueram uma povoação e edificaram uma fortaleza que recebeu o nome de Nazaré. Porém o desanimo e a anarquia se abatera sobre os sobreviventes e os nativos indígenas Tremembé que a principio tinham recebido bem os forasteiros, se rebelaram queimando as plantações e sitiando a Vila de Nazaré e ao longo de dois anos, isolados no remoto litoral maranhense os sobreviventes ainda perseveraram mas sem a energia e o comando de Aires da Cunha e sem deparar com o ouro nem preciosidade e cercados pelos índios, eles decidiram renunciar aos sonhos de grandezas, e aos poucos foram iniciando a melancólica jornada de retorno para Portugal".
         
          O Baçan com a sua reconhecida capacidade de orador, continuou:
         
          "Devido as grandes despesas ocorridas, as mesmas deixaram João de Barros arruinado, no entanto ele não desistiu de imediato do Brasil, pois em 1539 ele enviou o fidalgo Luiz de Melo para instalar-se no Maranhão, mas sua sorte foi, uma vez mais desastrosa e fugidia, pois Luiz de Melo também veio a naufragar nos tenebrosos baixios da costa maranhense e em três anos após a este novo fracasso os portugueses tiveram que amargar uma outra vitória dos castelhanos, pois Francisco de Orelhana partindo de Quito no Equador em Junho de 1541, em companhia do frei dominicano Gaspar de Carvayal havia chegado, em 26 de Agosto de 1542 ás águas do Atlântico, e se tornando como o primeiro homem a ter navegado da nascente à foz do maior rio do mundo o qual ele baptizou com o seu próprio nome, porém ele ficaria conhecido como o Rio das Amazonas. João de Barros em cujas capitanias se localizavam a foz do Amazonas, ainda levaria alguns anos para desistir da conquista da região. Embora financeiramente arruinado pelos fracassos de suas expedições anteriores, João de Barbos tornou a enviar Jerônimo e João seus dois filhos, para novas tentativas de instalar-se na Costa Leste-Oeste. Com uma expedição partindo de Lisboa em 1556, mas ao tentar fundar uma colónia na donatária os dois irmãos foram novamente rechaçados pelos índios Potiguar e por seus aliados franceses. Velho, empobrecido e fatigado João de Barros desistiu definitivamente de seu lote no Brasil, e ao contrario de João de Barbos o Tesoureiro-mor, Fernão Alvares de Andrade, que também perdera muito dinheiro na tentativa de ocupar o Maranhão, este manteve-se como um dos principais incentivadores do projecto de investir no Brasil. O Provedor-mor da Fazenda António Cardoso de Barbos que era subalterno directo de Fernão Alvares e de Antônio de Ataíde e, em 20 de Novembro de 1535 recebeu a Capitania do Ceará com 40 léguas de largura que ia da foz do Rio Paraíba à ponta de Mucuripe e que ficava entre as possessões de Fernão Alvares e às de Aires da Cunha e de João de Barros, que por qualquer motivo não se associou ao projecto no qual os três donatários associados lançaram-se conjuntamente e também nunca empreendeu a colonização de seu lote. Já no inicio do século XVII os portugueses haviam desistido do glorioso projecto de conquistar o Peru pela via do Atlântico. Porém, a Capitania de Pernambuco, a do primeiro donatário Duarte Coelho que possuía uma extraordinária folha de serviços prestados a Coroa Portuguesa nos mares e campos de batalhas do Oriente, filho bastardo de Gonçalo Coelho e que, apesar de ser militar provinha da nobreza agrária de Portugal, o mesmo sucedia com sua mulher Dona Brites de Albuquerque, a qual viria a ser a primeira mulher chefe de governo na América, portanto ambos eram descendentes de senhores rurais do norte de Portugal".
         
          Nem sempre acontece - só às vezes que as mulheres reconhecem o esforço dos homens, no sentido mais lato. Foi o que aconteceu à querida amiga Drª Maria Nascimento, que considerou os textos muito longos e que estavam a fatigar demasiadamente os homens. Assim, para os aliviar, propôs ser ela a próxima oradora:
         
