Professor
Celestino Sachet
Literatura é
literatura, mas em 1808, ela
é outra coisa: engloba
qualquer escrito; o Rei tem
o nome de João Maria José
Francisco Xavier de Paula
Luiz Antônio Domingos Rafael
de Bragança – desculpem a
observação: é o nome do Rei
e não a lista de integrantes
de quadro de futebol de
várzea. O Rei nasceu em 13
de maio de 1767, em Lisboa,
e foi assumindo o posto como
príncipe-governante, entre
1792-1799, príncipe-regente,
entre 1799-1816 e rei, entre
1816-1821, rei do Brasil,
Reino Unido a Portugal
Algarves.
Em 27 de março de
1785, com 18 anos de idade,
portanto, João Maria José
Francisco Xavier de Paula
Luiz Antônio Domingos Rafael
de Bragança casou com
Carlota Joaquina Teresa
Caetana de Bourbon y Bourbon,
residente em Madrid, filha
de Carlos V e irmã de
Fernando VII, reis da
Espanha. Porque estava
apenas com 10 anos, Carlota
Joaquina Teresa Caetana de
Bourbon y Bourbon, nascida
em 25 de abril de 1775, só
tem permissão de papai e
mamãe para entrar na
lua-de-mel quando
completasse 15 anos.
O português e a
espanhola são felizes, tão
felizes que em 13 anos de
atividade matrimonial,
arranjam nove filhos, entre
eles, o Pedro, nascido em 12
de outubro de 1798, que vai
entrar em muito rolo quando
crescer. Infelizmente, a
vida em comum dos
príncipes-com-pouca-sorte
acaba em 1805 e cada um vai
viver em palácio diferente e
até bastante longe um do
outro. Os dois só aparecem
juntos em cerimônias
públicas.
Meio descasado, o
Rei é um homem solitário que
precisa cuidar da mãe, a
rainha d. Maria I, vítima de
insanidade mental. Desgraça
pouca é bobagem e em 29 de
novembro de 1807, o rei João
Maria salva a pelo e o pelo
da Coroa porque foge para o
Brasil, atucanado por um
certo baixinho, mania de
grandeza, Napoleão
Bonaparte, imperador da
França que está invadindo
Portugal.E, aí, o príncipe
triste, e mais a mulher,
cheios de filhos, com a
parentada, a curriola real e
a elite política e
administrativa de Lisboa
embarcam rumo ao Brasil,
protegidos por navios de
guerra ingleses. Depois de
55 dias de viagem, descem na
Bahia, permanecem três
semanas, e no dia 7 de março
de 1808, d. João, solene,
melhor realíssimo, entra no
Rio de Janeiro, agora
capital do Reino, em lugar
de Lisboa.
Essa viagem forçada
recebe vários nomes,
conforme a ideologia do
interlocutor: para os
franceses e os espanhóis é
uma fuga; para os ingleses,
uma transmigração; para os
portugueses, transferência e
para os brasileiros,
instalação. Pessoalmente
prefiro denominá-la “fuga
desesperada”. E, aqui, vai
uma pergunta: se a Bíblia
diz “fuga para o Egito de
Maria, José e o Menino”, por
que não falar em fuga do
João, da Carlota e dos
meninos para o Brasil? Mas
isso é outra missa, ou outra
história triste se
quisermos.
Voltemos ao título
desta reflexão que se propõe
falar sobre “a literatura em Língua Portuguesa,
no tempo do rei brasileiro”.
Falemos, primeiro,sobre o
Rei e seu tempo.
Uma enxurada de
páginas de livros, revistas,
jornais e de horas no rádio
e na televisão, desde
novembro do ano passado,
desaba sobre a cabeça e
sobre o tempo dos
brasileiros. O rei triste e
a rainha aloprada que vive
tramando contra a coroa do
marido, estão recebendo um
grosso dicionário de
adjetivos nada lisongeiros.
