MAGAZINE CEN / Setembro 2012
Tema: "CINEMA"
 
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Hiroko Hatada Nishiyama
São Paulo - Sp - Brasil

Cinema


Um vasto pomar
Muito bem tratado
Pelo meu avô,
Homem sério, calado.

No rosto já envelhecido
Um sorriso aparecia
Durante as visitas
Que eu lhe fazia.

No pomar as frutas
Saborosas, sazonais,
Abundantes e variadas
Que meu avô, diariamente
Contemplava
Como se retratos fossem
Do outono a se oferecer:
Aos passantes, aos chupantes,
Aos mordentes
E aos desperdiçantes
Meninos e meninas!

Até que um dia
Meu avô arregalou os olhos
Negros como jabuticabas,
O queixo lhe caiu
De admiração ao deparar
Com um outro retrato na sala
Numa moldura enorme
A se mover, correr e...falar...
Mas não desfaleceu!
Até hoje aquele retrato
Enfeita as noites da familia,
Enfim, era o
Cinema chegando em casa!

Hiroko Hatada Nishiyama

 

O meu cinema


Na pequena cidade do interior, onde passei a minha infância, existe uma adorável praça arborizada, com um belo chafariz de águas claras, jorrando permanentemente. Durante o dia, os passarinhos se banham e à noite, luzes coloridas dão o toque de fantasia para os namorados abraçadinhos antes de entrarem no cinema em frente à pracinha.
Também frequentávamos o cinema na sessão vespertina de sábado, a fim de assistirmos o seriado do nosso herói, Roy Rogers com seu cavalo branco Trigger: cada sábado era um capítulo diferente e sempre emocionante.
Vestíamos a melhor roupa. Íamos primeiramente à única sorveteria do local, e invariavelmente cada um pedia o sorvete espumoni, feito em três camadas triangulares no sabor nata, pistache e chocolate. Terminávamos rapidamente para entrarmos naquele ambiente surrealista: acomodados confortavelmente nas poltronas, ficávamos ouvindo a música vinda do piano colocado na frente da telona encoberta por uma incrível cortina de cor grená.
De repente o cinema ficava às escuras e a cortina ia se abrindo sob o respeitoso silêncio que se ouvia, um facho luminoso vindo de uma janelinha lá no fundo da sala... Só então começava o espetáculo mágico, imagens saltando da tela para dentro de meus olhos, eternizando cada figura na memória recorrível da infância.
Assim, para sempre o cinema ficou para mim algo belo, intocável, misterioso, como um relicário de felicidade, abrindo as portas para um universo onírico, onde tudo
é possível, tudo é permitido, até onde tudo é amoral e nada é pecado, seja acima ou abaixo da linha do Equador, como na letra de uma linda canção brasileira.

Hiroko Hatada Nishiyama

 

Benedita da Silva Azevedo
Rio de Janeiro - Brasil

O Encanto da Sétima Arte!


No cinema da minha cidade eram raros os filmes. Quando apareciam eram quase sempre de bang-bang. Era difícil aparecer um musical ou outro gênero.
Quando fui estudar na capital, meu maior desejo era ver os filmes de amor dos quais minha tia falava. Ela exaltava com tanta ênfase seus enredos, que eu não via a hora de poder ir ao cinema para constatar a veracidade de suas palavras. Mas, eu teria de aguardar um filme de amor que eu pudesse ver.
Um belo dia, ela disse que no cine Monte Castelo, inaugurado recentemente, ali mesmo no bairro onde morávamos, seria exibido um filme maravilhoso e nós duas iríamos assisti-lo, no sábado a tarde. No colégio todas as mocinhas falavam maravilhas do enredo, deixando-me ainda mais ansiosa para vê-lo. Nos cartazes enormes apareciam os protagonistas que, à minha visão, pareciam príncipe e princesa.
Eu tinha quinze anos completados em maio do ano anterior e chegara à capital em fevereiro daquele ano, pois as aulas começaram dia primeiro de março. Estávamos no início de abril.
Meu deslumbramento era visível ao entrar naquele salão cheio de cortinas de veludo bordô e poltronas da mesma cor. Minha tia, mesmo já conhecendo aquele cinema também admirava o luxo que imperava em todo o recinto.
Procuramos um lugar nem muito atrás, nem muito à frente. Foi uma delícia sentir-me afundando naquela poltrona macia, tão diferente das cadeiras de madeira do cinema da minha cidade! A tela enorme, também emoldurada de veludo da mesma cor das cortinas e poltronas. A platéia aos poucos ficou repleta de pessoas, na maioria, jovens e acompanhadas.
Meninos com tabuleiros cheios de balas e pipocas eram solicitados e se esgueiravam entre as fileiras de poltronas, antes que tocasse o último sinal para o início do filme. Minha tia comprou barrinhas de chocolate.
Enfim, apagaram-se as luzes. Ah! Que emoção, ao ouvir aquele som preencher o salão e o Leão da Metro surgir na tela antes do trailer de outro filme, anunciado para a próxima semana.
Começa a estória. Na Madri do início do Século XX, Soledad vende violetas no lado de fora do principal teatro da cidade. Jovem, bonita e sonhadora, ela canta para distrair seus fregueses. Até que um dia, sua voz encantadora chama a atenção de um jovem e rico aristocrata. Desse encontro, após muitas tentativas e sofrimento, ela se transforma em um grande sucesso mundial. E em meio a tribulações e preocupações, acontece o amor entre os dois.
Naquela noite quase não dormi e coloquei-me no lugar da protagonista. Era como se fora eu a heroína do filme. A minha história poderia ser parecida com a da vendedora de flores. Até hoje sinto a emoção de ouvir aquelas músicas alegres, num filme inesquecível.

