"A Travessia do Atlântico"

Do Livro de Bordo

BELEM

A Caminho de Belém
3ª PARTE

Editor:Carlos Leite Ribeiro

Falámos também de terras brasileiras que têm nome de terras portuguesas:

         BRAGANÇA
          "Segundo muitos escritores Bragança foi fundada por Brigo lV, rei de Espanha, no ano de 1906 antes de Cristo. O douto Abade de Baçal, porém, reputa essas afirmações dado como lendária a existência desse rei Brigo.
          A princípio chamava-se Celobriga, mais tarde Brigâncio ou Brigância.
          No tempo dos romanos era Bragança já uma cidade de grande importância, a que Augusto César pôs o nome de Julióbriga, em homenagem a seu tio Júlio César, que a tinha reedificado e fez município do antigo direito latino."
          (Dr. Rocha Martins 1889).
          "Derivou de Briganti, como se vê nos Brigantinos. Não se julgue que não houve outras Brigancias. Quicherat regista uma cidade Brigantia na Gália Cipalpina (hoje Briançon), e também Brigantia, cidade da Vindelícia, região entre os Alpes e o Danúbio.
          Todas essas Brigantiae devem ter origem celta. Brigantia passou a Bragança por meio de uma forma Bregança. Talvez que a forma Braga ajudou a passar-se Bregança para BRAGANÇA. (Prof. Dr. Vasco Botelho do Amaral - 1949).
          A primeira povoação, bastante importante, foi fundada anteriormente à era cristã. Talvez no ano de 1906 antes de Cristo.
          Durante as guerras entre cristãos e mouros foi saqueada e ficou completamente arruinada, tendo sido reconstruída no século Xll, no local onde se encontra actualmente. D. Sancho l concedeu-lhe foral em 1187. D. Fernando ofereceu-a como dote a uma das suas cunhadas, irmã de D. Leonor Teles. Voltou à Coroa e foi dada, como ducado, a um filho natural de D. João l, ficando então definitivamente na posse da Casa de Bragança.
          Encravada nas montanhas do Nordeste Transmontano, a antiga Bragança, olha com orgulho, do alto da sua cidadela, todos quanto a ignoram sem que a conhecerem.
          Nascida nos confins do tempo, destruída pelas lutas cristãs – islamitas, reconstruída, em território pertencente ao Mosteiro Beneditino de Castro de Avelãs por cedência de outras e quiçá mais vastas áreas, Por Fernão Mendes, cunhado do primeiro rei português, D. Afonso Henriques, Bragança só em 1187, com D. Sancho l, vem a conhecer o primeiro foral.
          Ter-lhe-ia sido dado esse foral pela sua afectiva importância militar, uma vez que se situava na linha de fronteiriça com a Galiza ?
          Apesar do gesto meio tardio e das contínuas guerras e consequentes devastações que a assolaram, Bragança – ainda que obrigada a render-se aos espanhóis em 1762 e ocupada pelos franceses em 1808 – contra todos se revolta, persistindo em continuar bastião português.
          Ducado em 1442, tendo como primeiro duque D. Afonso, filho ilegítimo de D. João l e genro do Condestável, Nuno Álvares Pereira, tornou-se uma das mais importantes casas da Europa. Dela sairão mais tarde alguns dos reis portugueses.
          Em 1455, é-lhe concedida uma feira franca, o que revela bem a importância do burgo, e D. Afonso V eleva-a à categoria de cidade em 1466.
          Ainda que fracamente impulsionada pelos seus duques, a cidade veio a conhecer relativo desenvolvimento com os Judeus, que nela encontravam acolhimento e "asilo quase seguro". E, entre os séculos XV e XlX, tornou-se importante centro de cultura do sirgo e da indústria da seda.
          O Castelo, com as suas duas cinturas castrenses, pelo interior das quais se estende a cidadela, hoje ainda surpreendentemente bem conservada e habitada, é um dos mais bem preservados de Portugal.
          Franqueando os dois arcos da entrada que não conservam já as antigas portas, depara-se-nos a altiva torre de menagem, gótica, com 33 metros de altura e 17 de base, erguida no reinado de D. João l, ao qual a praça – forte aderira com prontidão. Já não existe a ponte levadiça, mas uma enorme porta que, no entanto, não dá acesso à torre. Este faz-se por extensa escadaria exterior, pela qual se pode penetrar em vários pisos. E se, no fundo, se podem ver a cisterna e o ergástulo (cárcere) – de meter medo ao mais bem intencionado forasteiro - , lá no alto, espreitando pelas ameias, de onde, em remotas eras, os defensores davam as boas-vindas aos atacantes com grandes caldeirões de líquidos ferventes (azeites, seiva de pinheiro, etc), poderá agora desfrutar-se uma inolvidável paisagem, do melhor miradouro da cidade.
          Como que erguida por mãos diferentes e um pouco apressadas, encontra-se do lado setentrional A Torre da Princesa, que está na origem da lenda tão ciosamente guardada pelo povo.
          Segundo a lenda (Linda Princesa):