          "No dia 10 de Março de 1534, Duarte Coelho tornou-se o primeiro donatário a receber uma capitania no Brasil e de ter recebido o melhor lote da colónia, numa zona que, além de possuir as terras mais férteis e mais apropriadas à lavoura da cana-de-açúcar, ficava mais próximo de Portugal do que qualquer outra porção da costa brasileira. Tinha 60 léguas de largura estendendo-se desde o Rio Iguaracu, na ponta sul da Ilha de Itamaracá até a foz do Rio São Francisco, e que no final de Outubro de 1534, partiu de Portugal com duas caravelas para Pernambuco tendo como acompanhante diversos lavradores pobres do norte de Portugal, das províncias de Entredouro e Minho, e de vários fidalgos que entre eles se encontravam Jerônimo de Albuquerque e Vasco Fernandes de Lucena que se destacaram pelos seus decisivos serviços desenvolvido na colonização de Pernambuco No dia de 9 de Março de 1535, a frota comandada por Duarte Coelho chegou ao seu destino contornando a Ilha de Itamaracá pelo canal sul e segui em direcção a foz do Rio Iguaraçu até ancorar em frente a velha feitoria que Cristóvão Jacques havia transferido do Rio de Janeiro em 1516 para a Ilha de Itamaracá. A sua capitania estabelecia limites com a de Pero Lopes e delimitava os antigos territórios tribais dos Caetês, que eram aliados dos franceses e dos Tabajaras, eventuais aliados dos portugueses. Ali o donatário Duarte Coelho se estabeleceu. Em 27 de Setembro de 1535 fundou a Vila de Cosme e Damião, cuja designação se manteve por muito tempo, pois o estabelecimento continuou sendo chamado de Iguaracu . E após estabelecer a vila o donatário tratou de fincar um marco de pedra para demarcar o limite de sua capitania com a de Pero Lopes, a nordeste de Iguaraçu, onde foi erguido um povoado que ficou conhecido como Sitio dos Marcos. Os primeiros tempos de Duarte Coelho na Ilha de Itamaracá, foram muito difíceis ; a começar pelo fato de seu lugar-tenente, Francisco de Braga que havia vivido na Ilha de Itamaracá e que falava bem a língua Tupi, e como Duarte Coelho era homem de moral rígida e acostumado a mandar, logo se desentenderam, após uma calorosa discussão. Duarte Coelho mandou marcar o rosto de Francisco de Braga conforme antigo costume feudal. E, impossibilitado de enfrentar um nobre fidalgo, Francisco de Braga preferiu abandonar a Ilha de Itamaracá partindo para o Caribe carregando tudo o que podia levar, por isto durante os quatro anos seguintes, a Ilha de Itamaracá ficou praticamente abandonada, tornando-se um valhacouto ou refugio de delinquentes e degredados que escapavam das duras punições impostas pelo donatário de Pernambuco e após a fundação da Vila Cosme Damião".
         
          Ao ver que a colega estava a ficar fatigada, a Drª Célia Lamounier, interrompei-a, dizendo: "De maneira nenhuma, quero fazer a apologia dos homens. Não me compete nem estou virada para esse lado. Proponho-me a ler parte desta dissertação, simplesmente por a Drª Maria Nascimento estar a ficar fatigada. E, dizendo isto, começou a falar:
         
          "Duarte Coelho organizou uma expedição para o sul da capitania que ao vislumbrar uma verdejante colina bem protegida por barreiras de recifes e que era ocupada por uma aldeia de seus inimigos Caetês, que logo foram duramente atacados pelos homens de Duarte Coelho e, que após vários dias de violentos combates acabaram desalojando os nativos. Foi dado início à fundação da vila que estava destinada a se tornar sede da Capitania de Pernambuco. Em 1536 Duarte Coelho deixou alguns colonos em Iguaraçu, sob o comando do Lugar-tenente Afonso Gonçalves e se transferiu para a colônia em frente ao porto de Pernambuco e começou a erguer ali a vila que foi baptizada com o nome de Olinda, que anteriormente tinha baptizado de Nova Lusitânia, pois sonhava em transformar o Brasil num novo Portugal. Para isto, deu inicio ao pleno estabelecimento da vida conversável e civilizada em Pernambuco, estimulando a miscigenação entre seus colonos e as mulheres indígenas. Em 1540, com Duarte Coelho já estabelecido as Vilas de Iguaraçu e Olinda e também mais três povoados. Então, empreendeu uma viagem a Portugal em busca de financiamento para construir, alguns engenhos de açúcar na sua capitania. Nos primeiros meses de 1542, já estava em construção o primeiro dos cinco engenhos que o donatário ergueu nas cercanias de Olinda e que eram do tipo trapiche movido por animal, que produziam cerca de mil arrobas anuais de açúcar e cujos investimentos incluíram a captura de escravos nativos, contratação de mãos de obras especializada de calafates, tanoeiros, carpinteiros, capatazes e feitores, e um engenho de porte médio. Pertencia a Jerônimo de Albuquerque e outros; quatros engenhos pertenceram ao próprio donatário Duarte Coelho; outro era propriedade do Feitor e Almoxarife da Fazenda Real Vasco de Lucena; um outro de Afonso Gonçalves que era Lugar-tenente de Iguaraçu, e o engenho de nome Santiago de Camaragibe, que era de propriedade de um cristão novo Diogo Fernandes. Duarte Coelho quando retornou de Portugal, trouxe consigo os mais conceituados especialistas em cozer, secar e armazenar açúcar, os quais eram judeus que tinham largas experiências nos canaviais das Ilhas das Madeira e das Canárias, para onde haviam se transferido para escapar da fúria persecutória que grassava na península ibérica. As mudas de cana de açúcar foram trazidas por Duarte Coelho das Ilhas do Atlântico, pois já estavam bem adaptadas aos trópicos, assim sendo quando plantadas no fértil solo de Pernambuco – o massapé que era uma espécie de argila cuja cor varia entre o roxo e o vermelho, se desenvolveram extraordinariamente a que se somava um regime de chuvas abundantes regulares e com temperaturas altas e uniforme".
         
