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ESPLANADA DOS
PROSADORES -
ABRIL DE 2010
Participação de Vários Autores
Arte Final:
Iara Melo

A TARDE EM QUE A MENININHA LAVOU UMA
FOTO...
Ilda Maria Costa Brasil
Mal acordou e já estava de lábios
pintados e de salto. Andava com charme e
elegância de um lado para o outro, como
se estivesse em uma passarela. De tempo
em tempo, rodopiava nas pontas dos pés.
Continuava a usar um conjunto azul:
camisola e robe. Essa roupa lhe caíra
muito bem. Sentia-se uma modelo.
De repente, seu rosto mudou
completamente; tomou-se de tristeza e
passou a dizer:
“– Quero mamãe... quero mamãe... quero
mamãe.”
De imediato, achei que era mais uma de
suas brincadeiras mas, ao vê-la com os
olhinhos cheios de lágrimas; correr para
o quarto; pegar uma fotografia de seu 1º
aninho, em que está com sua mãe e passar
a beijá-la, percebi que a menininha
estava com o coraçãozinho cheio de
saudade. Abracei-a fortemente e
sorrindo, falei:
“– Pobres meninas, foram sufocadas por
beijos e engolidas pelas águas!”
Ela, que ainda chorava, começou a rir e
correu para a cozinha. Rapidamente,
pegou um esfregão de cozinha e começou a
lavar a foto. Esfregava com força, pois
desejava remover a camada de batom que
cobria o rosto de mãe e filha, a fim de
preservá-la.
Eu, surpresa com a sua espontaneidade,
pedi que parasse e, com uma toalhinha de
mão, limpei-a. Logo em seguida, por
sugestão da garotinha, coloquei-a no
varal do pátio para secar.
Recuperada do susto, aconchegou-se em
meus braços e, de repente, o dia
escureceu e um grande temporal desabou.
Olhamo-nos e saímos correndo para o
pátio a fim de recolher a fotografia,
que mais uma vez, fora engolida pelas
águas. Essa se encontrava tão
enroladinha que mais parecia um
canudinho para refrigerante.
Pegamo-la e, novamente a secamos para,
logo depois, recolocá-la no seu velho e
antigo lugar.

EVIDÊNCIAS
Juraci da Silva Martins
Refletindo sobre esta história, da qual
tirei algumas conclusões antagônicas, e, por
vezes, irônicas sobre o que muitos chamam de
“Destino”.
Um casal chamado Miguel e Ester, um dia, por
acaso, encontraram-se e ambos foram
alvejados por um sentimento de paixão
violenta à primeira vista. Foi como um raio
certeiro. Ele, um jovem realista e, por
vezes, sonhador. Ela, menina cheia de
fantasias e esperanças. Ambos encontravam-se
e projetavam seus futuros, como gostariam
que fosse: saúde, dinheiro, amor eterno e
realizações mil...
Depois de alguns encontros, decidiram se
casar. Por pouco tempo, foram esses
encontros e, raramente, dialogavam sobre
seus projetos de vida. Até que enfim,
casaram-se na Igreja e no civil, de véu e
grinalda e o varão de terno marinho e cravo
na lapela. No entanto, pouco sabiam um do
outro e foi mais um apronte do destino.
Logo, surgiram os primeiros impactos.
Miguel, que costumava chamar Ester de “Meu
bem”, passou a chamá-la de “mulher” e
vice-versa. De ambos os lados, os adjetivos
eram recíprocos; de “vamos” para “tens que
ir”, de “você poderia...” para “estou te
mandando...” E assim por diante. Os termos
iam sendo trocados do melhor para o pior.
Era uma inversão negativa de amada (o) para
subordinada (o). Estava ali um quadro que
bem poderia ser intitulado: “O vilão e a
vítima". Então, do paraíso que fora projetado
no subconsciente, passou para a dura
realidade, pois a paixão se apagou. A
cegueira foi retirada e, na inversão de
valores, naufragou o paraíso tão sonhado e
emergiu um prejuízo inesperado. Começa,
então, o tédio na vida de Miguel e Éster. A
insegurança, a desconfiança e o medo os
aterrorizam, mas ficou uma lição de vida: “A
paixão é, indubitavelmente, um sentimento
fogueira que seduz e é tão forte como fugaz.