          " Uma bela princesa, apaixonada por um jovem guerreiro e recusando os pretendentes fidalgos que lhe oferecia seu cruel tio, persistiu em esperar pelo noivo, que, partido para as lides da guerra, já muito tardava.
          Entretanto, o tio, servindo-se de um estratagema, tentou provar-lhe que o noivo do seu coração estava morto. Assim, entrou furtivamente no quarto da princesa altas horas da noite, fingindo-se fantasma, para a aconselhar a escolher marido. Mas logo a outra porta do quarto se abriu e um raio de sol o iluminou, vendo-se assim descoberto na sua traição.
          Esta é também a origem dos nomes da Porta do Sol e da Porta da Traição. E, embora a lenda erudita reze que a princesa se manteve na sua torre esperando o ansiado noivo, o povo mantém que o Romeu, numa noite tempestuosa, a conseguiu raptar, fornecendo-lhe uma espécie de guarda-chuva com o qual ela se lançou nos braços".
          Dentro da cidadela encontra-se um interessante pelourinho – onde eram amarrados e castigados os réus de grandes delitos – formado por uma coluna encimada com algumas esculturas e cuja base é uma porca toscamente esculpida em granito, à qual ainda hoje se chama "porca da vida".
          Frente ao castelo ergue-se, curiosamente pentagonal, a "Domus Municipalis", monumento único da arquitectura civil medieva na Península Ibérica e que se pensa ter sido edificada como casa de água, fazendo a cachorraria interior e exterior converter para a cisterna e sua nascente as águas pluviais. Mais tarde, tornando-se o lugar de reunião dos "homens bons" do concelho.
          Ainda dentro do castelo poder-se-á apreciar a velhíssima Igreja de Santa Maria, românica, mas na qual se misturam o estilo renascença e o barroco, em consequência da transformação que sofreu aquado da sua reconstrução no século XVlll. Esta é também a época da pintura que se pode ver no tecto da igreja.
          Não se pense, porém, que as muralhas do castelo encerram todos os monumentos dignos de ser apreciados na velha cidade.
          Rica em arquitectura religiosa – mais do que na civil - , em que os estilo se confundem um pouco mercê das destruições havidas e posteriores reconstruções, oferece-nos, ao descer as ruas que dão acesso à cidadela, a Igreja de São Vicente, primitivamente românica (século Xlll) e reconstruída no século XVll.
          Embora o pórtico de acesso seja renascentista, esconde no interior uma capela rica em talha dourada e com uma abóbada pintada e igualmente dourada. À volta da nave, tem interessante azulejaria do século XVll; lateral e exteriormente, encontra-se também um painel de azulejos, alusivo à proclamação, em 1808, do general Sepúlveda contra a ocupação napoleónica. De interesse ainda o artístico fontanário situado na parede deste painel.
          Foi nesta igreja, segundo reza a tradição, que teve lugar o casamento secreto de D. Pedro l com D. Inês de Castro, abençoado pelo deão da Sé da Guarda.
          A mesma tradição conta que D. Isabel, que se dirigia para Trancoso para a celebração do seu casamento com D. Dinis, pernoitou na até há pouco Igreja de São Francisco (que posteriormente dotou de grandes bens). Esta ao tempo era convento, segundo a tradição edificado na presença de São Francisco de Assis. Mais tarde, foi convertido em hospital militar e ainda, depois, em asilo.
          A Igreja de São Bento, padroeiro da cidade, apresenta uma pintura do tecto, atribuida ao pintor religioso Bustamante, considerada uma relíquia do barroco nordestino.
          Dignas de atenta observação são a Capela da Casa da Misericórdia, com um retábulo de talha dourada do século XVll, e a velha Igreja de Santa Clara (conventual), onde novamente se confundem o estilo renascença com o barroco, e que possui uma apreciável pintura no tecto, datada do século XVlll.
          Na Praça da Sé, a principal da cidade, em cujo centro se ergue um interessante e trabalhado cruzeiro, encontra-se a velha Sé – Catedral, templo quinhentista doado aos Jesuítas, que aqui instalaram um colégio até à data da sua expulsão. Pouco depois, este templo foi doado à Mitra de Miranda, mais tarde transferida para Bragança. Também aqui o estilo renascença se deixou infiltrar pelo barroco, sendo de apreciar as suas janelas trabalhadas e, no interior, o arco renascentista, o rodapé de azulejo do século XVll, o retábulo de talha dourada e o tecto da sacristia, apainelado e pintado. A igreja liga com o claustro onde funcionava o colégio jesuíta, mais tarde adaptado a liceu, a que dava vida uma imensa e azougada população flutuante de estudantes. Como curiosidade, há que referir a existência de uma filha da célebre "cabra" de Coimbra (relógio da Universidade coimbrã), que os estudantes brigantinos cognominaram de "cabrita:

