MAGAZINE CEN / Fevereiro 2012 “PROSA“

 

2º BLOCO

 

 

Edição de Carlos Leite Ribeiro

 

 

 

 

 

 

Amélia Luz
Pirapetinga/MG

 

Crônica: Ofício de Escrever

Pseudônimo: CAPITU

 


O velho professor ficou pensativo! O acordo agora era o mandachuva, de nada adiantaria conservar antigas ideias. Fez uma ultrassonografia no Documento Oficial, comprovou os dados para se situar e caiu de paraquedas na ortografia. Pensou, já não lêem, nem crêem. Hoje, modernamente, todos leem e creem na Língua Portuguesa, no voo objetivo rumo ao futuro, obedecendo fielmente o tique-taque da vida.

Da circum-navegação aos nossos dias muita coisa mudou no “vernaculus” de Camões, com K,W e Y incorporadas ao alfabeto. Vale lembrar que tudo se modifica e a língua é viva transformando-se ao passar do tempo.

Portugal, de tantos herois, no “Navegar é preciso” deixou-nos esse país quase continente onde nada poderá deixar de ser respeitado na assembleia geral das letras.

Para o Brasil para estudar as novas regras. Não adianta para-choques!!! Temos que estar na vanguarda e apaziguar todo mau entendimento. Povoo meu texto de novidades ortográficas. A língua tem nova forma que forma o seu uso atualizado, de Coimbra ao Chuí. Além-fronteiras, no dizer bem humorado dos lusitanos, bem-vinda seja a reforma. Ziguezagueando estamos todos nós, no aprendizado diário das normas estabelecidas para as famílias das palavras e todos os seus agregados.

Regras são para bem escrever, não adianta discutir, dentro de tão amplo domínio geográfico em que as naus descobridoras chegaram. Precisávamos de um guia orientador que nos permitisse, mesmo com alguns desacertos iniciais, chegar às vantagens de um só Português para todos os países lusófonos.

Apostos, nós estamos, cães de guarda da nossa língua, escritores que somos, nas inconstâncias dessa travessia.

A sala de jantar, as cortinas cor de vinho, um fim de semana prolongado no salve-se quem puder dos erros ortográficos. Assim, estaremos no mesmo disse me disse, construindo conscientemente, com dedicação e esforço o novo escrever, sem ser um maria vai com as outras.

Somos coautores da reforma preestabelecida e coerdeiros da língua lusa revirando o baú de Camões, de Eça ou de Pessoa, verdadeiro arco-íris verbal da humanidade, trazido pelos bem-ditosos navegadores portugueses.

Não importa se sou António ou Antônio, se moro na Amazónia ou na Amazônia, ouvindo o canto do uirapuru da minha terra. Não quero escrever blasfémia ou blasfêmia lingüística, aqui no trópico. É que, por estranho que nos pareça somos irmãos de sangue e somos gémeos ou gêmeos em todas as nossas raízes culturais.

Assinamos então, académicos ou não acadêmicos, rendendo-nos ao encanto das palavras. Não as sequestramos, nem as prendemos em masmorras... Espalhamo-nas aos quatro ventos, na força das caravelas descobridoras.


 

 

 

 

 

Isabel Vasconcellos
São Paulo

 

DEZ MINUTOS (título)

 

