"A Travessia do Atlântico"

Do Livro de Bordo

NATAL

A CAMINHO DE NATAL

1ª PARTE

Editor:Carlos Leite Ribeiro

Navio CUCO
Excursão (virtual) ao Litoral do Brasil
(Coordenação e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro)

          A viagem para a cidade de Natal, no Estado do Rio Grande decorria normalmente, embora todos os excursionistas mostrassem já saudades de ter abandonado Fortaleza. Mas a viagem ao litoral do Brasil, não podia ter parado na capital do Estado do Ceará. Em determinada altura, o Navio Cuco parou e logo a competentíssima Comandante Manuela Cuco quis saber o que se estava a passar. Para tal, interpelou o Coordenador Carlos, que lhe respondeu:
          "Comandante Manuela, o Navio Cuco está parado por falta de inspiração do coordenador que também tem tido muito frio por ter as meias rotas ... " A Manuela torceu o nariz e logo escreveu e mandou publicar o seguinte comunicado:
         
         
Comunicado da Comandante Manuela Madeira : Resposta da não médica
          "Coser as meias, pois as meias que apresenta que é causa para qualquer falta de inspiração. é que os pés ao relento por certo permitirão que o frio congele o cérebro;
          Não sabendo coser as meias pede à Linda auxilio;
          A linda não sabendo coser meias poderá sempre, aquecer-lhe os pés;
          Não resultando nenhuma das alternativas atrás referidas, aconselho uma visita até à cozinha do Cuco, pois quando mais não seja terá fogão e outras fontes de inspiração e conforto estomacal.
          Manuela Madeira
         
          Já com o Navio Cuco a seguir viagem, começou a acontecer a bordo coisas estranhas, que até aí não tinham acontecido. O primeiro acontecimento foi-nos relatado pelos detectives Luiza & Abílio:
         
          "
O QUE SE PASSOU A BORDO DO NAVIO CUCO, NO CAMAROTE DA ROSÉLIA! - Luiza & Abílio"

