Edição de Carlos Leite Ribeiro
 

Apolo e Daphne

 
 

MAGAZINE CEN

 

 AGOSTO 2012

  

 

 

 

 

Hiroko Hatada Nishiyama
São Paulo, Brasil


A Mosca
Sempre, de cada vez
A mosca se evade.
Indiferente e inconsciente
Rumo ao desconhecido
E zombeteira
Com olhos mil,
Bate as asas rasteiras,
Caseiras, irritantes!
No instante mesmo,
Do meu gesto inútil, fútil
De quem espanta mosca
Como quem nada quer
Na frustração do gesto.
Presto!

Hiroko Hatada Nishiyama

 

O LIVRO INACABADO
Hiroko Hatada Nishiyama


"Se você amou, você escreveu um livro: não importa se você amou por alguns segundos uma flor, ou por alguns minutos uma bela música, ou ainda por alguns momentos um belo pôr-do-sol; se você amou alguém,
então você escreveu um emocionante livro com páginas e páginas repletas de esperanças, angustias, felicidades, alegrias, expectativas, medos e receios, desesperos e aceitações, revoltas e conformações, onde o personagem principal foi você!
Mas se você amou alguém apaixonadamente, você foi o coadjuvante que roubou todas as emoções, nêste belo livro que você escreveu... mas que ainda não terminou..."

Hiroko Hatada Nishiyama

 

 

 

Humberto Rodrigues Neto
São Paulo SP Brasil


AGORA...


Agora que o meu sonho está desfeito,
e enfim sepultos os meus ideais;
agora que, ao invés de madrigais,
choram dobres de réquiens no meu peito;

agora que me foge até o direito
de imaginar-te em sonhos irreais;
agora que ilusões não me vêm mais
ao coração magoado e insatisfeito;

que eu siga só, o meu trágico caminho,
onde da sorte a aguda e acerba foice
ceifou-me as dádivas do teu carinho;

que por ti meu coração não mais baloice...
ah... deixa-me esquecer-te, aqui sozinho,
soprando o pó de um grande amor que foi-se!

Humberto Rodrigues Neto
 

 

SONHO DE CRIANÇA
Humberto Rodrigues Neto


Após o término da aula de Evangelização Infantil, no Centro Espírita, Raquel, uma das meninas conversa com sua coleguinha Márcia, que se encontra algo triste:
- Marcinha... Está havendo algum problema com você?
- Não... Por que você está me perguntando isso?
- Porque hoje, na classe, achei que você estava um pouco triste...
- É... Ando um pouco chateada. São os meus pais, sabe?
- Que é que têm os seus pais?
- Sei lá... às vezes fico pensando que eles gostam mais da televisão do que de mim.
- Que é isso? Mas que bobagem!
- Bobagem? Olha: quando a minha mãe está vendo a novela eu não posso dar um pio. Não permite que eu abra a boca! Isso é vida?
- Mas, Raquel... não pense que a minha mãe seja muito diferente. É claro que às vezes, durante o intervalo, me ajuda em alguma dúvida nas lições da escola, por exemplo.
- Ah, então sua mãe é um pouco mais legal que a minha. E o seu pai?
- Bem... aí a coisa fica um pouco mais difícil. Mesmo assim, uma vez ou outra ele me dá um pouco de atenção enquanto está assistindo ao futebol.
- Pois com meu pai já é bem diferente.
- É mesmo? Como, assim?
- Ah... ele chega em casa, joga a pasta e o paletó numa cadeira e nem sequer me dá um beijo. Liga a televisão no futebol ou no noticiário e não quer nem saber de nada. Só me dá alguma atenção nos intervalos, e mesmo assim, ó... bem rapidinho, sabe?
- Eu entendo, Marcinha... Mas, quantas vezes a D.ª Izabel, nossa Evangelizadora, não nos disse para termos paciência com nossos pais? Às vezes sua mãe pode estar cansada, e...
- Cansada? Cansada disso tudo ando eu, Raquel!
- Calma, amiguinha... Calma... Vamos devagar.
- E se a televisão queima... Ah... não dá outra: Eles correm como uns loucos e mandam consertá-la num instantinho. Não conseguem passar nem um dia sem ela!
- E quem é que passa sem televisão? O conserto tem que ser rápido, mesmo!
- Só que lá em casa, o conserto da TV é “vapt-vupt”! Mas quando é para me comprar um vestido novo... Chiii... aquilo demora séculos!
- Mas, isso são provas que temos de sofrer nesta encarnação, conforme ouvi numa palestra.
- Eu sei disso, Raquel. Eu também ouvi numa palestra que a gente pode escolher o tipo de vida que deseja ter na outra encarnação. Só assim é que eu vou conseguir acabar com essa falta de atenção do meu pai e da minha mãe.
- Já sei. Você vai pedir para nascer em outro lar, como filha de outros pais, que sejam mais compreensivos?
- Não, Raquel! Isso não. Eu gosto muito deles dois. Vou pedir para tornar a nascer no mesmo lar.
- Espere um pouco, Marcinha! Não entendi. Desse jeito os seus problemas vão continuar.
- Não vão, não, Raquel. Já pensei em tudo, amiguinha! Nessa nova casa meus pais de hoje vão me adorar!
- Mas, de que forma você vai conseguir isso?
- Eu vou pedir para ser a televisão!