          A Drª. Célia interrompeu a leitura, dizendo: "Já estou fatigada. Peço um voluntário para continuar". O Baçan, um gentil-homem, levantou-se logo para a substituir:
         
          "A Capitania de Pernambuco com isto estava destinada a se tornar o primeiro grande centro produtor de açúcar no Brasil e a única capitania bem sucedida das doze que o Rei D. João III estabelecera na colónia. Em 27 de Abril de 1542, o donatário Duarte Coelho enviou uma carta para o Rei D. João III , dando-lhe conta do que havia ocorrido em Pernambuco, entre o período de sua chegada até a data de sua carta, revelando não só as dificuldades vividas na sua capitania como o profundo desprezo que o monarca alimentava pelo Brasil, pois embora que Duarte Coelho soubesse que o açúcar era uma fonte de renda segura para o futuro da colónia, ele desconfiava que o Rei D. João III continuava mais interessado em metais preciosos do que em produtos agrícolas. No dia 28 de Janeiro de 1548, chegou a Olinda, vindo de Lisboa uma nau com um aventureiro chamado Hans Stander que estava encarregado de conduzir para o Brasil uma nova leva de degredados para a colónia de Duarte Coelho, que devido aos assaltos praticados pelos selvagens, pediu ajuda a Hans Stander para socorrer os colonos de Iguaraçu, porque os moradores de Olinda não podiam ir em auxilio, pois temiam que os índios os atacasse as vilas por eles habitadas. Quando Hans Stander chegou a Iguaraçu encontrou os portugueses que ali viviam, sitiados e separados apenas por uma paliçada de toras dos indígenas; a situação encontrada era dramática, pois o cerco já perdurava quase um mês, porém devido a reacção imposta por Hans Stander os selvagens perceberam que não podiam fazer nada, pediram trégua e retiraram-se; o navio de Hans Stander então retornou para Olinda e partiu para Lisboa levando uma nova carta de Duarte Coelho para o Rei D. João III. Após sete anos , sem que o monarca respondesse os apelos de Duarte Coelho, este, resolveu ir ao Reino, para conversar pessoalmente com o rei. Assim, em Julho de 1553, o donatário de Pernambuco partiu para Portugal levando seus dois filhos Duarte e Jerônimo que iriam estudar em Lisboa, deixando o governo da capitania entregue a Dona Brites de Albuquerque. Devido à má recepção recebida em Portugal, por parte de D. João III, Duarte Coelho recolheu-se na sua residência e poucos dias depois morreu de desgosto. Apesar de ser o único dos doze capitães do Brasil que fora capaz de desenvolver sua donatária".
          Antes de ser lida a próxima figura histórica, as mulheres pediram um intervalo e reuniram-se todas no convés do navio, não deixando que nenhum homem estivesse presente. Alguns minutos depois, a porta-voz deste movimento feminino, a Drª Célia Lamounier, reuniu todos, perguntando em nome das mulheres: " Nós mulheres, queremos saber porquê os portugueses não ajudam na leitura destes apontamentos ?". O Carlos, foi o primeiro a falar, alegando que estava ali só como Coordenador, para comer e para descansar. Não contassem com ele para fazer nadinha ! Os outros homens portugueses, concordaram logo em ajudar, e o primeiro foi o von Trina:
         