          "Meu Deus! Que braveza é essa? Parece que vem do camarote da Rosélia!
          Rosélia...Rosélia...
          Não, não é que era ela mesma!
          Rosélia abre a porta do seu camarote com uma expressão de dar medo, nunca ninguém a tinha visto tão brava assim!
          - O que foi, Rosélia? perguntou Abilio, todo preocupado com ela, pois parecia que ela ia desmaiar, tão pálida estava!.
          - O que foi? Nem te conto! Não posso acreditar, pois o xale de renda portuguesa que mamãe me deu sumiu! Entendeu? Sumiu! Evaporou-se!
          - Calma, Rosélia! Vamos reunir todos e vamos ver o que se pode fazer!
          A Comandante Manuela logo fez uma reunião com todos os passageiros, que com olhares desconfiados ficavam um a olhar para o outro.
          A Comandante Manuela perguntou:
          - Como é possível sumir alguma coisa aqui?
          Ninguém conseguia responder, e Rosélia ficava cada vez mais roxa de raiva e tão brava que estava até gaguejando!
          - Não acredito! O xale sempre esteve em meu quarto, tenho lá vários objetos que trago em todas as viagens e nunca sumiu nada! Gente! Foi um presente da minha mãe! O que faço agora? Ele é para mim como um talismã!
          Queerooooooooooooo o meuuuuuuuuuuu xale! Ajudem-me, por favor!
          Houve um grande silêncio (só se ouviam bem baixinhos os resmungos da Rosélia, que não sabia se xingava ou se chorava).
          Então, a Comandante Manuela determinou: todos os passageiros do Navio Cuco, juntos, fariam uma completa faxina no navio. Assim, quem sabe, se poderia encontrar o valioso xale de renda portuguesa da Rosélia.
          Von Trina, Humberto, Nilson, Paulo e Tito, olhando para o interior do Navio Cuco, diziam:
          - É brincadeira, ter agora que fazer faxina, essa não! A boa vida que levávamos estava demais, parecia um sonho. Imaginem só! Fazer faxina! Parece até brincadeira de quartel... Bem, como é para o bem da nossa amiga Rosélia... faremos tudo.
          O Carlos, se aproximando da Rosélia, lhe disse:
          - Querida amiga, não fique aflita. Tenho certeza que acharemos o seu talismã (quer dizer, o seu lindo xale). Será que entrou outro ratinho aqui?
          - Carlos, brincadeira tem hora, tá? Ratinho... essa é muito boa!
          Flora, Célia, Arlinda, Arneyde, Cristina e Vilma jogavam buraco e disseram que só iriam depois de terminar a partida.
          Gislaine, Henriette, Malou, Márcia, Regina, Marisa e Luiza estavam fazendo as unhas e estavam com os rostos brancos, pois haviam colocado máscaras de limpeza, e, conseqüentemente, não podiam falar nada...nada...nadinha... sob pena de perderem todo o seu valioso trabalho de beleza!
          O pessoal restante (ou seja, na sua maioria, os homens...) começaram a fazer a faxina. Como estava difícil! Nunca se vira tanta confusão assim!
          Chegou, então, a vez dos camarotes. Foi resolvido que todos entrariam juntos em cada camarote.
          Na verdade, estava até divertido: uns faziam gracinhas e outros se lembravam de fatos engraçados que haviam se passado quando eram mais jovens. E, assim, finalmente, chegaram todos ao camarote da Rosélia.
          Não estava difícil limpá-lo, pois Rosélia até que é bem organizada. Começaram pelas gavetas. Não acharam nada. Olharam no armário, debaixo do colchão, até na caixa de água da descarga...
          A Comandante Manuela já estava sem esperança, quando, de repente, voltou-se para a mesa que ficava no centro do quarto e viu um lindo pote de porcelana portuguesa. Nele estava escrito: "Biscoitos Caseiros".
          - Gente, vejam só! Era por isso que toda a noite ela dizia que iria deitar mais cedo e tomar um chazinho para dormir! Ah! Menina levada! Escondendo esse tempo todo esses biscoitinhos da gente...
          - Não é bem assim não! Claro, podem se servir a vontade! Sou meio esquecida e a gente ficava conversando... nem me lembrava mais desses biscoitinhos. Já devem estar bem durinhos...
          A Comandante Manuela, tirando a tampa do pote, ofereceu primeiro ao Carlos, que deu um grito quando enfiou a mão dentro do pote, pois em vez de tirar um delicioso biscoito, saiu com, nada mais, nada menos, do que o tão almejado e procurado xale de renda portuguesa da Rosélia!
          O espanto foi geral!
          Rosélia deu um gritinho e disse:
          - Gente, como sou esquecida! Lembram-se quando disseram que tinha um ratinho a bordo e até a Luiza nos disse que ele tinha roído o seu chinelo? Foi quando eu me lembrei da minha preciosidade e como os biscoitos já tinha acabado, enrolei o meu xale muito bem enroladinho e coloquei dentro do pote!
          De joelhos e mãos postas e com o xale na cabeça, Rosélia exclamava a altas vozes:
          - Obrigada, Senhor! Obrigada, São Judas Tadeu! Obrigada a todos os Anjos e Santos! Obrigada a todos vocês, meus amigos de viagem! Vou até cantar uma canção para vocês!
          Aproveitando a alegria geral, Von Trina foi buscar o bolo de nozes que fizera para a Comandante Manuela, que estava aniversariando, e todos juntos, numa grande algazarra, satisfeitos com aquele desfecho tão surpreendente e tranqüilo, fizeram um grande e eloqüente brinde às queridas amigas Comandante Manuela e Rosélia, assim como àquela verdadeira família, que compunha o grupo reunido no Navio Cuco!
          E assim Rosélia cantou como ninguém, sua voz parecia a de uma sereia, de tão suave e inebriante. Como por encanto, ali mesmo todos dormiram à luz do luar, que tudo iluminava, pois a Lua estava em sua fase plena!
          O Mi Burro, de tão feliz, zurrou a plenos pulmões para a Lua Cheia e, em seguida, fechou os seus olhos, dormindo com uma expressão de paz em sua face".
          Luiza & Abílio, S.A. - Detectives Particulares
         
          Mais tarde, a Wadad deu pela falta da sua amiga Henriette, que até aí tinha mostrado uma atitude quase angelical (como as mulheres enganam ...). Deu o alarme, mas foi logo tranquilizada pelo voo Trina, que lhe disse que a tinha visto entrar para uma barco esquisito, que se tinha afastado quase nos braços de um homem bastante barbudo. Ela nem queria acreditar, mas contra os factos... Como pormenor, diremos que o bronqueiro do Trina, já tinha contado a todo o mundo aquela escapadela da querida Henriette. Escusado dizer que todas estavam, disfarçadamente, à espera que a nossa amiga regressasse e, quando isso aconteceu, logo todos quiseram saber o que tinha acontecido ... com todos os pormenores...
         
