Falámos também de terras
brasileiras que têm nome de terras portuguesas:
BRAGANÇA
"Segundo muitos escritores
Bragança foi fundada por Brigo lV, rei de Espanha, no ano de 1906 antes de Cristo. O
douto Abade de Baçal, porém, reputa essas afirmações dado como lendária a existência
desse rei Brigo.
A princípio chamava-se Celobriga,
mais tarde Brigâncio ou Brigância.
No tempo dos romanos era Bragança
já uma cidade de grande importância, a que Augusto César pôs o nome de Julióbriga, em
homenagem a seu tio Júlio César, que a tinha reedificado e fez município do antigo
direito latino."
(Dr. Rocha Martins 1889).
"Derivou de Briganti, como se
vê nos Brigantinos. Não se julgue que não houve outras Brigancias. Quicherat regista
uma cidade Brigantia na Gália Cipalpina (hoje Briançon), e também Brigantia, cidade da
Vindelícia, região entre os Alpes e o Danúbio.
Todas essas Brigantiae devem ter
origem celta. Brigantia passou a Bragança por meio de uma forma Bregança. Talvez que a
forma Braga ajudou a passar-se Bregança para BRAGANÇA. (Prof. Dr. Vasco Botelho do
Amaral - 1949).
A primeira povoação, bastante
importante, foi fundada anteriormente à era cristã. Talvez no ano de 1906 antes de
Cristo.
Durante as guerras entre cristãos
e mouros foi saqueada e ficou completamente arruinada, tendo sido reconstruída no século
Xll, no local onde se encontra actualmente. D. Sancho l concedeu-lhe foral em 1187. D.
Fernando ofereceu-a como dote a uma das suas cunhadas, irmã de D. Leonor Teles. Voltou à
Coroa e foi dada, como ducado, a um filho natural de D. João l, ficando então
definitivamente na posse da Casa de Bragança.
Encravada nas montanhas do Nordeste
Transmontano, a antiga Bragança, olha com orgulho, do alto da sua cidadela, todos quanto
a ignoram sem que a conhecerem.
Nascida nos confins do tempo,
destruída pelas lutas cristãs islamitas, reconstruída, em território
pertencente ao Mosteiro Beneditino de Castro de Avelãs por cedência de outras e quiçá
mais vastas áreas, Por Fernão Mendes, cunhado do primeiro rei português, D. Afonso
Henriques, Bragança só em 1187, com D. Sancho l, vem a conhecer o primeiro foral.
Ter-lhe-ia sido dado esse foral
pela sua afectiva importância militar, uma vez que se situava na linha de fronteiriça
com a Galiza ?
Apesar do gesto meio tardio e das
contínuas guerras e consequentes devastações que a assolaram, Bragança ainda
que obrigada a render-se aos espanhóis em 1762 e ocupada pelos franceses em 1808
contra todos se revolta, persistindo em continuar bastião português.
Ducado em 1442, tendo como primeiro
duque D. Afonso, filho ilegítimo de D. João l e genro do Condestável, Nuno Álvares
Pereira, tornou-se uma das mais importantes casas da Europa. Dela sairão mais tarde
alguns dos reis portugueses.
Em 1455, é-lhe concedida uma feira
franca, o que revela bem a importância do burgo, e D. Afonso V eleva-a à categoria de
cidade em 1466.
Ainda que fracamente impulsionada
pelos seus duques, a cidade veio a conhecer relativo desenvolvimento com os Judeus, que
nela encontravam acolhimento e "asilo quase seguro". E, entre os séculos XV e
XlX, tornou-se importante centro de cultura do sirgo e da indústria da seda.
O Castelo, com as suas duas
cinturas castrenses, pelo interior das quais se estende a cidadela, hoje ainda
surpreendentemente bem conservada e habitada, é um dos mais bem preservados de Portugal.
Franqueando os dois arcos da
entrada que não conservam já as antigas portas, depara-se-nos a altiva torre de menagem,
gótica, com 33 metros de altura e 17 de base, erguida no reinado de D. João l, ao qual a
praça forte aderira com prontidão. Já não existe a ponte levadiça, mas uma
enorme porta que, no entanto, não dá acesso à torre. Este faz-se por extensa escadaria
exterior, pela qual se pode penetrar em vários pisos. E se, no fundo, se podem ver a
cisterna e o ergástulo (cárcere) de meter medo ao mais bem intencionado
forasteiro - , lá no alto, espreitando pelas ameias, de onde, em remotas eras, os
defensores davam as boas-vindas aos atacantes com grandes caldeirões de líquidos
ferventes (azeites, seiva de pinheiro, etc), poderá agora desfrutar-se uma inolvidável
paisagem, do melhor miradouro da cidade.
Como que erguida por mãos
diferentes e um pouco apressadas, encontra-se do lado setentrional A Torre da Princesa,
que está na origem da lenda tão ciosamente guardada pelo povo.
Segundo a lenda (Linda Princesa):
" Uma bela princesa,
apaixonada por um jovem guerreiro e recusando os pretendentes fidalgos que lhe oferecia
seu cruel tio, persistiu em esperar pelo noivo, que, partido para as lides da guerra, já
muito tardava.
Entretanto, o tio, servindo-se de
um estratagema, tentou provar-lhe que o noivo do seu coração estava morto. Assim, entrou
furtivamente no quarto da princesa altas horas da noite, fingindo-se fantasma, para a
aconselhar a escolher marido. Mas logo a outra porta do quarto se abriu e um raio de sol o
iluminou, vendo-se assim descoberto na sua traição.
Esta é também a origem dos nomes
da Porta do Sol e da Porta da Traição. E, embora a lenda erudita reze que a princesa se
manteve na sua torre esperando o ansiado noivo, o povo mantém que o Romeu, numa noite
tempestuosa, a conseguiu raptar, fornecendo-lhe uma espécie de guarda-chuva com o qual
ela se lançou nos braços".
Dentro da cidadela encontra-se um
interessante pelourinho onde eram amarrados e castigados os réus de grandes
delitos formado por uma coluna encimada com algumas esculturas e cuja base é uma
porca toscamente esculpida em granito, à qual ainda hoje se chama "porca da
vida".
