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ESPLANADA DOS
PROSADORES -
MAIO DE 2010
Participação de Vários Autores
Arte Final:
Iara Melo

Pensar no
papel do indivíduo na sociedade
(*) Nelson Valente
A partir da
desordem do mundo contemporâneo, onde se
percebem problemas de desigualdades
sociais e econômicas, destruição
ambiental, desrespeito aos princípios da
vida, como liberdade e igualdade,
corrupção na política, conflitos
étnicos, religiosos e de gênero, por
exemplo, evidencia-se a necessidade de
superação dessa realidade por meio da
reflexão ético-política, que se propõe a
pensar sobre a pluralidade, buscando
critérios para julgar e analisar as
ações humanas, fundamentada nos
princípios de igualdade, liberdade,
diferença, responsabilidade,
solidariedade. Toda a construção de
significados, oportunizada pela
Filosofia, tem como objetivo a
efetivação da liberdade na relação
inter-subjetiva, possibilitando ao homem
a edificação de um outro projeto para a
vida em comum, que vá além do mais
puramente imediato, como a satisfação ou
interesse puramente pessoal.
Perspectiva oportunizada é a do
indivíduo reconhecer a necessidade de
afastamento de uma vida isolada,
solipsista, buscando sua construção de
humanidade-cidadania, a partir de
relações significativas com os outros de
maneira dialógica. Essa construção,
inter-humana, dá-se no momento em que o
homem busca a compreensão do outro, a
partir de uma relação de alteridade em
que o eu só cria sua identidade em
função da percepção da diferença, na
qual o mesmo acolhe o outro através da
comunidade discursiva.
Nesse contexto, a Filosofia tem como
objetivo central, a partir de seus
fundamentos ético-políticos de respeito
ao outro de maneira dialógica, construir
uma sociedade democrática, em que o
indivíduo, enquanto cidadão
participativo, seja reconhecido. Pode-se
apontar como um dos maiores desafios da
Filosofia para a presente época de
início de um novo século a construção de
relações harmoniosas entre os homens,
inicialmente como reflexão e,
posteriormente, como ação,
possibilitando o enfrentamento de
problemas sociais, políticos, econômicos
e culturais. Percebendo a desigualdade e
a injustiça do mundo contemporâneo, de
relações globalizadas que visam,
prioritariamente, ao lucro, é necessário
pensar no papel do conhecimento
filosófico frente a essa situação, como
inspiradora da busca de sentido para a
humanidade, distanciando-se da formação
técnica do homem contemporâneo, que se
compreende somente pelo seu desempenho
econômico de produção, eficiência e
capacidade reprodutora. A intenção
central que se descortina é pensar no
papel do indivíduo frente a sua
comunidade, revelando a necessidade da
responsabilidade de cada um frente ao
todo, possibilitando relações solidárias
com o outro homem, com a terra e com a
sociedade.
A produção do conhecimento é uma missão
da universidade e, ao lado da pesquisa,
fundamentada na possibilidade de maior
longevidade e de melhores condições de
vida, a partir de uma postura ética
voltada para a defesa do papel do
cidadão. Tendo em vista a atual lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDBEN) no seu Artigo 36, Parágrafo 1º,
Inciso III, que determina que o
“educando ao final do Ensino Médio tenha
o domínio dos conceitos/conteúdos de
Filosofia e Sociologia necessários ao
exercício da cidadania”, considera-se
que a Filosofia é a forma de
conhecimento capaz de despertar no
educando o sentido da cidadania, não só
no espaço escolar, mas no espaço social,
atuando em instituições de cunho
político, social e cultural.
O processo escolar de socialização é uma
das propostas da LDBEN e a Filosofia
inserisse nesta concepção, pelo fato de
que seus conhecimentos têm como objetivo
despertar nos jovens educandos atitudes
de tolerância, participação ativa como
sujeito e agente de transformação social
e política. Nesse sentido, o Curso de
Licenciatura em Filosofia do Centro
Universitário Ítalo Brasileiro -
UniÍtalo –, baseado em seus fundamentos
norteadores: ético-políticos,
epistemológicos e didático pedagógicos
caracteriza-se por preocupar-se com a
formação geral e específica do acadêmico
dentro de uma dinâmica, sempre
atualizada, articulando os diversos
saberes, tanto dentro da academia, entre
acadêmicos e docentes ligados à
instituição e a sua responsabilidade com
a sociedade, num trânsito entre o
ensino, pesquisa e extensão.