"Se Coimbra tem a cabra,
          Bragança tem a cabrita.
          E em começando as aulas,
          Se a mãe berra ... a filha grita".

         Em frente da Sé e representante da arquitectura civil, ergue-se o Solar dos Caladinhos, com uma pedra de armas; pouco mais abaixo, encontra-se a Casa dos Vargas, com uma interessante fiada de varandas com grades de ferro, e a Casa do Arco, também ela velho solar, construída no século XVll, com pedra de armas e uma fachada dupla para duas ruas, ligadas por um curioso arco transversal coberto.
          Se o visitante que está a apreciar este interessante arco palmilhar um pouco mais a rua, encontrará o Museu do Abade de Baçal, que se estende por dois andares e pelo jardim do antigo Paço dos Bispos. Nas suas bem recheadas salas podem apreciar-se notáveis obras de arte, desde alabardas da época de Bronze e esculturas zoomórficas pré – romanas a móveis dos séculos XVll e XVlll, retratos, pinturas, faianças, etc.
          É certo que muito tempo será necessário para o visitante percorrer o museu e admirar o recheio de todas as salas; mas também é certo que, numa próxima vinda à cidade, não prescindirá de rever o velho museu, que o carinho do abade de Baçal transformou num dos melhores deste país.
          Mas a velha urbe transmontana tem mais para oferecer ao visitante. Um passeio pela Estrada do Turismo, ladeada de frondosas árvores, põe agora a cidade a seus pés, numa espectacular policromia, e permite-lhe ainda subir ao cabeço de São Bartolomeu, onde poderá entrar na pequena mas interessante ermida, de onde se desfruta um panorama inesquecível. Depois, percorrendo a estrada do circuito, está-se de regresso à cidade.
          Vale ainda a pena descer a Estrada do Sabor e, na sua magnífica praia fluvial, à sombra das árvores, observar os peixes do rio e gozar um sossego cada vez mais raro.
          Museu do Abade de Baçal
          Está situado num edifício de sóbrio estilo seiscentista, alterado na primeira metade do século XVlll, (1737), sob a orientação de D. João de Sousa Carvalho, bispo de Miranda; possui um amplo jardim onde se encontra uma valiosa colecção epigráfica luso – romana, que constitui, assim uma secção do museu ao ar livre. A fachada ostenta o brasão de D. João de Sousa Carvalho.
          O Museu do Abade de Baçal é, pelas suas características gerais, um museu de arte, arqueologia e etnografia. A data da sua fundação remonta ao último decénio do século XlX e a ideia da sua criação deve-se a um núcleo de ilustres bragançanos, perfeitamente actualizados nas tendências culturais da época, entre os quais o coronel Albino Pereira Lopo. Sob a sua direcção, abriu ao público em 14 de Março de 1807 o Museu Municipal de Bragança, que ficou instalado no edifício dos Paços do Concelho, transitando, mais tarde, para o antigo Paço Episcopal.
          O conjunto das peças está dividido pelas seguintes secções: Arqueologia - Epigrafia - Etnografia - Ourivesaria e Paramentos -
          Mobiliário - Escultura e Artes Decorativas.
          Apontamento do Jornal do Comércio do ano de 1900:
          "Bragança, capital de Distrito e cabeça de Concelho, tem 5.535 habitantes, está situada `beira do rio Fervença, junto das ruínas da antiga Brigantia. Antiga praça de armas. Deu-lhe D. Sancho 1 o seu primeiro foral em 1187. Tem alguns bons edifícios, um museu de antiguidades e uma casa de câmara, que parece ser edifício românico da alta Idade Média. O concelho tem 49 freguesias e 30.790 habitantes.
          O Distrito de Bragança, formado de uma parte da antiga província de Trás-os-Montes, tem uma superfície de 6.510 Km2 e uma população de 185.200 habitantes. Abrange 12 concelhos e 301 freguesias. Os concelhos são: Alfândega da Fé – Bragança – Carrazeda de Anciães – Freixo de Espada à Cinta – Macedo de Cavaleiros – Mirando do Douro – Mirandela – Modadouro . Torre do Moncorvo – Vila Flor – Vimioso e Vinhais. O seu terreno é muito montanhoso e apresenta as serra de: Nogueira (1.321 metros acima do nível do mar) ; Bornes de Montesinho (1.596 m); Coroa (1.270 m); Vinhais (1.027 m). O Distrito é banhado pelos rios Douro, que forma grande parte do limite do distrito, Sabor , Tua, Rabaçal. Possui ainda muitos terrenos incultos. Produtos agrícolas, vinhos, sericicultura. Costumes e trajos populares muito interessantes. Dialectos locais bem marcados, dentro dos quais se salienta o "mirandês".
          As Festas do Natal (e as máscaras diabólicas)
          Na região compreendida entre os concelhos de Freixos de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Bragança, intervém um tipo especial de mascarados no ciclo das Festas do Natal: os "caretos", "chocalheiros" . "zangarrões" – "mascarões". A despeito de se apresentarem como as personagens mais características, eles actuam, incongruamente, como meros mendicantes ao serviço da igreja, percorrendo as localidades a recolher esmolas, na companhia dos respectivos mordomos.
          Em Bemposta (Mogadouro), onde o costume mantém plena vigência, essas personagens saiem nos "dias do chocalheiro", a 26 de Dezembro a 1 de Janeiro, a partir da meia-noite.
          Máscara e indumentária são pertença da aldeia, e durante o ano ficam à guarda da igreja. O cargo de "chocalheiro" é leiloado todos os anos pelo mordomo da festa, mantendo-se os licitantes em segredo, atinge somas por vezes vultuosas e é exercido em cumprimento de promessas.
          Na companhia dos mordomos, o "chocalheiro" percorre a freguesia batendo a todas as casas e recolhendo as esmolas que ninguém lhe recusa. Exercendo prerrogativa de excepção, entra não raro nas casas e delas leva o que bem entende, especialmente chouriços.
          A sua actuação na rua é insólita e temida, sobretudo pelas mulheres solteiras, com quem permite liberdades licenciosas, e também pelo rapazio, que foge espavorido, gritando com todas as forças: "Vem aí o "chocalheiro" – Vem aí o diabo !".
          De facto ele exibe vários atributos conotados com o diabo, além da máscara, o fato azul mostra uma série de listas brancas e vermelhas, uma caveira pintada nas costas, um rabo de crinas comprido, uma bexiga de porco pendente do capuz e uma figura de serpente a tiracolo.
          A tradição local consagra a superstição de que, se alguém morre no dia em que ele deambula pelas ruas, vai para o inferno, o mesmo sucedendo àquele que por ventura morra investido naquela figura. Na verdade, a actuação destes "caretos" denuncia uma personalidade que os situa no domínio do fantástico.
          Assumindo inteiramente uma natureza diabólica, a sua aparição impõe pelo terror a presença de um ser que se coloca fora da lei e das convenções, que escapa às normas quotidianas e autoriza o que é interdito. Aos olhos das gentes das raras aldeias em que sobrevivem, aparecem como uma verdadeira entidade mágica, sombria e inquietante, mas necessária. E pode pensar-se que sua aceitação se justifica por conter um sentido vago de protecção da comunidade, sendo através deles que se normalizam certas forças estranhas e difusas que nesse período se crêem desencadeadas. 
         