Fugiu-lhe a manhã.
Janela embaçada, toda branca: visão primeira de um despertar abrupto; na porta a campainha insistente, o sonho interrompido. Estranha sensação é acordar em cama desconhecida, olhos fora de foco, olhos de súbito arregalados para a ausência do cotidiano cenário ma­tinal.
Descalços, seus pés pisam o chão frio, uma toalha qualquer enrola o corpo nu. Abre a porta a um vago vulto que estende para ela a consciência da situação: bandeja, pão, leite, café, laranja, geléia colorida.
Dez horas.
O homem na cama ronca e resmunga.
Pergunta-lhe se quer café, perguntando por perguntar, can­sada de saber que ele não quer. Com o pão e o leite vai mastigando es­ta sua tristeza. Ele volta a dormir.
Chove.
Roupas em desalinho no espaldar da cadeira. Por que não se vestir e, com um beijo silencioso, sair para sempre? Por que não?...
A ideia fica brincando dentro dela, marota. Imagina-lhe a surpresa a procura-la pelo quarto, bobo inexpressivo quarto de hotel meio pobre.
Frio.
Quase sem perceber, vai se vestindo. Enquanto se veste antecipa e imagina: Sairia sem ruído, um bom-dia seco ao porteiro espantado, espantado por vê-la sair só. Afinal, saíam sempre juntos... Ela se vê na rua, na chuva, no táxi... Chegaria, por fim, ao estacionamento, perto do bar, onde seu carro, abandonado pela madrugada, a acolheria. Antecipa o voo seguro pela avenida brilhante de chuva e de carros, caminho de casa, e seu disfarçado vingado riso ao pensar nele acordando sozinho, sur­preso, um tanto ridículo a zanzar pelo quarto, em sua nudez absurda.
Chove. Leva muito tempo diante do espelho na inútil tentativa de arrumar os cabelos despenteados de tanto acariciados, embaraçados pelo amor furioso, faminto, louco, absolutamente feliz.
Feliz.
Olha para ele, no fundo do espelho refletido. Há de acordar e levar-la até seu carro. Na despedida, aquele beijo frio, a promessa de um telefonema que – ela sabe - não haverá. Nenhum resíduo de calor nas mãos, nenhuma ternura nos olhos.
Em outra noite qualquer voltarão a se encontrar, por acaso, no bar de sempre. Para que então tudo se repita. Novamente acordar sobressaltada, a campainha a interromper-lhe os sonhos; novamente mastigar com pão e café a sua tristeza.
Não.
Não quer mais ouvi-lo, decide. Não mais suportar-lhe o ridículo medo de amar. Fanfaronice de menino grande a gabar-se de seus trinta e cinco anos de liberdade, não mais suportar. Não mais desdobrar-se, ora em companheira, ora em potencial inimiga. Não mais obrigá-lo a pensar, reformular, contestar-se a si próprio.
"Você bagunça minha mente" - costuma ele dizer, tentanto, sem graça,
gracejar.
Atira com raiva a escova de cabelo para dentro da bolsa.
Vai embora. Não pode amar um homem assim. Seus mundos são parale­los. Ele não a merece. Não merece a sua ternura tão bem guarda­da, um carinho que resistiu, resistiu, resistiu... Não merece este amor tão grande e tão rico, fruto de toda a sua vivência, fruto de tantos amores outros.
Não. Não foi para ele que tanto ela se guardou. Seu universo ilimitado – pensa ela –nada significa para este homem medroso, ancorado em seus valores falidos, em sua vida sem surpresa ou esperança; vida segura, povoada de rótulos e estereótipos, onde tudo é previsível e há um lugar para cada coisa, cada coisa em seu lugar. No uísque e no futebol, sufocados a duras penas os fantasmas do imprevisível. Esquecido o risco do envolvimento, do entendimento, da emoção, da descoberta, do encontro.
Esquecida alegria.
Chove.
Escurece, lá em baixo, a cidade.
Corajosa, ela calça as pesadas botas, joga o xale sobre os om­bros e prepara-se para enfrentar a rua, a chuva, o frio, a briga pe­lo táxi. Depois, liberdade. Bem depressa o dia a dia apagará qualquer lembrança desta felicidade tão fugidia, breve, estúpida.
Um último olhar ao espelho, a ajeitar a roupa, surpreende-o a observar-lha do outro lado. Entre sono e espanto, ele pergunta:
—        Por que toda essa roupa?
—        Tenho frio.
—        Você quer ir agora?
—        Quero.
Ele suspira. Estende a mão e apanha o relógio sobre a mesa de cabeceira. No movimento, deixa expostos os músculos, o corpo. Bonito. Dez e dez.
Chove. Escurece.
Ela inventa compromissos. Com os olhos, ele pede. Ela vai mentindo horários a cumprir enquanto ele acende um cigarro. Ela observa: as mãos dele, os lábios dele.
De súbito, seu corpo perdoa todas as mágoas.
Ri de si mesma.
—        Eu ia embora – diz ela de manso - deixar você aí sozinho, dormindo.
Ele sorri para ela. Um sorriso condescendente tal qual pai ante travessura infantil.
—        Vem cá. – ele diz.
O corpo dela se encaixa certinho dentro do abraço dele. Se esconde e se enterra o rosto dela no ombro dele, a voz dela sai sufocada:
—        Preciso esquecer você.
E, lentamente, começa a se despir.