O curso visa, igualmente, a atender às
necessidade e às demandas (no meio
acadêmico, religioso, educacional e
social) de profissionais na área de
Filosofia e humanidades na região,
conforme a LDBEN nº 9394/96, o Parecer
do Conselho Nacional de Educação nº
38/2006 que obriga as escolas a
oferecerem as disciplinas de Filosofia e
Sociologia no Ensino Médio.
Quer também fortalecer o desenvolvimento
de pesquisas voltadas para a área das
ciências humanas, no sentido de
compreender a realidade existente e
contribuir no seu desenvolvimento
sócio-político. Aliado a esse fator
procura-se criar condições para que
sejam formados profissionais que,
extrapolando o conhecimento necessário
em seu campo de trabalho, penetrem em
outras áreas, e que possam unir
conhecimentos gerais construídos
historicamente pela humanidade e as
novas ideias e tecnologias do mundo
contemporâneo, sendo necessário, para
tanto, uma sólida formação humanística.
(*) Professor Universitário, Jornalista
e Escritor
TÃO POUCO, E
TANTO ...
Nídia
Vargas Potsch
(texto reflexivo)
Será, que no fundo
das minhas emoções existe lugar
parapensar que tenho tão pouco?
Apenas porque, circunstâncias alheias a
minha vontade, levaram o ser amado para
bem longe de mim?
Ou porque estou só, sinto esta terrível
solidão bolindo com meus sentimentos,
torturando meu coração, quase sempre, me
tornando triste andarilho?
Se existe o belo onde está manifestada a
vida, por quê a surpresa? Por quê a
descrença?
Se olharmos bem e observarmos ao nosso
redor, tudo que nos cerca tem ânimo.
Capaz de nos fazer entender e ser parte
integrante da Natureza que nos envolve,
e com ela, sermos um ...
Se conseguirmos abstrair o "ter" do
"ser" e procurar apenas nos emocionar e
sentir com a alma e o espírito, nos
transformaremos em seres bem melhores.
Teremos a certeza de que há um Deus que
comanda tudo isso.
Que rege este espetáculo chamado: VIDA!
ELE olha por nós, nos carrega nos piores
momentos e nas mais diversas e áridas
circunstâncias.
Então, porque não agradecer, em vez de
se lamentar, temer e sofrer com o que
aconteceu ou possa vir a acontecer?
Aprendi, a duras penas, que amores vem e
vão, ao longo de nossas vidas.
Que perdemos pessoas as quais amamos por
diferentes motivos, em diferentes
ocasiões.
Que tudo se passa como numa viagem de
"aperfeiçoamento" do espírito, mas que
continua "vivo" para todos nós, gravado
em fogo em nossos corações e em nossas
lembranças.
Não há o que discutir, nem se lamentar
...
A Vida é uma bela e gratificante viagem!
Saudade dói muito e aos poucos ela adoça
nosso pensar. É só o tempo passar ...
O que vale é o exemplo que deixamos e a
dignidade de caráter com a qual vivemos
nesta vida.
VIVER É MARAVILHOSO !!!
PARTILHAR A VIDA, MUITO MELHOR !!!
E se pudermos passar estes ensinamentos,
dividir nossas conquistas sabiamente
com nossos semelhantes, valeu a pena
ter vivido ...
@Mensageir@
Rio, 18/07/2006
O
Guardanapo.
(Reflexão)
Pinhal Dias
Para que serve?
– (…) Para limpar a boca.
Com esta base questionou-se “Vou dar uma
nova linha de condução e por um novo
estilo” - “Sátira” dará azo ao
«Guardanapo».
Numa bela manhã, onde o sol já raiava, a
temperatura subia aos trinta e um graus.
Nesse lugar havia uma esplanada
plausível, as bebidas refrescavam por
algumas gargantas apetecíveis, depois
acresciam as guloseimas por bolos que
besuntavam essas bocas e por uma higiene
assistida remediavam à respectiva
limpeza; com supostos guardanapos.
Uns conversavam alegres e contentes,
talvez o dia para esses marcasse a sua
efeméride festiva - enquanto outros em
lamúrias de vida gesticulavam
palavreando resultados negativos pelas
medidas de austeridade que aflige a
sociedade, sem saúde, sem educação e que
refaz um viver descontente…
Ele postado e sempre atento, ripa de um
guardanapo e nessa hora dá-lhe a vida de
prosa …
De repente surge outro olhar atento, que
o questionou:
- É amigo o que é isso?
