ASCENSO FERREIRA
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Na
rua dos Tocos, em Palmares, Pernambuco, na madrugada do dia 9 de
maio de 1895, nascia um futuro grande poeta. Seu pai era o
comerciante Antônio Carneiro Torres e sua mãe a professora Maria
Luísa Gonçalves Ferreira, cujo apelido era Dona Marocas.
Em 1917, aquele menino, que fora registrado como Aníbal Torres,
decidia mudar o seu nome para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira.
E, no futuro, ficava conhecido, apenas, como Ascenso Ferreira.
Ascenso passou toda a sua infância em Palmares. Aprendera a ler e a
escrever graças aos esforços de Dona Marocas, uma dedicada
professora de escola pública, porque aos 6 anos de idade ficara
órfão de pai.
Aos 13 anos, devido à carência de recursos materiais, aquele jovem
tinha que trabalhar 10 horas por dia: havia se empregado como
balconista na loja A Fronteira, de propriedade de Joaquim Ribeiro,
seu padrinho de batismo. Aprenderia muito na vida vendendo meias
quartas de carne seca, bicadas de aguardente, cuias de farinha e
meias garrafas de querosene.
Portanto, foi através do povo que ele adquiria conhecimentos sobre
as mulas-sem-cabeças, os lobisomes e demais personagens do folclore
do Nordeste do Brasil. Ainda adolescente, Ascenso já publicava as
primeiras poesias, onde ressaltava os elementos típicos regionais: a
cana-de-açúcar, o carro de boi, os folguedos, as lendas, em suma, a
cultura popular. Tornava-se conhecido, então, como "o filho da
professora metido a poeta".
No ano de 1916, juntamente com outros poetas, Ascenso fundava a
sociedade "Hora Literária". Mas, por defender o abolicionismo, ele
passava a ser perseguido politicamente. Mais tarde, sobre essa fase
da vida, o poeta escreveria:
Mamãe foi demitida com 25 anos de serviço! Tivemos a casa pichada;
fui vaiado um dia na rua; corrido acintosamente pela polícia;
ameaçado de prisão... O estabelecimento de meu padrinho, devido a
sua morte, entrara em liquidação. Fiquei sem emprego e sem ter
ninguém em Palmares que me quisesse aproveitar os serviços, pois
todos tinham receio de desagradar os senhores da situação.
Quando veio residir no Recife, aos 24 anos de idade, Ascenso
conseguiu um emprego administrativo, indo trabalhar como
escriturário do Tesouro do Estado de Pernambuco. Como poeta,
entretanto, ele era lançado pelos estudantes da Faculdade de Direito
do Recife, que o obrigaram, em certa ocasião, a declamar seus versos
no palco do Teatro Santa Isabel.
Ascenso possuía um aguçado sentido de ritmo. Através dos seus
poemas, conseguia fazer com que as pessoas ouvissem, por exemplo, o
trem de Alagoas correndo sobre os trilhos:
[...] Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos
que amostram, molengos,
as mamas macias
pra gente mamar...
Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar[...]
Em 1921, no Recife, Ascenso Ferreira se casa com a jovem palmarense
Maria Stela de Barros Griz, filha do poeta Fernando Griz. No ano
seguinte, publicava seus poemas nos jornais Diario de Pernambuco e A
Província. Tornava-se um grande amigo de Luís da Câmara Cascudo,
Joaquim Cardozo, Souza Barros e Gouveia de Barros.
Ascenso participava de muitos recitais e escrevia o seu primeiro
poema modernista: Lusco-Fusco. Em 1927, incentivado por Manuel
Bandeira, ele publicava o seu primeiro livro: Catimbó.
No ano seguinte, saía no Recife a segunda edição do seu livro, que
já tinha sido lançado no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta
cidade, o poeta dava um recital no Teatro de Brinquedos, sendo muito
aplaudido, e fazia amizade com vários intelectuais e artistas do sul
do País: Mário de Andrade, Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Eugênia
Alvaro Moreira, Oswald de Andrade, Olívia Penteado, Afonso Arinos de
Melo Franco e Tarsila do Amaral.
Ascenso publicava o livro Cana caiana, em 1939, com as ilustrações
de Lula Cardoso Ayres. Nessa época, tornara a viajar para o Rio de
Janeiro, onde conhecia Cândido Portinari, Sérgio Milliet, Osvaldo
Costa, entre outras personalidades.
No início da década de 1940, Ascenso se aposentava como diretor da
Receita do Tesouro do Estado de Pernambuco e, já um homem maduro,
vem a se apaixonar por uma jovem adolescente - Maria de Lourdes
Medeiros - indo viver em sua companhia. Em 1948, nasceria a sua
filha Maria Luíza. Esta menina foi a sua maior fonte de preocupação
na fase final da vida, porque ele temia não viver mais tanto tempo e
ter que deixá-la, ainda bem nova, órfã de pai.
Uma outra obra de Ascenso, intitulada Poemas e xenhehém, era lançada
em 1951. Dessa vez, ele viajava para o Rio de Janeiro, São Paulo e
Minas Gerais, por um período de três meses, para realizar
conferências, gravações e dar recitais. No Congresso de Escritores,
ocorrido em Goiânia, ele se tornava amigo do célebre Pablo Neruda.