A Carlota Joaquina Caetana,
“tadinha”, vem sendo
apresentada como mulher
perversa que azeda o pacato
e bondoso ex-marido. Ela é
vista como mulher dominada
por intrigas políticas,
caprichos dissolutos e é
descrita como um dos
maiores, senão o maior
estorvo da vida de João
Maria, porque despótica,
libidinosa, grosseira,
histérica e ninfomática. O
Rei também recebe sua dose
de elogios “al revés”, para
dizê-lo em espanhol,
homenagem à língua materna
de Carlota Joaquina. É
monarca abobalhado, glutão,
incapaz de tomar uma
decisão. Na capa do livro do
jornalista Laurentino Gomes,
intitulado 1808, a mais
importante publicação sobre
o tempo do Rei, Carlota
Joaquina é anunciada como
uma rainha louca e o João,
como príncipe medroso. No
decorrer das páginas,
Laurentino Gomes pinta um d.
João supersticioso, feio,
mas rei benigno que tudo
provê e de todos cuida e
protege; monarca bonachão,
sossegado e paternal. Rei
bem-sucedido, esperto e
popular.
A viagem de d. João
VI, acompanhado pela Corte e
pela Elite administrativa,
intelectual e financeira, de
Lisboa para o Rio de
Janeiro, é um espetáculo
grandioso, digno dos
melhores filmes de Hollywood
nos anos 40-50 do século
passado. Ela movimenta uma
frota de 56 navios, 31 de
guerra e 25 mercantes, entre
eles 13 sob a bandeira da
Inglaterra; carrega 10 mil
passageiros, 10% da
população de Lisboa. Uma
viagem de três meses e uma
semana, 100 dias, portanto.
Nessa época, o Rio de
Janeiro conta com 60 mil
habitantes. Os
desembarcados aumentam a
população carioca em 15%.
Imaginem a confusão se
amanhã, a cidade em que
vivemos receber mais 15% de
residentes num único dia.
Entre os passageiros de
Lisboa, dois atraem pouca ou
nenhuma atenção: um conjunto
de máquinas impressoras,
novinho em folha, está
chegando da Inglaterra
porque não teve tempo para
ser descarregado em Lisboa,
e um menino de 9 anos.
Falaremos sobre eles um
pouco mais adiante.
Naquele começo do
século XIX, o Rio é uma
metrópole decadente
estagnada, uma cidade pobre,
carente de tudo e com uma
população composta por 98%
de analfabetos, a quase
metade dos moradores,
escravos. E o Brasil todo
está desse jeito: desde Tomé
de Sousa, o primeiro
governador-geral, meados do
século XVI, existe o
impedimento de as diversas
regiões se comunicarem entre
si. Uma Lei de 1773 proíbe a
abertura de estradas. E a
Colônia, mergulhada no
atraso, na ignorância e na
solidão é mal-vista por
alguns viajantes que a
percorrem.
Em 1809, um médico
inglês publica uma
História do Brasil
destinada aos comerciantes
da Grã-Bretanha que iriam se
deslocar para a terra de d.
João VI. A certa altura, o
Autor afirma que no Rio de
Janeiro não somente as
ciências mas a literatura de
qualquer tipo e
negligenciada. Em 1821,
ano do retorno de d. João VI
ao ninho antigo, o inglês
James Henderson, no The
modern traveller, cujo
título pode ser traduzido na
linguagem de hoje como O
turista moderno,
escreve:
As condições morais do povo
são tão deploravelmente
viciosas e degradantes,
quanto as características
políticas são mofinas e
desfavoráveis. Tudo o que é
sublime na natureza
inanimada entra em contraste
com tudo quanto é asqueroso
na natureza humana. A
depravação não é compensada
por qualidades nacionais.
Vícios que em outras regiões
os homens têm o maior
cuidado em esconder estão
circulando tão pública e
desavergonhadamente quanto
poderiam desejá-lo os
maiores imorais. A vida de
um indivíduo comum não vale
dois dólares: por menos do
que isto qualquer covarde
pode alugar alguém para
liquidá-la. A mais profunda
ignorância e o extremo da
imundície nos hábitos do
povo completam o revoltante
quadro.