          NAZARÉ
          (Uma linda terra e uma bela praia)
          A vila da Nazaré é de origem relativamente recente, pois ainda no século XVll o mar vinha bater nos contrafortes da Serra da Pederneira, deixando coberta toda a parte ocupada pela praia de hoje. Durante todo o século XVll foram porém rápidas as transformações, e o mar recuando, pôs a descoberto a formosa enseada. As primeira referências sobre a pesca da Nazaré não vão além de 1643. Em 1870 já tinha adquirido um desenvolvimento considerável, pois sabe-se que nessa data existiam na praia 58 cabanas para arrecadação dos aparelhos de pesca. Contudo, até aos princípios do século XlX os pescadores, fugindo às constantes opressões dos piratas argelinos e holandeses, viviam na Pederneira e no Sítio. Só em meados desse século é que a Nazaré começou a ser conhecida como praia de banhos. A praia da Nazaré aninha-se numa enseada em meia lua, limitada a norte pelo promontório do Sítio (da Nazaré) e a sul pelas areias que orlam a Serra da Pescaria (ou praia do sul).
          Uma versão da Lenda da Nazaré: " No tempo das perseguições que em Roma se faziam contra o cristianismo, diz o Portugal, a Península Hispânica, como estava muito distante daquela cidade, deu abrigo a muitos cristãos, que para ali fugiram no século lV. Segundo a lenda, foi por este tempo que o monge grego, Ciríaco, fugiu para Belém de Judá, levando consigo uma imagem de Nossa Senhora, que deu a São Jerónimo, o qual mandou a Santo Agostinho, bispo de Hiponia, que estava em África, mandada-a depois este prelado para o mosteiro hispânico de Cauliniana, a 12 Km. De Mérida (Espanha); foi aqui que deram à imagem o título de Nazaré por ter vindo da terra natal da Virgem Maria. A maneira como a imagem veio às praias de Lusitânia, é narrada por esta versão da Lenda, da seguinte forma: "Egica, sobrinho do santo rei Wamba e genro de Ervígio, seu antecessor , subiu ao trono dos godos em 687. Vítulo, conde da Galiza, ambicionando o trono, revoltou-se, mas foi aniquilado. O rei então nomeou o seu filho Witiza soberano das terras revoltadas, ficando ele com o resto da Espanha e com a Galiza Narboneza.
          Por sua morte sucedida em 701, ficou Witiza senhor de todo o império gótico, e foi o Nero das Espanhas. Permitiu a poligamia, negou a obediência espiritual ao Papa, arrazou as fortalezas do reino, e praticou toda a casta de c vícios e de iniquidades". ( Américo Costa, do "Dicionário Coroagráfico de Portugal – 1943".
          A Nazaré já teve o nome de Perdeneira. O topónimo é, por assim dizer, internacional, pois aparece em vários países, e diz-se que, etimologicamente significa simplesmente, verde ". Dr. Xavier Fernandes – 1944).
          A Nazaré é um festival de cor e de movimento, de vozes e de gritos. Há uma Nazaré real, de mar altivo e homens corajosos, de mulher com a verdade do negro que trajam pelos maridos, pelos irmãos, pelo filhos, pelos pais. E há também uma Nazaré irreal, cheia de gente, de sol e mar azul, de areia feita toldos de lona, enquanto ao lado se encontram barcos a balouçar, à espera da tarde, da partida para a faina da pesca. Quando o mar batia na encosta abaixo da Pederneira, a Nazaré não existia, mas apenas o Sítio, de origem muito mais remota. No século XVlll, o mar recuou e deixou a seco a terra firme onde se instalaram os primeiros pescadores, e das cabanas onde viviam começou, na 2ª metade do século XlX, a formar-se a povoação. O Sítio da Nazaré é sobretudo um largo enorme, embelezado por um bonito coreto e terminando numa varanda de 110 metros de altura, sobre o mar. Da moldura do casario sobressaem os antigos Paços e a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, além de algumas notáveis residências do século XlX, com belas sacadas de ferro fundido e azulejaria de interesse.
          Na Igreja Matriz, com o figurino seiscentista, lá estão os azulejos, bem portugueses, apesar de assinados por um autor holandês. Ao seu lado, o Paço Real, é notável pela sua alpendrada. Np Sítio, mesmo à beira do precipício fica a Ermida da Memória, a lembrar o tão célebre milagre de Nossa Senhora da Nazaré, salvando D. Fuas Roupinho (alcaide do Castelo de Porto Mós e talvez o primeiro almirante português), de cair de tão grande altura quando se salvou de se despenhar quando perseguia um veado. No fim do promontório, sobranceiro à praia do Norte (cujo areal quase chega a São Pedro de Moel "19 Km" ), o velho forte debruça-se sobre o mar. É no fim do promontório (ou penhasco) do Sítio da Nazaré que tem lugar o Forte de São Miguel Arcanjo. Este é um local cheio de estórias. Não é a única a de D. Fuas Roupinho que, segundo dizem, foi amparado pela Virgem quando, andando à caça, numa manhã de nevoeiro, o seu cavalo quase caiu do penhasco. Existe uma outra, de uma linda rapariga (moça) que, durante as Invasões Francesas, atraía os soldados inimigos para o precipício e depois, traiçoeiramente atirava-os para o mar, tendo morto sete desta forma. Este forte, também chamado Forte do Morro da Nazaré, foi mandado construir por D. Sebastião, em 1577, mas só ficou concluído no reinado de D. João lV, em 1644. O propósito da sua construção era defender a costa portuguesa de eventuais ataques de piratas e corsários que se sentiam atraídos pelo porto da Pederneira, local onde se situava o antigo povoado. Tinha fama de ser um dos melhores do Reino de Portugal, pois dali saía maior parte das madeiras do Pinhal de Leiria e do Pinhal de Rei, e que ali se fabricavam muitas embarcações que faziam o caminho para a Índia.
          Um dos vários assaltos de que foi alvo aconteceu em 1611, quando um pirata holandês se infiltrou no porto e se apoderou de um barco carregado de pinho e de uma nau da Biscaia (Galiza) que transportava ferro, vinho e armas. Em 1807, já depois das suas peças de artilharia terem sido levadas para Cascais, o Forte da Nazaré foi conquistado por 50 soldados do general Junot que, no ano seguinte, foram expulsos pelas populações do Sítio, Pederneira e Nazaré, ao que, segundo a lenda, ajudou a rapariga que matou os sete. Foram tempos difíceis para os nazarenos, estes das Invasões Francesas. Primeiro foram os soldados de Junot que em 1807 invadiram a terra, ao que a população resistiu, exibindo seis estudantes fardados, do Batalhão Académico de Coimbra, tentando convencer o inimigo de que tinham recebidos reforços. Foram a Cascais num batel buscar armamento e repeliram os franceses que vinham de Peniche em auxílio da guarnição do Forte. Esta primeira batalha foi ganha pelos portugueses mas volvidos algum tempo os franceses voltaram a invadir o local, exercendo todo o tipo de crueldades sobre a população. Os habitantes que não conseguiram fugir, foram massacrados e os barcos e as casas da Nazaré, da Pederneira e do Sítio incendiados. Em 1901 ou mesmo 1902, foi desencadeado o processo de expropriação do Forte de São Miguel Arcanjo. Procedeu-se à reconstrução parcial do baluarte, que se encontrava danificado, para nele instalar o farol da Nazaré.
