MAGAZINE CEN / Fevereiro 2012 “PROSA“

 

1º BLOCO

 

 

Edição de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 Alma Lusa
Olhão

 

Dualidade da vida!

 

Amanhecia, o sol espreitava no horizonte e devagar subia no etéreo, resplandecendo sobre o manto de água que circundava a Ilha, qual pedra preciosa engastada em jóia dourada.
Cedo levantava-se o sumo-sacerdote e, ritmicamente, fazia o seu passeio matinal. Descia até ao povoado, casas brancas engastadas na natureza, misto de cor e harmonia arquitectural. O respeito pela natureza era bem visível. O abate de árvores para a construção da área residencial era mínimo, e só as zonas onde as habitações e os caminhos eram necessários, seriam limpas. Entre as habitações, espaçadas umas das outras, sempre se mantinha o arvoredo, fazendo sobressair a sua brancura; daí o nome de Ilha Branca.
Em todo o lado reinava o equilíbrio, o povoado era limpo, as pessoas alegres, a azáfama começava cedo e o burburinho dos afazeres e das conversas elevava-se como o sol no horizonte.
O sumo-sacerdote estava acompanhado de Sikar, seu pupilo e sacerdote, ambos caminhavam lentamente em amena conversa.
-Tanta é a beleza que nos rodeia que nos esquecemos de a apreciar pelo hábito, disse Sikar, olhando em redor com desvelo.
Alphek passou o olhar pela paisagem exuberante e multi-colorida, como a certificar-se do que o seu pupilo dissera.
- É verdade. Por isso a natureza das coisas é dual, a vida é comparativa, só assim podemos ter a noção e a perspetiva.
Fomos providos sabiamente pelo Criador com o livre arbítrio para a nossa evolução e formação, no entanto, esta característica que é espiritual está ligada a outra que é a responsabilidade. Para fazermos escolhas e tomar decisões temos que ter opções, só assim a livre decisão pode funcionar e a responsabilidade inerente a essa decisão.
Compara a vida a uma moeda. A moeda tem duas faces, impossível ter uma ou separá-las. A espiritualidade e a intuição, a materialidade e o intelecto. A beleza é apreciada e valorizada porque existe o feio como comparativo. Todos os sentimentos existentes neste plano da Criação têm uma função de utilidade e estes sentimentos são ligados pelo equilíbrio. O equilíbrio é fundamental na actuação. Repara na natureza, é equilíbrio puro, por isso as nossas leis e comportamento se regem pelas leis da Criação que expressam a Vontade criadora do Altíssimo.
No mar pequenas estrelas acendiam-se e apagavam-se, reflexos do sol no balanço da ondulação que se envolvia na areia dourada da praia.
- A falta de equilíbrio está a fazer com que o egoísmo predomine entre os homens da grande cidade.
Sikar olhava para o horizonte como que a querer visualizar a grande cidade, que no outro lado do mar, prosperava desordenadamente.
- Egoísmo, o património da alma acumulado por experiência, retrucou Alphek, o egoísmo não dá, só acumula e, como a moeda, tem a outra face que é o altruísmo, a partilha do saber acumulado pelo egoísmo. Entre o egoísmo e o altruísmo, ambos necessários à evolução espiritual, está o equilíbrio; é impossível dar o saber, o conhecimento, os valores adquiridos, acumulado por alguém, estes valores fazem parte do património espiritual e cultural, é-lhe intrínseco, fruto da sua experiência vivencial, é a sua riqueza, diferente, evidentemente, de pessoa para pessoa.
Como seres espirituais que somos, a individualidade é a nossa referência.
Para equilibrar o egoísmo existe o altruísmo que partilha o saber acumulado pelo egoísmo, num misto de amor e doação ao próximo. O saber acumulado se não for partilhado de nada serve, nem para o seu proprietário.
É como o planeta, se este, através da sua actividade vulcânica não aliviasse a tensão no seu interior, explodiria: equilíbrio.
Neste plano material em que vivemos, necessitamos do intelecto e da carga sentimental a ele ligada para a nossa evolução espiritual, por isso, o controlo das emoções e dos sentimentos ligados à matéria ser necessário, se esta nos dominar, tornar-nos-emos mais pesados e maior
dificuldade teremos no regresso à Pátria, aos jardins eternos, de onde provimos.
Há três pilares básicos no nosso comportamento que não devemos descurar:
Olhar dentro da nossa alma e rever o resultado das nossas acções!
Confidenciar o que nos vai na alma ao nosso melhor amigo, o nosso guia e protetor espiritual!
Não mentir a nós próprios, este é o primeiro passo para a verdade!
Se não descurarmos estes procedimentos, então o equilíbrio manter-se-á e seremos felizes, só então estaremos capacitados para ajudar o nosso semelhante, em verdade.
Por momentos silenciaram a olhar a imensidão azul à sua frente, perscrutavam sinais dos elementos da comitiva de Neptuno, a eles tão queridos.
- Mestre, quando me relatarás os acontecimentos de tua viagem?
Alpkek, o sumo-sacerdote, sorriu com tristeza.
- Mais tarde, Sikar, mais tarde…
Alegres e confiantes regressaram para se dedicarem aos seus afazeres no Templo, pela velha escadaria, antiga como o tempo, incrustada na rocha e que entrava na montanha em direcção ao alto.
 
