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ESPLANADA DOS
PROSADORES -
JULHO DE 2010
Participação de Vários Autores
Arte Final:
Iara Melo

Lúcia desde muito jovem tinha uma
autonomia que às vezes lhe rendia
bons castigos. Após ingressar na
escola pública, despertou para a
vida em todos os sentidos. Conheceu
um mundo diferente daquele em que
vivia até então. Participava de
todas as atividades que lhe
permitiam. A diretora sempre
incentivava seus alunos, não só para
as atividades escolares, mas também
para as religiosas. Sempre que havia
festas na igreja, não se sabia se
era atendendo ao pedido do pároco,
ela liberava os alunos maiores, de
algumas aulas, para pedir, como
chamavam à época, “uma jóia” a São
Benedito, Nossa Senhora das Dores,
Santa Cruz ou ao Espírito Santo.
Certa vez, um grupo de dez alunos
queria conhecer o local onde nascera
Gomes de Sousa, o grande matemático
maranhense. Aproveitando a saída
para pedir “jóia” para Nossa Senhora
das Dores, iria até onde fora a casa
paterna do conterrâneo ilustre. Saiu
logo após a aula de português. Os
alunos andaram dois ou três
quilômetros por entre árvores e
quintais de casas modestas. Lúcia
esperava encontrar coisa melhor do
que a casa onde morava com seus
pais, à beira do Rio Itapecuru. Não
tinha nada a ver com suas
expectativas, era parecida com a
sua. Mais uma vez projetou-se à
altura de Gomes de Sousa e Humberto
de Campos. Se os dois tinham sido
pessoas tão simples quanto ela, nada
a impediria de vencer os obstáculos
e um dia chegar pelo menos próximo
ao que eles foram. Mas não falava
isso para ninguém. Perdia-se em
divagações e muitas vezes
perguntavam se estava no mundo da
lua. Ficava aborrecida, tinha medo
de que alguém penetrasse em seus
pensamentos e estragasse tudo.
Depois que entraram e
olharam a casa de taipa, com poucos
cômodos, coberta de palhas de
palmeiras e um quintal cheio de
fruteiras, voltaram. Paravam em
todas as casas. Não poderiam perder
aquela caminhada tão longa e voltar
de mãos vazias. Batiam palmas nas
portas e com a cara mais deslavada,
repetiam o mantra: “Uma jóia para
Nossa Senhora das Dores”. Recebiam
as coisas mais inusitadas: arroz em
cacho, espigas de milho verde,
galinhas, farinha de mandioca, ovos
etc. Uma senhora queria oferecer
alguma coisa à Santa, mas só tinha
vinagreira, um arbusto de folhas
azedas, que os maranhenses usam para
fazer o arroz de cuxá, prato típico
daquela região, servido com peixe
frito. Os alunos aceitaram um maço
enorme da verdura. Voltaram
carregados de “jóias”. A diretora
disse que poderiam deixar em casa da
tabeliã da cidade. Ela mandaria
entregar na igreja. Naquela noite,
aconteceria um leilão, no coreto
localizado entre a igreja e a casa
paroquial, onde se concentravam as
“jóias” compostas de tudo que se
poderia imaginar. Dependendo do
prestígio do Santo e do alcance dos
milagres às promessas dos fiéis. De
um boi ao maço de vinagreira, cuja
renda o padre usaria nas obras da
igreja.
Lúcia levou um susto quando viu a
hora. Passava de meio dia.
Certamente, seria repreendida quando
chegasse a casa. Mesmo sabendo
disso, resolveu esperar o lanche que
a simpática senhora negra de sorriso
largo, vestindo xadrez com avental
branco, devido ao adiantado da hora,
prontificou-se a fazer, para os
alunos, antes de voltarem para casa.
A casa de Lúcia ficava a quatro
quilômetros da escola e mais alguns
metros até a casa da tabeliã. Ela
estava preocupada com a mãe que não
fora avisada que se atrasaria
naquele dia. Mas, estava faminta.
Esperaria. De qualquer maneira o
castigo seria certo. Todos sentaram
à enorme mesa da sala de jantar. A
simpática senhora fez suco de
maracujá, fritou alguns ovos que
estavam um pouco amassados, colocou
dentro dos pães e distribuiu aos
alunos. Lúcia comeu apressada,
enquanto os outros comiam,
calmamente. Agradeceu, despediu-se
dos colegas e partiu.
Ao atravessar a ponte sobre o Rio
Itapecuru, correu até a casa. Era
quase catorze horas. A mãe muito
preocupada saíra à sua procura e
entrara em casa da irmã para contar
que a filha ainda não chegara da
escola, até àquela hora. O sobrinho
entrou e disse que vira a prima
passar correndo em direção à casa da
tia.
