UIRAPURU
Semira Adler Vainsencher

O Uirapuru é um pássaro irrequieto e pequeno: mede somente uns 12,5cm de
comprimento. O seu nome científico é Cyphorhinus aradus e ele pertence à
família das Troglodytidae. Alimenta-se basicamente de frutas e insetos e
o seu habitat natural são as matas e florestas da Amazônia. O visual do
Uirapuru não é atraente: ele possui uma plumagem pardo-avermelhada, ou
verde-oliva com a cauda avermelhada, um bico forte e pés grandes. Os
índios chamam-no Irapuru ou Guirapuru, que significa pássaro ornado,
pássaro emprestado, ou pássaro que não é pássaro, e cuja missão é a de
presidir o destino dos outros pássaros. O seu canto é extremamente belo
e quando ele emite sons musicais, todas as outras aves, como que
enfeitiçadas, se calam para ouvi-lo.
Câmara Cascudo ressaltou que o primeiro estrangeiro a ouvir o canto do
Uirapuru e a registrar sua melodia foi o botânico Richard Spruce, em uma
excursão ao rio Trombetas, na metade do século XIX. Segundo esse
pesquisador, o Uirapuru cantava para todo o mundo como uma caixa de
música:
eram inconfundíveis os claros sons metálicos, exatamente modulados como
por um instrumento musical. As frases eram curtas, mas cada uma incluía
todas as notas do diapasão, e depois de repetir a mesma frase umas vinte
vezes, passava subitamente para outra, de quando em vez com a mudança de
clave de uma quinta-maior, e prosseguia por igual espaço. Normalmente
fazia uma breve pausa, antes de mudar de tema. Eu já o escutava, há
bastante tempo, quando me ocorreu a idéia de fazer a transcrição
musical... Simples como é, esta música era vinda de um músico invisível
no fundo da mata selvagem, de uma magia que me encantou quase uma hora.
Então, bruscamente, parou, para recomeçar tão longe que mal pude
percebê-la a extinguir-se (p. 888).
No Norte do Brasil, existem várias lendas sobre o Uirapuru. Uma delas
salienta que um jovem guerreiro se apaixonou pela esposa de um cacique.
E, como não podia se aproximar dela, solicitou ao deus Tupã que o
transformasse em pássaro. Tupã prontamente atendeu ao seu pedido.
Notando, porém, que havia um determinado pássaro cantando todas as
noites para a sua amada, o cacique passou a persegui-lo, com a intenção
de prendê-lo. O pássaro, no entanto, voou para dentro da floresta, e o
cacique não conseguiu acompanhá-lo. Todas as noites, então, o Uirapuru
retorna e canta para a esposa do cacique, desejando que ela o descubra
através do seu belo canto.
Uma outra lenda corrente ressalta que, em uma tribo, havia duas índias
apaixonadas pelo mesmo cacique. Sabendo disto, ele prometeu casar com a
que tivesse a melhor pontaria na flecha. E assim ocorreu. Acontece que a
índia perdedora - Oribici - chorou tanto que suas lágrimas chegaram a
formar uma fonte e um córrego. Por outro lado, ela percebeu que o
cacique amava muito a sua esposa. Daí, ela decidiu se resignar com a
falta de sorte e não disputar mais aquele amor. O grande deus Tupã,
entretanto, compadecido com o pesar de Oribici, transformou-a em um
pássaro, para que, do alto, ela pudesse sempre ver o seu amado. Além
disso, deu-lhe também um canto belíssimo, capaz de enfeitiçar todos os
outros pássaros da floresta, compensando-a assim pelo amor que ela não
pôde ter.
Uma terceira lenda destaca que a flecha de uma donzela apaixonada
atingiu um pássaro de plumas vermelhas e de canto perfeito,
transformando-o em um guerreiro forte e belo. Havia, porém, um
feiticeiro - aleijado e muito feio - que amava aquela donzela e sentia
ciúmes do guerreiro. Sendo assim, ele tocou uma determinada música, com
sua flauta encantada, e fez com que o guerreiro desaparecesse para
sempre. A partir desse dia, só restou o lindo canto do guerreiro nas
matas e florestas da Amazônia. Segundo a lenda, trata-se do próprio
Uirapuru.
