ESPLANADA DOS PROSADORES -

AGOSTO DE 2010

Participação de Vários Autores

Arte Final: Iara Melo

 

 

 
 
 

 
A Seresta
 
Benedita Azevedo
 
 
Sentada à mesa, na seresta, ao lado de meu marido, observo as pessoas. Alguns casais, mas, a maioria é de mulheres sozinhas, alguns homens e duas garçonetes.  O conjunto formado pela bateria, dois violões e um trompete, faz jus ao nome “Manda Vê”. Tanto os músicos quanto os participantes são pessoas com idade superior a cinquenta anos.

Uma senhora comanda o show. Cada convidado pode cantar até duas músicas. Uns tocam, outros cantam e alguns dançam. Percebe-se que todos estão ali em busca de compartilhar seus dotes e dar importância às suas vidas. Parece que todos se conhecem.

O salão amplo, com mesas nas laterais, deixa toda a extensão central para os dançarinos. Ao lado esquerdo de quem entra, há o bar de onde servem bebidas e algumas iguarias,  para tira-gosto, dando ao proprietário o lucro necessário, já que não são cobradas,  entrada nem consumação.

Os seresteiros cantam suas músicas como se vivessem à época que foram lançadas, nos anos 50, 60 ou mais antigas. Poucos arriscam um repertório mais atualizado. Quando alguém canta um samba, a pista de dança enche. Alguns casais, e as mulheres na falta de um parceiro, dançam sozinhas ou com outras, extravasando sua solidão. Mas, parecem felizes.

A dirigente com sua lista chama os cantores, elogiando os dotes de cada um. Alguns cavalheiros vão alternando de par e dançam com várias senhoras. Assim o baile que começou às 22 horas vai se estendendo...

Logo após a meia noite, entra um grupo com um grande bolo, cantando parabéns. Colocam sobre uma mesa onde está uma das cantoras. Todos se aproximam e engrossam o coro. A senhora apaga as 78 velinhas e é abraçada por todos. A nora explica, que, a aniversariante fizera questão, de festejar seu aniversário, ao lado de seus amigos de seresta. O bolo foi distribuído para todos os presentes.

Antes do final, as pessoas começaram a se despedir. Então fiquei imaginando aquelas senhoras chegando sozinhas a casa, de madrugada,  sem ninguém para contar o que aconteceu, durante a festa ou depois dela. Dormem e acordam sozinhas. Quantas terão Filhos, netos, sobrinhos, afilhados para lhes dar atenção e carinho?

 

 
 
 
 

 

OPÇÕES
 
ELIANE ARRUDA-CE

 
            Uns apreciam soltar o seu olhar sobre a movimentação constante das águas do oceano; já outros, no espaço, embebendo o azul do céu, acompanhando o voo dos pássaros em revoada e, à noite, alcançando a minúscula  cintilação das estrelas.
            Uns preferem morar no interior do estado, sobretudo na zona rural, ouvindo o mugido das vacas, o canto das aves locais e contemplando as paisagens características da região. Outros, sobretudo mais jovens, não abrem mão da vida citadina, regada a trânsito intenso, arranha-céus, shoppings, movimentação de todo tipo de pedestre...
            Há homens que gastam, por opção, o que possuem com bebidas, jogos, mulheres... Vivem numa constante orgia, formando, com Baco, uma dupla. Outros preferem a vida clerical, na paz e solidão de um convento, dedicando a sua vida a Deus e a  salvação da alma.
            A vida é, portanto, uma diversidade de opções, podendo o cidadão jogar com os seus interesses, embora existam as que não abrem espaço para uma escolha ao gosto e à altura da pessoa. Aqui e ali, alguém murmurando:
            -Ah, não tive outra opção! 
            Uma moça, por exemplo, que casa por interesse, para fazer jus a uma vida bem mais opulenta, torna-se, provavelmente, uma escrava daquela situação, pois quanto mais elevado o status, mais cobranças realiza, perdendo a moça um pouco de sua origem e violentando a sua autenticidade.
            Quanto mais lutar o homem pela sua liberdade individual, mais condições, sem dúvida, terá de “pular de cabeça”, no oceano das opções preferenciais. Talvez, quem sabe, respire melhor o indivíduo que luta pela realização do que aprecia, desde que não fuja das leis e de projetar a felicidade e o bem estar dos demais.
 