Frente ao castelo ergue-se,
curiosamente pentagonal, a "Domus Municipalis", monumento único da arquitectura
civil medieva na Península Ibérica e que se pensa ter sido edificada como casa de água,
fazendo a cachorraria interior e exterior converter para a cisterna e sua nascente as
águas pluviais. Mais tarde, tornando-se o lugar de reunião dos "homens bons"
do concelho.
Ainda dentro do castelo poder-se-á
apreciar a velhíssima Igreja de Santa Maria, românica, mas na qual se misturam o estilo
renascença e o barroco, em consequência da transformação que sofreu aquado da sua
reconstrução no século XVlll. Esta é também a época da pintura que se pode ver no
tecto da igreja.
Não se pense, porém, que as
muralhas do castelo encerram todos os monumentos dignos de ser apreciados na velha cidade.
Rica em arquitectura religiosa
mais do que na civil - , em que os estilo se confundem um pouco mercê das
destruições havidas e posteriores reconstruções, oferece-nos, ao descer as ruas que
dão acesso à cidadela, a Igreja de São Vicente, primitivamente românica (século Xlll)
e reconstruída no século XVll.
Embora o pórtico de acesso seja
renascentista, esconde no interior uma capela rica em talha dourada e com uma abóbada
pintada e igualmente dourada. À volta da nave, tem interessante azulejaria do século
XVll; lateral e exteriormente, encontra-se também um painel de azulejos, alusivo à
proclamação, em 1808, do general Sepúlveda contra a ocupação napoleónica. De
interesse ainda o artístico fontanário situado na parede deste painel.
Foi nesta igreja, segundo reza a
tradição, que teve lugar o casamento secreto de D. Pedro l com D. Inês de Castro,
abençoado pelo deão da Sé da Guarda.
A mesma tradição conta que D.
Isabel, que se dirigia para Trancoso para a celebração do seu casamento com D. Dinis,
pernoitou na até há pouco Igreja de São Francisco (que posteriormente dotou de grandes
bens). Esta ao tempo era convento, segundo a tradição edificado na presença de São
Francisco de Assis. Mais tarde, foi convertido em hospital militar e ainda, depois, em
asilo.
A Igreja de São Bento, padroeiro
da cidade, apresenta uma pintura do tecto, atribuida ao pintor religioso Bustamante,
considerada uma relíquia do barroco nordestino.
Dignas de atenta observação são
a Capela da Casa da Misericórdia, com um retábulo de talha dourada do século XVll, e a
velha Igreja de Santa Clara (conventual), onde novamente se confundem o estilo renascença
com o barroco, e que possui uma apreciável pintura no tecto, datada do século XVlll.
Na Praça da Sé, a principal da
cidade, em cujo centro se ergue um interessante e trabalhado cruzeiro, encontra-se a velha
Sé Catedral, templo quinhentista doado aos Jesuítas, que aqui instalaram um
colégio até à data da sua expulsão. Pouco depois, este templo foi doado à Mitra de
Miranda, mais tarde transferida para Bragança. Também aqui o estilo renascença se
deixou infiltrar pelo barroco, sendo de apreciar as suas janelas trabalhadas e, no
interior, o arco renascentista, o rodapé de azulejo do século XVll, o retábulo de talha
dourada e o tecto da sacristia, apainelado e pintado. A igreja liga com o claustro onde
funcionava o colégio jesuíta, mais tarde adaptado a liceu, a que dava vida uma imensa e
azougada população flutuante de estudantes. Como curiosidade, há que referir a
existência de uma filha da célebre "cabra" de Coimbra (relógio da
Universidade coimbrã), que os estudantes brigantinos cognominaram de "cabrita:
"Se Coimbra tem a cabra,
Bragança tem a cabrita.
E em começando as aulas,
Se a mãe berra ... a filha
grita".
Em frente da Sé
e representante da arquitectura civil, ergue-se o Solar dos Caladinhos, com uma pedra de
armas; pouco mais abaixo, encontra-se a Casa dos Vargas, com uma interessante fiada de
varandas com grades de ferro, e a Casa do Arco, também ela velho solar, construída no
século XVll, com pedra de armas e uma fachada dupla para duas ruas, ligadas por um
curioso arco transversal coberto.
Se o visitante que está a apreciar
este interessante arco palmilhar um pouco mais a rua, encontrará o Museu do Abade de
Baçal, que se estende por dois andares e pelo jardim do antigo Paço dos Bispos. Nas suas
bem recheadas salas podem apreciar-se notáveis obras de arte, desde alabardas da época
de Bronze e esculturas zoomórficas pré romanas a móveis dos séculos XVll e
XVlll, retratos, pinturas, faianças, etc.
É certo que muito tempo será
necessário para o visitante percorrer o museu e admirar o recheio de todas as salas; mas
também é certo que, numa próxima vinda à cidade, não prescindirá de rever o velho
museu, que o carinho do abade de Baçal transformou num dos melhores deste país.
Mas a velha urbe transmontana tem
mais para oferecer ao visitante. Um passeio pela Estrada do Turismo, ladeada de frondosas
árvores, põe agora a cidade a seus pés, numa espectacular policromia, e permite-lhe
ainda subir ao cabeço de São Bartolomeu, onde poderá entrar na pequena mas interessante
ermida, de onde se desfruta um panorama inesquecível. Depois, percorrendo a estrada do
circuito, está-se de regresso à cidade.
Vale ainda a pena descer a Estrada
do Sabor e, na sua magnífica praia fluvial, à sombra das árvores, observar os peixes do
rio e gozar um sossego cada vez mais raro.
Museu do Abade de Baçal
Está situado num edifício de
sóbrio estilo seiscentista, alterado na primeira metade do século XVlll, (1737), sob a
orientação de D. João de Sousa Carvalho, bispo de Miranda; possui um amplo jardim onde
se encontra uma valiosa colecção epigráfica luso romana, que constitui, assim
uma secção do museu ao ar livre. A fachada ostenta o brasão de D. João de Sousa
Carvalho.