- É um guardanapo!
- Mas o que escreve aí… faz sentido?
- Se faz… São versos em prosa poética!
- E depois… Consegue limpar a boca?
- Sim! Depois de lido fica…
- Que fica o quê?
- Sátira ou Guardanapo…
(…) Guardanapo … com mensagem que limpa
a boca e a alma!
Amora - Portugal

UMA
MARMELADA QUE DEU ZEBRA
Raymundo de Salles Brasil
Plácido Bandeira, ao lado de ser um
cavalheiro, cidadão muito querido e
muito conceituado na sociedade, era um
homem muito forte e bem treinado nas
artes marciais. Era um verdadeiro
atleta.
Íldon Rocha – um trabalhador –
igualmente bem quisto e respeitado,
jamais frequentara uma academia. Mas era
um homenzarrão que possuía, sem dúvida,
uma força descomunal. Dizem até – e
isto fica por conta do folclore – que
certa vez um burro tentou dar-lhe um
coice e ele, segurando-lhe a pata,
bradara enfurecido: “Você pode ter mais
do que eu inteligência, mas força não.”.
Íldon Rocha era, normalmente, uma moça
no trato, mas, zangado, era uma fera.
Plácido e Íldon eram amigos e viviam, em
Santo Amaro, uma vida pacata e ordeira.
Na década de 40, houve um ano de poucos
recursos financeiros na tesouraria de
uma daquelas comissões encarregadas dos
festejos de determinado Santo,
idolatrado pela grande maioria da
população santo-amarense. Na proximidade
do dia comemorativo, a comissão,
preocupada, reuniu-se para buscar uma
solução, uma maneira de angariar
recursos, para não pôr em risco o brilho
da festa. Conversa vai, conversa vem,
cada um dava a sua idéia; umas, pouco
brilhantes, eram logo desconsideradas,
outras estapafúrdias e inexequíveis.
Entre estas, no entanto, uma foi
considerada passível de análise. A
genial idéia foi a seguinte: “Vamos
realizar uma luta livre no Cine Teatro
Santo Amaro.” Aparentemente nada de
estapafúrdio, nem de inexequível. Porém
o dono da brilhante idéia não tinha, em
mente, sequer, os nomes dos lutadores, o
que caiu como um balde de água fria
sobre aqueles que se animaram. Mas outra
idéia logo surgiu – a comissão era
repleta de luminares – um nome foi
aventado – Plácido Bandeira! E todos
eufóricos, quase que unânimes exclamaram
– Plácido Bandeira! Estava
definitivamente, solucionado o problema.
E quando já começavam a delinear os
planos para a luta, um deles, menos
empolgados, dissera calmamente: quem
será o desafiado? Outro balde de água
fria, e a comissão retornou às
reflexões, até que um dos luminares
daquela plêiade lembrou-se do nome do
pacato Íldon Rocha, que jamais se
imaginara lutando, a menos que lhe
dessem um coice.
Apesar de alguns contra argumentarem que
seria uma luta desigual, considerando
que Plácido era um lutador treinado nas
artes marciais, e Íldon era apenas uma
força bruta, a sugestão foi eleita pela
maioria e tratou-se logo de nomear uma
subcomissão com a incumbência de levar o
convite – ou intimação – aos supostos
contendores.
Plácido a princípio relutou por não ter
um adversário à sua altura, “mas se
Íldon concordar” – dissera ele –
“faremos apenas uma demonstração, até
porque, nós somos bons amigos e Íldon
não é um lutador e quando o adversário
não tem técnica, quanto maior for,
melhor será a queda”. Dissera já em tom
de superioridade.
Íldon, consciente de que jamais poderia
lutar de igual para igual, com um
profissional, recusou-se de inicio, ao
que ele denominou de uma palhaçada.
Entretanto, convencido pela hábil
comissão de que a luta seria um faz de
conta, uma simples demonstração e que
não haveria vencedor, aquiesceu
desejando colaborar para uma causa que
ele, também, considerara nobre.
A subcomissão, exultante, correra para
uma reunião, previamente marcada, onde
relatara o êxito de sua incumbência.