          Aires da Cunha: "A história da conquista do território brasileiro ainda revela alguns mistérios. Um deles é a expedição de Aires da Cunha ao Maranhão. Até hoje, não se sabe ao certo qual sua verdadeira missão.
          Quando a costa brasileira foi tocada pela primeira vez por Pedro Álvares Cabral, em 1500, os portugueses mal imaginavam qual a extensão exacta da "Terra Brasilis". Os métodos cartográficos eram muito rudimentares e os mapas, muito vagos. Assim, o "descobrimento" ainda estava apenas começando. Tanto que muitas regiões só foram colonizadas décadas depois da chegada de Cabral. A história do Maranhão ilustra bem a dificuldade dos descobridores e, até hoje, guarda em seus arquivos a mal-explicada história do navegador Aires da Cunha - um personagem misterioso e pouco explorado pelos livros. Para entender melhor qual era, de fato, o intuito da viagem de Aires da Cunha, é preciso relembrar um pouco da história da colonização. Por mais de 30 anos após o descobrimento do Brasil, o Maranhão foi totalmente desprezado pelos portugueses. Acredita-se que o primeiro navegador a avistar o litoral maranhense tenha sido o espanhol Vicente Yañes Pizón, que em 1500 percorreu o nordeste brasileiro de Pernambuco até a foz do Rio Amazonas. Em 1524, os franceses começaram a visitar aquelas praias. Somente em 1530 o rei D.João III começou a se preocupar com as intenções francesas em fundar por aqui a França Equinocial, e enviou para cá o administrador colonial Martim Afonso de Sousa que, por sua vez, uma ano depois mandou Diogo Leite explorar o norte da terra descoberta. Só então Portugal tomou conhecimento do que realmente havia por lá. O desinteresse real pela Ilha do Maranhão (hoje Ilha de São Luís) durou até 1534, quando o desprezo pela região foi trocado por um súbito (e grande) interesse. Naquele ano, para facilitar a colonização, D. João repartiu o Brasil em nove capitanias hereditárias".

          O Humberto, depois de "limpar" a sua bela voz, continuou a leitura:

          "O Maranhão foi dividido em dois lotes (Itamaracá e Pará): o primeiro foi doado a Fernão Álvares de Andrade e o segundo ao historiador João de Barros e Alves da Cunha, que já conhecia a colónia, pois participou do descobrimento como membro da expedição de Pedro Álvares Cabral. Rumo ao desconhecido Repentinamente, as capitanias de Itamaracá e Pará passaram a ser consideradas como as mais nobres de toda a colónia, pela grandeza de seus rios, fertilidade das terras, abundância de animais e, o mais importante, devido aos boatos sobre a riqueza de suas jazidas de ouro. Assim, uma grandiosa expedição foi organizada, com todo o apoio da corte, através de muitas concessões financeiras da coroa portuguesa, que adiantou aos donatários muitas armas e munições, além de prometer condições especiais para a exploração das minas - caso elas fossem realmente encontradas Como Fernão Álvares e João de Barros não podiam deixar a corte, a missão de comandar a expedição foi entregue ao experiente Aires da Cunha. Junto com ele, embarcaram também os dois filhos de João de Barros e um delegado de confiança de cada donatário. Em outubro de 1535, o navegador zarpou do Tejo, com 10 caravelas muito bem armadas, tripuladas por 900 homens e, também, 113 cavalos. A armada de Aires da Cunha atravessou o Atlântico sem grandes surpresas e foi directo para a capitania de Pernambuco, onde o comandante foi acolhido com grande atenção pelo donatário Duarte Coelho, que havia recebido muitas recomendações da coroa para dar à expedição tudo o que fosse necessário. A frota brasileira recebeu mantimentos, batedores práticos da costa e do sertão, intérpretes de línguas indígenas a até embarcações para sondagem das baías. Meses depois de chegar ao Brasil, a expedição seguiu para o norte, em busca do almejado ouro do Amazonas - na época, o Rio Maranhão era confundido com o Rio Amazonas, tamanha a falta de uma cartografia eficiente".

