PORTAL CEN *** REVISTA ESPLANADA DOS PROSADORES ***

ESPLANADA DOS PROSADORES -

MAIO DE 2010

Participação de Vários Autores

Arte Final: Iara Melo

 

 

 

 

Pensar no papel do indivíduo na sociedade

 (*) Nelson Valente

A partir da desordem do mundo contemporâneo, onde se percebem problemas de desigualdades sociais e econômicas, destruição ambiental, desrespeito aos princípios da vida, como liberdade e igualdade, corrupção na política, conflitos étnicos, religiosos e de gênero, por exemplo, evidencia-se a necessidade de superação dessa realidade por meio da reflexão ético-política, que se propõe a pensar sobre a pluralidade, buscando critérios para julgar e analisar as ações humanas, fundamentada nos princípios de igualdade, liberdade, diferença, responsabilidade, solidariedade. Toda a construção de significados, oportunizada pela Filosofia, tem como objetivo a efetivação da liberdade na relação inter-subjetiva, possibilitando ao homem a edificação de um outro projeto para a vida em comum, que vá além do mais puramente imediato, como a satisfação ou interesse puramente pessoal.

Perspectiva oportunizada é a do indivíduo reconhecer a necessidade de afastamento de uma vida isolada, solipsista, buscando sua construção de humanidade-cidadania, a partir de relações significativas com os outros de maneira dialógica. Essa construção, inter-humana, dá-se no momento em que o homem busca a compreensão do outro, a partir de uma relação de alteridade em que o eu só cria sua identidade em função da percepção da diferença, na qual o mesmo acolhe o outro através da comunidade discursiva.

Nesse contexto, a Filosofia tem como objetivo central, a partir de seus fundamentos ético-políticos de respeito ao outro de maneira dialógica, construir uma sociedade democrática, em que o indivíduo, enquanto cidadão participativo, seja reconhecido. Pode-se apontar como um dos maiores desafios da Filosofia para a presente época de início de um novo século a construção de relações harmoniosas entre os homens, inicialmente como reflexão e, posteriormente, como ação, possibilitando o enfrentamento de problemas sociais, políticos, econômicos e culturais. Percebendo a desigualdade e a injustiça do mundo contemporâneo, de relações globalizadas que visam, prioritariamente, ao lucro, é necessário pensar no papel do conhecimento filosófico frente a essa situação, como inspiradora da busca de sentido para a humanidade, distanciando-se da formação técnica do homem contemporâneo, que se compreende somente pelo seu desempenho econômico de produção, eficiência e capacidade reprodutora. A intenção central que se descortina é pensar no papel do indivíduo frente a sua comunidade, revelando a necessidade da responsabilidade de cada um frente ao todo, possibilitando relações solidárias com o outro homem, com a terra e com a sociedade.

A produção do conhecimento é uma missão da universidade e, ao lado da pesquisa, fundamentada na possibilidade de maior longevidade e de melhores condições de vida, a partir de uma postura ética voltada para a defesa do papel do cidadão. Tendo em vista a atual lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) no seu Artigo 36, Parágrafo 1º, Inciso III, que determina que o “educando ao final do Ensino Médio tenha o domínio dos conceitos/conteúdos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania”, considera-se que a Filosofia é a forma de conhecimento capaz de despertar no educando o sentido da cidadania, não só no espaço escolar, mas no espaço social, atuando em instituições de cunho político, social e cultural.

O processo escolar de socialização é uma das propostas da LDBEN e a Filosofia inserisse nesta concepção, pelo fato de que seus conhecimentos têm como objetivo despertar nos jovens educandos atitudes de tolerância, participação ativa como sujeito e agente de transformação social e política. Nesse sentido, o Curso de Licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Ítalo Brasileiro - UniÍtalo –, baseado em seus fundamentos norteadores: ético-políticos, epistemológicos e didático pedagógicos caracteriza-se por preocupar-se com a formação geral e específica do acadêmico dentro de uma dinâmica, sempre atualizada, articulando os diversos saberes, tanto dentro da academia, entre acadêmicos e docentes ligados à instituição e a sua responsabilidade com a sociedade, num trânsito entre o ensino, pesquisa e extensão.