O trabalho agora seria a propagação da
grande peleja. No entanto isto foi feito
com muita competência e logo, a cidade
se encheu de panfletos e anúncios, o que
gerara – pelo inusitado evento – o
assunto principal nas esquinas, nos
bares, no Jardim dos Casados, no adro da
Igreja, nos lares, enfim, em toda a
cidade.
Chegado o dia da grande luta obviamente
que o Cine Teatro Santo Amaro estava
repleto, mais do que repleto,
superlotado: Pessoas se amontoavam no
corredor do centro, nos espaços laterais
entre a parede e as cadeiras e ao fundo
uma multidão se aglomerava para ver a
chegada dos gladiadores na arena.
Ao soar de um pequeno sino - daqueles
que, na época, eram usados para anunciar
a hora das refeições - trazido por um
luminar daquela plêiade, o momento tão
esperado aconteceu com a entrada, no
ringue, de Plácido Bandeira e,
concomitantemente, os aplausos da turba
ávida por sangue. Logo em seguida, a
entrada pálida de Íldon Rocha: todo
acanhado, totalmente sem jeito, palmas
quase nenhuma. Plácido, de braços
erguidos, já se sentindo um vitorioso,
incitava a multidão a mais aplausos.
Ao novo soar do sino, começara a luta e,
à primeira investida, uma queda, e a
cada investida uma queda maior; e assim,
de queda em queda, foram-se incitando a
vaidade de Plácido e a fúria de Íldon
que, em determinado momento, com o
sangue a quase brotar-lhe pelos poros e
a boca espumarosa de raiva, num vacilo
de seu antagonista, conseguiu
abraçar-lhe o pescoço com as suas duas
mãos poderosas; e convicto de sua força
descomunal, bradara para que toda
platéia ouvisse: Saia daqui, agora,
filho da p...!
Foi um Deus nos acuda: o juiz – que fora
escolhido porque estava acostumado a
apitar os clássicos entre Botafogo e
Ideal no Campo do Riachuelo – apavorado,
vendo Plácido já com a língua um palmo
fora da boca, suplicava, de joelhos, o
socorro da platéia, que, a muita força,
conseguira separar o pescoço do atleta
treinado nas artes marciais das mãos
poderosas e enraivecido da força bruta.
Faces do
Amor ...
Roze Alves
Um Domingo, poderia vir a ser como
tantos que passei em casa, mas fui
convidada a ir num almoço de pessoa
muito querida e como não recusei o
convite, lá estava eu, toda animada no
sábado a pensar com que roupa iria,
massagear cabelos, retocar unhas...rs,
essas coisas bem femininas e frescas que
mulher tem. Eu estava muito mais que
animada, estava curiosa, sim, iria
encontrar pessoas, que ouvia muito os
nomes, mas nunca havia tido o menor
contato, poetas, formatadores, pessoal
do meio poético, no qual eu estou
acabando de nascer... ainda no gugu dada
...rs. Assim passei o sábado e depois de
confirmar o encontro com quem eu havia
marcado, fiz mais algumas coisas e a
noite chegou me levando rápido para a
cama, porque moro longe de onde iria e
Domingo a condução é pior que nunca.
Acordei
feliz e comecei a me arrumar, ganhei uma
carona até "lá fora"...rs, parece coisa
do interior, mas é dentro do Rio de
Janeiro, capital; o ônibus não demorou
por milagre dos deuses e embarquei nele,
me preparando para a viagem de uma hora
até pegar a próxima condução para chegar
ao meu primeiro destino. Consegui lugar
para me sentar, mas no corredor do
ônibus, as janelas já todas ocupadas,
suspirei aliviada, melhor ali que em pé
... Corri os olhos nos companheiros de
viagem, porque posso classificar como
uma e sem saber a hora de chegar ao
terminal.
Normalmente o ônibus quebra na serra,
fura um pneu, coisas normalíssimas nessa
linha.
Eu torcia por uma viagem tranquila e
"nada normal" ...
As vezes quando estou pensando em alguma
coisa, meus ouvidos bloqueiam os sons ao
meu redor e só depois reparo a algazarra
que faziam algumas crianças no último
banco. Cantavam, batiam palmas, os pés
no chão, enfim um tumúltuo que ficava
pior junto com o barulho de todos os
ferros soltos que o ônibus tinha e neste
instante eu os vi ..
