Edição de Carlos Leite Ribeiro
 

Apollo e as Nove Musas

 (van Balen)

 
 

MAGAZINE CEN

 

 AGOSTO 2012

 

 
 

Lucia Maria Chataignier de Arruda
Rio de Janeiro – RJ

CEM PALAVRAS SOBRE MEU PAI


Pai do colo, pai trovoada, pai distante, pai que proíbe, pai que se abate desprotegido, pai que mostra suas invenções e desenha tão bonito, pai que tarda e exige bênção, pai de tantos amigos, pai que adoece na minha cama, pai que perde a perna, pai que chora vendo meus chinelos vazios de menina casada, pai que se apega ao neto caçula nascido no seu aniversário e lhe conta histórias, pai das dezassete cirurgias, pai sabendo que vai morrer, pai que não vi nascer nem perecer, pai do meu signo, do meu coração, quantas saudades sinto de você meu paizinho!


Lucinha

 

 
 
 
 

 Luiz Carlos Leme Franco
Curitiba PR Brasil

NÃO SE FOGE DO DESTINO


Não se foge, certamente, do destino
e não se pactua jamais com a morte.
Não se comete, nunca, este desatino.
É preciso ter-se sempre um norte.

Não se escapa, não, do dia-a-dia
Não se desfaz de nossa vida.
É necessário ter sempre empatia
e não se estragar na bebida,

ter a vida totalmente a pino,
conservar- se um bom porte,
preservar, claro, o costume fino
e ser na luta diária um forte.

Problemas surgem e desaparecem,
doenças chegam e, depois, saem,
os fracos de mente sempre fenecem
e os fortes, todos, se sobressaem.

É certo, caminhamos para um fim,
A morte, quieta, é sim, fato certo.
Não digo isto, creia, só por mim:
Tiremos este pensamento de perto.
Mas a existência pode ser comprida,
bela, exemplar, saudável e contente.
Precisamos gostar muito da vida
e estar de bem com toda a gente.

Não se foge , mesmo, do destino,
a morte, amigo, sempre vem,
mas se tivermos o bom tino,
conseguiremos, sim, viver bem.

Luiz Carlos Leme Franco

 

 

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro – Brasil

DO BARRO

Luiz Gilberto de Barros - Às 13 h e 41 min do dia 24 de dezembro de 2006 do Rio de Janeiro ( para o lirismo da minha irmã literária Rivkah )


Tu queres que teu rosto te sorria...
Precisas descobrir teu outro lado,
Mas teu espelho mostra a utopia
Do teu olhar tão triste... amargurado.

Num rosto de concreto - que ironia -
Encontras quem te olha do passado
E vês em quem te mira, a fantasia
De um tempo infelizmente terminado.

Estátuas são seres reinventados
Na solidão do amor que acaricia
A ausência dos espíritos amados
Que habitam nossa vã melancolia...

Por isso, nossos risos vagarosos
Desmaiam, como um beijo predisposto
Nas faces, que em toques carinhosos,
Se tornam, sem querer, o nosso rosto.

Do barro que nos forma, recriamos
O amor que nos sorri de um tempo ausente;
Se não temos a forma que almejamos,
Criamos um amor que acalente.

Tentamos completar o que nos falta,
Porém, para curar nossas feridas,
O sonho é uma rua que se asfalta
Da vida que faz falta... à nossa vida.

Luiz Poeta

 

AZUIS

Luiz Gilberto de Barros ( Luiz Poeta )
Conto Premiado pela União Brasileira de Escritores em 2010
 