O Museu do Abade de Baçal é,
pelas suas características gerais, um museu de arte, arqueologia e etnografia. A data da
sua fundação remonta ao último decénio do século XlX e a ideia da sua criação
deve-se a um núcleo de ilustres bragançanos, perfeitamente actualizados nas tendências
culturais da época, entre os quais o coronel Albino Pereira Lopo. Sob a sua direcção,
abriu ao público em 14 de Março de 1807 o Museu Municipal de Bragança, que ficou
instalado no edifício dos Paços do Concelho, transitando, mais tarde, para o antigo
Paço Episcopal.
O conjunto das peças está
dividido pelas seguintes secções: Arqueologia - Epigrafia - Etnografia - Ourivesaria e
Paramentos -
Mobiliário - Escultura e Artes
Decorativas.
Apontamento do Jornal do Comércio
do ano de 1900:
"Bragança, capital de
Distrito e cabeça de Concelho, tem 5.535 habitantes, está situada `beira do rio
Fervença, junto das ruínas da antiga Brigantia. Antiga praça de armas. Deu-lhe D.
Sancho 1 o seu primeiro foral em 1187. Tem alguns bons edifícios, um museu de
antiguidades e uma casa de câmara, que parece ser edifício românico da alta Idade
Média. O concelho tem 49 freguesias e 30.790 habitantes.
O Distrito de Bragança, formado de
uma parte da antiga província de Trás-os-Montes, tem uma superfície de 6.510 Km2 e uma
população de 185.200 habitantes. Abrange 12 concelhos e 301 freguesias. Os concelhos
são: Alfândega da Fé Bragança Carrazeda de Anciães Freixo de
Espada à Cinta Macedo de Cavaleiros Mirando do Douro Mirandela
Modadouro . Torre do Moncorvo Vila Flor Vimioso e Vinhais. O seu
terreno é muito montanhoso e apresenta as serra de: Nogueira (1.321 metros acima do
nível do mar) ; Bornes de Montesinho (1.596 m); Coroa (1.270 m); Vinhais (1.027 m). O
Distrito é banhado pelos rios Douro, que forma grande parte do limite do distrito, Sabor
, Tua, Rabaçal. Possui ainda muitos terrenos incultos. Produtos agrícolas, vinhos,
sericicultura. Costumes e trajos populares muito interessantes. Dialectos locais bem
marcados, dentro dos quais se salienta o "mirandês".
As Festas do Natal (e as
máscaras diabólicas)
Na região compreendida entre os
concelhos de Freixos de Espada à Cinta, Miranda do Douro e Bragança, intervém um tipo
especial de mascarados no ciclo das Festas do Natal: os "caretos",
"chocalheiros" . "zangarrões" "mascarões". A
despeito de se apresentarem como as personagens mais características, eles actuam,
incongruamente, como meros mendicantes ao serviço da igreja, percorrendo as localidades a
recolher esmolas, na companhia dos respectivos mordomos.
Em Bemposta (Mogadouro), onde o
costume mantém plena vigência, essas personagens saiem nos "dias do
chocalheiro", a 26 de Dezembro a 1 de Janeiro, a partir da meia-noite.
Máscara e indumentária são
pertença da aldeia, e durante o ano ficam à guarda da igreja. O cargo de
"chocalheiro" é leiloado todos os anos pelo mordomo da festa, mantendo-se os
licitantes em segredo, atinge somas por vezes vultuosas e é exercido em cumprimento de
promessas.
Na companhia dos mordomos, o
"chocalheiro" percorre a freguesia batendo a todas as casas e recolhendo as
esmolas que ninguém lhe recusa. Exercendo prerrogativa de excepção, entra não raro nas
casas e delas leva o que bem entende, especialmente chouriços.
A sua actuação na rua é
insólita e temida, sobretudo pelas mulheres solteiras, com quem permite liberdades
licenciosas, e também pelo rapazio, que foge espavorido, gritando com todas as forças:
"Vem aí o "chocalheiro" Vem aí o diabo !".
De facto ele exibe vários
atributos conotados com o diabo, além da máscara, o fato azul mostra uma série de
listas brancas e vermelhas, uma caveira pintada nas costas, um rabo de crinas comprido,
uma bexiga de porco pendente do capuz e uma figura de serpente a tiracolo.
A tradição local consagra a
superstição de que, se alguém morre no dia em que ele deambula pelas ruas, vai para o
inferno, o mesmo sucedendo àquele que por ventura morra investido naquela figura. Na
verdade, a actuação destes "caretos" denuncia uma personalidade que os situa
no domínio do fantástico.
Assumindo inteiramente uma natureza
diabólica, a sua aparição impõe pelo terror a presença de um ser que se coloca fora
da lei e das convenções, que escapa às normas quotidianas e autoriza o que é
interdito. Aos olhos das gentes das raras aldeias em que sobrevivem, aparecem como uma
verdadeira entidade mágica, sombria e inquietante, mas necessária. E pode pensar-se que
sua aceitação se justifica por conter um sentido vago de protecção da comunidade,
sendo através deles que se normalizam certas forças estranhas e difusas que nesse
período se crêem desencadeadas.
NAZARÉ
(Uma linda terra e uma bela praia)
A vila da Nazaré é de origem
relativamente recente, pois ainda no século XVll o mar vinha bater nos contrafortes da
Serra da Pederneira, deixando coberta toda a parte ocupada pela praia de hoje. Durante
todo o século XVll foram porém rápidas as transformações, e o mar recuando, pôs a
descoberto a formosa enseada. As primeira referências sobre a pesca da Nazaré não vão
além de 1643. Em 1870 já tinha adquirido um desenvolvimento considerável, pois sabe-se
que nessa data existiam na praia 58 cabanas para arrecadação dos aparelhos de pesca.
Contudo, até aos princípios do século XlX os pescadores, fugindo às constantes
opressões dos piratas argelinos e holandeses, viviam na Pederneira e no Sítio. Só em
meados desse século é que a Nazaré começou a ser conhecida como praia de banhos. A
praia da Nazaré aninha-se numa enseada em meia lua, limitada a norte pelo promontório do
Sítio (da Nazaré) e a sul pelas areias que orlam a Serra da Pescaria (ou praia do sul).