Passa bem depressa, de chamas alvissareiras
para as brasas incandescentes das quais logo
vão restar somente cinzas.”
Das cinzas o que se pode fazer? Será que
isso foi marcado pelo destino ou, foi mesmo,
uma inconsequência da imaturidade que levou
Ester e Miguel a não cultivar a grandeza e a
beleza de um bom relacionamento na vida a
dois?

CONFISSÃO DE UMA HÚNGARA
Luiz Carlos Martini
“Eu fui uma relés aventureira e tenho
consciência, culpas e furtos de toda
espécie; mas o que mais me atormenta é o
crime que cometi uma noite para me salvar.
Moro hoje num casebre do bosque. Ninguém me
conhece, ninguém sabe que nesse refugio
passo os dias a ruminar o meu remorso. Vivo
das esmolas dos pastores que me julgam
louca. Estou mergulhada na mais sórdida
miséria e, no entanto, tenho guardado dentro
do colchão um colar de grandes e lindos
brilhantes; nunca ousei tirar partido do
objeto que causou o pesar de haver salvo
minha vida por um preço tremendo.
Enquanto escrevo minha confissão, à luz de
uma vela, lá fora a tempestade desenfreada
torce e retorce as árvores do bosque. Ouço
desencadearem-se os elementos sobre a
natureza indefesa; vejo os raios
ziguezagueando na escuridão e o meu refugio
entre os espessos muros rachados geme como
que prestes a cair. É noite infernal. Estou
com medo!
De minha vida de aventuras, só contarei este
último episódio. Furto e crime. Minha alma
está por tal forma escravizada devido ao
triste fato, que tudo se me escurece na
memória. Estava em uma noite no Restaurante
Ellis, e trajava com a elegância de uma
dama. Escondia, no entanto uma divisão da
bolsa, um revólver sempre carregado e pronto
para qualquer emergência.
Este particular da bem a idéia da vida
arriscada que eu levava, mas era natural que
estivesse sempre alerta ao ataque, assim
como a defesa ou suicídio, caso fosse
apanhada em flagrante. A orquestra tocava
uma valsa de Strauss, e a sala estava
repleta. Eu olhava um magnífico colar de
enormes brilhantes, preso por uma
correntinha de platina ao pescoço de minha
vizinha e tinha decidido apossar-me da jóia.
Minha extraordinária habilidade justificava
todas as ousadias e a polícia jamais me
apanharia por tão pouca coisa. A música era
excepcionalmente interessante e, forçando a
atenção do público, favorecia o golpe.
Enquanto os violinos vibravam as notas mais
apaixonadas e suaves, todos os olhares
presos às dançarinas do palco, eu estendia
lentamente o braço, fingindo apoiar-me ao
espaldar, na direção da senhora do colar.
Tive um segundo de hesitação, logo vencido;
meu coração parecia ter parado de bater, mas
com indizível destreza manobrei o fecho de
platina, e suavemente, puxei a jóia que me
fascinara. Por mais alguns instantes
deixei-me ficar indolentemente recostada.
Lembro-me que tinha calculado deixar cair o
colar no chão, caso a senhora percebesse
alguma coisa. Mas não. Ela estava tão
embevecida que por certo não fez caso do
pequeno incomodo que sentira no pescoço,
atribuindo-o, sem maior reparo, à gola do
manto de peles, que endireitou com um gesto
de impaciência. Fiz sinal ao criado, paguei
com ar de muito enfado, saí da sala
deslizando entre as mesas e procurando não
incomodar as pessoas em que sem querer
roçava no caminho. Um rapaz abriu-me abriu a
porta. Vi-me enfim, na rua.
