Antologia - por Cibele Carvalho,ARTE E REALIDADE - MAR2012

Antologia Virtual
-IV-
PÁGINA 2


 

01 -

Cibele Carvalho

 

GOSTO
Cibele Carvalho


Gosto de ver-te pronto para o amor,
de saber que desperto teu vigor
e que meu corpo te põe com desejo.
Gosto do roçar da minha pele nua
na quentura que provém da tua,
no momento ardente do primeiro beijo.
Gosto quando chegas e me enlaças
e da força com que tu me abraças,
enquanto embaraças meus cabelos.
Gosto quando encosto meu rosto
e meus lábios deslizam com gosto,
em teu peito de macios pelos,
satisfazendo os teus muitos apelos.
Gosto de sentir que estás em mim,
no momento mágico da união,
e explodir junto contigo de emoção
na apoteose desse amor sem fim.

RJ, 24/02/12

~ * ~

Vida Dupla
Cibele Carvalho


De gestos calmos, modo controlado,
ela transpira a serenidade.
De jeito prático, determinado,
resolve tudo sem fazer alarde.
Quem vê seu viver sossegado,
não imagina o seu outro lado
- puro instinto, animal descontrolado.
É quando sente a fome de amor
e quer seu apetite saciado.
Põe de lado todo o seu pudor
- fera solta, animal predador.
Então, solta as rédeas do desejo
e, sôfrega, entrega seu beijo
a quem esteja disposto a acolhê-lo.
Procura o belo, o que lhe apetece
e, com ele, da vida ela esquece.
Se farta no banquete escolhido,
deixa aflorar toda a sua libido,
no afã de saciar seu apetite.
Prova dos pratos ricos, variados,
experimenta alguns inusitados,
a tudo ela se permite.
E na apoteose desse seu banquete
ela solta um grito, no deleite,
e volta à calma de fera saciada.
Então se volta, outra vez controlada
- fera por um tempo amansada...
até o dia da próxima caçada.


02 -

Marcos Toledo

Marcos Toledo, advogado, nascido em São Paulo, residente no Rio de Janeiro. Livros publicados: Um lindo lugar (Romance - solo); Solidão a dois (Romance interativo, em parceria); Gilda (Romance interativo, em parceria) e Seus olhos verdes (romance solo). Criador e editor da Minirrevista Literária Contando e Poetizando, com publicações gratuitas de textos poéticos de amigos internautas. site pessoal: www.mcatoledo.adv.br