O curso visa, igualmente, a atender às necessidade e às demandas (no meio acadêmico, religioso, educacional e social) de profissionais na área de Filosofia e humanidades na região, conforme a LDBEN  nº 9394/96, o Parecer do Conselho Nacional de Educação nº 38/2006 que obriga as escolas a oferecerem as disciplinas de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio.
Quer também fortalecer o desenvolvimento de pesquisas voltadas para a área das ciências humanas, no sentido de compreender a realidade existente e contribuir no seu desenvolvimento sócio-político. Aliado a esse fator procura-se criar condições para que sejam formados profissionais que, extrapolando o conhecimento necessário em seu campo de trabalho, penetrem em outras áreas, e que possam unir conhecimentos gerais construídos historicamente pela humanidade e as novas ideias e tecnologias do mundo contemporâneo, sendo necessário, para tanto, uma sólida formação humanística.

(*) Professor Universitário, Jornalista e Escritor
 
 
 
 
 
 
TÃO POUCO, E TANTO ...
 
Nídia Vargas Potsch
(texto reflexivo)

 
 
Será, que no fundo das minhas emoções existe lugar parapensar que tenho tão pouco?
Apenas porque, circunstâncias alheias a minha vontade, levaram o ser amado para bem longe de mim?
Ou porque estou só, sinto esta terrível solidão bolindo com meus sentimentos, torturando meu coração, quase sempre, me tornando triste andarilho?
Se existe o belo onde está manifestada a vida, por quê a surpresa? Por quê a descrença?
Se olharmos bem e observarmos ao nosso redor, tudo que nos cerca tem ânimo.
Capaz de nos fazer entender e ser parte integrante da Natureza que nos envolve, e com ela, sermos um ...
Se conseguirmos abstrair o "ter" do "ser" e procurar apenas nos emocionar e sentir com a alma e o espírito, nos transformaremos em seres bem melhores.
Teremos a certeza de que há um Deus que comanda tudo isso.
Que rege este espetáculo chamado: VIDA!
ELE olha por nós, nos carrega nos piores momentos e nas mais diversas e áridas circunstâncias.
Então, porque não agradecer, em vez de se lamentar, temer e sofrer com o que aconteceu ou possa vir a acontecer?
Aprendi, a duras penas, que amores vem e vão, ao longo de nossas vidas.
Que perdemos pessoas as quais amamos por diferentes motivos, em diferentes ocasiões.
Que tudo se passa como numa viagem de "aperfeiçoamento" do espírito, mas que continua "vivo" para todos nós, gravado em fogo em nossos corações e em nossas lembranças.
Não há o que discutir, nem se lamentar ...
A Vida é uma bela e gratificante viagem!
Saudade dói muito e aos poucos ela adoça nosso pensar. É só o tempo passar ...
O que vale é o exemplo que deixamos e a dignidade de caráter com a qual vivemos nesta vida.

VIVER É MARAVILHOSO !!!
PARTILHAR A VIDA, MUITO MELHOR !!!

E se pudermos passar estes ensinamentos, dividir nossas conquistas sabiamente
 com nossos semelhantes, valeu a pena ter vivido ...

@Mensageir@
Rio, 18/07/2006
 
 
 
 
 
 
O Guardanapo.
(Reflexão)
  
Pinhal Dias 

 

Para que serve?
– (…) Para limpar a boca.
Com esta base questionou-se “Vou dar uma nova linha de condução e por um novo estilo”  - “Sátira” dará azo ao «Guardanapo».
 
Numa bela manhã, onde o sol já raiava, a temperatura subia aos trinta e um graus. Nesse lugar havia uma esplanada plausível, as bebidas refrescavam por algumas gargantas apetecíveis, depois acresciam as guloseimas por bolos que besuntavam essas bocas e por uma higiene assistida remediavam à respectiva limpeza; com supostos guardanapos.
Uns conversavam alegres e contentes, talvez o dia para esses marcasse a sua efeméride festiva - enquanto outros em lamúrias de vida gesticulavam palavreando resultados negativos pelas medidas de austeridade que aflige a sociedade, sem saúde, sem educação e que refaz um viver descontente…
Ele postado e sempre atento, ripa de um guardanapo e nessa hora dá-lhe a vida de prosa …
De repente surge outro olhar atento, que o questionou:
 
- É amigo o que é isso?
- É um guardanapo!
- Mas o que escreve aí… faz sentido?
- Se faz… São versos em prosa poética!
- E depois… Consegue limpar a boca?
- Sim! Depois de lido fica…
- Que fica o quê?
- Sátira ou Guardanapo…
(…) Guardanapo … com mensagem que limpa a boca e a alma!
 