          Quase todas as manhãs, a neblina dá os bons dias ao Forte São Miguel Arcanjo. O seu carácter defensivo já esmoreceu, mas, o farol continua vigilante, iluminando o caminho dos barcos que teimam em se aproximar demasiadamente da costa . Segue-se-lhe, já isolada, mas bem vizinha deste promontório, a chamada Pedra do Guilhim, designação a lembrar o limite da área, além de Atouguia, concedida por D. Afonso Henriques a Guilherme de Corni. A cerca de 5Km a sul da Nazaré e já na estrada que liga a Alcobaça, num destacado morro, ergue-se a Igreja de São Gião. É um templo visigótico, que deve datar do século Vll. É um pequeno edifício de uma só nave (6,60m x 3,9 m), sem janelas e sem transepto, com tribuna sobre a porta de entrada. O cruzeiro está separado da nave por uma parede com uma porta central e dois vãos laterais isolando o altar e o coro (só a nave era destinada aos fiéis), correspondendo a uma iconóstase. Pequena igreja monástica, decerto de transepto bipartido por duas colunas, acusa a influência da liturgia da época.
          A Nazaré é das mais típicas vilas piscatórias de Portugal, convertida em centro de turismo por excelência do centro do País e destino privilegiado para milhares de visitantes durante o ano. No entanto, a Nazaré de hoje não é a de há décadas atrás, desaparecidos os traços que identificavam (de maneira incomparável) esta comunidade, possuidora de inconfundível personalidade, das mais caraterísticas de toda a costa portuguesa, como o escritor português, Raul Brandão a descreveu em "Os Pescadores" : "... Do Valado à Nazaré são seis quilómetros, quase sempre através do monótono pinheiral de El-Rei. É um majestoso templo que não acaba e onde a solidão se torna palpável entre os troncos cerrados e sob as copas espessas. Por fim o caminho desce, passando a Pederneira, e avista-se lá em baixo a branca Nazaré e o mar apertado num vasto semicírculo de montes verdes, que mergulham no azul os alicerces. Ao norte o panorama acaba de repente num paredão temeroso, que entra direito pelas águas e entaipa o céu. É um morro avermelhado e riscado, com vegetação pegajosa de urzes e de cardos e um penedo destacado na ponta – o bico do Guilhim. Lá em cima as paredes brancas duma aldeia árabe entre sebes de cactos hostis – O Sítio. Pedaços de rochas salientes ameaçam desabar a toda a hora ...).
          A riqueza da Nazaré residiu no folclore que sedimentou na imagem das suas objectivas e nas telas dos pintores. Quando os barcos (lanchas, botes, batéis, barcas e traineiras) ancoravam e saíam da praia e a arte das netas se praticava naquele cenário que traduzia gestos, vestuário e falares, puxando todos e ao mesmo tempo os aparelhos de arrasto para terra, então sim, era a alma inteira dessa comunidade que mostrava a sua maneira de ser e de viver quotidianamente em contacto com o mar. Depois da construção do porto de abrigo (já prometido no tempo do rei D. Carlos) e da redução drástica da arte das netas , desapareceram os quadros mais primitivos da vida da Nazaré, hoje gravados em telas e em fotografias. Em contrapartida zelou-se pela segurança dos pescadores e famílias, que morriam nas frágeis embarcações, quantas vezes à vista da praia de fortes rebentações (no Inverno) contra as falésias abruptas e, mesmo assim, impotentes para lhes quebrar a fúria. Hoje, no porto de abrigo e à mistura com algumas lanchas, botes, traineiras e motoras dos nazarenos, há embarcações doutro tipo, da Póvoa de Varzim, Matosinhos, Figueira da Foz e de outros portos pesqueiros. A praia piscatória perdeu as características próprias. Já não se vêem raparigas (filhas e mulheres de pescadores) trajando as sete saias, sentados no areal à espera do varar das embarcações e os olhos fixos na neblina do horizonte; nem o velho lobo-do-mar de barrete colorido e vestimenta riscada a consertar redes para a faina do dia seguinte. Ficou apenas e quase só uma tradição relacionada com a pesca e o mar: a seca do peixe, curiosamente a cargo das nazarenas algumas trajando de luto em memória do marido ou pelos filhos a quem o mar arrebatou. Ficaram os tabuleiros com fundo de rede e várias qualidades de peixe a secar ao sol da praia. Os consumidores do peixe são essencialmente os nazarenos, e algum vai para os mercados do distrito.
          O concelho da Nazaré está completamente encravado no de Alcobaça, à excepção do lado poente delimitado pela costa atlântica e a vila apresenta três núcleos populacionais distintos: o núcleo da praia (o seja da vila propriamente dito), o Sítio (da Nazaré) e a Pederneira. O promontório da Nazaré classifica-se de costa alta e abrupta, fazendo parte dos planaltos calcários da Estremadura. Em frente à Nazaré situa-se um vale submarino, dos maiores e mais profundos do mundo. A enseada protege-a, a norte, a escarpa ou falésia do Sítio e, a leste, as elevações da Pederneira. A Nazaré fica a cerca de 21 Km a sul da Marinha Grande. Suas principais indústrias são as conservas de peixe, estâncias de madeiras e hotelaria. E o turismo será a principal de todas, uma vez que não é sazonal, mas processa-se ao longo do ano, graças às paisagens naturais, ao clima e à situação geográfica no centro litoral de Portugal. O clima é temperado (Atlântico) e fraca a amplitude térmica, com verões quentes e secos. António Lopes (1732) chamou à Nazaré a "Estrela do Oceano Português" e, sobre ela está tudo dito. Os nossos melhores prosadores e poetas deixaram-nos descrições de estilo empolgante, acerca desta gente e desta terra, como por exemplo, António Sérgio em (Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal) : "... Mas não se pense que as qualidades étnicas