Elas estavam nos lados opostos da rua.
Uma chamava-se Ruth; a outra, Carolina. Precisavam de um nome, entretanto a espontânea maneira como se miravam à distância de uns vinte metros dava-lhes uma especial identidade.
Não havia semáforos e os carros eram mecanicamente vorazes, mas as duas ignoravam suas velocidades: fitavam-se alheias aos flashes de cada veículo a oitenta quilômetros horários sobre a sedutora e lisa excitação do asfalto.
Os sorrisos tornaram-se reciprocamente simultâneos. O de oitenta e cinco anos nunca fora tão inocente; o de três, tão ávido. Ambos, cada qual com sua terna peculiaridade, eram uma agradável e afetuosa conversa sem palavras.
Ruth sorria para um nebuloso tempo do seu passado; Carolina, para um futuro longínquo, ambas magnetizadas pelo inusitado brilho de dois olhares profundamente azuis... azuladamente felizes.
Num átimo, depois que dois últimos carros cruzaram-se oportunamente, não titubearam: atravessaram logo a rua. Uma, vagarosamente apoiada na expressiva nudez de uma bengala de madeira; a outra, aos pulinhos, solta sob o vento realçando os movimentos do vestidinho rosa.
Encontraram-se quase no meio da estrada, sob os implacáveis raios de sol do mês de dezembro... afinal, precisavam de uma data para celebrar aquele momento pleno de embevecimento e excitação.
Não se conheciam, porém não havia necessidade de apresentação; os sorrisos cumprimentavam-se desde a primeira troca de olhares.
Pararam uma frente a outra, numa serenidade contemplativa de cujos azuis emanavam eternidades.
A menininha alongou a frágil mãozinha, puxando carinhosamente a idosa para o lado de onde viera. Era um retorno marcado por cuidadosa precaução, numa silenciosa e lírica perenidade de passos calculados.
Findo o trajeto, num quase derradeiro sorriso de felicidade, retribuído por outro de agradecimento, Carolina simulou retornar.
A velhinha comprimiu sua mãozinha com suavidade, como que pedindo mudamente que aguardasse. A seguir, abriu uma antiga e rota bolsa que levava consigo, retirou dela uma frágil bonequinha de pano e entregou-a à menina.
O êxtase durou o tempo do embevecimento que eternizaria aquele sublime instante.
A inefável fisionomia de Carolina congregava todos os risos num único sorriso imediatamente correspondido.
Em reverência àquele lírico momento marcado pela leveza de gestos, os carros foram parando... um... a um... para que a menina de três anos avançasse levando, nos seus momentos mais azuis, a realização de um sonho tão grandioso e necessário como a sua aparentemente menor e mais expressiva atitude.
Carolina voava como um passarinho e nem o calor do asfalto incomodava a maciez dos seus pezinhos descalços.
Na mão, a bonequinha de pano parecia dizer adeus à úmida lágrima de Ruth, que deslizava afetuosa sobre o melhor dos seus silêncios e o mais sublime dos seus sorrisos...azuis.

Luiz Gilberto de Barros ( Luiz Poeta )

 

 

 

 

Luzia Colossi

Passa Quatro- Brasil

LOUCA OU LIVRE?!

 

Louca ou livre,
as vezes também fui chamada assim,
pois sigo por caminhos abertos,
dizendo as coisas que sinto assim,
sem frescuras, sem medo de ser
feliz !
 
Mas isso tem um preço, e estou
pagando por ele, com o silêncio
e o esquecimento que se dão aos
dementes.
 
Salvo pássaros, amo as pessoas,
aceito meu amor aberta,
sem alerta, senões, ou ora veja.
 
Sou toda alma, e encontro só
pessoas cansadas, atrasadas,
que omitem um pequeno gesto
de carinho ou perdão, não me olham
e nem tempo ou vontade de explicar têm.
 
Desde pequena eu já era alertada
que eu não podia ser assim.
Pequei então por não ser como os demais,
sentir e não falar, querer e não tentar
alcançar, ser algo assim inerte, pasma,
só para se fazer de normal.
 
Então agora que não tem mais jeito,
sigo assim da mesma maneira, e as
vezes em meu caminho, encontro
outros loucos, que me amam,
simplesmente assim como sou,
(de)mente e de alma livre !
 
Lu Colossi

  

 
 
 

Mardilê Friedrich Fabre
São Leopoldo, RS - Brasil

Diante do Espelho


Quem é esta jovem
Que me analisa do espelho?
Seu olhar cálido
Verte nostalgia pelo tempo
Que não parou.
Suas mãos brancas seguram saudades
Entre as rosas vermelhas da paixão.
Seus cabelos negros
Emolduram um rosto translúcido
Sem medo de perpassar um mundo desgovernado
Que se reflete na minha frente
Para dizer-me
Que a memória não me trai,
Que um dia estivemos juntas;
Para lembrar-me
Que ela me mostrou
Como andar firme
Pelos intrincados caminhos da existência.
Seu terno sorriso fala-me também
De príncipes valentes
Que casam com princesas encantadas,
De homens bons
Que mudam os rumos de seus países,
De afeto e principalmente de esperança.
Sua imagem esmaece pouco a pouco
Ante meus olhos lacrimejantes.
E, no mesmo espelho, outra imagem,
Também com um sorriso largo, segura,
De quem está de posse da vida,
Estende-me amor
Entre as rosas vermelhas da paixão.

Mardilê Friedrich Fabre

 

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