Amora - Portugal
 
 
 
 
 
 
 
 
UMA MARMELADA QUE DEU ZEBRA
 
Raymundo de Salles Brasil
          
Plácido Bandeira, ao lado de ser um cavalheiro, cidadão muito querido e muito conceituado na sociedade, era um homem muito forte e bem treinado nas artes marciais. Era um verdadeiro atleta.
Íldon Rocha – um trabalhador – igualmente bem quisto e respeitado, jamais frequentara uma academia. Mas era um homenzarrão que possuía, sem dúvida, uma força descomunal.  Dizem até – e isto fica por conta do folclore – que certa vez um burro tentou dar-lhe um coice e ele, segurando-lhe a pata, bradara enfurecido: “Você pode ter mais do que eu inteligência, mas força não.”.
Íldon Rocha era, normalmente, uma moça no trato, mas, zangado, era uma fera.
Plácido e Íldon eram amigos e viviam, em Santo Amaro, uma vida pacata e ordeira.
Na década de 40, houve um ano de poucos recursos financeiros na tesouraria de uma daquelas comissões encarregadas dos festejos de determinado Santo, idolatrado pela grande maioria da população santo-amarense. Na proximidade do dia comemorativo, a comissão, preocupada, reuniu-se para buscar uma solução, uma maneira de angariar recursos, para não pôr em risco o brilho da festa. Conversa vai, conversa vem, cada um dava a sua idéia; umas, pouco brilhantes, eram logo desconsideradas, outras estapafúrdias e inexequíveis. Entre estas, no entanto, uma foi considerada passível de análise. A genial idéia foi a seguinte: “Vamos realizar uma luta livre no Cine Teatro Santo Amaro.” Aparentemente nada de estapafúrdio, nem de inexequível.  Porém o dono da brilhante idéia não tinha, em mente, sequer, os nomes dos lutadores, o que caiu como um balde de água fria sobre aqueles que se animaram. Mas outra idéia logo surgiu – a comissão era repleta de luminares – um nome foi aventado – Plácido Bandeira! E todos eufóricos, quase que unânimes exclamaram – Plácido Bandeira! Estava definitivamente, solucionado o problema. E quando já começavam a delinear os planos para a luta, um deles, menos empolgados, dissera calmamente: quem será o desafiado? Outro balde de água fria, e a comissão retornou às reflexões, até que um dos luminares daquela plêiade lembrou-se do nome do pacato Íldon Rocha, que jamais se imaginara lutando, a menos que lhe dessem um coice.
Apesar de alguns contra argumentarem que seria uma luta desigual, considerando que Plácido era um lutador treinado nas artes marciais, e Íldon era apenas uma força bruta, a sugestão foi eleita pela maioria e tratou-se logo de nomear uma subcomissão com a incumbência de levar o convite – ou intimação – aos supostos contendores.  
Plácido a princípio relutou por não ter um adversário à sua altura, “mas se Íldon concordar” – dissera ele – “faremos apenas uma demonstração, até porque, nós somos bons amigos e Íldon não é um lutador e quando o adversário não tem técnica, quanto maior for, melhor será a queda”. Dissera já em tom de superioridade.
Íldon, consciente de que jamais poderia lutar de igual para igual, com um profissional, recusou-se de inicio, ao que ele denominou de uma palhaçada. Entretanto, convencido pela hábil comissão de que a luta seria um faz de conta, uma simples demonstração e que não haveria vencedor, aquiesceu desejando colaborar para uma causa que ele, também, considerara nobre. 
A subcomissão, exultante, correra para uma reunião, previamente marcada, onde relatara o êxito de sua incumbência.
O trabalho agora seria a propagação da grande peleja. No entanto isto foi feito com muita competência e logo, a cidade se encheu de panfletos e anúncios, o que gerara – pelo inusitado evento – o assunto principal nas esquinas, nos bares, no Jardim dos Casados, no adro da Igreja, nos lares, enfim, em toda a cidade.
Chegado o dia da grande luta obviamente que o Cine Teatro Santo Amaro estava repleto, mais do que repleto, superlotado: Pessoas se amontoavam no corredor do centro, nos espaços laterais entre a parede e as cadeiras e ao fundo uma multidão se aglomerava para ver a chegada dos gladiadores na arena.
Ao soar de um pequeno sino - daqueles que, na época, eram usados para anunciar a hora das refeições - trazido por um luminar daquela plêiade, o momento tão esperado aconteceu com a entrada, no ringue, de Plácido Bandeira e, concomitantemente, os aplausos da turba ávida por sangue. Logo em seguida, a entrada pálida de Íldon Rocha: todo acanhado, totalmente sem jeito, palmas quase nenhuma. Plácido, de braços erguidos, já se sentindo um vitorioso, incitava a multidão a mais aplausos.
Ao novo soar do sino, começara a luta e, à primeira investida, uma queda, e a cada investida uma queda maior; e assim, de queda em queda, foram-se incitando a vaidade de Plácido e a fúria de Íldon que, em determinado momento, com o sangue a quase brotar-lhe pelos poros e a boca espumarosa de raiva, num vacilo de seu antagonista, conseguiu abraçar-lhe o pescoço com as suas duas mãos poderosas; e convicto de sua força descomunal, bradara para que toda platéia ouvisse: Saia daqui, agora, filho da p...!
Foi um Deus nos acuda: o juiz – que fora escolhido porque estava acostumado a apitar os clássicos entre Botafogo e Ideal no Campo do Riachuelo – apavorado, vendo Plácido já com a língua um palmo fora da boca, suplicava, de joelhos, o socorro da platéia, que, a muita força, conseguira separar o pescoço do atleta treinado nas artes marciais das mãos poderosas e enraivecido da força bruta.
           