Alma Lusa
“in Eram Verdes os Campos”
http://www.circulodograal.com        
http://www.graalrik.blogspot.com 

 

 

 

 

António Zumaia

Sumaré SP

 

Poeta?

 

Na contemplação das árvores e flores, daquele belo jardim sentia-se poeta; Nunca fizera um simples verso, por incapacidade romântica, artística e até cultural, mas entendia que saber nas entrelinhas de um poema, desenhar sentimentos de amor e desamor, era algo de divino que o poeta fazia com a alma e nunca com o cérebro; Os seus olhos eram câmeras encantadas, que captavam a beleza da natureza de forma insigne, dando aos leitores uma visão ignorada, pelos olhos de simples mortal.
Era um tema que gostava de esgrimir com seus pares, porque sentia que os poetas, não eram simples patetas passiveis de qualquer lei avulsa, mas antes alguém a quem era dado o dom de fazer imagens poéticas nas palavras sem ser pintor e dar melodia aos sentimentos descritos sem ser musico.
Ensimesmado nestes belos pensamentos, nem reparara que um homem de aspecto eslavo se acomodara no mesmo banco que ele. Tinha um sorriso agradável e parecia interessado em meter conversa, retirando-o da contemplação do mistério que envolve a existência de um poeta e da própria poesia.
- Ela é muito bonita não acha?
- Está a falar da poesia?
- Claro que não. Estou a falar daquela senhora ali.
Ai minha santa mãezinha, era cá uma brasa de revirar os olhos de... Bom! Era na verdade uma mulher linda, com tudo no devido lugar e que apesar dos seus oitenta e cinco anos o fazia arrepiar, que se lixe a poesia.
- Muito linda sem duvida.
- Se quiser eu posso apresentar-lha e até ter umas brincadeiras com ela.
- Bom! Isso não sei. – Disse titubeando.
- Por apenas quinhentos euros pode ter uma tarde bem agradável.
Era tentador mas, decerto isto ia trazer-lhe sérios problemas e arrepiou caminho rapidamente.
- Sabe eu tenho problemas de saúde, que não me permitem ter relações sexuais.
- Quem está a falar de sexo?
- Pensei.
- Pois, pensou mal, eu devia apresentar queixa de si às autoridades, por assédio a minha esposa. De certeza lhe ia sair muito caro essa brincadeira.
- Experimente, está ali um agente da autoridade que o pode atender, mas lamento informá-lo que sou advogado e depressa o senhor e sua amantíssima esposa serão corridos de Portugal, pela maneira que fala ainda está no meu país há pouco tempo.
- Estou há pouco tempo sim, mas aprendi que advogado e diabo são parecidos.
Levantou-se de repelão furioso e caminhou para junto da comparsa dele.
Ficou-se a tentar descobrir porque os poetas mentiam tanto, quando amavam de verdade faziam-se de desgraçadinhos… E quando eram desgraçadinhos criavam a mulher dos seus sonhos. Vá lá uma pessoa entender estas almas diletas dos poetas, que à luz da lei são pobres patetas. Será que tem razão? Já estava a rimar de mais, hum não me agrada. - Pensou.
O sol estava a ficar demasiado agressivo, caminhou para o ar condicionado do seu carro, procurando pelo caminho a sombra protetora das arvores para evitar a exposição direta e assim fez o seu caminho.
-Ai! Grande filho da mãe…
Os pneus dianteiros da viatura encontravam-se vazios.
 