Em relação a esse pássaro, portanto, o real e o lendário parecem se
confundir. Os pesquisadores afirmam que ele nunca repete as mesmas
frases musicais e, por essa razão, é considerado pelos nativos como um
ente sobrenatural. Depois de morto, não somente o seu corpo, mas algumas
partes dele, ou do seu ninho, são considerados talismãs, sendo muito
procurados no mercado. Para os índios tupis, em verdade, o Uirapuru
representa um deus que adquiriu a forma de pássaro. E, no
estabelecimento comercial que tiver seu amuleto, muitas pessoas serão
atraídas. Acreditam, também, que ele proporciona felicidade: o homem que
carregar uma simples pena dele tornar-se-á irresistível para as mulheres
e terá muita sorte nos negócios. Por sua vez, a mulher que conseguir um
pedaço do seu ninho conseguirá viver com o homem amado, e este se
manterá fiel e apaixonado para todo o sempre. Além disso, quem puder
ouvir o canto desse pássaro deverá, imediatamente, fazer um pedido
porque ele será realizado.
Cascudo registrou que “não há no Pará, no Maranhão e Amazonas muitos
taverneiros que não tenham na soleira da porta enterrado um Guirapuru, a
quem atribuem a virtude de conduzir fregueses à sua taverna. Um
Guirapuru, por este motivo, custa caro... Muitos comerciantes compram
tais amuletos apenas para deixá-lo em uma gaveta do estabelecimento, ou
mesmo enterrá-lo na soleira da porta, acreditando que o mesmo atrairá
fregueses. Vale informar, porém, que é dificílimo se adquirir uma pena
do Uirapuru, porque os outros pássaros sempre o avisam da presença de
predadores e ele voa para bem longe. Só se adquire as penas velhas,
quando estas se soltam naturalmente do seu corpo e caem ao chão.
Ainda de acordo com o folclorista, a posição em que cai o uirapuru, ao
ser abatido, indica o sexo que o deve utilizar como amuleto: caindo
ressupino [de costas], será para a mulher; e, ficando de bruços, deverá
pertencer a um homem. Isto, depois de ser preparado convenientemente por
um pajé. Para os indígenas, o amuleto trará felicidade e fortuna a quem
o possuir.
O Uirapuru também inspirou a elaboração de algumas músicas populares.
Uma delas foi composta por Jacobina e Murilo Latini, e interpretada por
Pena Branca e Xavantinho. A letra é a seguinte:
UIRAPURU
Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
A mata inteira fica muda ao teu cantar,
Tudo se cala para ouvir tua canção,
Que vai ao céu numa sentida melodia,
E vai a Deus em forma triste de oração.
Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
Se Deus ouvisse o que te sai do coração,
Entenderia que é de dor tua canção,
Que nos seus olhos anda o pranto em moradia,
Que daria para salvar o meu sertão.
Uirapuru, Uirapuru,
Seresteiro cantador do meu sertão;
Uirapuru, Uirapuru,
Ele canta as mágoas do meu coração.
A melodia dessa canção pode ser apreciada nos sites: http://br.geocities.com/geprudauirapuru/cancao.htm
e
http://www.boemio.com.br/uirapuru.htm.
Uma outra canção foi composta por Waldemar Henrique em 1934. Eis a sua
letra:
UIRAPURU
Certa vez de montaria,
Eu descia o Paraná,
E o caboclo que remava,
Não parava de falar,
Oh, oh, não parava de falar,
Oh, oh, que caboclo falador!
Me contou do lobisomem,
Da Mãe-D’água e do Tajá,
Disse do Jurutahy,
Que se ri pro luar,
Oh, oh, que se ri pro luar,
Oh, oh, que caboclo falador!
Que mangava de visagem,
Que matou surucucu,
E jurou com pabulagem,
Que pegou o Uirapuru,
Oh, oh, que pegou o Uirapuru,
Oh, oh, que caboclo tentador!