 
 
 
 
 
Faces do Amor ...

Roze Alves
 

                           
Um Domingo, poderia vir a ser como tantos que passei em casa, mas fui convidada a ir num almoço de pessoa muito querida e como não recusei o convite, lá estava eu, toda animada no sábado a pensar com que roupa iria, massagear cabelos, retocar unhas...rs, essas coisas bem femininas e frescas que mulher tem. Eu estava muito mais que animada, estava curiosa, sim, iria encontrar pessoas, que ouvia muito os nomes, mas nunca havia tido o menor contato, poetas, formatadores, pessoal do meio poético, no qual eu estou acabando de nascer... ainda no gugu dada ...rs. Assim passei o sábado e depois de confirmar o encontro com quem eu havia marcado, fiz mais algumas coisas e a noite chegou me levando rápido para a cama, porque moro longe de onde iria e Domingo a condução é pior que nunca.
                            Acordei feliz e comecei a me arrumar, ganhei uma carona até "lá fora"...rs, parece coisa do interior, mas é dentro do Rio de Janeiro, capital; o ônibus não demorou por milagre dos deuses e embarquei nele, me preparando para a viagem de uma hora até pegar a próxima condução para chegar ao meu primeiro destino. Consegui lugar para me sentar, mas no corredor do ônibus, as janelas já todas ocupadas, suspirei aliviada, melhor ali que em pé ... Corri os olhos nos companheiros de viagem, porque posso classificar como uma e sem saber a hora de chegar ao terminal.
 Normalmente o ônibus quebra na serra, fura um pneu, coisas normalíssimas nessa linha.
Eu torcia por uma viagem tranquila e "nada normal" ...
As vezes quando estou pensando em alguma coisa, meus ouvidos bloqueiam os sons ao meu redor e só depois reparo a algazarra que faziam algumas crianças no último banco. Cantavam, batiam palmas, os pés no chão, enfim um tumúltuo que ficava pior junto com o barulho de todos os ferros soltos que o ônibus tinha e neste instante eu os vi ..
                             Estavam também sentados no corredor, no meu lado contrário em dois bancos a frente. Seu Celso: nome que dei a ele, fiquei em dúvida entre Júlio também, ele tinha cara desses dois nomes, embora parecesse nordestino e deveria se chamar Nonato ou Ribamar, nomes comuns no nordeste, quem vai saber? E Dona Maria José, lhe dei esse nome porque ela me lembrou minha tia que tem esse nome, uma homenagem as duas, depois explico porque. Seu Celso vestia uma calça vinho, que já deve ter tido essa cor mais viva a tempos atrás, uma camisa tipo pólo, muito branca, com algumas listras também de cores apagadas na parte superior e já bem fina pelo uso, meias brancas e largas nas pernas e pasmem, ele usava sapatos “cavalo de aço”, os do meu tempo saberão por certo do que falo ... um sapato com um solado branco de borracha dura e com saltos quadrados também brancos ... Nem imaginava que ainda vendessem isso, ou se não ... Ele tinha uma relíquia nos pés, uma bolsinha, dessas que se carregam marmita, atravessada no peito e muito limpa também, um relógio de corrente prateada no pulso completava a roupa de Domingo dele. Fique imaginando com que esmero aquela roupa era lavada, pois embora bem surrada, estava impecavelmente limpa. Ela em seu vestido estampado de flores roxa, com folhas verdes e fundo branco, uma sapatilha marrom nos pés, da marca Moleca, uma bolsa verde