O BISPO


Na minha caminhada de padre, certa vez fui enviado para uma cidadezinha, no interior de Minas Gerais. Como muitos sabem, quando as mudanças acontecem, saímos apenas com nossas roupas. Chegando ao lugar designado pela cúria, arrumamo-nos da melhor forma possível. Pedimos doações aos paroquianos e conseguimos móveis, fogão, geladeira... Em algumas paróquias, encontramos tudo deixado pelo antigo padre, mas nessa nada havia.
Ao saber que havia um novo padre, a cidade se abriu em festa - a primeira missa foi uma alegria só e, ao final, falei que precisava de algumas doações, entre elas, cama, fogão e geladeira. Acrescentei que nada precisava ser novo, mas que dormir no chão estava me fazendo mal à coluna.
À tarde, chegaram alguns objetos. Fui arrumando tudo como podia, mas fiquei um pouco preocupado, porque não chegava doação de fogão e eu não aguentava mais comer pão com mortadela desde que chegara, há três dias.
À noite, cansado de tanto arrastar móvel, a fome me veio com força total. Comi o último pão com mortadela, empurrado com grandes goles d’água, para não entalar.
Na manhã seguinte, acordei com mais fome ainda, mas não podia comer mesmo... o jejum sempre foi e será um lema. A fome era terrível e, ao final da missa, comentei que não ganhara fogão para fazer minhas refeições e blá, blá, blá.
Alguns paroquianos chegaram a mim e disseram que possuíam fogões que poderiam doar, mas que não tinham como transportá-los. Disse a eles que poderiam ter avisado na missa, pois talvez conseguíssemos o transporte. Mas já era tarde. Todos haviam ido embora, menos um que presenciou meu desespero e perguntou se eu queria almoçar com ele.
Ah! Essas palavras eram tudo o que eu queria ouvir. Aceitei e agradeci, dizendo que iria trocar de roupa para ir com ele. Ele, então, disse – padre, eu não vou para casa agora; tenho algumas coisas a resolver na cidade e, assim que terminar por lá, venho aqui pegá-lo para irmos juntos.
Entrei na igreja, providenciei várias coisas e nada do paroquiano... Já eram três horas da tarde e nada do paroquiano que só apareceu às três e meia...
Subi na sua carroça e fomos rua adiante. Rodávamos há meia hora, quando perguntei se faltava muito para chegarmos. Ele sorriu para mim e disse que não, que era logo ali. Olhei à volta e não vi casa alguma - só morro e horizonte.
A minha barriga gemia de dor. Cada vaquinha que via, eu imaginava num espeto. Já nem olhava as aves com bons olhos - elas pareciam estar rolando em uma churrasqueira.
Depois que minha barriga deu uma trégua para eu falar, voltei a perguntar se faltava muito para chegarmos. Ele disse - não, padre, agora é só dobrar ali que chegaremos.
Realmente ele tinha razão: foi só dobrar ali, a uns três quilômetros e chegamos. Ao ver-nos, sua esposa e filhos fizeram uma festa, por saberem que o padre iria almoçar com eles. Ainda perguntei por que eles não foram à missa e ela disse que, primeiro, o marido iria, para saber se o padre era bom ou não e, depois, os levaria com ele. A minha fome era tanta, que não quis perguntar mais nada.
Quando entrei na humilde casa, o cheiro da comida que invadia o ambiente invadiu meu nariz e minha barriga logo começou a dar sinal. Eu não sabia se ela estava reclamando de fome ou sorrindo de alegria. A dona da casa colocou, à mesa, pratinhos de alumínio e, para mim, um prato de vidro, dizendo que era do seu enxoval. Pensei em perguntar por que só eu iria receber prato de vidro, mas fiquei calado. O que eu queria era comer logo, pois já eram cinco e meia e minha barriga não estava mais aguentando; já estava vendo miragem.
O paroquiano sentou-se numa cabeceira e ofereceu-me a outra. Sua esposa trouxe as panelas para a mesa, chamou os dois meninos e sentou-se. Como padre, eu disse que iria agradecer a refeição e fiz uma oração rápida, daquelas assim: agradeço essa refeição, amém. A mulher, porém, disse que como era a primeira vez que o padre vinha à sua casa gostaria que o filho mais velho fizesse uma oração que ela havia ensinado.
Aquilo bateu como uma bomba em minha cabeça. Minha barriga parecia que tinha ouvido tudo e resmungou logo. Olhei disfarçadamente para o relógio e vi que já eram seis horas da tarde. O menino, muito envergonhado, disse para a mãe que faria em outra ocasião e eu, delicadamente, mas apressado, disse para ele - faça a oração logo, menino.
O menino respondeu que sim, me olhando já com um pouco de medo. Colocou sua mãozinha no bolso da bermuda, tirou um terço e perguntou:
- É um Credo, um Pai-Nosso, três Ave-Marias,“Glória ao Pai”, primeiro mistério, outro Pai-Nosso, dez Ave-Marias e assim por diante, né, padre?
Pensei – agora, não almoço mais... só janto.
AMÉM
Marcos Toledo
(Este conto é em homenagem a Dom Edney, baseado numa história contada por ele, no ano de 2006 na Paróquia Nossa Senhora da Luz do Rocha, transformada e romanceada pelo autor).

 

03 -

Maria Tomasia Evangelista de Middendorf

Maria Tomasia Evangelista de Middendorf, bacharel em Direito, mas sempre tive como profissão o Secretariado Executivo, atualmente, aposentada. Mineira de Viçosa-MG, adoro ler, ouvir músicas, de preferência clássicas, new age e árias de Óperas, gosto de modas, gastronomia, sou cultora de Baco, porque amo degustar vinhos e, para conhecê-los, fiz cursos e visitei diversas bodegas.
Não me considero poeta; apenas extravaso meus sentimentos.

 

A Chegada do Outono
Maria Tomasia


Folhas ao vento dançando,
dias de céu cinzento.
Árvores sempre oscilando,
parecem ao desalento.

As folhas ficam douradas
e se espalham pelo chão,
formando belas estradas
que encantam a visão.

É uma estação amena,
propícia a quem sente amor.
Deixa a noite mais serena,
despertando mais ardor.

Os pássaros em debandada,
procuram por outros galhos
para construir sua morada
e poderem ter agasalhos.



~ * ~

DILUO-ME
Maria Tomasia


Diluo-me no tempo,
porque nada sou.
Basta um sopro forte do vento
para que pedaços de mim se esvaiam.
A fumaça que sai do toco da vela,
aos poucos, leva o que um dia fui,
diluindo-me tal qual pedra de gelo.
Sonhos já não possuo,
ilusões ficaram para trás.
Não sou ninguém, nem fracassos tenho.
Esperanças já não existem.
Nada mais desejo da vida,
porque aqui não encontro guarida.
Quem sabe se já fui alguém?
Acho que, por todo o tempo,
nada fui e sequer vivi
- e agora vejo meu fim.


 

04 -

Carlos Eduardo Rosas de Toledo

Carlos Eduardo Rosas de Toledo – Mestrando em Ciência, Tecnologia e Educação pelo CEFET/RJ, Licenciado em Física pela UERJ e Técnico em Mecânica pelo CEFET. Professor e Coordenador de Física da Rede Particular de Ensino do Rio de Janeiro. Participante da Coordenação da Olimpíada Brasileira de Física (OBF).
 