Uma versão da Lenda da Nazaré:
" No tempo das perseguições que em Roma se faziam contra o cristianismo, diz o
Portugal, a Península Hispânica, como estava muito distante daquela cidade, deu abrigo a
muitos cristãos, que para ali fugiram no século lV. Segundo a lenda, foi por este tempo
que o monge grego, Ciríaco, fugiu para Belém de Judá, levando consigo uma imagem de
Nossa Senhora, que deu a São Jerónimo, o qual mandou a Santo Agostinho, bispo de
Hiponia, que estava em África, mandada-a depois este prelado para o mosteiro hispânico
de Cauliniana, a 12 Km. De Mérida (Espanha); foi aqui que deram à imagem o título de
Nazaré por ter vindo da terra natal da Virgem Maria. A maneira como a imagem veio às
praias de Lusitânia, é narrada por esta versão da Lenda, da seguinte forma:
"Egica, sobrinho do santo rei Wamba e genro de Ervígio, seu antecessor , subiu ao
trono dos godos em 687. Vítulo, conde da Galiza, ambicionando o trono, revoltou-se, mas
foi aniquilado. O rei então nomeou o seu filho Witiza soberano das terras revoltadas,
ficando ele com o resto da Espanha e com a Galiza Narboneza.
Por sua morte sucedida em 701,
ficou Witiza senhor de todo o império gótico, e foi o Nero das Espanhas. Permitiu a
poligamia, negou a obediência espiritual ao Papa, arrazou as fortalezas do reino, e
praticou toda a casta de c vícios e de iniquidades". ( Américo Costa, do
"Dicionário Coroagráfico de Portugal 1943".
A Nazaré já teve o nome de
Perdeneira. O topónimo é, por assim dizer, internacional, pois aparece em vários
países, e diz-se que, etimologicamente significa simplesmente, verde ". Dr. Xavier
Fernandes 1944).
A Nazaré é um festival de cor e
de movimento, de vozes e de gritos. Há uma Nazaré real, de mar altivo e homens
corajosos, de mulher com a verdade do negro que trajam pelos maridos, pelos irmãos, pelo
filhos, pelos pais. E há também uma Nazaré irreal, cheia de gente, de sol e mar azul,
de areia feita toldos de lona, enquanto ao lado se encontram barcos a balouçar, à espera
da tarde, da partida para a faina da pesca. Quando o mar batia na encosta abaixo da
Pederneira, a Nazaré não existia, mas apenas o Sítio, de origem muito mais remota. No
século XVlll, o mar recuou e deixou a seco a terra firme onde se instalaram os primeiros
pescadores, e das cabanas onde viviam começou, na 2ª metade do século XlX, a formar-se
a povoação. O Sítio da Nazaré é sobretudo um largo enorme, embelezado por um bonito
coreto e terminando numa varanda de 110 metros de altura, sobre o mar. Da moldura do
casario sobressaem os antigos Paços e a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, além de
algumas notáveis residências do século XlX, com belas sacadas de ferro fundido e
azulejaria de interesse.
Na Igreja Matriz, com o figurino
seiscentista, lá estão os azulejos, bem portugueses, apesar de assinados por um autor
holandês. Ao seu lado, o Paço Real, é notável pela sua alpendrada. Np Sítio, mesmo à
beira do precipício fica a Ermida da Memória, a lembrar o tão célebre milagre de Nossa
Senhora da Nazaré, salvando D. Fuas Roupinho (alcaide do Castelo de Porto Mós e talvez o
primeiro almirante português), de cair de tão grande altura quando se salvou de se
despenhar quando perseguia um veado. No fim do promontório, sobranceiro à praia do Norte
(cujo areal quase chega a São Pedro de Moel "19 Km" ), o velho forte
debruça-se sobre o mar. É no fim do promontório (ou penhasco) do Sítio da Nazaré que
tem lugar o Forte de São Miguel Arcanjo. Este é um local cheio de estórias. Não é a
única a de D. Fuas Roupinho que, segundo dizem, foi amparado pela Virgem quando, andando
à caça, numa manhã de nevoeiro, o seu cavalo quase caiu do penhasco. Existe uma outra,
de uma linda rapariga (moça) que, durante as Invasões Francesas, atraía os soldados
inimigos para o precipício e depois, traiçoeiramente atirava-os para o mar, tendo morto
sete desta forma. Este forte, também chamado Forte do Morro da Nazaré, foi mandado
construir por D. Sebastião, em 1577, mas só ficou concluído no reinado de D. João lV,
em 1644. O propósito da sua construção era defender a costa portuguesa de eventuais
ataques de piratas e corsários que se sentiam atraídos pelo porto da Pederneira, local
onde se situava o antigo povoado. Tinha fama de ser um dos melhores do Reino de Portugal,
pois dali saía maior parte das madeiras do Pinhal de Leiria e do Pinhal de Rei, e que ali
se fabricavam muitas embarcações que faziam o caminho para a Índia.
Um dos vários assaltos de que foi
alvo aconteceu em 1611, quando um pirata holandês se infiltrou no porto e se apoderou de
um barco carregado de pinho e de uma nau da Biscaia (Galiza) que transportava ferro, vinho
e armas. Em 1807, já depois das suas peças de artilharia terem sido levadas para
Cascais, o Forte da Nazaré foi conquistado por 50 soldados do general Junot que, no ano
seguinte, foram expulsos pelas populações do Sítio, Pederneira e Nazaré, ao que,
segundo a lenda, ajudou a rapariga que matou os sete. Foram tempos difíceis para os
nazarenos, estes das Invasões Francesas. Primeiro foram os soldados de Junot que em 1807
invadiram a terra, ao que a população resistiu, exibindo seis estudantes fardados, do
Batalhão Académico de Coimbra, tentando convencer o inimigo de que tinham recebidos
reforços. Foram a Cascais num batel buscar armamento e repeliram os franceses que vinham
de Peniche em auxílio da guarnição do Forte. Esta primeira batalha foi ganha pelos
portugueses mas volvidos algum tempo os franceses voltaram a invadir o local, exercendo
todo o tipo de crueldades sobre a população. Os habitantes que não conseguiram fugir,
foram massacrados e os barcos e as casas da Nazaré, da Pederneira e do Sítio
incendiados. Em 1901 ou mesmo 1902, foi desencadeado o processo de expropriação do Forte
de São Miguel Arcanjo. Procedeu-se à reconstrução parcial do baluarte, que se
encontrava danificado, para nele instalar o farol da Nazaré.
