O cenário estava se
armando. Quase quatro
meses de chuvas. O solo
estava encharcado, o
rio, o famoso Itajaí-Açu,
ganhava volume e tentava
fugir de sua calha. O
final de semana apenas
começara, era sábado.
Pela manhã, fui
participar da
Conferência Municipal de
Cultura. Em meio a
discussões sobre a
cultura, um único
assunto ganhava
unanimidade, a chuva.
Quando voltei, no
período da tarde, para o
encerramento dos
trabalhos, fui informado
de que a conferência
estava suspensa. O
prefeito havia decretado
estado de emergência.
Voltei para casa e no
caminho pude notar que
as pessoas andavam
apressadas, preocupadas.
Cheguei a casa e fui
deitar.
O barulho da chuva, que
caía de forma
torrencial, acordou-me.
Fui até a cozinha e
comecei a saborear uma
castanha, quando pela
janela da área de
serviço notei o trânsito
parado e sobre a pista
da estrada havia uma
lâmina de água barrenta,
vermelha. A cidade
começava a sangrar e eu
não percebera. Fui até a
sala, para olhar pela
sacada, quando o
trânsito parado na via
que sai do Parque Vila
Germânica chamou minha
atenção. Quando cheguei
à sacada a surpresa
chocou. A rua em frente
ao meu condomínio estava
tomada pelas águas. Os
carros passavam de forma
cuidadosa. A água
começava tomar a entrada
do condomínio.
De súbito, corri e
acordei minha esposa.
Liguei para o COPOM para
saber da situação e fui
informado de que o
Comandante do Batalhão
estava presente. Liguei
para ele e ouvi a
sentença: “o plano de
chamada está sendo
ativado e és o primeiro
a ser chamado!”. Já
havia passado por esta
situação antes, em meus
24 anos de serviço
policial militar, dos
quais 90% servidos em
Blumenau; era a minha 5ª
enchente.
Rapidamente preparei uma
mochila, com alguns
itens básicos, como o
material de higiene,
meias e cuecas. O
fardamento eu guardo no
quartel. Moro perto do
Quartel do meu Batalhão
e, pela experiência,
sabia que não devia ir
de carro. O Quartel pega
água e sempre que
Blumenau sofre com uma
enchente, a casa da
Polícia Militar é uma
das primeiras a ser
atingida. Não conseguia
encontrar caminho para o
quartel, estava tudo
alagado. Liguei
novamente para o
Comandante, solicitando
uma viatura.
Fui socorrido por uma de
nossas viaturas do tipo
camionete e no retorno
ao quartel fomos parados
por um grupo de pessoas
que pedia auxílio para
uma mãe com uma criança
de 18 dias. Eram
evangélicos que estavam
participando de um
encontro no Parque Vila
Germânica, encontro este
que também havia sido
cancelado. Diante da
situação, coloquei a
mãe, com a criança nos
braços, e mais uma
senhora na viatura e
partimos para a sua
casa. Ele nos informou
que morava na Rua José
Reuter, no Ristow. O
caminho foi longo. O
cenário já era
preocupante. Muitos
alagamentos e
deslizamentos pela via
davam uma pequena mostra
do que viria. A cidade
não apenas sangrava, mas
em alguns lugares ela já
deixava sua carne à
mostra. A cidade
começava a mostrar suas
entranhas, mas eu não
percebia, não só eu,
acho que até aquele
momento ninguém
percebia.
Quando chegamos à rua
indicada, a senhora
pediu-me que a deixasse
antes de sua casa, que
era em um morro, pois se
parássemos em frente,
ela não conseguiria
sair, já que a viatura
era muito alta. Lembro
que ela ainda apontou
para a sua casa e disse:
- é lá que eu moro. Hora
mais tarde, aquela
região foi uma das mais
castigadas da cidade,
com a destruição de
inúmeras casas pelo
deslizamento de terra e
muita gente morreu.
Quando cheguei ao
quartel, me reuni com o
Comandante e adotamos
algumas medidas visando
proteger o patrimônio.
Por volta das 22:00h
fomos dispensados. As
previsões não apontavam
para cheias. Confesso
que fiquei feliz em
voltar para casa. Fui a
pé. As águas já haviam
baixado e não encontrei
nenhuma área alagada.
Era uma trégua
diabólica, apenas para
transmitir uma falsa
sensação de segurança.
Uma pausa para o pior.