Em uma das 186
cartas que o arquivista real
Luiz Joaquim dos Santos
Marrocos remeteu ao pai, que
não fugira com o rei, em
maio de 1813, essa carta
garante que no Rio de
Janeiro de então eram
produzidos planos e projetos
literários que se tornavam
pouco mais que nada.
Mas a Colônia e o
Rio de Janeiro deixam
extasiados outros
estrangeiros que percorrem o
sertão e a cidade. O monge
francês Dominique de Prad
escreve que a transmigração
da Família Real tudo mudou
no Brasil, uma terra sem
limites no seu espaço, sem
limites em sua grandeza,
sem barreiras nos seus
destinos. E o italiano
Giuseppe Compagnoni, entre
1820-1823, publica uma
História da América na
qual o Brasil é visto cheio
de glórias e capaz de
converter-se no País mais
poderoso do mundo, e servir
de contrapeso aos Estados
Unidos. O Brasil não
necessitava de outra coisa a
não ser uma boa
administração. E parece já
estava a ponto de obtê-la.
garante o ilustre filho da
Itália. Eu não garantiria
isso tudo, passados 200
anos!
Entrando no campo
da cultura e da literatura,
na época de d. João VI no
Brasil, Portugal é visto
carente de ciência, de
política, de economia, de
educação, com as letras
desterradas, com os
conventos entretidos apenas
a rezar o ofício divino e
com a presença de uma
censura a manter rigoroso
controle sobre a publicação
de livros e de jornais. A
cultura e a ciência de há
muito entraram em decadência
e é comum a deportação de
escritores e de intelectuais
simpatizantes da Revolução
Francesa. E ainda por cima,
nesses anos 1808-1821,
Portugal está sendo
governado por um inglês,
William Carr Beresford.
Preço da proteção bélica
durante a viagem para o Rio
de Janeiro!
O retrato cultural
do Rio de Janeiro, em 1808,
está bem desfocado.
Viajantes europeus escrevem
que o Brasil não é lugar de
literatura. E, mais fundo,
um deles garante que
neste país de analfabetos
não se encontra ninguém que
tenha intimidade com a noção
de ciência. No
levantamento de um outro
viajante, o inglês Luccok, o
Rio de Janeiro, com 60 mil
habitantes, conta com 16 mil
estrangeiros, 12 mil
escravos, 4 mil mulheres
chefes de família, 4 mil
caixeiros, 2 mil
retalhistas, 700 padres, 500
advogados e 200
profissionais que praticam a
medicina. Não há na lista
nenhum escritor e nenhum
professor. (Entenda-se: o
ensino está todo na mão das
ordens religiosas. Não há
ensino laico).
D. João, o príncipe
quase perfeito, dá-se conta
da situação e em poucos
meses transforma o Rio em
uma cidade européia, com a
fundação dos órgãos de
Governo que não puderam ser
embarcados na frota do
desespero. O rei estabelece
a liberdade de comércio;
funda indústrias
manufatureiras; revoga
alvará de 1785 que proibia a
fabricação de qualquer
produto; introduz o ensino
leigo, cria a Escola
Superior de Medicina, outra
de técnicas agrícolas, um
laboratório de estudos e
análises químicas, a
Academia Real Militar, o
Museu Nacional, o Jardim
Botânico, o Real Teatro de
São João e, até uma fábrica
de pólvora. E, muito
esperto, Sua Majestade que
de bobo não tem nada, cria o
Banco do Brasil, melhor, o
Banco do João Maria,
antecipando em 200 anos uma
publicidade comercial
largamente utilizada pelo
banco em 2007.