Humberto Rodrigues Neto

 
 
 

 

 

Ilda Maria Costa Brasil
Porto Alegre - RS - Brasil


RABISCOS...



Numa noite de insônia,
rabiscos tracei numa folha de papel.
Inicialmente, pouco significavam;
se não um preencher o tempo.
De repente, vi-os como a matéria prima
de minh’alma,
pois são eu e minhas incertezas...

Sentimentos, matéria prima da literatura,
da música e das artes plásticas.

Ilda Maria Costa Brasil

 

 

 

 

Iraí Verdan
Magé – RJ - Brasil


PRIMAVERA


Um grande amor
Não necessita de muitas palavras...
Um grande amor
Não necessita de quase nada!
Direi ao meu amor, então:
Ontem, eu era o Outono!
Amadurecida,
Esquecida,
Com ares de supuração...
Com o ocaso
Fazendo o “Termo final’...”.

Como o desaparecer
Do sol no ocidente,
Desiludida,
Mas, não me dando por vencida,
Deixando para traz
A melancolia
Fugi do declínio da Vida!

Hoje, sou a Primavera!
Faço o reverso
Da minha antiga história...
Refaço
O caminho da volta
Pra encontrar
A juventude perdida.
Caminho em passos largos
À procura da aurora da minha vida
Recolho as flores da alegria
Dos meus anos dourados
Serena, altiva, feliz,
Encontro Você!...

Iraí Verdan

 

O SONO DE JÚLIA
Iraí Verdan



Naquela tarde Júlia chegara acompanhada, como sempre, do seu pai. Olhei para ela e recebi um lindo sorriso!
Júlia estava linda, como sempre também! Vestia um vestidinho bem rodadinho, estampado de listrinhas e florzinhas cor de rosa, se me lembro bem... À tira-colo, trazia uma pequena bolsa, também cor de rosa. Segurava em baixo do braço um livro de história e um caderninho. Carregava carinhosamente, sua linda bonequinha de pano, tipo Emília, bem fofinha, com os cabelos feitos de lã azul. E assim, Júlia chegou preparada, munida de “coisas” para se distrair, enquanto o tempo fosse passando...
Presumo que a Júlia tenha uns seis ou sete anos de idade, não sei bem ao certo, mas ela já é bastante conhecida nas reuniões culturais e festividades acadêmicas, pois sempre acompanha o seu pai, escritor e poeta, Demétrio Sena, que diz não ter com quem deixá-la e, além disso, adora sair com ela...
Olhei para trás e vi Júlia sentada na cadeira do auditório, onde acontecia a reunião. Quando o seu pai foi chamado para ocupar um lugar à mesa, Júlia o acompanhou e se postou ao seu lado. Passado um tempinho, me toquei que ela estava em pé, e rapidamente, arranjei-lhe uma cadeira. Ela sentou-se como uma mocinha! Ajeitou o vestidinho, cruzou as pernas e organizou os seus pertences... E assim, a Júlia que já se encontrava à mesa com as pessoas ilustres, não passou despercebida, naturalmente!
A reunião se desenvolvia. E enquanto as pessoas falavam, discutiam os assuntos, ora concordando, ora discordando, Júlia alheia ao que acontecia ao seu redor, abriu a sua bolsinha e pegou uma caneta e começou a escrever. Depois, guardou a caneta e começou a desenhar... E eu pensei: O que será quando crescer a pequena Júlia? Será uma professora?... Uma médica?... Uma psicóloga? Ou... Uma escritora, como o pai?
Enquanto eu ainda pensava, Júlia abriu sua bolsinha cor de rosa, guardou a caneta, o lápis de desenho, fechou novamente a bolsinha, acomodou num braço sua filhinha, também de nome Júlia, ora no colo, se mexendo de um lado para o outro. Abriu a Revista de histórias em quadrinhos e começou a folheá-la, lendo-a talvez. E assim, Júlia estava naquela tarde, usando o seu tempo de criança da melhor forma possível. Enquanto os adultos falavam e alinhavam suas idéias, ela se mexia na cadeira; cruzava e descruzava as pequenas perninhas... Os olhinhos pareciam pesados... Ela parecia estar muito cansada e com sono...
Eu prestava atenção aos assuntos da reunião e esqueci um pouco a menina. Quando olhei para o lado, observei que a pequena Júlia, vencida pelo cansaço, adormecera profundamente, sobre o braço da cadeira, onde colocara o corpo fofinho da sua boneca como um travesseiro; e sobre ele apoiara a sua cabecinha.
Ah... Senti uma ternura tão grande vendo o seu descansar naquele inesperado sono! Naturalmente, devia estar viajando num dos seus sonhos infantis: Talvez, com uma fada madrinha a guiá-la pelas mãos, num passeio de carrossel com cavalos encantados, sobre flocos de nuvens de sorvetes..., ao som da canção cantada por Xuxa “Doce, doce, a vida é um doce de vida e mel...”, e com as mais belas palavras de poesias!