O poeta assinava um contrato com José Olympio Editora, em 1956, para
uma nova edição dos seus poemas. Pouco tempo depois, lançava um
álbum duplo de discos com as suas obras completas "64 poemas
escolhidos e 3 historietas populares", com a apresentação de Câmara
Cascudo. Além do mais, ele seria o quarto poeta brasileiro a ter a
sua voz gravada para a Biblioteca do Congresso, em Washington.
Ascenso tinha quase 2m de altura, usava um chapéu de palha na
cabeça, adorava comer e fumava sempre um grande charuto. Um de seus
amigos lembrava que, certa tarde, depois de tomar banho no rio
Passarinho, o guloso poeta almoçou três pratos fundos de sarapatel,
com farinha de mandioca e pimenta malagueta, bebeu um litro de
aguardente com mel de abelha, e, de sobremesa, ainda comeu a metade
de uma jaca mole. Quando chegara em casa, à noite, disse à esposa
que estava sem fome e, por isso, se contentava com um prato de pirão
de leite e um pedaço de carne de sol.
Sobre o poeta, Manuel Bandeira escrevia:
Ascenso Ferreira tem uma estatura gigantesca, que, a princípio,
assusta. No entanto, basta ele abrir a boca, para dissipar todos os
terrores: é um sentimentalão, e sentimentalmente compreendeu e
cantou o drama doloroso do matuto a quem ama [...] Os seus poemas
são verdadeiras rapsódias nordestinas, onde se espelhou fielmente a
alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações
dos engenhos.
Por sua vez, Luís da Câmara Cascudo ressaltava: “Ascenso Ferreira,
Ascensão, Ascenso Grandão, voz grossa de sapanta-boiada, chapelão
imenso de carro de bois no alto do metro e noventa de estatura,
coroando mais de cem quilos bem pesados.”
Transcreve-se a seguir, um dos mais belos poemas criados por Ascenso
Ferreira.
História Pátria
Plantando mandioca, plantando feijão,
colhendo café, borracha, cacau,
comendo pamonha, canjica, mingau,
rezando de tarde nossa Ave-Maria,
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
A gente vivia.
De festas no ano só quatro é que havia:
Entrudo e Natal, Quaresma e Sanjoão!
Mas tudo emendava num só carrilhão!
E a gente vadiava, dançava, comia...
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Todo santo dia!
O Rei, entretanto, não era da terra!
E gente pra Europa mandou-se estudar...
Gentinha idiota que trouxe a mania
de nos transformar
da noite pro dia...
A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
(E foi um dia a nossa civilização tão fácil de criar!)
Passou-se a pensar,
passou-se a cantar,
passou-se a dançar,
passou-se a comer,
passou-se a vestir,
passou-se a viver,
passou-se a sentir,
tal como Paris
pensava,
cantava,
comia,
Sentia...
A gente que tão
Negramente...
Caboclamente...
Portuguesamente...
Vivia!
Em uma poesia intitulada Filosofia, Ascenso
registrava:
Hora de comer – comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
-Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
Uma outra poesia sua que merece ser transcrita é a seguinte:
Minha Escola
A escola que eu freqüentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
À sua porta eu estacava sempre hesitante...
De um lado a vida... – A minha adorável vida de criança:
Pinhões... Papagaios... Carreiras ao sol...
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio...
Jogos de castanhas...
- O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
"As armas e os barões assinalados!"
- Quantas orações?
- Qual é o maior rio da China?
- A 2 + 2 A B = quanto?
- Que é curvilíneo, convexo?
- Menino, venha dar sua lição de retórica!
- "Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!"
- Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
- Agora, a de francês:
- "Quand le christianisme avait apparu sur la terre..."
- Basta.
- Hoje temos sabatina...
- O argumento é a bolo!
- Qual é a distância da Terra ao Sol?
- ? !!
- Não sabe? Passe a mão à palmatória!
- Bem, amanhã quero isso de cor...
Felizmente, à boca da noite,
Eu tinha uma velha que me contava histórias...
Lindas histórias do reino da Mãe-d’Água...
E me ensinava a tomar a benção à lua nova.
No dia 5 de maio de 1965, poucos dias antes de completar 70 anos de
idade, Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, o magnífico poeta dos
engenhos, das casas-grandes, da cana-de-açúcar, dos vaqueiros, dos
cangaceiros, do bumba-meu-boi, do carnaval, dos cegos violeiros,
falecia no Hospital Centenário, no Recife.
Para homenageá-lo, a Prefeitura da Cidade mandou colocar seu busto
na rua do Apolo, no bairro do Recife, local onde o poeta gostava
muito de perambular. E, no pedestal do busto, mais um de seus belos
versos foi gravado:
Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife, que atrás do arruado
deserto ficou,
criança , de novo,
eu sinto que sou.
Fontes consultadas:
FERREIRA, Ascenso. Catimbó – Cana caiana – Xenhenhém: poemas de
Ascenso Ferreira. 5. ed. Recife: Nordestal Ed., 1995.
_________. Catimbó. 2. ed. Recife: Companhia Editora de
Pernambuco, 1988.
LUNA, Luiz. Ascenso Ferreira: menestrel do povo. Rio de
Janeiro: Editora Paralelo, 1971.
SILVA, Jorge Fernandes da. Vidas que não morrem. Recife:
Departamento de Cultura, 1982.