António Zumaia

 

 

 

Augusta Schimidt
Campinas/SP
 

Morros cantantes, meninos uivantes
 

A paisagem é linda. Do caminho posso ver o esplendor do nascer do sol ou a chuva anunciada que não deixa de ter a sua beleza.
É assim que meu dia começa. Sempre a mesma hora, sempre o mesmo lugar. Uma reta quebrada por uma curva onde se misturam a beleza, a pobreza, o encantamento e a desilusão.
Passada a curva, fica para trás a magia e começa a realidade. Dura, difícil, intransigente. Uma realidade que não perdoa.
Casebres de madeira amontoados, cães magricelos famintos perdidos no asfalto e uma bucólica choupana azul, meu ponto de referencia para o caos...
Mas o morro canta. Logo cedinho, os casebres se agitam ao som dos raps e pagodes que se arrastam e se estalam no ar e se partem dentro das gargantas dos meninos uivantes. O som que se ouve faz o mundo tremer.
Meninos e meninas, vestidos de domingo, se é que é possível isto, caminham rumo à escola com passos cadenciados, alguns já fumados, mentindo a si mesmos que vão aprender.
Ali tem de tudo...
Um garoto de olhos tristes e marcantes, com nome de jogador famoso, divide a vida escolar com o submundo.
Entre o desejo e o medo, entre surras e juras de morte, o pobre menino ainda sonha.
Às vezes, entra na sala de aula e com ares de quem perdeu o medo e me diz: “Professora, eu hoje quero aprender”. E eu, angustiada penso... Meu Deus permita ao menos que ele consiga viver.
O dia vai seguindo como pode e logo uma rebelião explode.
E os meninos uivantes dos morros cantantes, envenenados pela fome e a miséria se rebelam, se atacam, se violentam das mais variadas maneiras... Um jeito deles de pedir socorro.
E a minha vontade nesta hora, era de que um grande sol se abrisse no meio da noite lhes trazendo a luz.

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Cibele Carvalho
Rio de Janeiro

 

A MENDIGA

 

Chega junto com a noite, para dormir na praça de um bairro classe A.
Seus poucos pertences brigam por espaço dentro de uma sacola e, quando são retirados, parecem respirar aliviados. Estranhamente, são limpos como sua dona.
Se o tempo está firme, deita-se no banco de concreto. Quando chove, acomoda-se debruçada sobre a mesinha abrigada que, durante o dia, serviu de tabuleiro de jogos para os aposentados.
Antes de deitar, pratica um ritual invariável: faz " touca" nos cabelos pintados, cobre-os com um pano como uma camponesa, e envolve-se cuidadosamente em suas cobertas que são trocadas e mantidas limpas.
Não esmola e compra seu lanche noturno na mercearia em frente à praça.
Especula-se sobre seu destino durante o dia - uns dizem que trabalha em algum lugar sem direito a dormida e que, por morar longe, escolheu a praça como dormitório; outros dizem que é simplesmente maluca.
Quem saberá sua verdadeira história? Provavelmente, nem ela.
Talvez seja algum resgate de vidas passadas.