Quase todas as manhãs, a neblina
dá os bons dias ao Forte São Miguel Arcanjo. O seu carácter defensivo já esmoreceu,
mas, o farol continua vigilante, iluminando o caminho dos barcos que teimam em se
aproximar demasiadamente da costa . Segue-se-lhe, já isolada, mas bem vizinha deste
promontório, a chamada Pedra do Guilhim, designação a lembrar o limite da área, além
de Atouguia, concedida por D. Afonso Henriques a Guilherme de Corni. A cerca de 5Km a sul
da Nazaré e já na estrada que liga a Alcobaça, num destacado morro, ergue-se a Igreja
de São Gião. É um templo visigótico, que deve datar do século Vll. É um pequeno
edifício de uma só nave (6,60m x 3,9 m), sem janelas e sem transepto, com tribuna sobre
a porta de entrada. O cruzeiro está separado da nave por uma parede com uma porta central
e dois vãos laterais isolando o altar e o coro (só a nave era destinada aos fiéis),
correspondendo a uma iconóstase. Pequena igreja monástica, decerto de transepto
bipartido por duas colunas, acusa a influência da liturgia da época.
A Nazaré é das mais típicas
vilas piscatórias de Portugal, convertida em centro de turismo por excelência do centro
do País e destino privilegiado para milhares de visitantes durante o ano. No entanto, a
Nazaré de hoje não é a de há décadas atrás, desaparecidos os traços que
identificavam (de maneira incomparável) esta comunidade, possuidora de inconfundível
personalidade, das mais caraterísticas de toda a costa portuguesa, como o escritor
português, Raul Brandão a descreveu em "Os Pescadores" : "... Do Valado
à Nazaré são seis quilómetros, quase sempre através do monótono pinheiral de El-Rei.
É um majestoso templo que não acaba e onde a solidão se torna palpável entre os
troncos cerrados e sob as copas espessas. Por fim o caminho desce, passando a Pederneira,
e avista-se lá em baixo a branca Nazaré e o mar apertado num vasto semicírculo de
montes verdes, que mergulham no azul os alicerces. Ao norte o panorama acaba de repente
num paredão temeroso, que entra direito pelas águas e entaipa o céu. É um morro
avermelhado e riscado, com vegetação pegajosa de urzes e de cardos e um penedo destacado
na ponta o bico do Guilhim. Lá em cima as paredes brancas duma aldeia árabe entre
sebes de cactos hostis O Sítio. Pedaços de rochas salientes ameaçam desabar a
toda a hora ...).
A riqueza da Nazaré residiu no
folclore que sedimentou na imagem das suas objectivas e nas telas dos pintores. Quando os
barcos (lanchas, botes, batéis, barcas e traineiras) ancoravam e saíam da praia e a arte
das netas se praticava naquele cenário que traduzia gestos, vestuário e falares, puxando
todos e ao mesmo tempo os aparelhos de arrasto para terra, então sim, era a alma inteira
dessa comunidade que mostrava a sua maneira de ser e de viver quotidianamente em contacto
com o mar. Depois da construção do porto de abrigo (já prometido no tempo do rei D.
Carlos) e da redução drástica da arte das netas , desapareceram os quadros mais
primitivos da vida da Nazaré, hoje gravados em telas e em fotografias. Em contrapartida
zelou-se pela segurança dos pescadores e famílias, que morriam nas frágeis
embarcações, quantas vezes à vista da praia de fortes rebentações (no Inverno) contra
as falésias abruptas e, mesmo assim, impotentes para lhes quebrar a fúria. Hoje, no
porto de abrigo e à mistura com algumas lanchas, botes, traineiras e motoras dos
nazarenos, há embarcações doutro tipo, da Póvoa de Varzim, Matosinhos, Figueira da Foz
e de outros portos pesqueiros. A praia piscatória perdeu as características próprias.
Já não se vêem raparigas (filhas e mulheres de pescadores) trajando as sete saias,
sentados no areal à espera do varar das embarcações e os olhos fixos na neblina do
horizonte; nem o velho lobo-do-mar de barrete colorido e vestimenta riscada a consertar
redes para a faina do dia seguinte. Ficou apenas e quase só uma tradição relacionada
com a pesca e o mar: a seca do peixe, curiosamente a cargo das nazarenas algumas trajando
de luto em memória do marido ou pelos filhos a quem o mar arrebatou. Ficaram os
tabuleiros com fundo de rede e várias qualidades de peixe a secar ao sol da praia. Os
consumidores do peixe são essencialmente os nazarenos, e algum vai para os mercados do
distrito.