quase da cor das folhas de seu vestido, e me chamou a atenção, porque em um encontro da minha turma em Copacabana, essas bolsas eram oferecidas por vendedores ambulantes ... a bolsa em questão é feita de uma imensa tira fechada com um fecho-eclair, que conforme você vai abrindo, a bolsa vai se formando. Brasileiro inventa tudo para ganhar um trocado e ela também tinha no pulso um relógio de pulseira prateada, assim como o meu e também por certo comprado no camelô, porque é o que se pode usar hoje em dia para não ser roubada. Seu Celso com seus cabelinhos todo branco e meio rareado no alto da cabeça, ela com os seus muito pretos, embora mal tratados, digo por serem sem brilhos, cortado curto e de aparência bem limpa. Seu Celso cutucava ela no braço, mexia em seus cabelos, sua nuca e ela fazia cara feia para ele quando virava para trás, batia em sua mão, aquele tapa que não encosta...rs.
                            Mas de onde eu estava, via seu sorriso quando ela voltava o rosto para frente, passei a olhá-los sem disfarçar, com um sorriso nos lábios também, achei linda a cena, ela falava alguma coisa baixinho, voltada para trás e ele ria e vice-versa. Era um casal feliz, deviam ter entre 65 a 70 anos, aspecto de quem já trabalhou muito nesta vida, mas estavam ali firmes um com o outro. Gostaria de saber se eram marido e mulher ou apenas namorados que se programaram para passarem juntos o Domingo.
Ela arregaçava a manga de seu vestido e em determinado momento acho que li mais em seus lábios que na verdade ouvi, ela disse: estou passando mal, falou rápido e virou logo para a frente, ele não escutou ou fez que não, será que ela fica nervosa ao andar de ônibus e por isso ele não a deixava quieta, para distraí-la?  Involuntariamente comecei a torcer para que ela aguentasse até o fim da viagem na boa, pensei em lhe oferecer uma bala, mas desisti, ela poderia achar abuso eu estar me intrometendo na vida deles e ela tinha cara de quem poderia ser diabética, deixei para lá a idéia e acho que estava olhando tanto, que Seu Celso se voltou para mim e deu um sorriso, um lindo sorriso feliz que retribuí com prazer. Ela também se voltou, mas não sorriu, acho que apenas avaliou a situação...rs.
                            E mais uma vez deixei a minha idéia solta e imaginei para onde poderiam estar indo, visitar parentes? Os filhos quem sabe, olhar o mar? O dia estava maravilhoso para isso, os jats-ski no canal? Ficariam cansados, lá não tem onde sentar.
                           A viagem já estava quase no fim e vagou um banco e fizeram o que imaginei, rápidos sentaram-se juntos, e então  deram-se os braços e cruzaram os dedos das mãos e começaram a falar baixinho um no ouvido do outro e sorriam, isso é amor...rs, não pode ser outra coisa, o amor com face de Seu Celso e Dona Maria José num dia de Domingo ... Eu já vi esse sorriso um dia no rosto da minha tia, por isso dei seu nome em homenagem e espero que ela tenha sido feliz, mesmo a seu modo, enquanto durou seu casamento ...
                           A viagem terminou para mim, saltei e eles seguiram, que pena queria tanto saber o que fariam, mas me dou por feliz em estar aqui a contar o fato a vocês e dizer que tomara que sejamos agraciados com um amor companheiro assim, como esse casal lindinho que não vou mais esquecer ..