          O nosso Engenheiro de Bordo, o Tito Olívio, pegou na palavra do Humberto e continuou:

          "As 10 embarcações passaram pelo Cearaminrim, onde a tripulação chegou a desembarcar, mas o local não agradou nem um pouco, pois estava infestado de índios que mantinham aliança com os franceses. Continuando em frente, mas ainda longe do destino final, um temporal dispersou a frota; e uma das naus, justamente a capitânia, desapareceu para sempre na foz do Rio Maranhão, levando com ela o desaventurado Aires da Cunha e todos os tripulantes.
          Casamentos mestiços : A tormenta destruiu quase toda a armada. Assim, os náufragos da expedição se abrigaram na então conhecida como Ilha de Trindade, onde hoje está a cidade de São Luís. Por sorte, não foram hostilizados pelos nativos. Com o pouco que havia restado e auxiliados pelos índios, levantaram fortificações provisórias e algumas casas. Enquanto uns tentavam a lavoura, outros tratavam de explorar o sertão. A aliança com os indígenas resultou até em casamentos que geraram os primeiros portugueses mestiços. Mas essa convivência cordial não tardou a se transformar em revolução social: os índios queimaram as casas dos portugueses e destruíram suas plantações. De fato, não seria ainda daquela vez que as selvagens terras do Maranhão seriam conquistadas.
          A grande expedição transformou-se num grande fiasco; e aos dois donatários que ficaram em Portugal, restaram apenas as dívidas com a coroa. João de Barros, assim que soube da tragédia, empenhou-se em resgatar seus dois filhos. Em 1538, sem o apoio da corte e com a moral em baixa, os malogrados colonos deixaram o Maranhão num regresso desolador, embarcando em três caravelas e seguindo para as Antilhas. Um barco seguiu para São Domingos e os outros dois chegaram a Porto Rico, com 140 índios (entre escravos e livres) e somente 45 dos náufragos a flotilha de Aires da Cunha. Barros pagou apenas parte dos compromissos obtidos junto ao tesouro português - mais tarde, D. Sebastião perdoou o restante do "papagaio real".

          O Carlos, notando que todos o estavam a criticar, muito embora sem qualquer ponta de vergonha, acedeu em continuar, neste caso, terminar. Com a sua voz de trovão, embora com muito pouca vontade, lá começou a falar:

          "
Expedição ambiciosa
: Da história toda, com certeza ainda resta muito a saber, pois muitas dúvidas permanecem sem resposta. Afinal, poucas expedições foram amparadas com tantos recursos militares. Na época em que a viagem foi organizada, corria o boato em Lisboa de que a intenção real de Aires da Cunha era apenas o de colonizar o Maranhão. Acredita-se que a intenção real de Aires da Cunha era a de desembarcar na costa norte do Brasil e embrenhar-se terra adentro, até chegar ao Peru. Pode parecer estranho, mas a teoria faz muito sentido. Motivo: já era sabido que as costas da América do Sul contornavam um grande continente (nada mais óbvio), seguindo do nordeste brasileiros sempre para o ocidente, os desbravadores chegariam ao Império Inca de Cuzco, que anos antes, em 1532, havia sido "aliviado" de suas riquezas pelo conquistador espanhol Francisco Pizarro.
          Naturalmente, o ouro arrebatado dos incas pela Espanha atiçou a cobiça da coroa portuguesa, que não mediu esforços para dar à expedição todas as provisões necessárias a uma jornada longa e ambiciosa. Ao contrário de outros donatários, Aires da Cunha levou consigo grande quantidade de armamentos e, mais revelador ainda, cavalos demais para simplesmente tomar posse de uma capitania. Assim, tudo leva a crer que seu intuito era o mesmo de Pizarro, que usou a cavalaria para derrotar o Império Inca. Para reforçar a tese, existe uma carta de Luiz Sarmiento a Carlos V, na qual este contava ao rei da Espanha sobre os boatos que corriam as ruas de Lisboa, comentando que a armada do navegador português iria ao Maranhão para chegar, na verdade, ao Peru.
          Outras expedições (portuguesas e francesas) seguiram os passos de Aires da Cunha. E muitas delas, inclusive, tiveram a mesma sorte (ou a falta dela). A foz do Rio Maranhão mostrou-se implacável com os conquistadores e, somente em 1534, a França invadiu a região e iniciou a colonização, mais tarde retomada por Portugal com a expulsão dos franceses. De qualquer forma, os segredos militares de Aires da Cunha, que poderiam ter mudado a história das conquistas europeias na América do Sul, dificilmente serão desvendados. Talvez a costa maranhense
          guarde para sempre essa história que o mar engoliu".
         