 
 

 

 

 RETALHOS DE COLCHAS...

Ilda Maria Costa Brasil


Passei boa parte de minha infância no meio rural. Cresci correndo em quintais amplos e em verdes campos. Curtia tomar banho de açude, embora tivesse medo dos peixes que ficavam pulando de um lado para o outro.
Meus brinquedos, na maioria, eram improvisados, mas eu os apreciava tanto quanto ver minha avó paterna fazer Colchas de Retalhos. Algumas combinações ficavam belíssimas e artísticas que pareciam jardins floridos; outras eram pesadas e tristes, passavam idéias de perdas, mutilações, amarguras, dores e sofrimentos. Talvez reproduzissem um pouco do estado de espírito da matriarca da família, pois sofrera inúmeras decepções.
Acredito que passara muito trabalho para criar seus cinco filhos, mesmo sempre tendo empregada. A diferença entre uma criança e outra era somente de um ano.
Sentada em um banquinho na varanda, ou no portal da casa, eu procurava compreender por que as agulhadas dadas para unir os retalhos eram tão diferentes. Umas, fortes, e por que não dizer, raivosas; outras, suaves e delicadas.
Raramente, vovó sorria. Seus gestos eram bastante mecânicos, porém, às vezes, concentrava-se tanto que parecia estar juntando pedaços de sua vida. Trazia, no rosto, um olhar tristonho e não era de demonstrar afetos. A educação que recebera de seus pais fora muita rígida e, como mulher, deveria saber esperar pelo marido silenciosamente e ser-lhe submissa. Aos homens tudo era permitido; às mulheres, nada!
Analisando os momentos que passei em sua companhia, uma certeza: Vovó, ao confeccionar Colchas de Retalhos, traçava linhas e caminhos que gostaria de ter dado à sua vida. Faltaram-lhe coragem e determinação para dar novo rumo à sua trajetória. O conformismo e a acomodação ocuparam o lugar da esperança e da felicidade em seu coração, elementos fundamentais para manterem a nossa energia vital.
 
 
 
 
 
 
 

 
 
VEREDAS

Juraci da Silva Martins


Parece vulgar dizer que a vida é uma estrada cheia de encantos ou tormentos... isso tudo e mais já foi dito para descrevê-la.
O amanhecer traz sempre com ele uma esperança... quando o sol se ergue no horizonte... majestoso, onipotente, vivificam-se as cores no arbol...
Vem, como um Deus das tribos no seu esplendor, apagando o lúdico que nos confunde e desnorteia da meta libertadora de nossos pesares... Na estrada da vida tem de tudo um pouco: areias, poeiras, flores, espinhos, mel e pedras. Sob nossos pés a certeza de um chão de disforme composição.
Tropeços, quedas... temos medo de caminhar, não sabemos o que nos aguarda depois da esquina. Mas a vida é cheia de surpresas que formam o tempero para motivar sempre a procura de melhores dias...
Vimos então que são tantos penhores de variadas cores... são os amores, são espinhos, são flores a nos encantar e seu convite a caminhar... Viver a vida é sentir o seu perfume, é respirar livre os seus odores, e rolar pelas encostas seus temores... Viver a vida é sentir-se incluso no rol dos racionais e poder medir o explícito em si mesmo, no concreto. E encontrar na natureza o encanto de viver sem desatinos e poder agradecer, a cada instante, a graça de poder louvar o criador por toda essa beleza gratuidade em seu amor!
 