Roze Alves
Amanhecer-M
RJ, Guaratiba, 31/07/2008
 
 
 
 
 
VAMOS ACABAR COM A VIOLÊNCIA
 
 Sueli Bittencourt
 

      Que violência chama violência é fato conhecido. A exibição contínua da violência banaliza-a, fazendo-a parecer natural e levando muitos indivíduos a praticá-la “normalmente”.
      Por motivos comerciais, entre outros, a imprensa e principalmente a TV, apresenta amplamente a violência em seus noticiários, em suas histórias, filmes, novelas e até em desenhos infantis. E o assunto vai se internalizando na mente humana, às vezes até tomando sua preferência. A pessoa acaba adotando a violência para resolver seus problemas. 
       É tanta a exibição da violência e de crimes em geral que muitos jovens, tendentes à delinquência, chegam a reunir-se em grupos a fim de assistirem programas na TV que lhes mostrem claramente os fatos violentos e criminosos. Nessas reuniões eles observam, anotam, discutem tudo o que assistem, e logo que possam saem a praticar violência e outros crimes, conforme viram, ouviram, leram e aprenderam.  Vão então aperfeiçoando-se mais e mais até morrerem ou superlotarem as cadeias.
       Exemplos, sejam eles bons ou maus, têm poder extraordinário.
 
      De tanto ver, ouvir, sentir e viver violência, muitas crianças e jovens tornam-se “naturalmente” violentos.
      E aí estão a acontecer todos os dias, em ordem crescente, violência e crimes de toda espécie... Nas escolas, em casa, nas ruas, em sociedade, em toda parte.
     Vamos acabar ou minimizar a violência e outros crimes substituindo sua exibição, sua demonstração e publicidade por notícias positivas, por histórias e exemplos louváveis que também acontecem frequentemente. Estes sim devem ser exibidos, comentados  aplaudidos e às vezes até premiados. Tal procedimento poderá inverter os fatos.
     São muitos os acontecimentos e atitudes louváveis, admiráveis mesmo, que acontecem no dia a dia. Vamos divulgá-los e aplaudi-los com entusiasmo. Isto irá possibilitar-nos  construir um mundo melhor.
 
 
 
 
 
 
"UM INSTANTE DE INSTINTO"
Tchello d’Barros

 
“Não, senhores repórteres, nada mais tenho a declarar. Como delegado incumbido desse caso, apenas quero registrar aqui meu espanto, por um crime tão violento e aparentemente sem motivos. O apenado, pelo que pudemos apurar, era um cidadão tranqüilo, honesto e trabalhador. Consta nesta ficha que não tinha vícios, pagava suas contas e impostos em dia e era considerado bom vizinho no condomínio. O único registro que temos de ocorrência em seu nome foi quando ele mesmo há alguns anos entrou em contato com nosso plantão, solicitando uma viatura urgente, pois havia acontecido um estupro num beco próximo de uma praça de seu bairro. Até agora não entendi o que levaria um cara normal assim, a estrangular o psicanalista e em seguida estuprar a secretária, em pleno consultório. Putz! Vá entender a natureza humana!”

“Bem, ele já trabalhava há alguns anos aqui no banco, deixe ver, creio que há uns nove anos talvez, mas nunca notamos nenhum sinal de agressividade ou outro comportamento suspeito. Até que era um cara legal, participava dos bolões da loteria, comprava rifas e até participava da tradicional “vaquinha”, quando alguém fazia aniversário. É verdade que era meio quietão e não participava das excursões turísticas que volta-e-meia a turma aqui do banco programava. Mas olha, ficamos todos aqui estarrecidos com essa notícia, um cara tão calmo...”