          A Setembrada de 1831 : "Movimento com forte componente antilusitanismo motivado por os portugueses dominarem o comércio, o latifúndio e a sociedade. As revoltas se caracterizavam pelo saque a casas de comércio de portugueses e exigências de que fossem expulsos. A Setembrada consistiu numa revolta da guarnição do Exército no Recife iniciada pelo 14 o BI , na noite de 14 Setembro de 1831. Ela dominou a cidade até 16 e foram saqueadas casas comerciais. Na repressão morreram 300 revoltosos e foram presos 800, que foram enviados inicialmente para Fernando de Noronha e a seguir para o Rio, onde chegaram quase nus tendo o Ministro da Guerra Brigadeiro Manoel Fonseca Lima e Silva, tio do Duque de Caxias ,mandado vesti-los com sapatos, boné, camisa e jaqueta de polícia .Uma peça de cada.(Aviso de 5 Novembro de 1831)".
         
          A Balaiada (1838-1841) - Maranhão : "A Balaiada foi uma importante revolta popular que explodiu na província do Maranhão, entre os anos de 1838 a 1841. Nessa época, a economia agrária do Maranhão atravessava grande crise. Sua principal riqueza, o algodão, vinha perdendo preço e compradores no exterior, devido à forte concorrência internacional do algodão produzido nos Estados Unidos (mais barato e de melhor qualidade que o produto brasileiro). Quem mais sofria as consequências dos problemas económicos do Maranhão era a população pobre. Ou seja, multidão formada por vaqueiros, sertanejos e escravos. Cansada de tanto sofrimento, essa multidão queria lutar, de algum modo, contra as injustiças. Lutar contra a miséria, a fome, a escravidão e os maus-tratos. Havia também muita insatisfação política entre a classe média maranhense da cidade, que formava o grupo dos bem-te-vis. Foram os bem-te-vis que iniciaram a revolta contra os grandes fazendeiros conservadores do Maranhão e contaram com a participação explosiva dos sertanejos pobres. Os principais líderes populares líderes da Balaiada foram: Manuel Francisco dos Anjos Ferreira (fazedor de balaios, donde surgiu o nome balaiada); Cosme Bento das Chagas (chefe de um quilombo que reunia aproximadamente três mil negros fugitivos); Raimundo Gomes (vaqueiro). A Balaiada não tinha uma organização consistente, nem um projecto político definido. Não tinha um movimento único e harmónico. Foi um conjunto de lutas dos sertanejos marcadas pelo desejo de vingança social contra os poderosos da região. Apesar de desorganizados, os rebeldes balaios conseguira conquistar a cidade de Caxias, uma das mais importantes do Maranhão. Mas não havia clareza de objectivos entre os líderes populares ao assumir o governo. O poder foi então entregue aos bem-te-vis, que já estavam preocupados em conter a rebelião dos sertanejos. Para combater a revolta dos balaios, o governo enviou tropas comandadas pelo coronel Luís Alves de Lima e Silva. Nessa altura do acontecimento, a classe média do Maranhão (os bem-te-vis) já havia abandonado os sertanejos e apoiava as tropas governamentais. O combate aos balaios foi duro e violento. A perseguição só terminou em 1841, quando tinham morrido cerca de 12 mil sertanejos e escravos".
         
          Luís Xlll : "Rei de França, filho de Henrique lV e de Maria de Médicis. Nasceu em 1601 em Fontainebleau e morreu em 1643, em Saint-Germain. Reinou entre 1610 e 1643. O princípio do seu reinado, foi sob a regência de sua mãe, que confiou o poder a Concini, que foi assassinado em 1617, sendo substituído por Luynes. Ocorreram então novas revoltas dos Grandes, apoiados pela Rainha-mãe, e uma nova guerra de Religião, marcada pelo cerco de Montauban, em 1621. Depois, de muitos anos conturbados, o rei confiou o poder ao Cardeal Richelieu, cujos conselhos seguia, apesar das intrigas de sua mãe e de Gastão de Orléans. Em 1635, teve de sofrer a Guerra dos Trinta anos. Foi casado com a infanta Ana de Áustria, e teve dois filhos dela, Luís e Filipe".

         Carlos Leite Ribeiro

         (Agradeço a todos os amigos que me ajudaram com suas preciosas colaborações. Sem eles, este trabalho não teria sido possível. Bem hajam !)

A seguir: "A Caminho de Fortaleza"

A seguir:(01)

índice da Viagem

 

         Carlos Leite Ribeiro

   Música de Fundo: Fado