Benedita Silva de Azevedo
Rio de Janeiro, 27. 09. 2012

 

 

Henrique Lacerda Ramalho

Lisboa em Cuiabá - Brasil

Vergonha!

Para um apaixonado por cinema, o mais viável foi todos os domingos disponiveis ir ao meu eleito, o S. Jorge.
Imóvel faustoso, no lado de uma avenida frenética, a da Liberdade, tinha um charme que sempre me atraiu. Suas montras plenas de cartazes e posters, fotos dos artistas e de algumas cenas, faziam a minha imaginação voar nos píncaros.
Mas havia um problema sério, para mim: os filmes eram classificados por idades!
Minha ânsia era atingir aqueles patamares, para me sentir mais adulto, mais velho, e ao entrar na sala, eu impava de vaidade ao entregar o bilhete ao arrumador. Olhe bem para mim! Já tenho idade! - me apetecia gritar.
Mais um domingo, mas o autocarro se atrazou e cheguei ao cinema já havia a sessão começado...
Mas ainda estavam finalizando os recortes de anunciar os proximos filmes a exibir.
Porém, algo estranho se passava... o ambiente tinha qualquer coisa que não era normal..
Quando da projecção do filme, gargalhadas agudas me feriam o ouvido,gargalhadas bem incomuns num cinema.
Quando chegou o intervalo, olhei para um e outro lado, para cima e para baixo.
A assistencia não era a que esperava... Uma multidão de crianças !
Que se tinha passado?...
Eu nem olhara para o que iria ver: comprei o bilhete na pressa do atrazo, e entrara... numa sessão para maiores de 6 anos!
Como me senti infeliz... me enterrei na poltrona e fixei os olhos no cortinado que protegia o ecrã.
Na saida, furei que nem perseguido por algum felino, envergonhado por um "adulto" de 16 anos estar numa sessão infantil!

HLR

 

 

Carmo Vasconcelos

Lisboa - Portugal

Falar de Cinema


Falar de cinema, imediatamente me transporta à minha juventude. Foi nessa época que ele mais me impressionou e deixou as suas marcas. Num tempo sem TV, nem Vídeo, o cinema era a viagem ao mundo dos sonhos. Uma extensão dos romances que eu devorava, a materialização dos personagens lidos, das paisagens imaginadas, dos dramas e romances vividos entre as páginas de papel. Ir ao cinema era participar da própria aventura.
Me lembro que eu me integrava ao guião como se fizesse parte dele. Vivia intensamente o desenrolar da história, a riqueza dos diálogos, a expectativa da cena seguinte e, inconscientemente, ia arquitectando na minha mente o final desejado. Porque o cinema dessa época tinha princípio, meio e fim. Era um cinema organizado. Não como a maioria dos filmes actuais que terminam abruptamente, deixando ao espectador a tarefa de congeminar o enredo, deixando-nos com a sensação de frustração pelo final inacabado. Alguns filmes faziam-me chorar como uma Madalena, e neles eu exorcizava todas as minhas emoções contidas. Curiosamente, sendo eu uma pessoa intrinsecamente alegre, os dramas eram os meus preferidos. Os que mais me tocavam. Não as grandes catástrofes, nem o sangue explícito de batalhas ou assassinatos, esses não me impressionavam. Eram as subtilezas adivinhadas, as dores ocultas, as agressões à sensibilidade, os desejos, as privações, as mil e uma nuances quase imperceptíveis duma plêiade de sentimentos. E eu saía da sessão, disfarçando, envergonhada, os meus olhos vermelhos, mas cheia de um saber de vida, de conhecimento humano, suportes para a minha vida futura que estava apenas começando.
Como não vibrar com “O Adeus às Armas”, extraído do livro de Hemingway; o “Dr, Jívago”, do romance original de Boris Pasternak; “Zorba, o Grego”, com o excepcional actor Anthony Quinn dançando o Sirtaki; “A Ponte do Rio Kwai”, majestosamente interpretado por Alex Guiness; “Luzes da Ribalta” do insuperável Charles Chaplin? … E tantos, tantos outros, que nos legaram horas de verdadeira abstracção do mundo real.
Mas o “meu” cinema não foi só lágrimas… Foi, também, muita alegria e divertimento, quando nas tardes de Carnaval era interrompido com os longos intervalos para dançar ao som das orquestras que enchiam os salões do nosso Monumental. E, para não omitir o óbvio, o “meu” cinema foi também, entrelaçar de mãos, suspiros apaixonados, beijos roubados.
Enfim, dentro e fora da tela, tudo se fazia mágico, como mágica é a própria magia do Cinema e… da Juventude!
Carmo Vasconcelos
Lisboa/Portugal
29/Setº/2012

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