"Não sei, é difícil dizer com certeza, a gente nunca sabe quem está por detrás de um comportamento do tipo normal, como ele. Sabe, aqui no prédio ele nunca deu problema, não. Como síndico, eu até admirava ele, pois sempre colaborava quando tinha algum problema no edifício. É, a verdade é que nunca recebia visitas. Nem amigos, nem namoradas, nada. Puxa, como é que um cara assim pacato pode cair numa desgraça dessas...”

"Ah, ele era meio paradão, meio esquisito, ficava sempre na dele. Estudamos três anos juntos na faculdade e ele, sempre reservado. Não paquerava as colegas nem participava das turminhas que se formavam. Eu até dei em cima dele uma vez, sabe, pois até que não era feio, mas ele nem me deu bola. Só tirava notas boas, é verdade, mas não se enturmava com a galera”.

“Olha, aqui na biblioteca ele sempre aparecia, veja aqui na ficha, pegava sempre esses livros de auto-ajuda, especialmente os de poder da mente, hipnotismo, essas coisas. Nunca atrasou nas devoluções e era sempre muito educado com as meninas daqui. O último livro que levou era sobre essas coisas de inconsciente e desejos reprimidos, mas esse não foi devolvido. É, pensando bem, acho que era um cara meio reprimido, meio solitário, sei lá. Mesmo assim, ficamos todos tristes aqui com o acontecido. Se acho que mereceu prisão perpétua? Ah, sei lá, deixar um cara desse solto por aí, é meio brabo, né!"

"Infelizmente a moça ainda está bastante abalada, recuperando-se do estado de choque e não está em condições de dar entrevista, vocês me desculpem. Como ginecologista, conversei muito com ela, durante o acompanhamento psicológico pós-estupro e posso apenas comentar que ela própria ainda não entendeu nada. Me disse que ele já tinha feito várias consultas, sessões de relaxamento e agora o doutor estava para iniciar uma terapia com hipnose, frases de efeito e regressão. Algo em torno do poder das palavras, para liberar os instintos, pois parecia que o sujeito era meio tenso ou algo assim. Pobre moça, tão simpática”.
"Olha, sei pouca coisa do caso, estou começando hoje aqui, substituindo a outra moça, que parece, foi violentada por um cliente. O pouco que sei vi no jornal. Não posso conversar muito, preciso desse emprego, viu? Não sei se ajuda, mas arrumando a bagunça que ficou isso aqui por causa do crime, encontrei o gravadorzinho que o psicanalista usava para registrar as sessões. Parece que nem o delegado viu isso. Até que tinha uma mensagem bonita, que o terapeuta dizia enquanto o cara estava deitado no divã, ouça como é bonitinho:

“Agora feche os olhos e respire fundo, relaxe seu corpo, sua mente e sua alma. Esqueça as tensões e os problemas do mundo, descanse no sono, que seu corpo se acalma. Cabeça, tronco e membros já em sintonia, siga respirando sentindo a dormência. O corpo e espírito estão em harmonia, seu instinto vai vibrando nesta freqüência. Mergulhe em si cada vez mais para dentro, encontre as profundezas em seu interior. E abra-se sem medo de culpa ou tormento, solte vontades, desejos e sua dor. Venha à tona seu âmago neste momento, liberte todo seu eu sem medo ou temor.”
 

 

 

 
DO BELÉM À ITAPEVI.