Estavam
também sentados no corredor, no meu lado
contrário em dois bancos a frente. Seu
Celso: nome que dei a ele, fiquei em
dúvida entre Júlio também, ele tinha
cara desses dois nomes, embora parecesse
nordestino e deveria se chamar Nonato ou
Ribamar, nomes comuns no nordeste, quem
vai saber? E Dona Maria José, lhe dei
esse nome porque ela me lembrou minha
tia que tem esse nome, uma homenagem as
duas, depois explico porque. Seu Celso
vestia uma calça vinho, que já deve ter
tido essa cor mais viva a tempos atrás,
uma camisa tipo pólo, muito branca, com
algumas listras também de cores apagadas
na parte superior e já bem fina pelo
uso, meias brancas e largas nas pernas e
pasmem, ele usava sapatos “cavalo de
aço”, os do meu tempo saberão por certo
do que falo ... um sapato com um solado
branco de borracha dura e com saltos
quadrados também brancos ... Nem
imaginava que ainda vendessem isso, ou
se não ... Ele tinha uma relíquia nos
pés, uma bolsinha, dessas que se
carregam marmita, atravessada no peito e
muito limpa também, um relógio de
corrente prateada no pulso completava a
roupa de Domingo dele. Fique imaginando
com que esmero aquela roupa era lavada,
pois embora bem surrada, estava
impecavelmente limpa. Ela em seu vestido
estampado de flores roxa, com folhas
verdes e fundo branco, uma sapatilha
marrom nos pés, da marca Moleca, uma
bolsa verde quase da cor das folhas de
seu vestido, e me chamou a atenção,
porque em um encontro da minha turma em
Copacabana, essas bolsas eram oferecidas
por vendedores ambulantes ... a bolsa em
questão é feita de uma imensa tira
fechada com um fecho-eclair, que
conforme você vai abrindo, a bolsa vai
se formando. Brasileiro inventa tudo
para ganhar um trocado e ela também
tinha no pulso um relógio de pulseira
prateada, assim como o meu e também por
certo comprado no camelô, porque é o que
se pode usar hoje em dia para não ser
roubada. Seu Celso com seus cabelinhos
todo branco e meio rareado no alto da
cabeça, ela com os seus muito pretos,
embora mal tratados, digo por serem sem
brilhos, cortado curto e de aparência
bem limpa. Seu Celso cutucava ela no
braço, mexia em seus cabelos, sua nuca e
ela fazia cara feia para ele quando
virava para trás, batia em sua mão,
aquele tapa que não encosta...rs.
Mas de onde
eu estava, via seu sorriso quando ela
voltava o rosto para frente, passei a
olhá-los sem disfarçar, com um sorriso
nos lábios também, achei linda a cena,
ela falava alguma coisa baixinho,
voltada para trás e ele ria e
vice-versa. Era um casal feliz, deviam
ter entre 65 a 70 anos, aspecto de quem
já trabalhou muito nesta vida, mas
estavam ali firmes um com o outro.
Gostaria de saber se eram marido e
mulher ou apenas namorados que se
programaram para passarem juntos o
Domingo.
Ela arregaçava a manga de seu vestido e
em determinado momento acho que li mais
em seus lábios que na verdade ouvi, ela
disse: estou passando mal, falou rápido
e virou logo para a frente, ele não
escutou ou fez que não, será que ela
fica nervosa ao andar de ônibus e por
isso ele não a deixava quieta, para
distraí-la? Involuntariamente comecei a
torcer para que ela aguentasse até o fim
da viagem na boa, pensei em lhe oferecer
uma bala, mas desisti, ela poderia achar
abuso eu estar me intrometendo na vida
deles e ela tinha cara de quem poderia
ser diabética, deixei para lá a idéia e
acho que estava olhando tanto, que Seu
Celso se voltou para mim e deu um
sorriso, um lindo sorriso feliz que
retribuí com prazer. Ela também se
voltou, mas não sorriu, acho que apenas
avaliou a situação...rs.
E mais uma
vez deixei a minha idéia solta e
imaginei para onde poderiam estar indo,
visitar parentes? Os filhos quem sabe,
olhar o mar? O dia estava maravilhoso
para isso, os jats-ski no canal?
Ficariam cansados, lá não tem onde
sentar.