de uma comunidade "sui géneris", tão bem representada no povo nazareno, vem de há longos séculos. A actual Nazaré não possui história longa de centúrias, uma vez que há pouco mais de duzentos anos nem sequer existia. No século XVl o local (desabitado) sofreu grandes assoreamentos e a baía era mais reentrável. O mar chegava à Pederneira, Maiorga, Cós e Alfeizerão, de que a reentrância (concha) de São Martinho é reminiscência que aí permaneceu. No século seguinte, a enseada da Nazaré estava coberta pelo mar que batia nas arribas da serra da Pederneira e na falésia abrupta que ainda resguarda o lugar do Sítio. Só no século XVlll o oceano recuou e deixou terra firme onde os pescadores fizeram as primeiras habitações (cabanas) no lugar onde está hoje a vila, só conhecida com estância de banhos nos meados do século passado. As primeiras referências à pesca no mar da Nazaré remontam a 1643, com maior desenvolvimento na Segunda metade do século XlX. Em 1870, a Nazaré tinha 58 cabanas onde os pescadores guardavam os aparelhos de pesca e as condições de vida seriam miseráveis ou muito precárias. O núcleo populacional ou colónia de pescadores resultou, mais tarde, da miscigenação entre os primitivos povoadores indígenas e pescadores de Ílhavo (região de Aveiro) que desceram a costa a partir do último quartel do século XVlll e se fixaram (com suas famílias) na Nazaré, deixando marcas nas artes de pesca, nos tipos e pinturas das embarcações, e até no linguajar. O núcleo mais antigo situava-se no lugar da Pederneira (a leste) mais seguro da pirataria da pirataria (holandesa e argelina) que infestava a costa. A Pederneira era povoada em 1190 e no século Xlll os pescadores já partiam dali para as costas do Algarve. Com o assoreamento do porto de Paredes (a norte) deslocaram-se para o da Pederneira que pertenceu ao Mosteiro de Alcobaça (coutos) e teve considerável importância desde o século Xll até ao século XVll. A "Descriçam de 1630" chamoulhe "de muito boa população" e que "no baixo da praia fabricam alguns navios com a comodidade da madeira que trazem pelo mar de um grande pinhal que fica pela parte do setentrião e a que chamam Pinhal do Rei". No século XV a Pederneira já era a vila mais progressiva dos coutos de Alcobaça, começando a decadência a partir do século XVlll, originando em 1885 a transferência da sede do concelho de Pederneira para a Nazaré. Aliás, na Pederneira, há noticia /através da arqueologia) de Ter tido povoamento pré-histórico: instrumentos do Paleolítico, encontrados em Pedreneira e Valado de Frades, fíbulas /século Vl antes de Cristo) e outros objectos depositados no Museu da Nazaré Etnográfico e Arqueológico da Nazaré, são testemunhos inequívoco dessa ocupação".
          O Sítio da Nazaré, de origem muito remota, além dum enorme largo, é uma espécie de varanda apoiada na falésia com alicerces no mar. Nesta varada fica a Capela da Memória onde reza a tradição é o local a que se refere a "Lenda do Sítio: "A 14 de Setembro de 1182, D. Fuas Roupinho andava à caça com alguns companheiros por aquelas bandas. Entetanto, devido a grande nevoeiro perdeu-se deles e continuou a caçar. Surgiu-lhe um veado que a crendice popular identificou com o diabo e D. Fuas, no seu cavalo, parte em perseguição da tentadora peça de caça, aproximando-se da íngreme penedia, cortada a pique sobre o mar. O veado caiu ao precipício e o cavalo de D. Fuas ficou suspenso, perante a invocação do nome da Senhora naquele momento a quem D. Fuas intercedeu. Ainda se vê um sulco na rocha (no Suberco) do Bico do Milagre e no local da capela que o povo atribui à marca da ferradura do cavalo. D. Fuas Roupinho doou os terrenos, contratou pedreiros e mandou edificar uma ermida à Senhora da Nazaré em sinal de agradecimento por tão grande milagre. A ermida fico conhecida por "Capela da Memória" onde durante séculos se tem venerado a Senhora da Nazaré, cuja imagem (dos primeiros séculos do cristianismo) é considerada a mais antiga de Portugal".
          A gastronomia e artesanato fazem parte da cultura popular da Nazaré e são motivos de atracção turística. O peixe a caldeirada à Nazaré, massa de peixe seco constituem os principais pratos desta terra que sempre viveu dos recursos do mar. Representantes da doçaria local são os Tá-mares, nazarenos, sardinhas azevias, filhós e arroz-doce. No domínio do artesanato surgem também motivos do mar – o mar que sempre comandou a vida, os hábitos e a paisagem desta terra inconfundível: miniaturas de barcos a remos, vestes para bonecas regionais e malhas típicas. O comércio manifesta-se em vários locais e artérias de modo peculiar, uma vez que passar pela Nazaré, obriga o visitante ou o turista a levar consigo uma recordação que testemunhe a visita, sempre incompleta, tantos são os motivos de atracção deste pequeno paraíso, onde o turismo é rei e senhor. Os círios da Senhora da Nazaré são muito conhecidos, pois, desde tempos remotos, às romarias anuais
          a igrejas e capelas, afluíam romeiros em grupo (ou irmandades) de várias freguesias que levavam, cada um, um círio (ou tocha) para depor no altar do santo da sua devoção. A esses grupos de romeiros chamavam-se Círios . Apareceram, assim, desde há séculos, círios importantes (sobretudo no centro do país), onde a tradição ficou enraizada. Um deles é o Círio  de homenagem à Senhora da Nazaré, cuja romaria vem desde de D. Leonor de Lencastre (mulher de D. João ll), acorrendo círios de Mafra, Santo Isidoro, Terruagem, Sobral, Caldas da Rainha, Porto de Mós e outras localidades. Pormenor curioso, relativamente à imagem da Senhora da Nazaré, prende-se com a tentativa (conseguida) de colocar a imagem a salvo dos invasores franceses, em 1810, tendo sido levada de terra em terra até Pendão (Belas – Sintra), percorrendo depois Queluz, Benfica, Vila Franca de Xira e Caldas da Rainha, regressando à sua igreja em Setembro de 1812, depois de ter passado o perigo.
          As loas que os anjos cantavam ao acompanharem os círius da Senhora da Nazaré (e outros), durante o percurso e à porta dos templos, foram divulgadas por vários poetas, incluindo João de Deus, impressas em folhinhas e vendidas a favor do culto. A festa da Senhora da Nazaré (de 8 a 15 de Setembro) ainda conserva reminiscências desses Círios, de locais, em homenagem à Senhora da Nazaré.
         
