ESPLANADA DOS PROSADORES -

OUTUBRO DE 2010

Participação de Vários Autores

Arte Final: Iara Melo

 

 

 
 
 

 
Conflito
 
Benedita Azevedo
 

Feito um animal debate-se em busca de algo que nem ele sabe o que é. Uma angústia interior devora-o tal qual um veneno. Nada lhe parece coerente com o que sempre acreditou. Analisa seu estado e não chega a nenhuma conclusão. Um vazio interior devora-o. Tateia mentalmente seu órgão propulsor da vida e parece que nem bate mais. Respira fundo a ver se o localiza e parece que a cavidade está vazia.
  
O cérebro atordoado não atina com a causa de tamanha inquietação. Tenta rememorar seus dias atribulados em busca da sobrevivência, mas isso também não surte efeito. A preocupação que ficara no passado, agora pouco lhe importa. Tudo vazio, sem importância neste momento.

Sua vida passada e futura está fora de seu corpo presente. Nada lhe desperta interesse. Mesmo o ato de escrever que lhe dava tanto prazer, agora lhe parece que os conteúdos não existem.  Os filhos, os netos que lhes causavam preocupações, não lhe despertam o mesmo sentimento.

Tem consciência de que não está em seu estado normal. A vida de uma hora para outra se tornara tão insignificante que seus objetivos antes buscados com ardor agora lhes parecem distantes e duvida de que tenha lutado tanto por eles. Que se lançara a uma busca partindo do nada, tal um corpo atraído por um ímã ladeira acima, passando por cima de pedras, espinhos, por cima do mato, como se anestesiado não percebesse e não sentisse as chagas abertas nos trancos e barrancos daquela atração exercida pelas alturas.

Encontrou obstáculos que o detiveram em patamares áridos, rolando, subindo descendo, até que num impulso maior foi sugado para cima rolando em desequilíbrio, batendo com a cabeça em pedras, rasgando o rosto em espinhos agudos que lhes dilaceravam a pele e sangravam. A dor fazia parte do processo de subida. Continuava sendo puxado para cima meio atordoado sem saber onde deveria parar. Súbito viu-se no topo de um pequeno monte. Não era a montanha mais alta, mas, os obstáculos foram muitos para chegar até aquele ponto.

O ímã perdera parcialmente a força que o atraía. Embora ainda tentasse, não engrenava na subida. Perambulava naquele patamar sem encontrar nada que o interessasse. Queria o que estava no topo da montanha mais alta. Mas, o seu combustível estava no fim. O ímã perdera a imantação.

Ele agora queria descer a montanha em busca do magnetismo que o impulsionara até ali, da atração que o arrastara ladeira acima sem olhar por onde passava.  Agora teria de usar a própria força para descer sobre pedras, espinhos, mato e o seu desânimo.

Perdido entre bruma espessa não consegue vislumbrar, com clareza, vultos que se movem à sua volta tentando se comunicar; outros em atitudes agressivas. Tenta decodificar a mensagem e debate-se em busca de uma solução. Talvez seja melhor permanecer naquele lugar, embora, não consiga se encontrar ali. Falta-lhe a energia que faz a vida fluir.

Olha para cima e vislumbra o topo da montanha coberto por nuvens brancas tocando o infinito. Lembra-se de que pretendera chegar até lá e lamenta sua falta de interesse.

Olha para baixo e vê os campos plantados. Os rios serpenteando entre o verde da floresta em busca do mar. A fauna a movimentar-se entre a flora. Se pudesse voltaria para a base. Misturar-se-ia à fauna e cheio de energia correria pelos campos, nadaria nos rios e começaria tudo outra vez. Mas como fazer isso com o vazio que sente no peito, sua estrutura corpórea já não tem mais a mesma agilidade de antes. Não tem outra saída senão permanecer ali naquela pequena elevação.

Subitamente identifica as figuras que o rodeiam. Comunica-se e troca experiências adquiridas naquela subida desenfreada, durante tantos anos. Não conta mais com a força de propulsão de seu ímã interior para subir, mas, não quer jogar-se montanha abaixo sem equilíbrio e rolar até à base, feito folha amarela no outono. Acomoda-se naquele meio termo e busca o calor das figuras que ali se movimentam. De mãos dadas junta-se ao ambiente, aquecem-se, transformam o nevoeiro em calor humano através de atividades variadas: festas, viagens, participam de concursos e aguardam uma lufada de vento outonal que os transportem ao infinito, acima da montanha mais alta.
 

 
 
 
 
 


   

Dança o tempo... novos rumos
 
Lígia Antunes Leivas


Dança o tempo. Ritmo acelerado. Nesse pra-lá-e-pra-cá fia a vida os afazeres de todas as horas. Deixa sinais. Muda os rumos. Dá-nos outros nortes. Desdobra-se em torrentes de sonhos... vendavais de muitos ais... esperanças de roupa nova... tristezas sem falsas máscaras... Enfim, o cotidiano do viver a vida.
       ...e até aquela saudade - soturna sempre e tão antiga - vai desfazendo-se em traços desmaiados. Dela, apenas um quase nada no sentimento. (Estranho... ela foi forte... cingiu-me o peito; quase em pedaços deixou o coração...)  - Hoje? ...apenas lembranças tênues de um grande amor (não o tive... perdi-o para sempre, diz-me este meu outro eu). Não era para minha vida realizá-lo, fazê-lo meu,  marcar com nossos passos a mesma trilha.
Agora, para mim já rarefeito, deve andar ele cantando em outros palcos. As plateias se alternam, também os aplausos e os fãs especiais. (Será preciso explicar? Será preciso entender? ... para quê? Quem nos ama não exige nem precisa de nossas explicações; quem não nos ama, jamais dará crédito ao que dissermos... Então, 'sem explicações' - é o mais sensato.)