Blumenau e todo o Vale
seriam tomados pelo
terror. Silenciosamente
a cidade era tomada por
forças de proporções
catastróficas. A cidade
que aprendera a conviver
com as seguidas cheias
do rio não estava
preparado para o que a
aguardava. De forma
sistemática e cruel, e
natureza iria revelar
toda a sua ira. A
enchente teria
companhia. Como que em
uma bizarra aventura
épica, um monstro com
três corpos iria atacar
o vale. A população
seria acuada, judiada,
massacrada. Os morros,
que em épocas passadas
eram o refúgio para as
cheias, haviam se
transformado em mortais
armadilhas.
Deslizamentos iriam
tirar a vida de mais de
uma centena de
aterrorizados moradores
do Vale.
Mas não no Domingo
durante o dia. Novamente
as águas recuaram. Nós
voltamos ao quartel,
havia sido chamado,
novamente às 02:00h, em
plena madrugada. Podemos
dizer que o Domingo foi
ameno durante o dia.
Quando a noite se
aproximou, nos
preparamos para ficar
ilhados no prédio do
COPOM. Continuamente, as
águas foram subindo. Não
como nas enchentes que a
cidade já havia
testemunhado. O volume
de água foi demasiado
para um solo já
castigado e ensopado por
quase quatro meses de
chuva. A enchente seria
precedida de
alagamentos. Lugares que
tradicionalmente eram
atingidos com
determinadas cotas do
rio, simplesmente
ficaram embaixo d’água,
independente da cota.
Assim, de forma
sorrateira, com total
vilania, as águas
pegaram os moradores de
surpresa. É tradição que
se adote determinada
medida em função das
cotas. Esta tradição foi
destruída,
desmoralizada, não serve
mais para nada.
De agora em diante, quem
se guiar pelas cotas
estará placidamente
esperando a morte chegar
e não, como no passado,
estará em estado de
alerta para enfrentar, e
vencer como tantas vezes
já ocorreu, com a
bravura (a bravura que
moldou a multicolorida
Blumenau) indômita dos
orgulhosos blumenauenses,
mais uma enchente.
Triste ilusão que cega
os sofridos bravos!
Com a chegada da noite
nos instalamos no COPOM.
Os telefones de
emergência não paravam,
assim com as águas do
Ribeirão da Velha, que
perigosamente passam e
míseros metros dos
fundos do
aquartelamento. Sem
pedir licença, e muito
menos encontrar
resistências, as águas
foram tomando o quartel.
Rapidamente uma furiosa
lâmina tomou conta de
todo o pátio. O Ribeirão
da Velha, ardilosamente
se apoderou do nosso
quartel e lançou um
braço que cortou caminho
para evitar uma curva
que contorna os fundos
do mesmo. Agora,
tínhamos as águas do
Ribeirão, e sua astuta
correnteza, nos
cercando.
Pelo telefone, a
comunidade continuava
com seu grito de
socorro. À medida que a
noite avançava, o
desespero aumentava,
refletido nos
ininterruptos chamados
ao telefone 190. A cada
telefonema, uma história
de horror e desgraça nos
alcançava. Pelo rádio, o
que os policiais
militares, homens e
mulheres reportavam não
era menos estarrecedor.
Desmoronamentos,
alagamentos, chuva
torrencial e o rio, que
fazia valer a sua
qualificação de “Açu”,
que em Guarani significa
grande. O Itajaí-Açu
alargava suas margens e
engolia a cidade,
engolia o vale.
O COPOM se viu envolto
em um medonho frenesi.
Dividíamos o espaço com
os funcionários do SAMU,
para alguns deles, a
primeira experiência em
catástrofes. Rapidamente
a situação na cidade se
deteriorou e o caos se
instalou. Os
deslizamentos não
paravam. Morte e
destruição em cada
telefonema. Patrimônios,
sonhos e vidas eram
levados pelas avalanches
de terra. Não demorou
muito para que nossas
viaturas se vissem
sitiadas, suas rotas
estavam bloqueadas, idem
para as viaturas do SAMU.
O socorro não circulava
mais. Não chegava e
quando chegava não saía.
Estávamos vivendo algo
inédito. Nunca antes
tínhamos enfrentado
situação parecida. Era
uma guerra contra um
inimigo astucioso, mas
covarde. Batalhas
eclodiam em todos os
cantos da cidade na
forma de deslizamentos,
que produziam baixas e
mais baixas entre os
moradores. A luta era
inglória. O número de
vítimas ganhava corpo de
forma assustadora.