         
SOURE
         
Recebeu em 1111 carta de foral de D. Henrique e D. Teresa e em 1128 foi doada à Ordem dos Templários. D. Manuel l concedeu-lhe foral novo em 1513.
          Origem do Nome: "No tempo dos romanos se chamou Saurium, devastada pelos mouros, reconquistada pelas hostes cristãs e repovoada pelo Conde D. Henrique, que em 1111 lhe concedeu foral. A designação de hoje dever ter provindo de Saurium, vocábulo que em bons dicionários latinos (Bento Pereira e outros) aparece como nome próprio, correspondente a SOURE". (Dr. Xavier Fernandes – 1944). "Deve ser o mesmo o caso de Soure sem querer se atender a razões de outra ordem que o Dr. J. da Silveira pudera ter apresentado: Saurio, Sourio >Souro>Soure. ( A forma Souri, se não for antes latinização de Soure , já existente, representa a analogia, forçosa, então com todos os topónimos genitivos hoje em e , e então em – i). Mas, seja como for, a enorme antiguidade do topónimo é manifesta, quer na hipótese greco-romana quer na pré-romana (ou céltica)". (Dr. J. Vilhena Barbosa – 1862). Aqui, o principal protagonista da paisagem é o rio Mondego. São dele os vastos campos de uma e de outra margens, conhecidos por campos de Coimbra, de Montemor ou, muito simplesmente, por o Campo. São terrenos férteis, propícios aos arrozais que se estendem a perder de vista, mas não seguros, já que as grandes cheias tudo alagam e destoem. O Mondego, também chamado de Basófias na gíria popular, uma vez que tão depressa leva um fiozinho de água como um caudal devastador, está, porém, em vias de ser domado através de barragens e outras obras de hidráulica.   Os acidentes de terreno nestes concelhos de Montemor-o-Velho e Soure são poucos, subindo os montes mais alto a cotas pouco superiores aos 100 metros. A norte estendem-se já as terras da Gândara. Lá mais para o sul, seguindo a bacia do rio Anços (afluente do Mondego), revelam-se as serras do Rabaçal e da senhora da Estrela, de penedias e terras pobres, primeiros contrafortes da serra de Sicó. Devido à facilidade de penetração e porque constituía uma importante linha avançada da defesa de Coimbra, esta região foi, em tempos medievos, palco de renhidas lutas e devastações entre mouros e cristãos.  Montemor-o-Velho, Santa Olaia e Soure são castelos cheios de lendas épicas e ricos de História. A vila de Soure encontra-se situada numa baixa fértil junto à confluência dos rios Arunca, Anços e Arão, pequenos afluentes do rio Mondego. Existem na zona vários vestígios arqueológicos que atestam a ocupação na época luso-romana. O que resta do Castelo é testemunho mudo de antigas glórias e misérias, de renhidos combates com os mouros, que algumas vezes o arrasaram. Os acontecimentos desta época conturbada são descritos na Vita S. Martini Sauriensis, redigida no século Xll por um eclesiástico local.  D. Teresa restaurou a vila e D. Afonso Henriques doou-a aos Templários. D. Sancho l deixou em testamento ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em 1211, as suas "éguas de Soure", o que comprova a criação de equídeos nessa época. Aliás, a pecuária é ainda hoje, a par da agricultura, o principal esteio da economia local. O cultivo do arroz é preponderante e deu lugar ao estabelecimento de fábricas de descasque e empacotamento na Granja do Ulmeiro e na Quinta do Cadaval. Entre outras actividades, existem em Soure a exploração de minas de gesso e de pedreiras e a tecelagem de linho em Paleão. Na povoação do Espírito Santo realiza-se, no Domingo de mesma invocação, uma procissão em que o andor do patrono é completa e artisticamente enfeitado com milhares de pinhões.