A viagem já
estava quase no fim e vagou um banco e
fizeram o que imaginei, rápidos
sentaram-se juntos, e então deram-se os
braços e cruzaram os dedos das mãos e
começaram a falar baixinho um no ouvido
do outro e sorriam, isso é amor...rs,
não pode ser outra coisa, o amor com
face de Seu Celso e Dona Maria José num
dia de Domingo ... Eu já vi esse sorriso
um dia no rosto da minha tia, por isso
dei seu nome em homenagem e espero que
ela tenha sido feliz, mesmo a seu modo,
enquanto durou seu casamento ...
A viagem
terminou para mim, saltei e eles
seguiram, que pena queria tanto saber o
que fariam, mas me dou por feliz em
estar aqui a contar o fato a vocês e
dizer que tomara que sejamos agraciados
com um amor companheiro assim, como esse
casal lindinho que não vou mais esquecer
..
Roze Alves
Amanhecer-M
RJ, Guaratiba, 31/07/2008
VAMOS ACABAR COM A
VIOLÊNCIA
Sueli Bittencourt
Que violência chama
violência é fato conhecido. A exibição
contínua da violência banaliza-a,
fazendo-a parecer natural e levando
muitos indivíduos a praticá-la
“normalmente”.
Por motivos comerciais, entre
outros, a imprensa e principalmente a
TV, apresenta amplamente a violência em
seus noticiários, em suas histórias,
filmes, novelas e até em desenhos
infantis. E o assunto vai se
internalizando na mente humana, às vezes
até tomando sua preferência. A pessoa
acaba adotando a violência para resolver
seus problemas.
É tanta a exibição da violência e
de crimes em geral que muitos jovens,
tendentes à delinquência, chegam a
reunir-se em grupos a fim de assistirem
programas na TV que lhes mostrem
claramente os fatos violentos e
criminosos. Nessas reuniões eles
observam, anotam, discutem tudo o que
assistem, e logo que possam saem a
praticar violência e outros crimes,
conforme viram, ouviram, leram e
aprenderam. Vão então aperfeiçoando-se
mais e mais até morrerem ou superlotarem
as cadeias.
Exemplos, sejam eles bons ou
maus, têm poder extraordinário.
De tanto ver, ouvir, sentir e
viver violência, muitas crianças e
jovens tornam-se “naturalmente”
violentos.
E aí estão a acontecer todos os
dias, em ordem crescente, violência e
crimes de toda espécie... Nas escolas,
em casa, nas ruas, em sociedade, em toda
parte.
Vamos acabar ou minimizar a
violência e outros crimes substituindo
sua exibição, sua demonstração e
publicidade por notícias positivas, por
histórias e exemplos louváveis que
também acontecem frequentemente. Estes
sim devem ser exibidos, comentados
aplaudidos e às vezes até premiados. Tal
procedimento poderá inverter os fatos.
São muitos os acontecimentos e
atitudes louváveis, admiráveis mesmo,
que acontecem no dia a dia. Vamos
divulgá-los e aplaudi-los com
entusiasmo. Isto irá possibilitar-nos
construir um mundo melhor.

"UM INSTANTE
DE INSTINTO"
Tchello d’Barros
“Não, senhores
repórteres, nada mais tenho a declarar.
Como delegado incumbido desse caso,
apenas quero registrar aqui meu espanto,
por um crime tão violento e
aparentemente sem motivos. O apenado,
pelo que pudemos apurar, era um cidadão
tranqüilo, honesto e trabalhador. Consta
nesta ficha que não tinha vícios, pagava
suas contas e impostos em dia e era
considerado bom vizinho no condomínio. O
único registro que temos de ocorrência
em seu nome foi quando ele mesmo há
alguns anos entrou em contato com nosso
plantão, solicitando uma viatura
urgente, pois havia acontecido um
estupro num beco próximo de uma praça de
seu bairro. Até agora não entendi o que
levaria um cara normal assim, a
estrangular o psicanalista e em seguida
estuprar a secretária, em pleno
consultório. Putz! Vá entender a
natureza humana!”
“Bem, ele já trabalhava há alguns anos
aqui no banco, deixe ver, creio que há
uns nove anos talvez, mas nunca notamos
nenhum sinal de agressividade ou outro
comportamento suspeito. Até que era um
cara legal, participava dos bolões da
loteria, comprava rifas e até
participava da tradicional “vaquinha”,
quando alguém fazia aniversário. É
verdade que era meio quietão e não
participava das excursões turísticas que
volta-e-meia a turma aqui do banco
programava. Mas olha, ficamos todos aqui
estarrecidos com essa notícia, um cara
tão calmo...”