Começamos a receber toda
a carga da fúria da
natureza. A cidade era
atacada por todos os
lados. Uma força
descomunal a estava
devorando, literalmente.
Já não eram mais sinais,
era todo o furor em seu
esplendor máximo; a
cidade estava com suas
entranhas expostas.
Entranhas famintas, que
afloravam para o
banquete diabólico. A
terra dos morros se
liquefazia e descia a
encosta levando anos de
trabalho duro, de
sonhos, de projetos, de
patrimônio duramente
conquistado, de vidas,
vidas e mais vidas.
Entre as solicitações de
ajuda, uma veio da Rua
José Reuter, no Ristow,
dando conta de que cerca
de quinze casas haviam
desmoronado como que em
um efeito dominó, em que
as pedras do jogo são
casas, são vidas. Será
que aquela mãe com seu
bebê de dezoito dias
foram atingidos?
Passados dez dias
daquela noite, ainda não
sei. Falta-me coragem
para retornar e saber
daquelas pessoas. Acho
que prefiro não saber.
Uma contabilização
macabra foi desenvolvida
no COPOM. Tentávamos
imaginar a quantidade de
mortos, com base nas
súplicas, nos pedidos
desesperados por socorro
que nos chegavam. Isso
na Polícia Militar; e no
Corpo de Bombeiros? Nem
dava para imaginar.
Já havíamos perdido a
energia elétrica e
usávamos o sistema de
suporte para emergência,
um conjunto de baterias
administradas por um
software. Aos poucos
este sistema foi
falhando. Os
computadores apagaram.
Fazia horas que
estávamos à luz de
velas. Apenas o rádio e
telefone 190
funcionavam. Não
tínhamos mais como fazer
os registros. O sistema
rádio, que é ligado aos
computadores foi perdido
junto com eles;
conseguíamos operar
apenas através de um
rádio tipo HT (aqueles
rádios que os policias
usam na cintura). Todo o
sistema de segurança da
cidade, ligado à
manutenção da ordem
pública, dependia de uma
mísera bateria de HT, e
quando ela acabasse...
Em meio ao caos que
assolava a cidade e se
refletia em cada
policial ilhado naquela
sala, um soldado se
aproxima de mim e com os
olhos arregalados diz:
“Major estão morrendo lá
fora e não podemos fazer
nada!” Simplesmente
assenti com a cabeça. No
pátio do quartel, aquela
lâmina de água agora já
tinha mais de um metro
de espessura e era
varrida por uma forte
correnteza. Pensei
comigo: se este prédio
resistir e não desabar,
podemos dizer que temos
sorte.
Passados alguns
instantes, perdemos o
telefone 190. Todo o
sistema caiu, e a
bateria do HT resistia
bravamente. Aos poucos,
fomos percebendo o
silêncio e como que um
alívio tomou conta do
ambiente. As más
notícias não paravam de
chegar, só que agora em
menor número, apenas
pela comunicação com as
viaturas. Fomos
informados de que um
gasoduto explodira em
Gaspar. Qual o tamanho
da destruição? Havia
mortos? Quantos? Apenas
especulações. Aquela
noite de terror estava
longe de terminar. Pela
janela do COPOM podíamos
enxergar por detrás dos
morros a claridade do
incêndio no gasoduto.
Diante de nós, uma
paisagem diabólica
ganhou forma. A
claridade do incêndio
era como que um pôr do
sol, ou uma lua cheia a
iluminar a morte e a
destruição que se abatia
sobre a cidade, que
alagada desmoronava sob
o seu próprio peso.
Terra, água e fogo
estavam juntos, unidos
contra os habitantes do
vale. Desta forma, a
primeira noite foi
vencida e chegou o dia.
O primeiro de uma
seqüência de dias
macabros. Dias que
mostraram toda a nossa
impotência e
incompetência diante da
fúria grotesca da
natureza, que, sem pedir
licença, foi devorando o
que encontrava pela
frente. Dias que
mostraram, também, como
a nossa arrogância pode
potencializar as forças
da natureza quando esta
simplesmente resolve
seguir seu curso normal.
Mas, ainda não tínhamos
conhecido o verdadeiro
drama, o tamanho da
tragédia. Era só o
começo!