O CRIME

Ela o conhecia como ninguém. Durante um ano passara cinco horas por dia observando tudo com muita atenção. Hoje é o dia! Pensa no que guarda dentro da bolsa pronto para ser utilizado. A decisão é muito difícil, foi calmamente pensada e arquitetada durante pelo menos os últimos seis meses. Não sentia prazer e ele não foi escolhido sem uma razão.

Era necessário acabar com aquilo! Suas mãos úmidas e as unhas no sabugo refletiam que pensava nas consequências. Como olharia para os pais que tanto amavam aquele filho.

Pais que não entendem e a culpariam para sempre pela interrupção dos seus planos. O vermelho manchado nas páginas da história dessa inocente criança. O arrependimento. Mas tudo isso era necessário. Mesmo sabendo da condenação, os motivos eram reais. No passado, na mesma situação, não se teria pensado duas vezes para uma parte de seu dever ser cumprido. Tantos eram feitos e a sociedade apoiava, era justo e correto; mas hoje não. Em tempo: suas decisões eram ouvidas e seus julgamentos não eram contestados e sim executados. Depois, tudo corria bem, não se tinha traumas, transtornos ou psicoses. Muitos eram agradecidos pela mudança no curso da vida. Hoje, os estudiosos culpam sua própria trajetória como sendo o motivo das lacunas futuras, mas o motivo não era seu.

A sentença tinha que ser dada. Não podia mais esperar. Em sua bolsa, procura com a mão trêmula o objeto. Discretamente retira e coloca-o sobre a mesa. Alguns não observam, mas os que percebem calam-se ao olhar tamanho poder. Ela olha para ele que, distraído, não sabe o que irá acontecer.

O silêncio chama atenção e, ao virar-se, seu olhar vai da face para as mãos de seu algoz. Esse instante parece durar horas e ambas as faces mudam de expressão lentamente. Ela sabe que ainda é tempo de mudar e não precisar passar por tudo o que irá ocorrer. Só depende dela. Mas não tem mais jeito! Olha para baixo para ter certeza e então para frente; o som é ouvido:

- João, infelizmente você tirou zero na prova e não passou de ano.

- Como assim? Eu estudei muito!! Minha mãe gastou mais de 500 reais em professor particular.

 Eu vou ligar pra ela, eu não posso repetir!!!

O crime tinha sido realizado, e a condenação dela estava por vir.

 

 

 

05 -

Nídia Vargas Potsch
@Mensageir@

Meu nome completo: Nídia Vargas Potsch, Nickname - @Mensageir@
Data de Nascimento: 22/09/1945 - Natural: Rio de Janeiro
Profissão: Pedagoga aposentada
Sígno - Virgem; Ascendente: Capricórnio
Uma Paixão: A Magia da Vida; Um Amor: A família
Uma Crença: Deus sob todas as formas.
Um Dengo: Minha filha. Uma Saudade: Meus Pets que se foram.
Hobby: Escrever, fotografar, viajar.
Frase que norteia minha Vida: "Onde quer que vás, leva o teu coração!" (Confúcio)
Comecei a me interessar por poesias há algum tempo, pois escrevia apenas textos. A Poesia me abriu um Mundo Novo de prazeres infindos. Não me considero Poeta.
Gosto de brincar com a força e o efeito das palavras que atingem nossa alma e coração...
Portanto, sou uma Rabiscadora de Emoções e Sentimentos.
"Da vida que não vivi, levarei os sonhos que perdi!"
NVPotsch

 

No refúgio de um sonho...
Nídia Vargas Potsch
(rondel)


Em sonhos me refugiei em vão
Por medo de perder teu amor
Sonhar é pouco sem a emoção
De envolvimento arrebatador...

Desejava isso e fugi sem noção
Que o desfecho fosse destruidor
Em sonhos me refugiei em vão
Por medo de perder teu amor...

Percorri a esmo caminhos da omissão
Insana, recuei desse amor usurpador
Queria a alma ardente e não a lentidão.
E, com receio de receber afeto traidor
Em sonhos me refugiei em vão ...

@Mensageir@


~ * ~
"Por trilhas inesperadas, das voltas da vida,
nos possibilitam felizes reencontros!"
NV.Potsch


~ * ~
Amor ao Entardecer...
Nídia Vargas Potsch


Nossas auras resplandecem
nesse entardecer do silente amor que abraçam.
Voam, flutuam incansáveis
como cabelos levados pelo vento...
A lágrima calada
que a magia do momento disfarça,
como as labaredas da paixão em delírio
deste eterno padecer, hão de se exteriorizar...
Talvez em outra dimensão possamos
caminhar juntos e em total paz!

@Mensageir@


 

 
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