Caboclinho, meu amor,
Arranja um pra mim,
Ando roxo pra pegar unzinho assim...
O diabo foi-se embora,
E não quis me dar,
Vou juntar meu dinheirinho,
Pra poder comprar...
Mas no dia em que eu comprar,
O caboclo vai sofrer,
Eu vou desassossegar,
O seu bem-querer,
Oh, oh, o seu bem-querer,
Oh, oh, ora deixe ele pra lá!
As lendas relativas ao Uirapuru inspiraram, inclusive, vários artistas.
Em 1917, o maestro Heitor Villa-Lobos compôs um poema sinfônico baseado
em material folclórico coletado em viagens pela Região Norte. Nesse
material, havia a narrativa de uma lenda bem simples: uma jovem, ao
ouvir o canto do Uirapuru (considerado como o rei do amor), atirou uma
flecha em seu coração. E, com o transpassar da flecha, o pássaro se
transformou em um belo jovem. Cabe registrar que, em 1935, o maestro
Villa-Lobos fez algumas correções na partitura da música, para a sua
estréia em Buenos Aires.
Por sua vez, no Pará, foi montado um espetáculo teatral onde foram
utilizados materiais regionais e bonecos gigantes, inspirados nos
bonecos Licocós, dos índios Carajás. No ano 2000, esse espetáculo foi
premiado pelo edital de teatro da Prefeitura de Belém.
São bastante raras, contudo, as pessoas que conseguem ouvir (ou ouviram)
o Uirapuru cantar. Isto se deve a alguns aspectos importantes: 1. esse
pássaro canta nos galhos mais altos das matas e florestas amazônicas; 2.
o canto visa atrair a fêmea para o acasalamento; 3. ele dura, somente,
de dez a quinze minutos; 4. ele ocorre, apenas, ao amanhecer e ao
anoitecer; 5. ele canta, unicamente, durante a construção do seu ninho
(cerca de quinze dias por ano). Além disso, há que se levar em conta a
caça predatória, em busca de amuletos, que vem contribuindo,
sobremaneira, para o extermínio da espécie.
Por fim, cabe salientar que o Uirapuru - um pássaro tão pequeno quanto
um pardal - veio enriquecer o folclore brasileiro através de lendas,
mitos, crenças em seus poderes sobrenaturais, melodias, canções,
sinfonias compostas em seu nome, e amuletos comercializados. Não há
canto mais belo que o dele. Quando o Uirapuru se pronuncia, todos os
pássaros parecem ficar enfeitiçados e param de cantar. Tudo indica que
eles jamais ousariam interromper o mais raro, melodioso e sagrado dos
mestres canoros.
Fontes consultadas:
ARAÚJO, Alceu Maynard. Brasil folclore: histórias, costumes e lendas.
São Paulo: Editora Três, 1982.
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CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 4. ed. São
Paulo: Melhoramentos; [Brasília]: INL, 1979.
______. Lendas brasileiras: 21 histórias criadas pela imaginação do
nosso povo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d.
HORTA, Carlos Felipe de Melo Marques (Org.). O grande livro do folclore.
Belo Horizonte: Editora Leitura, 2000.
MAGALHÃES, Basílio de. O folclore no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro:
Edições O Cruzeiro, 1960.
NERY, F. J. de Santa-Anna. Folclore Brasileiro. Recife: Fundaj, Ed.
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O uirapuru – 2001. Disponível em:
Acesso em: 13 ago. 2006.
O uirapuru. Disponível em:
Acesso: em 20 ago. 2006.
RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica Editora
Aurora, 1970.
UIRAPURU. Disponível em: Acesso
em: 22 ago. 2006.
UIRAPURU – pássaro. Disponível em:
Acesso em: 13 ago. 2006.
UIRAPURU. Disponível em: Acesso em: 20 de junho de
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UIRAPURU-Verdadeiro. Disponível em: Acesso em: 20 de
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VALENTE, Waldemar. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979.
Semira Adler Vainsencher