

Maria do Carmo Barreto

Maria do
Carmo Barreto Campello de Melo (ou Carminha, como costumava ser tratada por
familiares e amigos) nasceu no Recife, no dia 21 de julho de 1924, e viveu
muitos anos no antigo Engenho da Torre, em cujo terreno se localiza, hoje, o
bairro da Torre. Seus pais foram Francisco Barreto Rodrigues Campello
(jurista) e Lilia Araújo. O casal teve doze filhos. Posteriormente, sua
família residiu algum tempo no Rio de Janeiro, quando o jurista foi eleito
deputado federal.
Quando os Barreto Campello voltaram ao Recife, Carminha fez o bacharelato em
Letras Clássicas, e a licenciatura em Didática de Letras Clássicas, na
Faculdade de Filosofia do Recife. Posteriormente, concluiu o Aperfeiçoamento
em Literatura e Língua Portuguesa. Em 1948, casou com José Otávio de Melo
(engenheiro, fotógrafo e professor), com quem teve oito filhos.
No tocante à área profissional, Carminha foi professora de Português, Latim,
e Literatura Portuguesa e Brasileira. Nos anos 1960, atuou como jornalista
no Jornal do Commercio, onde foi responsável por uma coluna de página
inteira, intitulada Nossa Página, dedicada à arte e a temas gerais.
Trabalhou, também, durante vinte e cinco anos, como técnica em Comunicação
Social, na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).
Além de escritora, Carminha figura entre as mais importantes poetisas
nordestinas da atualidade, tendo ocupado a cadeira nº 29 da Academia
Pernambucana de Letras (APL). Ela foi membro do Seminário de Tropicologia do
então Instituto de Pesquisas Sociais Joaquim Nabuco, hoje, Fundação Joaquim
Nabuco; ocupou diversos cargos ligados à Educação e à Cultura; e integrou,
também, a Academia Pernambucana de Artes e Letras do Nordeste, e a União
Brasileira de Escritores – Seção Pernambuco (UBE-PE). Recebeu várias
medalhas, prêmios e comendas.
Participou de quase todos os eventos que ocorreram nos meios literários do
Recife, tais como encontros, lançamentos de livros, palestras, congressos, e
comissões de prêmios literários.
Seus escritos foram incluídos nas seguintes antologias: Catálogo de Poesia;
Palavra de Mulher e Seleta de Autores Pernambucanos; Antologia Nacional de
Poesia e da Mulher na Poesia Pernambucana; Poésie du Brésil; Poemas de Sal e
Sol; Corpo Lunar; e Projeto Literatura nos Trópicos. Esta última obra,
composta de três livros - Água dos Trópicos, Fauna e Flora dos Trópicos, e
Amor nosTrópicos - foi lançada em Portugal.
A autora teve as seguintes obras poéticas publicadas: Música do Silêncio I
(1968); Música do Silêncio II (1971); O Tempo Reinventado (1972); Verde Vida
(1976); Ser em Trânsito (1979); Miradouro (1982); Partitura Sem Som (1983);
De Adeus e Borboletas (1985); Retrato Abstrato (1990); Solidão Compartilhada
(1994); Visitação da Vida (2000); e A Consoada (2003).
Católica fervorosa, Carminha escreveu muitas poesias imbuídas pela forte
religiosidade e sentimentos cristãos que possuía. Para ela, a inspiração
nada mais era que um dom do Espírito Santo. Junto com Bartyra Soares,
redigiu Oratório da Paixão; e, com Rubem Rocha Filho, compôs um louvor
póstumo ao antropólogo Gilberto Freyre, que foi editado pela Fundação
Joaquim Nabuco com o título Itinerário de uma Admiração.
Sobre a poetisa, Carlos Alberto Barreto Campello de Melo - um dos seus
filhos - ressaltou: “Os três pontos que a nortearam foram, nesta ordem:
Deus, no sentido de vivência cristã (principalmente a dedicação aos pobres),
a família e a poesia. Sendo, os dois últimos, manifestações concretas dos
dons recebidos pelo primeiro.
E salientou, ainda: “Apesar de ser irredutível em suas convicções
religiosas, morais e políticas, minha mãe, durante toda a vida, foi amiga e
confidente de pessoas que não comungavam das mesmas posições que ela. Muitas
vezes, era com muita doçura que ela defendia e acolhia as pessoas em nossa
casa. Pode-se dizer que ela traduzia a Misericórdia Divina.”