A mãe voltou aliviada por sabê-la em
casa, mas não poderia deixar de
corrigi-la para que não voltasse a
acontecer tal situação. “Onde já se
viu uma menina de treze anos até
àquela hora fora de casa, seja lá
por que razões fossem! Duas horas
atrasada!” – Resmungava nervosa.
Ao chegar, procurou-a pela casa e
não encontrou. Perguntou à filha
mais velha se viu a irmã? Ela disse
que Lúcia entrara no quarto, trocara
o sapato e fora para a cozinha.
- Ela falou alguma coisa, onde
estava?
- Não. Eu disse a ela que ia
apanhar.
A mãe ficou apreensiva e repreendeu
a filha por adiantar tal informação.
Procuraram Lúcia por todos os
lugares e não encontraram. A mãe
voltou à casa de sua irmã. Perguntou
pela vizinhança e nada da menina.
O sol já declinava no horizonte. O
pai chegou e tomou conhecimento da
situação. Reclamou da mania da
mulher, de não ouvir primeiro o
porquê da menina se ter atrasado,
antes de ameaçar castigá-la. A mãe
defendeu-se dizendo que nem vira a
filha. A irmã começou a chorar e
gritar o nome de Lúcia ao redor da
casa. Os parentes e vizinhos foram
chegando. Alguém comentou que a
mocinha poderia ter fugido com medo.
Outros que poderia estar no rio. Não
adiantava, já haviam procurado em
todos os lugares..
A mãe apanhou uma vela na gaveta da
mesa e acendeu aos pés da imagem de
São Longuinho e da estampa de Nossa
Senhora do Perpétuo Socorro,
pendurada na parede da sala. Fez
promessa para Lúcia aparecer e
prometeu ao pai que não castigaria a
filha quando chegasse.
Já escurecia. O pai dirigiu-se ao
enorme quintal e gritava o nome da
filha. Pedia que voltasse para casa
que ele não deixaria a mãe
molestá-la. Já emocionado dizia:
- Filhinha, vem para casa! Já está
ficando escuro! Daqui a pouco pode
aparecer algum bicho. Vem que o pai
te protege!
Naquele momento, ouviram alguém
chorando na direção do rio. O pai
correu e todos o acompanharam. Não
havia ninguém. Fizeram silêncio e
ouviram outra vez o choro. A mãe
gritou:
- É ela. É o choro dela!
O pai desorientado correu até o pé
de mangueira, olhou para cima e viu
o corpo franzino da menina, curvado
sobre um galho, abraçado ao tronco,
chorando. Ele subiu tal qual um
gato, em dois pulos alcançou a filha
e a trouxe no colo. Andou até o
quarto e colocou-a na cama. A mãe e
a irmã se aproximaram e
abraçaram-na. Os vizinhos
discretamente foram para suas casas.
A mãe lembrou-se de que a filha
ainda não almoçara, mandou que a
irmã cuidasse do jantar e levou-a
para tomar banho no rio. Só então
ela pôde contar da visita à casa de
Gomes de Sousa e das “jóias” para
Nossa Senhora das Dores.
Ivone Boechat
EDUCAR
PARA A FELICIDADE
O homem não é algo
inerte, submetido a sofrimentos. Ele tem
o destino e a vocação da felicidade e o
direito à harmonia, ao bem, ao prazer, à
cidadania plena. Cada um é inventor do
dever-ser e do dever-ter.
Portanto, o homem não é reflexo das
circunstâncias e pode desviar-se para um
caminho melhor: o da libertação
interior, o da criação da autarquia.
Independente, ele deve administrar seus
desejos, rejeitando imposições da mídia
e da educação equivocada. Deve-se educar
para a rejeição dos desejos impostos
pela mídia.
Nas epopéias homéricas, a
ética e a excelência ganham a reflexão e
assinalam a proposta de uma vida voltada
para a nobreza interior-exterior.
O indivíduo se percebe, então, como um
ser mortal, itinerante no espaço e no
tempo que ele delimita e conquista na
esperança de gastá-los com felicidade.
Epicuro, o filósofo que
ao longo das eras tem sido mal lido e
mal interpretado, indicou o caminho do
autocontrole e da serenidade, propondo o
programa do autocomando da nave dos
sentimentos:
“Mesmo na
adversidade, o homem pode ser feliz.
A liberdade é sempre o desvio da
fatalidade. Estando acima do sofrimento,
o ser humano se pressupõe
superior, diferencia-se”.