O concelho da Nazaré está
completamente encravado no de Alcobaça, à excepção do lado poente delimitado pela
costa atlântica e a vila apresenta três núcleos populacionais distintos: o núcleo da
praia (o seja da vila propriamente dito), o Sítio (da Nazaré) e a Pederneira. O
promontório da Nazaré classifica-se de costa alta e abrupta, fazendo parte dos planaltos
calcários da Estremadura. Em frente à Nazaré situa-se um vale submarino, dos maiores e
mais profundos do mundo. A enseada protege-a, a norte, a escarpa ou falésia do Sítio e,
a leste, as elevações da Pederneira. A Nazaré fica a cerca de 21 Km a sul da Marinha
Grande. Suas principais indústrias são as conservas de peixe, estâncias de madeiras e
hotelaria. E o turismo será a principal de todas, uma vez que não é sazonal, mas
processa-se ao longo do ano, graças às paisagens naturais, ao clima e à situação
geográfica no centro litoral de Portugal. O clima é temperado (Atlântico) e fraca a
amplitude térmica, com verões quentes e secos. António Lopes (1732) chamou à Nazaré a
"Estrela do Oceano Português" e, sobre ela está tudo dito. Os nossos melhores
prosadores e poetas deixaram-nos descrições de estilo empolgante, acerca desta gente e
desta terra, como por exemplo, António Sérgio em (Introdução Geográfico-Sociológica
à História de Portugal) : "... Mas não se pense que as qualidades étnicas de uma
comunidade "sui géneris", tão bem representada no povo nazareno, vem de há
longos séculos. A actual Nazaré não possui história longa de centúrias, uma vez que
há pouco mais de duzentos anos nem sequer existia. No século XVl o local (desabitado)
sofreu grandes assoreamentos e a baía era mais reentrável. O mar chegava à Pederneira,
Maiorga, Cós e Alfeizerão, de que a reentrância (concha) de São Martinho é
reminiscência que aí permaneceu. No século seguinte, a enseada da Nazaré estava
coberta pelo mar que batia nas arribas da serra da Pederneira e na falésia abrupta que
ainda resguarda o lugar do Sítio. Só no século XVlll o oceano recuou e deixou terra
firme onde os pescadores fizeram as primeiras habitações (cabanas) no lugar onde está
hoje a vila, só conhecida com estância de banhos nos meados do século passado. As
primeiras referências à pesca no mar da Nazaré remontam a 1643, com maior
desenvolvimento na Segunda metade do século XlX. Em 1870, a Nazaré tinha 58 cabanas onde
os pescadores guardavam os aparelhos de pesca e as condições de vida seriam miseráveis
ou muito precárias. O núcleo populacional ou colónia de pescadores resultou, mais
tarde, da miscigenação entre os primitivos povoadores indígenas e pescadores de Ílhavo
(região de Aveiro) que desceram a costa a partir do último quartel do século XVlll e se
fixaram (com suas famílias) na Nazaré, deixando marcas nas artes de pesca, nos tipos e
pinturas das embarcações, e até no linguajar. O núcleo mais antigo situava-se no lugar
da Pederneira (a leste) mais seguro da pirataria da pirataria (holandesa e argelina) que
infestava a costa. A Pederneira era povoada em 1190 e no século Xlll os pescadores já
partiam dali para as costas do Algarve. Com o assoreamento do porto de Paredes (a norte)
deslocaram-se para o da Pederneira que pertenceu ao Mosteiro de Alcobaça (coutos) e teve
considerável importância desde o século Xll até ao século XVll. A "Descriçam de
1630" chamoulhe "de muito boa população" e que "no baixo da praia
fabricam alguns navios com a comodidade da madeira que trazem pelo mar de um grande pinhal
que fica pela parte do setentrião e a que chamam Pinhal do Rei". No século XV a
Pederneira já era a vila mais progressiva dos coutos de Alcobaça, começando a
decadência a partir do século XVlll, originando em 1885 a transferência da sede do
concelho de Pederneira para a Nazaré. Aliás, na Pederneira, há noticia /através da
arqueologia) de Ter tido povoamento pré-histórico: instrumentos do Paleolítico,
encontrados em Pedreneira e Valado de Frades, fíbulas /século Vl antes de Cristo) e
outros objectos depositados no Museu da Nazaré Etnográfico e Arqueológico da Nazaré,
são testemunhos inequívoco dessa ocupação".
O Sítio da Nazaré, de origem
muito remota, além dum enorme largo, é uma espécie de varanda apoiada na falésia com
alicerces no mar. Nesta varada fica a Capela da Memória onde reza a tradição é o local
a que se refere a "Lenda do Sítio: "A 14 de Setembro de 1182, D. Fuas Roupinho
andava à caça com alguns companheiros por aquelas bandas. Entetanto, devido a grande
nevoeiro perdeu-se deles e continuou a caçar. Surgiu-lhe um veado que a crendice popular
identificou com o diabo e D. Fuas, no seu cavalo, parte em perseguição da tentadora
peça de caça, aproximando-se da íngreme penedia, cortada a pique sobre o mar. O veado
caiu ao precipício e o cavalo de D. Fuas ficou suspenso, perante a invocação do nome da
Senhora naquele momento a quem D. Fuas intercedeu. Ainda se vê um sulco na rocha (no
Suberco) do Bico do Milagre e no local da capela que o povo atribui à marca da ferradura
do cavalo. D. Fuas Roupinho doou os terrenos, contratou pedreiros e mandou edificar uma
ermida à Senhora da Nazaré em sinal de agradecimento por tão grande milagre. A ermida
fico conhecida por "Capela da Memória" onde durante séculos se tem venerado a
Senhora da Nazaré, cuja imagem (dos primeiros séculos do cristianismo) é considerada a
mais antiga de Portugal".
A gastronomia e artesanato fazem
parte da cultura popular da Nazaré e são motivos de atracção turística. O peixe a
caldeirada à Nazaré, massa de peixe seco constituem os principais pratos desta terra que
sempre viveu dos recursos do mar. Representantes da doçaria local são os Tá-mares,
nazarenos, sardinhas azevias, filhós e arroz-doce. No domínio do artesanato surgem
também motivos do mar o mar que sempre comandou a vida, os hábitos e a paisagem
desta terra inconfundível: miniaturas de barcos a remos, vestes para bonecas regionais e
malhas típicas. O comércio manifesta-se em vários locais e artérias de modo peculiar,
uma vez que passar pela Nazaré, obriga o visitante ou o turista a levar consigo uma
recordação que testemunhe a visita, sempre incompleta, tantos são os motivos de
atracção deste pequeno paraíso, onde o turismo é rei e senhor. Os círios da Senhora
da Nazaré são muito conhecidos, pois, desde tempos remotos, às romarias anuais
a igrejas e capelas, afluíam
romeiros em grupo (ou irmandades) de várias freguesias que levavam, cada um, um círio
(ou tocha) para depor no altar do santo da sua devoção. A esses grupos de romeiros
chamavam-se Círios . Apareceram, assim, desde há séculos, círios importantes
(sobretudo no centro do país), onde a tradição ficou enraizada. Um deles é o
Círio de homenagem à Senhora da Nazaré, cuja romaria vem desde de D. Leonor de
Lencastre (mulher de D. João ll), acorrendo círios de Mafra, Santo Isidoro, Terruagem,
Sobral, Caldas da Rainha, Porto de Mós e outras localidades. Pormenor curioso,
relativamente à imagem da Senhora da Nazaré, prende-se com a tentativa (conseguida) de
colocar a imagem a salvo dos invasores franceses, em 1810, tendo sido levada de terra em
terra até Pendão (Belas Sintra), percorrendo depois Queluz, Benfica, Vila Franca
de Xira e Caldas da Rainha, regressando à sua igreja em Setembro de 1812, depois de ter
passado o perigo.