Tudo indica que em
1815, ao ser elevado à
categoria de Reino Unido a
Portugal e Algarves, o Rio
de Janeiro ultrapassa, de
longe, a Lisboa que o rei
havia abandonado em 1807,
ultrapassa na administração
real, no funcionamento das
entidades culturais e,
principalmente,
empreendimentos
civilizatórios cuja meta é
promover a cultura, o
refinamento.
Antes de entrar no
âmbito da literatura em Língua Portuguesa no tempo
do Rei, é hora de destacar
aqui o papel importante,
tanto na criação quanto na
circulação de idéias,
representado por três
jornais postos em circulação
naquele tempo de d. João VI
no Brasil.
Entre 1º de junho
de 1808 e dezembro de 1822,
circula em Londres, com a
periodicidade mensal, o
Correio Brasilienze, um
jornal de idéias e não de
notícias. A folha está sob a
responsabilidade de Hipólito
José da Costa Pereira
Furtado de Mendonça, nascido
no Rio de Grande do Sul,
estudante em Portugal,
fugido da Inquisição de
Lisboa que desejava
churrasqueá-lo por ter-se
declarado maçom convicto e
militante. O jornal, também
conhecido como Armazém
Literário, circula a
cada mês com suas páginas
distribuídas em quatro
secções: Política, Comércio
e Arte,Cultura e Ciências,
Miscelânea e Novidades. No
seu conjunto e na sua
filosofia, Hipólito da Costa
defende a liberdade de
imprensa e de expressão
junto com ideais liberais da
Revolução Francesa, da
Inconfidência Mineira e da
Democracia Norte-Americana
instalada em 4 de julho de
1776. Uma trindade de
blasfêmias pecaminosas para
a catolicíssima coroa de
Portugal, principalmente no
tempo de d. Maria I, mãe de
d. João VI.
Todas essas
liberdades, só mesmo em
Londres porque em todo Portugal corre feroz a
perseguição aos
intelectuais, onde a pena
menor é o desterro para as
terras d’África dos
indivíduos infectados dos
abomináveis princípios
franceses. Hipólito José
da Costa Pereira Furtado de
Mendonça, ainda que vivendo
no exílio de Londres, com
seu jornal em língua
portuguesa, pode ser
considerado como integrante
do grupo de intelectuais
brasileiros do tempo de d.
João VI, já que era portador
de idéias brasileiras
que já estavam circulando no
Rio de Janeiro.
O segundo
periódico, um diário
oficial, o Gazeta do Rio
de Janeiro, impresso com
as máquinas trazidas da
metrópole, desde 10 de
setembro de 1808, circulou
aos sábados e, logo em
seguida, às quartas e
sábados. O primeiro número
estampa na capa notícias
chegadas de Londres, com as
datas de 12 e 16 de junho –
três meses de atraso! – e
traz como lema, em latim,
dois versos de uma ode de
Horácio, o grande poeta dos
tempos de Roma: os
princípios fortalecem a
energia e a prática do bem
fortifica o coração. Ao
lado do Gazeta, a
Impressão Régia também
imprime livros e folhetos
particulares desde que
devidamente censurados. Que
ninguém se meta a escrever
contra a religião católica,
contra o Rei, a política ou
a favor dos franceses que
são vistos e celebrados como
raça muito prejudicial!
Claro que raça prejudicial:
menos de um ano antes o
francês Napoleão Bonaparte
tinha varrido o Rei e a
respectiva Coroa, da Europa
para o Rio de Janeiro.
Em 1813, o terceiro
jornal, O Patriota,
órgão político, mercantil e
literário, circulação mensal
com mais de 100 páginas,
divulga no primeiro número,
como filosofia de trabalho a
frase: É uma verdade
conhecida, ainda pelos menos
instruídos, que sem a
prodigiosa invenção das
letras, haveriam sido muito
lentos os progressos nas
ciências e nas artes. A
versatilidade da nova folha
promete ir longe: no
primeiro número estampa o
ensaio Memória sobre o
emprego do açúcar combinado
com a pólvora. Fosse
hoje, o ensaio teria como
título Memória sobre o
emprego do açúcar para
obter o etanol! Como se
deduz, o progresso anda
muito devagar! Pólvora havia
e estava sendo fabricada na
mesma cidade do Rio de
Janeiro.