Carminha foi parte integrante do Projeto Arte e Vida, que, por meio de aulas
de reforço, do teatro, da música, da dança, das artes plásticas, e da
valorização da auto-estima, tinha como objetivo afastar crianças e
adolescentes do convívio diário com a violência e o tráfico de drogas. No
Projeto, Carminha atuou como Coordenadora de Literatura em três comunidades
violentas do Recife: a favela do Coque, a favela de Santo Amaro, e a favela
do Pilar.
Em junho de 2008, um pouco antes de partir rumo à Eternidade, a poetisa deu
o seguinte depoimento sobre si mesma:
Sou SEMPRE POESIA. Continuarei buscando uma linguagem própria, através da
qual possa cumprir a missão de poeta, - decodificar a mensagem muda, o âmago
e o labirinto do ser; recriando-o na medida em que o redefine. Poesia é
minha maneira de viver, um ofício, meu jeito de andar na vida, um respirar,
uma divina danação. Sou, essencialmente, uma aprendiz da poesia. A poesia
plenificou a minha vida. “Não sei se sou pergunta ou resposta...Sou um nome
cercado de mim por todos os lados”. “Uma e dual/permaneço e sigo no sonho
que retenho”. “quem sabe, EU é uma vibração ou uma vertigem?/ ...Sou uma
seqüência de pontos/ Se me interrompo? Morro”. “No Horizonte de mim eu me
disponho ao poema.”
Maria do Carmo Barreto Campello de Melo faleceu no Recife, aos 84 anos de
idade, no dia 23 de julho de 2008, vítima de um acidente vascular cerebral.
Ana Flávia Campello de Melo, uma das netas de Carminha, reuniu suas obras
completas e, com o apoio financeiro do Funcultura do Governo de Pernambuco,
organizou o livro Sempre Poesia, que foi lançado no dia 27 de março de 2009,
no Memorial de Medicina de Pernambuco. Nele, estão registrados todos os
poemas, depoimentos e prosas da autora. A seguir, encontram-se transcritas
duas de suas poesias:
Poema do puro amor
E tendo eu te amado
apenas porque te amei
instalo-me em instáveis estruturas
pelos caminhos de um amor insuspeitado.
Que ele me tome me arrebate me ascenda
e me seja ponte asa e travessia
um amor assim acontecido
sem dedução cálculo ou conseqüência
sem ordem lógica
- só pura acontecência.
Despedida
Meus amigos me despeço. Em mim mesma me irei
deixo a casa, deixo a rua, deixo o fruto e seu sabor
deixo agulha, deixo linha, deixo roca, deixo fuso
deixo a flor como seu odor, deixo faca, deixo bolo
deixo morno, deixo quente, deixo tudo que é pra amar
Meus amigos, já me vou. Muitas voltas irei dar
vou pra o longe, vou pra o perto, para o aqui e o acolá
levo sol e levo sombra, levo quanto é pra levar
levo terra e levo mar, levo sonho e acalanto
levo rosa, levo fruto, levo também riso e canto
levo reza, levo pranto, levo veste, levo manto
nesta ida, nesta vinda, onde devo me encontrar.
Meus amigos, eis que me vou. Nesta longa caminhada
à procura de mim mesma, quantos passos irei dar?
e é pra este reencontro, que tanto devo deixar:
- deixo amor e desamor, me desfaço, me renasço
e tanto devo levar: - levo sonho e acalento, sombra
fruto e verde mar, meus amigos me despeço (já
me cansa meu cansaço) muitos passos inda hei de dar.
Fontes consultadas:
LANÇAMENTO da poesia completa de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
Disponível em:
http://portalliteral.terra.com.br/artigos/lancamento-da-poesia-completa-de-maria-do-carmo-barreto-campello-de-melo
Acesso em: 21 jul. 2009.
MEDEIROS, Marcílio. A viagem de Maria do Carmo Barreto Campello de Melo.
Disponível em:
http://www.overmundo.com.br/overblog/a-viagem-de-maria-do-carmo-barreto-campello
Acesso em: 21 jul. 2009.
MELO, Ana Flávia Campello de (Org.). Sempre poesia – obras completas – Maria
do Carmo Barreto Campello de Melo. Recife: EDUPE, 2009.
MELO, Carlos Alberto Barreto Campello. Depoimento oral sobre Maria do Carmo
Barreto Campello de Melo, dado à autora deste trabalho, em agosto de 2009.
MELO, Wellington de. Maria do Carmo Barreto Campello de Melo. Disponível em:
http://www.interpoetica.com/figura_da_vez21.htm Acesso em: 15 jul. 2009.
POIS é, poesia. Disponível em:
http://pepoesia.blogspot.com/ Acesso em: 21 jul. 2009.
SEMINÁRIO de Tropicologia. Disponível em:
http://www.fundaj.gov.br/st/1977.html Acesso em: 21 jul. 2009.