Sendo capaz da
emancipação interior, de selecionar
imagens e centrar-se em coisas
positivas, esse homem monta um filme
interno com texto e direção próprios. A
temporalidade científica o faz
recolher-se à autonomia, descobrindo
como quer viver e não como os outros o
ditam, deixando, pois, de ser espelho
das circunstâncias.
O ser humano tem o
“poder” de auto-administração que lhe
indica o caminho do bem-estar. Deus
concedeu-lhe a capacidade de desviar-se
do nada, do vazio, da fatalidade. Mesmo
sendo parte do cosmos recebeu o livre
arbítrio para decidir, estabelecer sua
rota e seguir. Quando o homem consegue
selecionar as emoções básicas,
administrá-las e viver no controle de
suas potencialidades, torna-se
diretor do imaginário, voltando-se
para o caminho da felicidade.
Porém, não só os antigos
compreenderam isso. Michel Foucault
buscava na ética a estética da
existência, tomando como referência a
estética do universo, a beleza e a
organização do cosmos.
Fernando Pessoa realça a
importância de se valorizar a vida e a
participação no seu contexto ao dizer
que de tudo ficam três certezas:
“A certeza de que estamos
sempre começando...
A certeza de que
precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos,
antes de terminar...
Portanto: devemos, fazer
da interrupção, um caminho novo; da
queda, um passo de dança; do medo, uma
escada; do sonho, uma ponte; da procura,
um encontro”.
Ao proferir o Sermão da
Montanha, Jesus fez uma síntese de sua
tese educacional sobre o tema:
felicidade, deixando à sociedade de
qualquer tempo o paradigma correto,
imutável, para se alcançar a plenitude.
Numa só mensagem, o Mestre definiu as
regras da nova pedagogia que é capaz de
potencializar a competência emocional -
o maior desafio ao homem de qualquer
Era.
Hoje, os sociólogos ousam
afirmar, baseados na pesquisa
científica, que neste século haverá uma
evolução correspondente a 20 mil anos.
Nunca, em toda a história da humanidade,
o ser humano esteve tão informado sobre
os acontecimentos negativos que se
registram no Planeta. Há quem diga ainda
que está se formando uma geração de
ignorantes informados.
Quando se voltam os
refletores da modernidade sobre o Curso
de Formação de Líderes planejado e
implantado por Jesus, com a diversidade
de campus avançados, com metodologia
moderna, desenvolvida a partir da
pesquisa comunitária, com estudo através
de módulos, elaborados pelos próprios
alunos para o ensino à distância,
conclui-se que essa Universidade nunca
deixará de ser moderna.
Ao criar a Escola
Supletiva, Jesus abriu espaço para
pessoas de todas as idades, dando-lhes a
oportunidade do ensino permanente. Ora o
aluno vai à casa do Mestre, como fez
Nicodemos; ora o Mestre vai à casa do
aluno, Zaqueu. No poço, o professor
judeu ministrou aula para a aluna
samaritana e ali, mais uma vez, Jesus
inovou: implantou a política da
inclusão.
Jesus criou o trabalho em equipe, desde
o primeiro milagre, quando transformou
água em vinho, nas bodas de Caná. Os
alunos encheram os jarros de água. Ele
criou a merenda escolar, ensinando a
distribuir peixe e pão, após ou durante
as suas conferências.
Jesus implantou a auto-avaliação. Quando
Maria Madalena chegou ao seu conselho de
classe - ela havia sido julgada, de
acordo com a Lei de Diretrizes e Bases
da Educação de Moisés - estava
reprovada. O Mestre olhou para a aluna e
ordenou: “Vá e não peques mais”.
Aos professores advertiu: “Quem não
tiver pecado...” Quando Pedro negou a
Jesus, o processo de recuperação
implantado pela Universidade do Amor foi
capaz de tornar aquele aluno pronto a
morrer pela missão “de evangelizar o
mundo, até os confins da terra”.
A humanidade está agora mais do que
nunca precisando de orientação para
aprender a viver e viver muito bem com o
outro. As máquinas de matar estão ágeis
e potentes. Quem as fabricou foi o
homem. Os computadores registram e
controlam quase tudo. Obra humana. É
chegada a hora da avaliação.
Como diz Peter Russel, na sua obra “O
buraco branco no tempo”:
“Este é o momento de refletir,
porque tantos se sacrificaram para se
chegar até aqui e conquistar toda a
modernidade e o conforto deste século.
Mas, será que haverá a revolução das
consciências e o salto para a harmonia
global?”.