As loas que os anjos cantavam ao
acompanharem os círius da Senhora da Nazaré (e outros), durante o percurso e à porta
dos templos, foram divulgadas por vários poetas, incluindo João de Deus, impressas em
folhinhas e vendidas a favor do culto. A festa da Senhora da Nazaré (de 8 a 15 de
Setembro) ainda conserva reminiscências desses Círios, de locais, em homenagem à
Senhora da Nazaré.
SOURE
Recebeu em 1111 carta de
foral de D. Henrique e D. Teresa e em 1128 foi doada à Ordem dos Templários. D. Manuel l
concedeu-lhe foral novo em 1513.
Origem do Nome: "No
tempo dos romanos se chamou Saurium, devastada pelos mouros, reconquistada pelas
hostes cristãs e repovoada pelo Conde D. Henrique, que em 1111 lhe concedeu foral. A
designação de hoje dever ter provindo de Saurium, vocábulo que em bons
dicionários latinos (Bento Pereira e outros) aparece como nome próprio, correspondente a
SOURE". (Dr. Xavier Fernandes 1944). "Deve ser o mesmo o caso de Soure
sem querer se atender a razões de outra ordem que o Dr. J. da Silveira pudera ter
apresentado: Saurio, Sourio >Souro>Soure. ( A forma Souri, se não for antes
latinização de Soure , já existente, representa a analogia, forçosa, então com
todos os topónimos genitivos hoje em e , e então em i). Mas,
seja como for, a enorme antiguidade do topónimo é manifesta, quer na hipótese
greco-romana quer na pré-romana (ou céltica)". (Dr. J. Vilhena Barbosa
1862). Aqui, o principal protagonista da paisagem é o rio Mondego. São dele os vastos
campos de uma e de outra margens, conhecidos por campos de Coimbra, de Montemor ou, muito
simplesmente, por o Campo. São terrenos férteis, propícios aos arrozais que se estendem
a perder de vista, mas não seguros, já que as grandes cheias tudo alagam e destoem. O
Mondego, também chamado de Basófias na gíria popular, uma vez que tão depressa leva um
fiozinho de água como um caudal devastador, está, porém, em vias de ser domado através
de barragens e outras obras de hidráulica. Os acidentes de terreno nestes
concelhos de Montemor-o-Velho e Soure são poucos, subindo os montes mais alto a cotas
pouco superiores aos 100 metros. A norte estendem-se já as terras da Gândara. Lá mais
para o sul, seguindo a bacia do rio Anços (afluente do Mondego), revelam-se as serras do
Rabaçal e da senhora da Estrela, de penedias e terras pobres, primeiros contrafortes da
serra de Sicó. Devido à facilidade de penetração e porque constituía uma importante
linha avançada da defesa de Coimbra, esta região foi, em tempos medievos, palco de
renhidas lutas e devastações entre mouros e cristãos. Montemor-o-Velho, Santa
Olaia e Soure são castelos cheios de lendas épicas e ricos de História. A vila de Soure
encontra-se situada numa baixa fértil junto à confluência dos rios Arunca, Anços e
Arão, pequenos afluentes do rio Mondego. Existem na zona vários vestígios
arqueológicos que atestam a ocupação na época luso-romana. O que resta do Castelo é
testemunho mudo de antigas glórias e misérias, de renhidos combates com os mouros, que
algumas vezes o arrasaram. Os acontecimentos desta época conturbada são descritos na Vita
S. Martini Sauriensis, redigida no século Xll por um eclesiástico local. D.
Teresa restaurou a vila e D. Afonso Henriques doou-a aos Templários. D. Sancho l deixou
em testamento ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, em 1211, as suas "éguas de
Soure", o que comprova a criação de equídeos nessa época. Aliás, a pecuária é
ainda hoje, a par da agricultura, o principal esteio da economia local. O cultivo do arroz
é preponderante e deu lugar ao estabelecimento de fábricas de descasque e empacotamento
na Granja do Ulmeiro e na Quinta do Cadaval. Entre outras actividades, existem em Soure a
exploração de minas de gesso e de pedreiras e a tecelagem de linho em Paleão. Na
povoação do Espírito Santo realiza-se, no Domingo de mesma invocação, uma procissão
em que o andor do patrono é completa e artisticamente enfeitado com milhares de pinhões.
Outras
Localidades Próximas
PEREIRA: Vila de origem
medieval, D. Dinis outorgou-lhe foral em 1282, posteriormente confirmado por D. Manuel l
em 1513. D. João ll deixou em testamento Pereira e o seu reguengo a seu filho natural D.
Jorge, através do qual passou para os Duques de Aveiro, em cuja posse se manteve até ao
atentado contra D. José l, em que esta família esteve implicada. Após esse
acontecimento o Marquês de Pombal ordenou a destruição dos edifícios pertencentes aos
donatários, subsistindo apenas a casa do celeiro, com a pedra de armas da família sobre
a porta alpendrada. A Igreja Matriz, dedicada a Santo Estevão, foi erigida em finais do
século XVl, sofrendo posteriores intervenções mas conservando o primitivo portal de
arco semicircular. O interior é de três naves, separadas por arcadas sobre colunas,
sendo a capela-mor coberta por uma abóbada de pedra em caixotões. Das capelas
secundárias destaca-se a do sacramento, que abre para a nave através de um arco oblíquo
decorado e contém ao centro um altar de talha, em forma de baldaquino, apoiado em quatro
colunas. A Misericórdia, constituída pela Igreja e Casa do Despacho, foi erigida entre
1729 e 1758. (Pereira foi uma das primeiras povoações portuguesas a Ter Misericórdia,
logo depois da fundação pela rainha D. Leonor de Lencastre (mulher de D. João ll), em
1498, destas beneméritas instituições). Na fachada do templo abre-se o portal,
flanqueado por dois pares de colunas coríntias e encimado por um frontão com volutas
sobre as quais assentam as esculturas que representam a Esperança e a Caridade, ladeando
um baixo-relevo da Senhora da Misericórdia. O interior, de nave única, apresenta um
revestimento de azulejos azuis e brancos de fabrico coimbrão dos finais do século XVlll
e, na capela-mor, azulejos policromos com cenas da vida mariana. A Casa do Despacho
é flanqueada por duas colunas jónicas, destacando-se no interior uma tela do século
XVlll sobre a Visitação.