"Não sei, é difícil dizer com certeza, a
gente nunca sabe quem está por detrás de
um comportamento do tipo normal, como
ele. Sabe, aqui no prédio ele nunca deu
problema, não. Como síndico, eu até
admirava ele, pois sempre colaborava
quando tinha algum problema no edifício.
É, a verdade é que nunca recebia
visitas. Nem amigos, nem namoradas,
nada. Puxa, como é que um cara assim
pacato pode cair numa desgraça
dessas...”
"Ah, ele era meio paradão, meio
esquisito, ficava sempre na dele.
Estudamos três anos juntos na faculdade
e ele, sempre reservado. Não paquerava
as colegas nem participava das turminhas
que se formavam. Eu até dei em cima dele
uma vez, sabe, pois até que não era
feio, mas ele nem me deu bola. Só tirava
notas boas, é verdade, mas não se
enturmava com a galera”.
“Olha, aqui na biblioteca ele sempre
aparecia, veja aqui na ficha, pegava
sempre esses livros de auto-ajuda,
especialmente os de poder da mente,
hipnotismo, essas coisas. Nunca atrasou
nas devoluções e era sempre muito
educado com as meninas daqui. O último
livro que levou era sobre essas coisas
de inconsciente e desejos reprimidos,
mas esse não foi devolvido. É, pensando
bem, acho que era um cara meio
reprimido, meio solitário, sei lá. Mesmo
assim, ficamos todos tristes aqui com o
acontecido. Se acho que mereceu prisão
perpétua? Ah, sei lá, deixar um cara
desse solto por aí, é meio brabo, né!"
"Infelizmente a moça ainda está bastante
abalada, recuperando-se do estado de
choque e não está em condições de dar
entrevista, vocês me desculpem. Como
ginecologista, conversei muito com ela,
durante o acompanhamento psicológico
pós-estupro e posso apenas comentar que
ela própria ainda não entendeu nada. Me
disse que ele já tinha feito várias
consultas, sessões de relaxamento e
agora o doutor estava para iniciar uma
terapia com hipnose, frases de efeito e
regressão. Algo em torno do poder das
palavras, para liberar os instintos,
pois parecia que o sujeito era meio
tenso ou algo assim. Pobre moça, tão
simpática”.
"Olha, sei pouca coisa do caso, estou
começando hoje aqui, substituindo a
outra moça, que parece, foi violentada
por um cliente. O pouco que sei vi no
jornal. Não posso conversar muito,
preciso desse emprego, viu? Não sei se
ajuda, mas arrumando a bagunça que ficou
isso aqui por causa do crime, encontrei
o gravadorzinho que o psicanalista usava
para registrar as sessões. Parece que
nem o delegado viu isso. Até que tinha
uma mensagem bonita, que o terapeuta
dizia enquanto o cara estava deitado no
divã, ouça como é bonitinho:
“Agora feche os olhos e respire fundo,
relaxe seu corpo, sua mente e sua alma.
Esqueça as tensões e os problemas do
mundo, descanse no sono, que seu corpo
se acalma. Cabeça, tronco e membros já
em sintonia, siga respirando sentindo a
dormência. O corpo e espírito estão em
harmonia, seu instinto vai vibrando
nesta freqüência. Mergulhe em si cada
vez mais para dentro, encontre as
profundezas em seu interior. E abra-se
sem medo de culpa ou tormento, solte
vontades, desejos e sua dor. Venha à
tona seu âmago neste momento, liberte
todo seu eu sem medo ou temor.”
DO BELÉM À ITAPEVI.
Aparecido Donizetti Hernandez
Rima resolveu sair da
cidade de São Paulo, de seu bairro, o
Belenzinho, ali no início da zona leste,
e ir passar o dia em uma chácara na
cidade de Itapevi, distante uns 32
quilômetros rumo ao oeste do Estado.
Tinha sido convidada por amigos para uma
confraternização.
Rima tinha dois filhos: Leuc e Jasmim.
Jasmim ficaria aos cuidados do pai. Leuc,
ela o pegou pelas mãos e caminhou de sua
casa até a estação do metrô, afinal a
Estação Belém ficava a menos de 500
metros de sua casa.
Rima com Leuc, seu filho de 4 anos de
idade às mãos, sabia que precisaria ir
até a Estação Barra Funda do metrô, (não
havia ainda a integração) descer e
comprar bilhete para pegar o trem da
FEPASA, que sai da Estação Julio Prestes
na região do Bairro da Luz; e pára na
primeira estação, que é de Barra Funda,
rumo à cidade de Itapevi.