A lua de revesgueio me espia. Com sua graciosidade alegra o firmamento e acho também que lê meu pensamento: 'foi difícil.. muito amor, tanto amor... quase interminável... mas mais difícil ainda foi o esquecimento... convenci-me porém... os beijos daquele amor não eram para mim... não eram para a minha vida'.
       
       O mundo não desabou...
       o céu é azul... intensa e interminavelmente azul
       ...ainda!!!

 

 
 

 

 

 


ESTÍMULOS POSITIVOS GERAM ATITUDES POSITIVAS

Sueli Bittencourt


        A educação, o caráter do ser humano, forma-se em grande parte de acordo com sua vivência, conforme os fatos que, desde a infância ele costuma ver, ouvir, sentir, ler e fazer. Se esses estímulos forem em sua maioria positivos, sua educação, seu caráter, sua personalidade, tende a desenvolver-se positivamente e ele estará propenso a ser um indivíduo de atitudes equilibradas, uma pessoa de bom caráter, honesta, educada. Se, ao contrário, em sua vivência predominarem estímulos negativos, ele tende a tornar-se um indivíduo de atitudes inconvenientes e até mesmo criminosas. Isso depende muito do que o cerca, do ambiente em que ele vive, dos estímulos que recebe da família, da escola, dos amigos, de suas leituras, de autoridades, da imprensa em geral.
       É impressionante o poder de influência que exerce a televisão. Além de inconvenientes propagandas, temos todos os dias filmes, novelas e até desenhos que exibem constantemente cenas de violência e de crimes de toda espécie. E temos ainda  os polêmicos noticiários sensacionalistas, mostrando com detalhes e repetidamente violência, roubos, assaltos, sequestros, orgias, bebedeiras, corrupção e outros crimes, que infelizmente acontecem e multiplicam-se no dia a dia.
        Ora, de tanto ver, ouvir, ler e falar sobre esses fatos negativos, muitas pessoas, principalmente crianças e adolescentes, acabam achando normais tais atitudes e, havendo oportunidade, repetem essas ações, conforme gravaram em suas mentes.
        Quanto mais anunciadas e repetidas as ocorrências, sejam elas boas ou más, tanto mais são internalizadas por quem as recebe, influenciando às vezes intensamente em suas atitudes, em sua personalidade.
        Os exemplos, bons ou maus, têm um poder extraordinário...
        Para que não continuem a multiplicar-se a violência, a corrupção e outras  ocorrências negativas, faz-se indispensável reduzir muito sua publicidade, substituindo-a por notícias e histórias  positivas, que devem ser destacadas, amplamente divulgadas, homenageadas e, às vezes, premiadas, atribuindo-lhes a importância que merecem.
       Lembremos alguns exemplos dessas notícias e histórias positivas:
·        O menino Esaú, filho de Quitéria e Severino, que, vivendo em situação de miséria, em meio a grandes dificuldades, alcançou, com muito estudo e esforço, o 1º lugar no Vestibular de Medicina (programa do Faustão em 27/04/08).
·        Os estudantes de escolas públicas que aos sábados participam do importante programa “Soletrando”, de Luciano Huck.
·        Crianças e adolescentes de origem humilde que ingressam e se destacam em cursos de artes e esportes, os quais lhes são oferecidos, de maneira muito plausível e também digna de louvores, por alguns artistas, esportistas e outros mais.
·        O trabalho beneficente e voluntário, ou mesmo de pequena remuneração, a que se entregam tantas pessoas valorosas.
·        Pessoas honestas, às vezes bem humildes, que ao acharem dinheiro ou algum objeto de valor, preocupam-se em entregá-lo a quem o perdeu.
·        E, entre outros acontecimentos grandiosos, a admirável atitude do prefeito Milton Hobus, de Rio do Sul, em Santa Catarina,  que tem doado seu salário mensal para instituições de caridade. Atitude esta que vem contagiando a região, estimulando a caridade em uns e outros, inclusive em outros políticos.
      Sem dúvida, assim como a corrupção e outros males “contagiam”, exercendo influências maléficas sobre os indivíduos, também as atitudes éticas e benéficas, quando bem divulgadas e prestigiadas, exercem enorme influência positiva, “contagiam”...
Faz-se necessário que a mídia dê a elas toda a atenção que merecem. Pois elas irão servir de exemplo e estímulo para muitos, possibilitando a multiplicação de ações positivas. E, se tomadas as devidas providências, teremos então grande redução das ações negativas, com resultados eficazes para a sociedade, para o país e para todos nós.

 
 
 
 

 

 

 
 
 
 

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