No campo da
Literatura, a instalação da
Família Real no Brasil, é
objeto de pouca atenção
pelos escritores portugueses
que não acompanharam o Rei
na fuga para o Desterro.
José Francisco de Macedo,
1761-1831, ataca a mudança e
a permanência de d. João no
Rio de Janeiro. Ataca,
igualmente, o consulado
do inglês Beresford que
tomou conta do governo de
Portugal. Mais contundente é
a crítica de Francisco de
Melo Franco: em 1818 ele
publica o livro No reino
da estupidez, trabalho
fortemente cáustico em
relação ao reinado de d.
Maria I, antes de ser
considerada louca, e do seu
filho d. João VI. A sátira e
a ironia atravessam as
páginas do livro e descem
chicotadas sobre uma
sociedade sem grandeza e sem
fibra, onde tudo amolece e
fica sórdido dentro da
teoria nós-somos-assim.
Trata-se de uma sátira do
cotidiano, com utilização de
uma linguagem coloquial .
Tanto maior o valor do livro
que, assim, pode ser
entendido pelas camadas
populares com um certo nível
de cultura!
A literatura
elaborada no Brasil no tempo
do Rei estampa um certo
valor intelectual e
político. Ela não está
desprovida de interesse
porque é um retrato dessa
mesma vida intelectual. Essa
produção não pode ser medida
em termos de valor – e o que
é valor em
literatura? Esse valor tem
que ser medido em termos de
significação. Assim,
a literatura das duas
primeiras décadas do século
XIX entra para a história da
cultura e não para a
história da literatura. É
uma produção literária, mais
de circunstâncias como o
nascimento de uma princesa,
o casamento de um nobre, a
morte de um político do que
uma criação artística com
temas filosóficos, líricos
ou intelectuais.
Essa literatura,
chamêmo-la assim, cheia de
incensos e balangandãs,
dirigida a boníssimos e
piíssimos príncipes, condes
e marqueses, é o recursos
estilístico e político de
que se vale o Autor para
escapar da censura, navegar
nas danças do Poder e
conseguir que o livro seja
publicado pela Impressão
Régia.
A esse respeito,
escutemos a abertura de um
sermão, em 18 de março de
1808, 11 dias após a chegada
do Rei, na igreja de Nossa
Senhora do Parto, durante a
cerimônia, denominada Te
Deum – a Ti, ó Deus, -
proferido pelo padre-cônego
João Pereira da Silva,
sermão-louvor pelo feliz
desembarque do Rei e da
Comitiva, recheado de frases
em Latim:
Ó povo, afortunado povo,
faze ressoar comigo os teus
júbilos, em presença do
príncipe-regente Nosso
Senhor: jubilate in
conspectu regis domini.
Alvorece-se o nosso mar com
todos os seus recôncavos, o
nosso mundo com todos os
seus habitantes: moveat
mare, et plenitudo ejus
orbis terrarum, et Universa
quae habitant in eo. Os
rios, o Amazonas, o Prata e
o de Janeiro bateram as
palmas; exultaram de alegria
ao mesmo tempo os montes, à
vista do seu Senhor, porque
ele vem equilibrar a justiça
na sua terra. Prostremo-nos,
pois, fluminenses e
portugueses, prostremo-nos
diante do Deus dos nossos
pais.
Ao lado dessa
enxurrada de sermões e
poemas laudatórios, circulam
folhetos com poemas dentro
de uma lírica de 200 anos,
mas portadora, justiça se
faça, de uma fratura entre o
velho mundo mental que se
desfaz e as novas tendências
que se afirmam a passos
largos.
Para o crítico
Wilson Martins, a partir de
1816, com o desenvolvimento
das atividades musicais e
teatrais, bem como a
presença da Missão Francesa
nas Artes Plásticas, na área
da literatura começa a tomar
corpo a chamada era
brasileira.