Salva! Julguei que estava salva; mas senti
de súbito o sangue gelar-me nas veias,
reparando ao meu lado um homem que me fixava
diretamente. Ah! Jamais esquecerei daquele
olhar!
Através dos cristais das aberturas
envidraçadas do restaurante, certamente o
desconhecido me vira furtar a jóia. Seus
olhos diziam. O restaurante dava diretamente
sobre a margem direita rio Tibisco, apenas
separado do rio por uma larga estrada
ladeada de árvores seculares.
A casa tinha duas entradas. Evitei
justamente sair pela porta principal que dá
para a praça de um grande teatro de
variedades, escolhendo a porta que conduz à
margem do rio onde a estrada é geralmente
deserta.
Do outro lado viam-se brilhar as luzes da
estação das barcas, mas tão distante que não
poderia me preocupar.
O desconhecido, na penumbra, continuava a me
fixar com acinte. A claridade dos
lampadários da sala permitia-me ver-lhe os
olhos que me fixavam. Sentia que já não
poderia dar nem um passo para fugir, nem
fazer o menor movimento. O colar de
brilhantes estava fechado na bolsa que eu
levava debaixo do braço. Por mais alguns
instantes, que me pareciam ter a duração de
um século, eu e o desconhecido nos encaramos
como dois inimigos que vão se bater em
duelo.
Ele tinha visto! Ele tinha visto! Agora
gozava do terror que me causava a sua
presença, pronto a dar um grito de alarme,
apenas eu tentasse fugir.
Olhei para um e outro lado; a estrada pouco
iluminada e completamente deserta. Mas eu
sabia que, no silêncio da noite, um grito
faria chegar imediatamente os policiais mais
próximos, e que seria presa antes de poder
tentar qualquer meio de salvação.
Vencendo o terror, dei um passo na direção
do homem, inconscientemente, a minha mão
direita procurou a arma salvadora. Chegando
mais perto, reparei melhor a exasperante
expressão do indivíduo que sorria, com
desprezo, fixando-me cada vez com maior
insistência.
Não havia mais salvação para mim! Loucamente
alvoroçada pelo brilho penetrante daqueles
olhos, levantei a mão armada. Um tiro seco
no silêncio da estrada. Vi o homem cair sem
dar um gemido. Tinha-o atingido, a dois
passos de distância, bem no meio do peito.
Corri então ao longo das árvores, esconde-me
como serpente. O tiro fizera correr gente:
vozes assustadas, gritos e chamados chegavam
cada vez mais atenuados aos meus ouvidos
enquanto eu fugia correndo, protegida pelas
sombras dos arvores e a escuridão da noite.
Nem sei quanto caminhei e andei. Finalmente
numa rua longínqua de arrabalde. Impus-me
uma atitude calma e chamei um táxi, pedindo
ao motorista que me levasse, não sei onde.
Não para casa, pois não tinha casa, mas para
bem longe, fora da cidade.
No dia seguinte, já no trem, em viagem para
outras paragens, abrir um jornal e li o
título de uma reportagem em caracteres
enormes "Misterioso delito á porta do Kursal
X – Um pobre cego assassinado”.
Cego? Aqueles olhos eram cegos?
Conquanto experimentada por tantas e várias
emoções, quase desmaiei ao ler a inesperada
nova. Eu tinha matado um infeliz que me
fixava com suas pupilas inocentes, sem me
ver! Eu o assassinara a dois passos de
distância, exasperada pelo seu sorriso á
melodia de uma valsa de Strauss. No suave
trinato dos violinos, o desgraçado talvez
buscasse o alívio à constante escuridão que
o destino implacável atirara sobre a sua
existência e eu o tinha assinado.
Conta-se que esse manuscrito foi encontrado
sobre os escombros de um refúgio montanhês
derrubado pela fúria do vendaval. O colar de
brilhantes também lá estava, mas ninguém
poderia dizer o nome da aventureira que
fugira à justiça dos homens.

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