 
 
 
 
 
 

 

Para quem guarda o silêncio na alma

Lígia Leivas

 


     Para um poeta de silêncios na alma

     Próximo à grade de proteção da entrada, estavas de costas.
     Te vi primeiro.
     Com a sabedoria que te é própria, reconheces que toda espera é ansiosa... não precisaria te dizer... Mas hoje eu não estava ansiosa (quase sempre sou assim). Não sei se porque finalmente iriam terminar os 'até breve' de nossos recados, me mantive serena enquanto aguardava que chegasses.
     Foi bonito! ... Muito!
     Gestos de fraternura, humildade, agradecimento. E,  sinceramente, penso que nem cabe a alguém da tua distinção ser tão humilde!!!
     Tuas mãos, no 'obrigado por tudo', me tomaram... tua bondade, neste ato, trouxe à tona o interior de quem é sensível. E o mágico é que aconteceu sem que ninguém planejasse.
     Quase sem querer, fiquei sabendo de tua proficiência,  teu saber cultural, tua dignidade profissional. E esses predicados, em relação também à tua essência como  ser humano, não poderiam ser diferentes. Então, nada me surpreendeu... e sim me emocionou, simples e naturalmente.
     Sabes? Cansei... ou quase, nesta vida, já cansei de tantas decepções. Não sei se saberia desculpar mais alguma, mas sinto que não és, dentre os humanos, dos que são capazes de decepcionar o próximo no que respeite à "consideração".
      Tua simplicidade quase extrema é contagiante... comove, imanta a alma da gente em seus caminhos insondáveis. Aliás, disse um escritor-psiquiatra, que das coisas mais difíceis no ser humano é 'desfazer-se das ilusões'... e com isso concordo sem qualquer retórica. Então, que não sejam ilusões... que se mantenham as impressões de que vale a pena a vida por existirem pessoas como tu.
     Foi muito bom, através de teu riso franco, teu olhar nos olhos, poder ainda perceber novos horizontes, novas expectativas; a idéia, enfim, de que é sempre bom estar vivo!... Essa esperança só poderia brotar, mesmo, em uma alma poética que te permite, inclusive, "expirar" (achaste curiosa essa concepção???...rrrsss...) textos magistrais como os que escreves.
     "Se vi anjos, se toquei anjos, não sei" (F. Pessoa, a quem tanto admiramos!), mas que algum deles esteve muito perto de mim, disso tenho certeza.
     Separação e distância são perigosas sempre, mas elas não nos encontrarão tão cedo... E "Despedida" (poema lindo fizeste com esse tema!), na própria Bíblia  está escrito: é traumática... Saberemos, porém, lidar com a 'respiração' na hora em que necessário for o exercício da despedida.  E isso conheces muito bem, melhor que todos... a despedida mais triste faz parte do dia-a-dia enquanto teu trabalho se desdobra.
     Que a sorte não nos falte!
     Te admiro,
                                        Lígia
 

 

 
 
 

 

O SOL NOSSO DE CADA DIA
 
 

 

Tchello d’Barros
 
 
Estava o golfinho Tiquinho numa bela tarde de verão dando algumas de suas piruetas perto da praia quando avistou na areia seu amiguinho, o pingüim Tipitim, que estava colhendo estrelas-do-mar e conchinhas para a sua coleção.
_Oi, Tipitim! Que lindas essas estrelinhas-do-mar. Que pena que à noite eu só vejo as do céu...
_Ora, Tiquinho, eu acho que elas descem lá do céu para se esquentar na areia, que fica quentinha por causa dos raios do Sol! - falou o pingüim.
_ Ah, o Sol! Puxa, Tipitim, como é linda essa bola de fogo lá no céu! - disse o golfinho.
_Sim, e quando reflete no mar, Tiquinho, parece até que tem um tapete de estrelinhas estendido na água!
E assim passaram a tarde, mas quando perceberam o Sol já estava descendo por detrás da linha do oceano...
_Ué, Tipitim, cadê o Sol? Quem foi que escondeu ele, heim?
_Não sei não, Tiquinho! Só sei que toda manhã aparece outro Sol novinho pra começar o dia.
_Hummm, acho que ele gosta de brincar de esconde-esconde! Já sei, vamos atrás dele para ver onde ele se escondeu! - convidou o golfinho.
_Boa idéia, amiguinho! Desta vez vamos descobrir seu esconderijo! - respondeu o pequeno pingüim.
E assim, o golfinho Tiquinho e o pingüim Tipitim foram nadando em direção ao poente, ou seja , em direção às nuvens vermelhas, alaranjadas e amarelas do horizonte. Eram como uma pista dos lugares onde o Sol estava passando. Quando estavam quase alcançando, ele desceu por detrás de uma ilha. Então nossos amiguinhos decidiram dar um susto no Sol:

_Aháá! Então é ali, atrás dessa pequena ilha que o danadinho se esconde! Vamos Tipitim, vamos contornar a ilha cada um de um lado!
_Legal, Kiko, assim damos um susto nele!

Então nadaram o mais rápido que podiam, deram a vota na ilhazinha e quando se encontraram para dar o susto, em vez do Sol encontraram pousada numa pedra apenas a gaivota Maricota. Ela se assustou um pouco com eles, mas então explicou para os dois aventureiros:
_Amigos, na verdade ele passa por aqui também todos os dias e neste momento está seguindo viagem atrás daquelas nuvens coloridas que parecem algodão-doce!
_Puxa, Tipitim, quase alcançamos ele! - falou triste o golfinho.
_Calma, Tiquinho, não fique triste, talvez tenhamos ainda alguma chance! - respondeu o pingüim.
_Ei, amigos, gostaria de acompanhar vocês, ainda dá tempo de alcançarmos esse fujão! - disse a gaivota.
_Então vamos nessa! - gritou o golfinho.
_É pra já! Em frente! - gritou o pingüim.
_Lá vamos nós! - gritou a gaivota.
E assim foram seguindo o Sol de perto por 24 horas até que deram a volta ao mundo e chegaram na mesma praia de onde haviam partido...
_Puxa garotos, vocês notaram que ele não se escondeu e que ninguém roubou nem trocou o Sol por outro? É o mesmo de sempre. Será que todo dia ele dá a volta ao redor do mundo? - perguntou Maricota.
Antes que eles pudessem responder alguma coisa, eis que as nuvens se abriram e ouviu-se no céu uma grande gargalhada. Era o próprio Sol:
_Ah, ah, ah! Muito bem crianças, só que é a Terra que gira sobre si mesma. Cada giro desses dura um dia. É por isso que temos o dia e a noite. Na verdade eu fico sempre no mesmo lugar!
_Ah! - disse Tiquinho.
_Oh! - disse Tipitim.
_Uau! - disse Maricota.

_Pela manhã eu sou o Sol nascente, que se levanta no horizonte começando mais um dia e pela tarde eu sou o Sol poente, do outro lado do horizonte, começando mais uma noite.

_Ora, e eu que pensava que ele viajava no céu e se escondia de noite! – disse Tiquinho.
_Ora, e eu que pensava que as estrelinhas desciam do céu pra se esquentar na areia! - disse Tipitim.
_Ora e eu que pensava que ele se escondia nas nuvens só pra comer algodão doce! - disse Maricota.
E foi assim que, enquanto o golfinho Tiquinho surfava as ondas daquela praia e o pingüim Tipitim catava mais umas conchinhas para sua coleção, a gaivota Maricota aproveitou a tarde para surpreender seus dois amiguinhos, fazendo um belo castelo-de-areia, com uma bonita torre no centro, onde se viam duas janelas. Uma para ver o Sol nascente e outra para ver o Sol poente.

 

 

 

 

 
 
 
 

*** Portal CEN - Cá Estamos Nós Web Page ***

Todos os Direitos Reservados