         Outras Localidades Próximas
          PEREIRA
: Vila de origem medieval, D. Dinis outorgou-lhe foral em 1282, posteriormente confirmado por D. Manuel l em 1513. D. João ll deixou em testamento Pereira e o seu reguengo a seu filho natural D. Jorge, através do qual passou para os Duques de Aveiro, em cuja posse se manteve até ao atentado contra D. José l, em que esta família esteve implicada. Após esse acontecimento o Marquês de Pombal ordenou a destruição dos edifícios pertencentes aos donatários, subsistindo apenas a casa do celeiro, com a pedra de armas da família sobre a porta alpendrada. A Igreja Matriz, dedicada a Santo Estevão, foi erigida em finais do século XVl, sofrendo posteriores intervenções mas conservando o primitivo portal de arco semicircular. O interior é de três naves, separadas por arcadas sobre colunas, sendo a capela-mor coberta por uma abóbada de pedra em caixotões. Das capelas secundárias destaca-se a do sacramento, que abre para a nave através de um arco oblíquo decorado e contém ao centro um altar de talha, em forma de baldaquino, apoiado em quatro colunas. A Misericórdia, constituída pela Igreja e Casa do Despacho, foi erigida entre 1729 e 1758. (Pereira foi uma das primeiras povoações portuguesas a Ter Misericórdia, logo depois da fundação pela rainha D. Leonor de Lencastre (mulher de D. João ll), em 1498, destas beneméritas instituições).  Na fachada do templo abre-se o portal, flanqueado por dois pares de colunas coríntias e encimado por um frontão com volutas sobre as quais assentam as esculturas que representam a Esperança e a Caridade, ladeando um baixo-relevo da Senhora da Misericórdia. O interior, de nave única, apresenta um revestimento de azulejos azuis e brancos de fabrico coimbrão dos finais do século XVlll e, na capela-mor, azulejos policromos com cenas da vida mariana.  A Casa do Despacho é flanqueada por duas colunas jónicas, destacando-se no interior uma tela do século XVlll sobre a Visitação.
          TENTÚGAL : Povoação referida já no século X, foi provavelmente o berço do conde moçárabe D. Sesnando, primeiro governador de Coimbra depois dessa cidade aos mouros em 1064. Em 1108 recebeu carta de povoamento do Conde D. Henrique e de D. Teresa e foral de D. Afonso lll em 1263, reformado em 1515 por D. Manuel l . O seu senhorio pertenceu aos Duques do Cadaval, que ainda hoje aí conservam propriedades. O Paço Ducal, actualmente em ruínas, foi incendiado pelas tropas liberais em 1834, subsistindo apenas vãos góticos de portas e janelas de arco quebrado, as chaminés e uma varanda alpendrada, para além do celeiro, que data de finais do século XVl. A Igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, sofreu profundas remodelações nos séculos XVl e XVll mas conserva a fachada e a torre do período quatrocentista, com portas de arco quebrado. Fundado em meados do século XVl, o Convento de Nossa Senhora da Natividade, que pertenceu às Carmelitas Calçadas, sofreu alterações na centúria seguinte que lhe imprimiram o carácter actual. Neste convento surgiu o fabrico dos conhecidos pastéis de Tentúgal, continuado por seculares depois do desaparecimento das últimas religiosas.  "Tentúgal toda a rir de casas brancas" – escreveu o escritor António Nobre sobre esta povoação simpática, onde se respira ainda, apesar de algumas construções modernas, o ar de velho burgo de outros tempos. Edifícios vetustos dão-lhe carácter e atestam a sua antiguidade. É a povoação deste itinerário que conservou maior número de moradias construídas entre o século XVl e seguinte. O Paço dos Duques do Cadaval, a sul da povoação, fala-nos dos seus antigos donatários. O vizinho lugar da Póvoa de Santa Cristina, de igual antiguidade, recebeu foral de d. Afonso ll em 1265 e teve um convento franciscano.
          VERRIDE : É antiquíssima povoação, que já foi habitada pelos romanos com o nome de Ulmar. Ignora-se geralmente as causas da mudança do nome. A que lhe atribui o povo é simplesmente pueril, e até inacreditável. Diz que certo capitão, que por nome não perca, chegado ao ponto mais elevado do Ulmar, apontou Montemor a seus soldados, e lhes bradou: - "VER ? IDE" . Pelos modos o capitão reservava para si o papel de espectador, e antecipava a célebre frase de D. João V . "Ai rico corpinho da minh’alma ...". Neste monte apareceu uma lápida sepulcral em remotos tempos, e nela julgam os naturais da povoação achar base segura à sua historieta de mudança de nome. Contornado o morro de Santa Olaia, agora ocupado pela Capela de Santa Eulália e outrora por um castro proto-histórico e fortíssimo castelo medieval, encontra-se Ereira – terra que as cheias do rio transformaram em ilha - , onde a casa do escritor poeta Afonso Duarte Recorda a sua memória, e, mais acima, alcandroada num outeiro, Verride, mais uma das muitas povoações que no passado foram sede de concelho- À entrada de Verride ergue-se a Capela de São Sebastião, onde se celebra a festa da praxe no dia do seu patrono e da qual se pode apreciar um belo panorama sobre os arrozais e as povoações limítrofes.  Circundam a freguesia excelentes pomares, e, não longe, situam-se algumas quintas solarengas, actualmente em ruínas. Ao fundo do vale formado pelos montes de Verride e Reveles encontra-se a Fonte de Brulho, de águas alcalino-gasosas.
          VILA   NOVA  DE  ANÇOS : Foi sede de um concelho, extinto em 1836, com foral manuelino de 1514. Doada por D. Fernando a Vasco de Camões, foram mais tarde donatários de Vila Nova de Anços os Duques do Cadaval, cujo paço, embora alterado, ainda se conserva, o mesmo sucedendo com o pelourinho. Está situada na margem direita do rio Anços, ou Soure, voltando-se de forma airosa para os campos alagadiços deste rio, atapetado de arrozais e hortas.
          ARAZEDE : Situada na planície gandaresa, esta povoação de comprovada antiguidade é referida no testamento de D. Sesnando, datado de 1087, e numa doação feita em 1112 ao Mosteiro de Lorvão. Os seus donatários foram o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e a Universidade. Foi sede do extinto concelho, com foral dado por D. Manuel l em 1514. A agricultura e a pecuária são as principais ocupações dos seus habitantes.
          REVELES : Outrora sede de freguesia, Reveles é hoje um lugar pertencente a Abrunheira. Situa-se sobre um monte, na margem sul do antigo leito do rio Mondego.  Do adro da sua Igreja matriz desfruta-se um surpreendente panorama sobre os campos e o rio, com seus meandros e curvas, deste a foz até próximo de Coimbra. Avultam como fundo as alturas das serras da Boa Viagem, Buçaco e Roxo. Um pouco abaixo e num pequeno promontório sobre o rio Mondego encontra-se a Capelinha da Senhora da Saúde, que se avista do mar alto e é de grande devoção dos pescadores. Estes até costumam vir aqui em romagem, de barco, antes de partirem para grandes viagens.

Já a caminho de São Luiz (Maranhão), apareceu no Navio Cuco, um nu masculino, sem sabermos ao certo como...

         Carlos Leite Ribeiro

         (Agradeço a preciosa colaboração dos amigos, Maria Nascimento e Abílio e Luiza Terra)

Fim da 3ª Parte

A seguir:(01)

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