Fiquei assim embevecida, encantada, vendo-a dormir o seu sono... Inadiável! Fiquei com vontade de pegá-la no colo!
Pouco tempo depois, a reunião terminou e Júlia foi despertada do sono pelo seu pai, que lhe disse:
- Acorda Júlia. Agora é a melhor hora!... É hora do lanche!...
Júlia acordou rapidinho! Bocejou, juntou os seus pertences e abraçadinha com a sua boneca de cabelos azuis, levantou-se da cadeira bem depressa e de mão dada com o seu amoroso pai, olhou para mim e deu-me mais uma vez seu lindo sorriso!

Iraí Verdan

  

 
 
 

Isabel C S Vargas
Pelotas-RS-Brasil


O VALOR DA AMIZADE



O homem é um ser social. Isto significa que não foi concebido para viver só.
Desde a infância é buscada a socialização do indivíduo. Desta forma ele aprende a se relacionar e interagir de forma saudável e prazerosa para si e para os demais que com ele convivem. O processo de socialização começa na família, posteriormente na escola, e nos demais grupos sociais que ele se insere. É no decorrer deste processo que se estabelecem os laços de amizade, que são de fundamental importância na medida em que propiciam afeto, troca de energia, enriquecimento mútuo. Oportuniza a convivência isto é, “viver com” que se traduz em participação, doação, troca de afetividade, de respeito.
Poderíamos transcrever inúmeras citações valiosas a cerca da amizade e sua importância na vida de cada um, mas é dentro de si mesmo que cada um percebe o quanto é importante ter alguém em quem confiar com quem pode partilhar todas as angústias, tristezas ou alegrias.
É na convivência com o outro que se fortalece a visão de si mesmo. É através do outro que nos enxergamos. É um processo de comunicação e empatia profundo baseados na compreensão no carinho e na harmonia.
Em todas as fases da vida a amizade é importante, porque através deste relacionamento são cultivados e aprimorados a sinceridade, a aceitação, cumplicidade, afinidade, responsabilidade, aconchego, respeito e confiança.
Num relacionamento enriquecedor cada um tem que aprender a se aprofundar nos sentimentos, valorizando o que é saudável e faz crescer, despindo-se de orgulho, vaidade, competição e inveja.
Especialmente na maturidade e mais precisamente na terceira idade a amizade tem um importantíssimo papel na manutenção da saúde física e mental, pois ativa áreas do cérebro, libera substâncias hormonais que favorecem a alegria e o bem estar, diminui a agressividade, a desconfiança, a tensão, fortalecendo o sentimento de “pertencimento”, na medida em que a pessoa tem com quem compartilhar sua vida, num momento em que o cônjuge e/ou demais membros da família já faleceram, os filhos cresceram e a pessoa se encontra repentinamente só.
Os amigos passam a suprir nestes casos a ausências de parentes, são como outra família escolhida pelas afinidades, pela convivência, pela presença constante e afável em todos os momentos, pois é com eles que serão divididos os sorrisos, as lágrimas, é com eles que se estabelecerão conversas, auxílio mútuo, afastando aquela que é a maior inimiga das pessoas na velhice, ou seja, a solidão, que isola, entristece, deprime, leva a um sentimento de inutilidade, de desvalia.
Portanto, a amizade é de inestimável valor e pode significar a própria vida, ou um sentimento maravilhoso de paz e integração, nesta fase, pois é através dela que o indivíduo encontrará suporte emocional, apoio, carinho, parceria, fortalecimento de identidade, elevação de autoestima, reconhecimento que certamente lhe proporcionarão viver mais tempo com mais amor e mais felicidade.

Isabel C S Vargas

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