IGREJA DE SÃO PEDRO DOS CLÉRIGOS
(Recife, PE)
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Apresentando duas
elegantes torres simétricas, com tochas nas quinas, e uma
cúpula imponente, a catedral de São Pedro dos Clérigos
representa uma das obras arquitetônicas religiosas mais
expressivas de Pernambuco. Ela possui um estilo barroco,
advém do princípio do século XVIII (quando foi instituída a
Irmandade de São Pedro dos Clérigos no Recife), e está
localizada no bairro de Santo Antônio. A sua construção
começou em 1728, mas a igreja só pôde ser sagrada no dia 30
de janeiro de 1782.
Segundo o pesquisador José Luiz Mota Menezes, a catedral
possui uma grandiosa e refinada arquitetura de concepção:
uma fachada rica, que desemboca em pátios exíguos, uma
contrafacção principal, espelhando o século XVIII, e um
interior que traz a marca do século XVII.
A planta da construção foi idealizada por Manuel Ferreira
Jácome, um competente mestre-pedreiro. Ressaltam alguns
técnicos em arte religiosa que a igreja possui uma nave
octogonal sobre um desenho elíptico, e peanhas (pequenos
pedestais onde se assentam imagens) octogonais. Os pináculos
(pontos mais altos) das duas torres, e a cúpula pequena
sobre um tambor octogonal, são desenhos emprestados das
torres de Braga, cidade ao norte de Portugal. A frente do
templo tem um gradil de ferro que separa o átrio do pátio, e
a porta principal encontra-se ladeada por colunas duplas.
Internamente, o teto e algumas laterais evidenciam belas
pinturas (em tom sombrio) feitas pelo pernambucano João de
Deus Sepúlveda. Este profissional trabalhou em regime
integral, durante quase quatro anos, deitado em uma cama de
lona suspensa por carretéis, para conseguir combinar as
tintas importadas de Lisboa e pintar o teto da igreja. A
pintura do forro do coro, por outro lado, foi elaborada por
seu ajudante, Manuel de Jesus Pinto, entre 1806 e 1807.
Manuel é o autor da tela O Primado de São Pedro, que
apresenta, em cores claras e brilhantes, o Mestre entregando
as chaves da igreja a Pedro.
As portas do templo são pesadas, feitas em madeira
jacarandá-mármore, e evidenciam belas almofadas trabalhadas.
A igreja possui ainda obras delicadas de entalhamento
(talhas douradas) e arabescos, com saliências e simetrias,
grandes janelas com molduras barrocas e balaustradas, assim
como janelas pequenas. Nas laterais do prédio, colunas
gêmeas, coríntias, e sereias exóticas, podem ser apreciadas.
Há, também, cataventos de anjinhos sobre as torres e, atrás
da igreja, um pequeno cemitério.
O altar-mor é entalhado em madeira-mármore, com retábulos
(painéis ou quadros decorativos) expressivos, destacando-se,
entre suas colunas, as imagens de São Paulo e Santo Antônio
de Pádua, que ladeiam a figura de São Pedro. Esta imagem,
trazida de Lisboa em 1746, apresenta São Pedro com vestes
pontificais e com uma tiara na cabeça. Todas os santos
presentes na igreja são datados dos séculos XVIII e XIX.
Em alguns dias de festa, os fiéis podem ver um crucifixo
bastante pesado, feito em ouro maciço, sendo carregado por
São Pedro. Essa jóia possui três cravos de diamantes, e a
sua cruz é uma tarrafa sextavada, contendo uma relíquia do
Santo Lenho. O crucifixo foi um trabalho do artista-ourives
recifense Antônio Rodrigues Machado.
A capela-mor da catedral contém um teto em madeira,
ricamente esculpido, onde é possível apreciar, sob a forma
de medalhões, as armas de São Pedro, as imagens dos 12
apóstolos e dos 4 evangelistas, três balcões ou tribunas (de
cada lado), e 36 cadeiras esculpidas em jacarandá.
A sacristia apresenta uma pintura no teto (os 12 apóstolos
sob a pomba do Espírito Santo), um altar com a imagem de
Nossa Senhora da Soledade, e seis retábulos onde foram
pintados, em corpo inteiro, o papa São Silvestre, o
cardeal-bispo São Galdino, o arcebispo São João Crisóstomo,
o papa São Damaso, o cardeal-arcebispo Carlos Borromeu, e o
arcebispo-doutor Santo Ambrósio. Na sacristia vê-se, ainda,
um lavabo de pedra portuguesa, uma cômoda dourada, dois
repositórios e, no piso, encontram-se gravados dois
epitáfios, com os seguintes dizeres:
AQUI JAZEM OS MAIORES PECADORES PEDEM PELO AMOR DE DEOS HUM
PADRE NOSSO E HUMA AVE MARIA - 1829.
AQUY JAZ OS MAYORES PECCADORES DO MUNDO PEDEM PELLAS SUAS
ALMAS HUMA AVE MARIA PELLO AMOR DE DEOS.
Na metade do século XIX, a capela-mor e os altares da
igreja, bem como as talhas, as paredes e o teto do prédio,
apresentaram muitos desgastes. O padre Inácio Francisco dos
Santos foi indicado, na época, por uma comissão da Irmandade
de São Pedro dos Clérigos, para dirigir os trabalhos de
reparação da catedral.
A despeito de os recursos disponíveis terem sido escassos,
aquele padre enfrentou o problema sozinho, conseguindo
doações, esmolas, e o apoio de um bispo da diocese. Em sendo
assim, contratou vários artistas locais, mandou vir
entalhadores de Lisboa - entre os quais o mestre Bernardino
José Monteiro -, e, após quase onze anos de árduo trabalho,
conseguiu reformar e recuperar a catedral. A nova
capela-mor, por sua vez, foi toda desenhada pelo padre
Inácio Francisco, tendo ele confeccionado, inclusive, o
sacrário de jacarandá presente na igreja.
A primeira imagem do templo é a de São Pedro, encontrando-se
no pavimento superior. Ela é toda em madeira, com a cruz
papal na mão direita e, infelizmente, teve a mão esquerda
danificada. Essa imagem é bastante preciosa, uma vez que
data da inauguração da igreja. Apenas em procissões solenes,
é carregada pelas ruas do Recife.
Embora se encontre, hoje, apertada entre ruas estreitas, que
foram calçadas nos tempos coloniais, a Igreja de São Pedro
dos Clérigos continua esbanjando o seu imponente traçado
arquitetônico, à luz do espaço urbano recifense.
Fontes consultadas:
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria de
Educação e Cultura, 1977.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas do Recife, Olinda e Igarassu.
[Recife?: s.n., 196?].
_________. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife:
Fundação Guararapes, 1970.
MENEZES, José Luiz da Mota. Arrecifes: Revista do Conselho
Municipal de Cultura do Recife, ano 3, n. 2, [19--?].