Em 1815, José
Bonifácio de Andrada e
Silva, 1763-1838, o futuro
Patriarca da Independência
estréia na carreira
científica com o livro
Memória sobre a necessidade
e utilidade do plantio de
novos bosques
em Portugal.
Com
o livro, esse brasileiro
pode ser indicado o
precursor da Ecologia, a
ciência privilegiada desta
primeira década do século
XXI, em que a Amazônia está
sendo devastada. Em 1818, o
padre Manuel Aires de Casal,
pela Impressão Régia,
publica a obra
Corografia Brasílica uma
descrição
histórico-geográfica do
Brasil de então. A obra traz
em suas páginas, pela
primeira vez, a Carta de
Pero Vaz de Caminha,
desconhecida até então. Uma
afirmação do padre Casal
deve ter deixado os teólogos
e os policiais de plantão,
com os cabelos em pé, se os
tivessem. Vamos à frase:
O homem branco, preto ou
vermelho é tanto quanto
qualquer outro animal,
objeto da Zoologia, e
somente as concepções
idealistas consideram o
homem um animal à parte.
Cinco anos antes do
livro do padre Casal,
Silvestre Pinheiro Ferreira,
ex-padre, publica o primeiro
livro de filosofia editado
no Brasil. E, como era moda,
sapeca-lhe um título de todo
o tamanho, escutemos:
Preleções filosóficas sobre
a teoria do discurso e da
linguagem, a estética e a
cosmologia.
A filosofia
proclamada pelo Autor
engaja-se no ecletismo
que é o desejo de evitar os
excessos dos
revolucionários e dos
reacionários. É a teoria do
justo meio coincidente com
os ideais do liberalismo
burguês. Dentro dessa linha,
a Independência de 1822 vai
ser proclamada com o Grito
de um príncipe amedrontado e
não com o ribombar dos
canhões enfurecidos, como
acontecia nas colônias
espanholas da América. Nosso
príncipe-proclamador é Pedro
I, o menino de 9 anos, já
referido anteriormente, que
desembarcou no Rio de
Janeiro, vindo de Lisboa,
com papai, mamãe e a vovó,
junto com a máquina
impressora, em 7 de março de
1808.
Um estudo da
literatura no tempo do rei,
200 anos depois, não pode
omitir o nome do frei
Francisco de São Carlos,
1761-1829, autor do longo
poema religioso A
Assunção, publicado em
1819, um exemplo de epopéia
romântica tendo como tema a
Assunção da Virgem Maria
que, pela teologia católica,
teria subido ao Céu com
corpo e alma. O poema, um
conjunto de hinos dirigidos
à Virgem, encontra seu
princípio unificador nas
descrições das coisas do
Brasil e nas pinturas de
nosso belo país
(expressão do poeta).
Ouçamos esta passagem sobre
o Brasil:
E tu, fausto lugar, que
ainda algum dia
Nobre assento serás da
Monarquia;
Tu que já foras ínclito e
florente
Nas artes, na riqueza, e
ilustre gente;
Escuta agora os dons
esclarecidos
Que a ti do Céu estão
apercebidos (...)
Verás brilhar as artes,
florescendo
Novos inventos: máquinas,
nascendo;
O prêmio honrado do talento
o zelo,
E este prêmio a honrar como
merecê-lo.
Os 13 anos de
permanência da Casa Real dos
Bragança no Brasil,
1808-1821 quanto à área da
Literatura podem ser
considerados como ventos
favoráveis nos quais passam
a borbulhar os sinais dos
tempos novos que a sociedade
brasileira espera como
frutos da presença de um rei
europeu, fato que não
acontece em nenhuma colônia
espanhola! Literariamente é
uma época com poemas
recheados de coloquialismos
brasileiros e até de
pronúncia nada lusitana como
é o caso desses versos de
Domingos Caldas Barbosa,
1738-1800, publicados já em
1798:
Não posso, não posso,
Não posso por mais que
queira,
Que meu coração se abrasa
De ternura brasileira.