          "Poxa, Amigos!... – começou a Henriette, que continuou: Era segredo! Como é que vocês ficaram sabendo? Acontece que recebi uma proposta irrecusável de Netuno e um passeio ao fundo do mar não é coisa que acontece todos os dias. Tinha certeza que ninguém tomara conhecimento de minha ausência por apenas algumas horas".
          Mas por fim, confidenciou-nos: "Netuno é um belo homem...O que me causou um pouco de receio foi o tridente que ele insistia em usar e o submarino conversível navegando a mais de 500 km/h. Prometi a Netuno que iria manter o sigilo e agora minha promessa foi quebrada...Vocês são impossíveis!". "...Henriette"
         
          Mas os acontecimentos, não param por aqui. Ou amiga que também parece uma santinha, incapaz de partir um prato, a Marisa Cajado, teve a infeliz ideia de telefonar à sua amiga Flamenga Aguda, para lhe contar um presumível sonho que tivera. Mas não contou com a malandrice do Humberto Santa (a Margarida nem sabe o diabo que tem em casa ...), como telegrafista do navio, ligou o telefonema à aparelhagem sonora do Cuco, e assim, todo o mundo pode ouvir o seu "sonho" ...:
         
         
"UMA NOITE CURIOSA - Marisa Cajado"
         
          "A noite estava tão linda que eu não aguentei. A lua tecia uma estrada prateada pelo mar e então meditei ... Mas meu Deus aqui no Cuco esta cucaria não quer saber de lua. Mama Arneyde na cozinha só preparando a comida . O Von às voltas das fechaduras do camarins. A Comandante Manuela só quer saber de tomar conta do cuco.. , mas não do navio deve ser de algum passarinho... o do relógio, mas que gente mais maliciosa. Aquela noite estava muito convidativa e fui para a proa com meu companheiro encostado no peito, o querido violão. Dei os primeiros acordes... de uma cantiga que escutava na infância. Luar do sertão.. Não há oh gente oh! não luar como este do sertão...
          Neste exato momento surgiu um barquinho. Nem acreditei... era um lindo marinheiro.. Olhos verdes cor do mar. Jogou uma corda e disse: Venha, vamos brindar a lua. Nem pestanejei. Aventureira que só, desci depressinha sentindo o brilho do luar clareando os cabelos presos ao ombro. Pendurado estava o violão.O marinheiro delicadamente acomodou-me num banquinho dizendo-me: - Aguarda, há muito que te espero, tenho uma grande surpresa para contar-te.
          - Como não sou nadinha curiosa fique esperando loucaaa de impaciência. Aquele barquinho parecia encantado. Surpreendi-me quando serviu um vinho delicioso acompanhado camarão empanado, eu adoro camarão , como será que ele sabia... Bem não sei de onde surgiu... Eu estava aflita... mas qual será a surpresa! Ele sentou-se a meu lado e disse-me aos ouvidos Faça pra mim uma canção. Abracei o violão com mais força e com o coração descompassado cantei: Olhos serenos do mar, a brilhar/ Conta-me de onde vem/Da sua energia, sua poesia/Os seus encantos/ Me fazem bem /Faz-me sonhar/Moço moreno/Faz-me voar/Sob o sereno/Moço moreno de olhar brejeiro/Sorriso matreiro/Meu marinheiro/Nos seus encantos /Vou me perder/E o meu canto/Há de reter/Moço moreno/, de olhar brejeiro/sorriso matreiro/Meu marinheiro.
          Ele abraçou-me com ternura. Eu logo indaguei...e a surpresa?... - Espera... respondeu ele com um sorriso enigmático.
          A brisa suave soprava e o mar parecia um lago de cristal . Eu estava encantada...mas o pensamento .. e a surpresa?
          Aquela pequena e intrigante embarcação parecia um chapéu de mágico. Num repente surgiu outro violão . Então o marinheiro cantou ... Ah! a sua voz tão maviosa... tão linda.. tão quente...
          "Moça morena/ de olhar de mel/ Face serena/ sorriso de céu/ Vem pro meu braço/ Enquanto te enlaço/ Vem viver nosso amor/ Há paz ao nosso redor/ Crianças sorrindo/ Com sonhos de cor/ Moça morena/ Face serena/ Tanto procurei/ Enfim te encontrei/ Moça morena/ És minha eu sei/"
          Abracei-o com tamanha doçura e fiquei assim encostada em seu ombro não posso dizer por quanto tempo. O sentimento no entanto, valeu pela eternidade.
          - Agora.. disse ele, é hora vou, revelar minha surpresa, o nosso segredo ....
          Mas aqui, minha querida amiga Flamenga, fui acordada pois alguém estava a bater à porta do meu camarote e, imagina que era o coordenador ... Ainda hoje estou para entender o porquê de ele me procurar, pois a resposta que me deu não me chegou a convencer : que se tinha enganado e não era ali que ele queria bater... Ele tem cara de santinho, mas nunca se sabe ... Abri a porta e disparei logo em sua cara :
          - Mas Carlitoooooooooooooooooooooooo estou muito bravaaaaaaaaaaa, muito mesmo viu!!!!!!!!!!!!!!! por que me acordou... Tive um sonho tão lindo! Um sonho de amor!".
          "Marisa Cajado"

         Carlos Leite Ribeiro

A seguir:(02)

índice da Viagem

 

Música de Fundo: A Mulher de Cada Porto - Chico Buarque e Eduto Lobo