 

 

 

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 Fahed Daher
Apucarana PR

                                                                               

Não tratemos apenas da morte orgânica, da parada cardíaca, da morte cerebral.
Tratemos também da morte mental ou emocional, da personalidade; da dignidade, da esperança, da fé, da capacidade de realizar, e do amor, do ser.
Partimos do primeiro pensamento: O que é viver biológico? Dizem os pensadores antigos que viver é nascer, crescer, desenvolver, reproduzir e morrer.
O provérbio árabe nos ensina que cumprimos nossa missão de seres viventes quando criamos um filho, plantamos uma árvore e escrevemos um livro. Figurativamente nos dizem que mantendo a espécie, conservando o meio ambiente e mantendo para o mundo a nossa memória construtiva cumprimos a missão de viver.
Viver, para a existência consciente, não pode se resumir aos fenômenos biológicos de crescer, reproduzir e morrer.
Viver inclui a idéia de sonhar, projetar o futuro dentro de um plano ideal, olhar e admirar o mundo em suas várias paisagens, amar e ser amado, acompanhar o desenvolvimento de um novo ser humano, ter amigos e ser respeitado, valorizando a auto-estima, participar da vida social com pequenas ou grandes realizações, ter a possibilidade de envelhecer recebendo o respeito dos iguais, para finalmente devolver a alma a Deus.
Quando se trata da repudiada pena de morte vemos, a ultrajante morte da pena.
Na morte da pena, da sentença, da determinação governamental, a humilhação do sacrifício que se impõe à população para a qual se ministra a escolaridade de favor, com ensinamentos precários e ineficientes que não ajudam a elevar cada um ao sentido do amor próprio pela capacidade de se afirmar como gente aprimorando-se, podendo ampliar seu sentido de liberdade dentro da estrutura social, ter oportunidade,  de se elevar com realizações e serviços à comunidade.
A morte da pena quando as sentenças judiciais não são iguais, embora “todos devendo ser iguais perante a lei,” a lei não se faz igual para todos, variando com cada categoria econômica e ou social.  Afirmação que não é necessário exemplificar, bastando rever o noticiário escrito e ou falado. 
A morte da pena que faz a pena de morte quando determina a prisão ou reclusão de alguém, sem recuperar, roubando as condições mínimas de vida, forçando apenas conservação da vida biológica e eliminando toda a condição de ser humano, na condição de reeducação, da dignidade do trabalho, condição de auto – estima e da visão de futuro.
Na morte da pena está também a pena de morte biológica das rebeliões dos presídios insanos e superlotados que geram assassinatos.
Na morte da pena está a pena de morte lenta e desrespeitosa do aglomerado de seres humanos, promiscuidade homo sexual, sobrevivendo sem espaço, sem higiene, ou capacidade de repouso.
Piores do que animais irracionais enjaulados, lembrando que os animais irracionais enjaulados têm direito à privacidade, espaço para se movimentar, abrigo contra intempéries, alimentação balanceada e sob controle do serviço de saúde, fiscalizados severamente pelo Ibama, com fiscais que os protegem amorosamente.
A morte da pena por não facultar a cada recluso das penitenciárias imundas condição de se aplicar a algum trabalho digno ou novo aprendizado digno bem se ajustando à sociedade, aos ideais e à auto - estima, dando possibilidade de terminar seu período condenatório, livre da prisão, com potencial para a vida de cidadão ou cidadã.
Contra a pena de morte biológica, sim. Mas também contra as penas aviltantes que destroem a dignidade dos seres humanos, sem prepara-los para o encontro com Deus.


Academia de Letras de Londrina. // Academia de Letras Centro Norte do Paraná.// Centro de Letras do Paraná./ SOBRAMES- Sob Brasileira de Médicos Escritores

 

 

 

 

 

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