Aparecido Donizetti Hernandez


Rima resolveu sair da cidade de São Paulo, de seu bairro, o Belenzinho, ali no início da zona leste, e ir passar o dia em uma chácara na cidade de Itapevi, distante uns 32 quilômetros rumo ao oeste do Estado. Tinha sido convidada por amigos para uma confraternização.
Rima tinha dois filhos: Leuc e Jasmim. Jasmim ficaria aos cuidados do pai. Leuc, ela o pegou pelas mãos e caminhou de sua casa até a estação do metrô, afinal a Estação Belém ficava a menos de 500 metros de sua casa.
Rima com Leuc, seu filho de 4 anos de idade às mãos, sabia que precisaria ir até a Estação Barra Funda do metrô, (não havia ainda a integração) descer e comprar bilhete para pegar o trem da FEPASA, que sai da Estação Julio Prestes na região do Bairro da Luz; e pára na primeira estação, que é de Barra Funda, rumo à cidade de Itapevi.
Rima não tinha a menor ideia do que iria passar em sua vida naquele domingo de muito sol, pensava somente no churrasco e nos amigos de Empresa que encontraria, das risadas que daria e de ver seu filhinho Leuc passar um dia perto da natureza.
O dia foi longo, afinal de contas chegou bem cedo à Estação de Engenheiro Cardoso, uma estação antes do final, já na cidade de Itapevi. Tinha as orientações para descer do lado direito da estação, no sentido capital-interior. Do lado esquerdo fica o Bairro Engenheiro Cardoso; do direito, Chácara Vitápolis.
Rima seguiu as orientações. Após caminhar em terra batida ao longo do Rio Barueri Mirim, viu a ponte, atravessou-a e seguiu até seu destino. Foi uma das primeiras a chegar, uma das últimas a sair; mas ainda estava dia e o sol demoraria a se pôr - a viagem de volta seria longa.
Caminhou à Estação Engenheiro Cardoso, comprou os bilhetes e esperou a chegada do trem que a levaria de volta.
O trem apenas tinha passado por duas estações rumo à capital e Rima notou um barulho estranho e seu filhinho Leuc carinhosamente segurando um bichinho, Rima pergunta:
- Que bicho é esse Leuc?
Leuc responde:
- Não vê que é um sapo!
Rima insiste para Leuc jogar o sapo pela janela do trem, mas Leuc não permite e teima:
- O sapo é meu, fui eu que o pegou, vou levá-lo para casa e cuidar dele.
Rima prefere deixar o bichinho com Leuc, já que a teimosia da criança chama à atenção de outros passageiros, que somente notam a teimosia do menino e não percebem o motivo.
Rima impaciente com a teimosia de Leuc insiste em tirar o bichinho de suas mãos, tudo em vão. Resolve, então, não descer na Estação de Barra Funda e pegar o metrô que a levaria ao Belenzinho mais depressa, prefere ir à Estação terminal de Julio Prestes e ali pegar um ônibus, rumo ao seu destino.
Como era um dia de domingo e os ônibus além de horários mais espaçados, o ônibus que a levaria para casa somente iria encontrá-lo na Av. São João - uma boa caminhada da estação do trem até lá. No caminho insistia com Leuc de abandonar seu novo mascote, um sapo, que carinhosamente afagava.
Rima foi caminhando, quando passa pela Praça Princesa Izabel, onde fica uma grande estátua de Victor Brecheret em homenagem à Duque de Caxias, na época uma praça sem grades, que hoje separa o povo da praça; antes, somente um belo gramado.
Na época, um verão duradouro, a grama da Praça Princesa Izabel estava mais que seca, o verde da grama de épocas de chuva tinha dado lugar ao amarelo da grama queimada pelo sol. Rima, num sobre-salto tomou das pequenas mãos de Leuc o Sapo. Para ela, somente um Sapo; para Leuc; um bichinho de estimação, um novo mascote e também uma lembrança do domingo no campo.
Rima soltou o sapo naquele gramado amarelado pelo sol, o sapo saiu saltitante. Leuc aos berros:
- O quero de volta!
Rima não se deu por vencida, puxou pelas mãos seu filho e à passos apressados atingiu a Av. São João. Por sua sorte logo vem o ônibus, Penha-Lapa, que passando pela Av. Celso Garcia a deixaria a poucas quadras de sua casa.
Adentrou ao ônibus, Leuc aos prantos chamou a atenção dos demais passageiros, que ficaram  com cara de indignados com a cena, mas nada disseram. O cobrador do coletivo não resistiu:
- Por que a senhora soltou o bichinho do menino? Olha como ele está chorando! A senhora não deveria ter feito isso! - Sem saber de que animalzinho a criança em berros falava.
Rima não teve dúvidas:
- Por acaso, o senhor sabe o que ele estava trazendo às mãos?
O cobrador respondeu:
- Isso não importa! A senhora não está vendo a criança sofrer?
Rima disse:
- Era sapo, que ele trazia! Quer que o pegue de volta pra o senhor?


 

 

 

 

 
 

*** Portal CEN - Cá Estamos Nós Web Page ***

Todos os Direitos Reservados