Claro que sim! A paz,
mercadoria mais cara do mundo, está
muito perto das mãos de cada um. Está ao
alcance do pobre ou do rico e de todas
as raças que formam esta grandiosa
aldeia global. É o sonho de todos! E
todos precisam aprender a valorizar o
próprio sonho para sustentar a vida
coletiva.
Não se pode pisar nos canteiros dos
sonhos da criança ou do adulto, ou de
ninguém. Todos querem desfrutar do
privilégio da vida. Portanto, as lutas
do cotidiano não devem ser avaliadas
como um pesado fardo e sim como
oportunidade de crescimento para o
aperfeiçoamento de cada um e de todos os
que compõem o cérebro global.
Viver é se aproximar e afastar-se de si
mesmo - das angústias e egoísmos. Viver
é a sincronização do
possível-impossível; do
material/espiritual; do morrível/imortal.
Sendo humano e quase anjo, um quase
santo/pecador, o homem deve aprender a
equilibrar-se entre o divino que
representa e o ser humano carregando o
peso de cargas desnecessárias que não
soube descartar ao longo da vida.
A geração que ora representa o perfil do
homem moderno há de aprender a conviver
com a informação e a transparência de
tudo ou de quase tudo que se faz de ruim
no Planeta e, mesmo assim, sonhar que
tudo pode ser melhor. E realizar e
transformar e acreditar nos bilhões de
vidas capazes de fazer a diferença. Aí,
sim, sem a ânsia desvairada da utopia,
acordado, de pés no chão, no chão que
ajudou a plantar e pacificar, colher as
flores e os frutos da serenidade, do
amor e da paz. Esta é a missão do
educador.
Ivone Boechat
Ph.D - Psicologia da
Educação
Bibliografia
OLIVEIRA, Ivone Boechat. Educar para a
felicidade, 3ª ed. Rio de Janeiro,
Reproarte, 2005.
- Competência emocional 3ª ed. Rio de
Janeiro, Reproarte, 2004.
- Uma Escola que ensina a amar, 6ª
ed.Rio de Janeiro, Reproarte, 2003.
SAVATER, Fernando. Ética para meu filho.
Martins Fontes, 2002, São Paulo.

Juraci da Silva Martins
UM DIA COMUM
Estamos no dia 13 de setembro de 2007. Como tenho as manhãs de folga,
aproveito-as para realizar múltiplas funções: dona de casa e outras inerentes
atividades, que qualquer pessoa comprometida com o bem-estar, não só da família,
mas também da comunidade, é capaz de realizar.
Jamais, porém, deixo passar sem deter-me diante das belezas que a natureza
oferece. Hoje cedinho fui às compras e resolvi passar entre os canteiros da
praça Nossa Senhora das Mercês. E qual não foi, então, o meu encanto: Havia
azaléias por todos os lados, copadas cobertas de flores rosa-pinque e outras
brancas. Essas flores cobriam todo o verde das folhas... em volta, muitas
borboletas multicoloridas em suas revoadas em busca de alimento. Ali, também
podia se observar alguns beija-flores de cores cintilantes, a sugar os néctares
naqueles canteiros floridos.
De fato, ali tudo era tudo romântico e inspirador. Uma mista gratuidade e beleza
a se descortinarem ante os olhares de todos os transeuntes, porém muito
significativos, aos que se detêm para observar e refletir sobre o grande louvor
da natureza ao seu criador e à magnificência da graça, torrentes do amor divino
pelo humano. Aí, então, a reflexão: A vida é como um jardim onde Deus plantou as
flores e alguém (que pode ser cada um de nós), entre elas, semeou espinhos. Por
isso, a vida se completa num misto de guerra e paz, de ganhos e perdas que se
traduz no amor e no ódio, nas diferenças sociais. São gritos de dores no meio de
flores. É a gangorra da vida que chamamos de biorritmo. Aqui, nada é constante e
perene, por isso, dizemos que saber viver é aproveitar, da melhor maneira
possível, os momentos de paz e harmonia, sem deixar de lembrar que o sofrimento
faz parte da caminhada, e ele nunca é em vão. O sofrimento é um livro que nos
ensina muitas coisas: entre elas, dar valor à vida com saúde e à paz de
espírito. O sofrimento nos faz crescer e nos santificar. Eleva-nos neste plano e
abre o espaço para se chegar à plenitude da felicidade que é viver já aqui neste
mundo, no mais íntimo contato com o dono da vida – Pai amoroso que, em trina
unidade com o Salvador e o Santificador, realiza o milagre da existência de tudo
e de todos.

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