Rima não tinha a menor ideia do que iria
passar em sua vida naquele domingo de
muito sol, pensava somente no churrasco
e nos amigos de Empresa que encontraria,
das risadas que daria e de ver seu
filhinho Leuc passar um dia perto da
natureza.
O dia foi longo, afinal de contas chegou
bem cedo à Estação de Engenheiro
Cardoso, uma estação antes do final, já
na cidade de Itapevi. Tinha as
orientações para descer do lado direito
da estação, no sentido capital-interior.
Do lado esquerdo fica o Bairro
Engenheiro Cardoso; do direito, Chácara
Vitápolis.
Rima seguiu as orientações. Após
caminhar em terra batida ao longo do Rio
Barueri Mirim, viu a ponte, atravessou-a
e seguiu até seu destino. Foi uma das
primeiras a chegar, uma das últimas a
sair; mas ainda estava dia e o sol
demoraria a se pôr - a viagem de volta
seria longa.
Caminhou à Estação Engenheiro Cardoso,
comprou os bilhetes e esperou a chegada
do trem que a levaria de volta.
O trem apenas tinha passado por duas
estações rumo à capital e Rima notou um
barulho estranho e seu filhinho Leuc
carinhosamente segurando um bichinho,
Rima pergunta:
- Que bicho é esse Leuc?
Leuc responde:
- Não vê que é um sapo!
Rima insiste para Leuc jogar o sapo pela
janela do trem, mas Leuc não permite e
teima:
- O sapo é meu, fui eu que o pegou, vou
levá-lo para casa e cuidar dele.
Rima prefere deixar o bichinho com Leuc,
já que a teimosia da criança chama à
atenção de outros passageiros, que
somente notam a teimosia do menino e não
percebem o motivo.
Rima impaciente com a teimosia de Leuc
insiste em tirar o bichinho de suas
mãos, tudo em vão. Resolve, então, não
descer na Estação de Barra Funda e pegar
o metrô que a levaria ao Belenzinho mais
depressa, prefere ir à Estação terminal
de Julio Prestes e ali pegar um ônibus,
rumo ao seu destino.
Como era um dia de domingo e os ônibus
além de horários mais espaçados, o
ônibus que a levaria para casa somente
iria encontrá-lo na Av. São João - uma
boa caminhada da estação do trem até lá.
No caminho insistia com Leuc de
abandonar seu novo mascote, um sapo, que
carinhosamente afagava.
Rima foi caminhando, quando passa pela
Praça Princesa Izabel, onde fica uma
grande estátua de Victor Brecheret em
homenagem à Duque de Caxias, na época
uma praça sem grades, que hoje separa o
povo da praça; antes, somente um belo
gramado.
Na época, um verão duradouro, a grama da
Praça Princesa Izabel estava mais que
seca, o verde da grama de épocas de
chuva tinha dado lugar ao amarelo da
grama queimada pelo sol. Rima, num
sobre-salto tomou das pequenas mãos de
Leuc o Sapo. Para ela, somente um Sapo;
para Leuc; um bichinho de estimação, um
novo mascote e também uma lembrança do
domingo no campo.
Rima soltou o sapo naquele gramado
amarelado pelo sol, o sapo saiu
saltitante. Leuc aos berros:
- O quero de volta!
Rima não se deu por vencida, puxou pelas
mãos seu filho e à passos apressados
atingiu a Av. São João. Por sua sorte
logo vem o ônibus, Penha-Lapa, que
passando pela Av. Celso Garcia a
deixaria a poucas quadras de sua casa.
Adentrou ao ônibus, Leuc aos prantos
chamou a atenção dos demais passageiros,
que ficaram com cara de indignados com
a cena, mas nada disseram. O cobrador do
coletivo não resistiu:
- Por que a senhora soltou o bichinho do
menino? Olha como ele está chorando! A
senhora não deveria ter feito isso! -
Sem saber de que animalzinho a criança
em berros falava.
Rima não teve dúvidas:
- Por acaso, o senhor sabe o que ele
estava trazendo às mãos?
O cobrador respondeu:
- Isso não importa! A senhora não está
vendo a criança sofrer?
Rima disse:
- Era sapo, que ele trazia! Quer que o
pegue de volta pra o senhor?

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