Uma alma singela e rude
Sempre foi mais verdadeira
A minha por isso é própria
De ternura brasileira.
Em 1811, Domingos
Borges de Barros, 1780-1855,
futuro visconde da Pedra
Branca, publica um poema que
pode ser considerado como
a primeira canção do exílio,
antecessora, em 30 anos,
daquela outra Canção do
exílio, escrita por
Gonçalves Dias, em 1843 e
que assim começa: Minha
terra tem palmeiras / onde
canta o sabiá / as aves que
aqui gorjeiam / não gorjeiam
com lá.
Diz o poeta
dolorido do tempo do Rei:
Aqui foi que eu nasci, devo
a existência,
Devo tudo o que sou a ti, ó
pátria!
Eis-me: é teu quanto valho.
É nos trabalhos que no peito
ferve
O nobre patriotismo: o
braço, o sangue
Aqui te entrego, ó pátria.
Está na hora de
desligar o motor desta minha
charanga com fumus de
análise histórico-literária
para não correr o risco de
aborrecer o prezado e
sofrido leitor.
Acontece que para
escrever sobre literatura no
tempo do rei d. João VI,
falta namorar com o mais
importante livro daqueles
anos do século XIX.
Trata-se de um
romance. Melhor, uma novela.
Novela? E havia rádio ou
televisão na corte
brasileira do pobre rei
brasileiro quase abandonado
por uma espanhola?
Claro que não havia
rádio nem televisão. Vimos
que uma notícia gastava três
meses para chegar de Londres
até o Rio de Janeiro. Mas
havia jornal. E um deles,
chamado Correio Mercantil
estava em plena forma nos
meados do século. E havia um
brasileiro, nascido em 17 de
novembro de 1831, chamado
Manuel Antônio de Almeida,
filho de pais portugueses
moradores de um bairro pobre
da capital do Império.
Nessas alturas, d. João está
regressado a Portugal, com
sua Carlota nada apaixonada,
e morto, mortinho, desde
1826.
Estudante de
Medicina e jornalista de
fim-de-semana, Manuel
Antônio de Almeida consegue
publicar, em capítulos,
entre 27 de junho de 1852 e
31 de julho de 1853, o
romance Memórias de um
sargento de milícias. O
enredo de Memórias é
simples, mas profundo e de
alta significação para a
literatura brasileira: de um
lado está o brasileiro pobre
de subúrbio, como Leonardo,
o futuro sargento, e
Vidinha, a namorada; do
outro, o policial português,
o major Vidigal que o rei
havia posto nas ruas para
combater a criminalidade que
sofriam os subúrbios.
Vidigal, personagem central
do rei e do romance é o
terror da malandragem. Sem
se fazer anunciar, ele
aparecia de repente nas
aglomerações ruidosas
regadas a cantos, músicas e
cachaça.
Cita-se, rápido,
uma passagem de Memórias
para sentir o sabor do
texto:
Vidinha era uma rapariga que
tinha tanto de bonita como
de movediça e leve: um
soprozinho, por brando que
fosse, a fazia voar, outro
de igual natureza a fazia
revoar, e voava e revoava na
direção de quantos sopros
por ela passassem; isto quer
dizer, em linguagem chã e
despida de trejeitos de
retórica, que ela era uma
formidável namoradeira, como
hoje se diz, para não dizer
lambeta, como se dizia
naquele tempo.
(cap. 10, O agregado)
A literatura
em Língua Portuguesa
no tempo do rei brasileiro
ensaiou os primeiros passos
para tornar-se brasileira.
Passados 35 anos, com
Memórias de um sargento de
milícias ela atinge a
maioridade. Mas faltava uma
longa caminhada para
alcançar a maturidade.
Maturidade que há quase 100
anos, desde a Semana de Arte
Moderna, ninguém contesta.