TENTÚGAL : Povoação
referida já no século X, foi provavelmente o berço do conde moçárabe D. Sesnando,
primeiro governador de Coimbra depois dessa cidade aos mouros em 1064. Em 1108 recebeu
carta de povoamento do Conde D. Henrique e de D. Teresa e foral de D. Afonso lll em 1263,
reformado em 1515 por D. Manuel l . O seu senhorio pertenceu aos Duques do Cadaval, que
ainda hoje aí conservam propriedades. O Paço Ducal, actualmente em ruínas, foi
incendiado pelas tropas liberais em 1834, subsistindo apenas vãos góticos de portas e
janelas de arco quebrado, as chaminés e uma varanda alpendrada, para além do celeiro,
que data de finais do século XVl. A Igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da
Assunção, sofreu profundas remodelações nos séculos XVl e XVll mas conserva a fachada
e a torre do período quatrocentista, com portas de arco quebrado. Fundado em meados do
século XVl, o Convento de Nossa Senhora da Natividade, que pertenceu às Carmelitas
Calçadas, sofreu alterações na centúria seguinte que lhe imprimiram o carácter
actual. Neste convento surgiu o fabrico dos conhecidos pastéis de Tentúgal, continuado
por seculares depois do desaparecimento das últimas religiosas. "Tentúgal
toda a rir de casas brancas" escreveu o escritor António Nobre sobre esta
povoação simpática, onde se respira ainda, apesar de algumas construções modernas, o
ar de velho burgo de outros tempos. Edifícios vetustos dão-lhe carácter e atestam a sua
antiguidade. É a povoação deste itinerário que conservou maior número de moradias
construídas entre o século XVl e seguinte. O Paço dos Duques do Cadaval, a sul da
povoação, fala-nos dos seus antigos donatários. O vizinho lugar da Póvoa de Santa
Cristina, de igual antiguidade, recebeu foral de d. Afonso ll em 1265 e teve um convento
franciscano.
VERRIDE : É antiquíssima
povoação, que já foi habitada pelos romanos com o nome de Ulmar. Ignora-se geralmente
as causas da mudança do nome. A que lhe atribui o povo é simplesmente pueril, e até
inacreditável. Diz que certo capitão, que por nome não perca, chegado ao ponto mais
elevado do Ulmar, apontou Montemor a seus soldados, e lhes bradou: - "VER ?
IDE" . Pelos modos o capitão reservava para si o papel de espectador, e
antecipava a célebre frase de D. João V . "Ai rico corpinho da minhalma
...". Neste monte apareceu uma lápida sepulcral em remotos tempos, e nela julgam
os naturais da povoação achar base segura à sua historieta de mudança de nome.
Contornado o morro de Santa Olaia, agora ocupado pela Capela de Santa Eulália e outrora
por um castro proto-histórico e fortíssimo castelo medieval, encontra-se Ereira
terra que as cheias do rio transformaram em ilha - , onde a casa do escritor poeta Afonso
Duarte Recorda a sua memória, e, mais acima, alcandroada num outeiro, Verride, mais uma
das muitas povoações que no passado foram sede de concelho- À entrada de Verride
ergue-se a Capela de São Sebastião, onde se celebra a festa da praxe no dia do seu
patrono e da qual se pode apreciar um belo panorama sobre os arrozais e as povoações
limítrofes. Circundam a freguesia excelentes pomares, e, não longe, situam-se
algumas quintas solarengas, actualmente em ruínas. Ao fundo do vale formado pelos montes
de Verride e Reveles encontra-se a Fonte de Brulho, de águas alcalino-gasosas.
VILA NOVA DE
ANÇOS : Foi sede de um concelho, extinto em 1836, com foral manuelino de 1514. Doada
por D. Fernando a Vasco de Camões, foram mais tarde donatários de Vila Nova de Anços os
Duques do Cadaval, cujo paço, embora alterado, ainda se conserva, o mesmo sucedendo com o
pelourinho. Está situada na margem direita do rio Anços, ou Soure, voltando-se de forma
airosa para os campos alagadiços deste rio, atapetado de arrozais e hortas.
ARAZEDE : Situada na
planície gandaresa, esta povoação de comprovada antiguidade é referida no testamento
de D. Sesnando, datado de 1087, e numa doação feita em 1112 ao Mosteiro de Lorvão. Os
seus donatários foram o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e a Universidade. Foi sede do
extinto concelho, com foral dado por D. Manuel l em 1514. A agricultura e a pecuária são
as principais ocupações dos seus habitantes.
REVELES : Outrora sede de
freguesia, Reveles é hoje um lugar pertencente a Abrunheira. Situa-se sobre um monte, na
margem sul do antigo leito do rio Mondego. Do adro da sua Igreja matriz desfruta-se
um surpreendente panorama sobre os campos e o rio, com seus meandros e curvas, deste a foz
até próximo de Coimbra. Avultam como fundo as alturas das serras da Boa Viagem, Buçaco
e Roxo. Um pouco abaixo e num pequeno promontório sobre o rio Mondego encontra-se a
Capelinha da Senhora da Saúde, que se avista do mar alto e é de grande devoção dos
pescadores. Estes até costumam vir aqui em romagem, de barco, antes de partirem para
grandes viagens.
Já a caminho de São Luiz
(Maranhão), apareceu no Navio Cuco, um nu masculino, sem sabermos ao certo
como...
Carlos Leite Ribeiro
(Agradeço
a preciosa colaboração dos amigos, Maria Nascimento e Abílio e Luiza Terra)
Fim da 3ª Parte
A seguir:
(01)
índice da Viagem