 

 

 

 

Jandyra Adami
Belo Horizonte MG

 

BANCO  DA  PRAÇA
 

Sentada num banco de praça, estava vendo o povo passar, sem prestar atenção em nada, absorvida em meus pensamentos.
De repente, uma garotinha se aproximou de mim e falou:
-Tia, me dá um dinheiro para eu comprar um pão?
- Pão, a esta hora? retruquei...Está quase na hora do almoço, meu bem.
- É que eu ainda não comi hoje. Lá na minha casa não tem nada...
- E onde você mora?
-Eu não sei. Só sei que é longe. À tarde, minha mãe encontra comigo por aqui e vamos embora
- Mas como vão embora? Vocês  moram longe, vão de ônibus?
- Não. Nós vamos andando, andando, até os pés ficarem doendo de tanto pisar no chão quente, nas pedras que encontro pelo caminho. Aí, quando estou quase morrendo de canseira chego em minha casa.
- E lá, o que você encontra? Tem mais gente na sua casa?
-Tem sim. Meu pai é doente, não pode sair. Fica só deitado, coitado. Nós levamos alguma coisa para ele e meu irmão, o Juquinha, que fica tomando conta dele.
- E todos os dias vocês conseguem levar algo para seu pai e Juquinha?
- Não senhora. Tem dia que nem nós ganhamos nada para comer. Mas a gente vem assim mesmo.. Um dia é bom, outro ruim, mas vamos levando a vida. A nossa família já está acostumada com a pobreza. Só não entendo porque há uma diferença enorme entre as pessoas. Uns têm tudo para comer todos os dias e outros nada, todos os dias. Por que será que Deus faz isto com as pessoas?
-Não é Deus, minha querida, são os homens. Eles são os culpados por todos os acontecimentos negativos que você, na sua tenra idade, percebeu que existe neste mundo. Deus é amigo de toda humanidade. Ele jamais permitiria que uma criança como você ficasse sem comer dias e dias, andando tanto, até machucar os pés...
- Mas então, por que tem criança que come tudo, toda hora? Tem mãe que não precisa sair para pedir comida? Tem pai que não fica doente, ou se fica, chama o médico e logo fica curado?
- Difícil responder...
- A senhora também não sabe, tia?
- Eu sei sim... É porque... Como é o seu nome menina?
- Meu nome é Maria e o da senhora?
- Eu me chamo Beatriz. Gosta do meu nome Maria?
- Gosto sim tia. Gosto da sua cara também. Quando fui chegando perto do banco, sabia que seria bem recebida, sabia que a senhora era boa e ia dar atenção ao meu pedido.
- Por que, tem gente que não lhe dá atenção?
-Ihhhh!.Quando vou chegando perto já vão dizendo que não têm trocado,que não é hora de pedir esmolas, um monte de coisas..
- Pois é Maria, este é um dos pecados que os homens cometem, julgando as pessoas antes mesmo delas falarem. E se você não viesse pedir nada? Se viesse entregar alguma coisa que tivesse caído da bolsa daquela pessoa e quisesse devolver? Ficariam sem o objeto perdido e com o pecado de menosprezar um semelhante. É o que estava lhe dizendo quando perguntei o seu nome. As pessoas são diferentes porque são más. Deus deu a todas, em igualdade, o direito de serem boas ou más, de ser amiga ou orgulhosa, de amar ao próximo como a si mesma... Acontece que nem todos aprenderam a lição de Deus. Uns agem de uma maneira, acham-se muito importantes para perder tempo em dar atenção à uma pessoinha como você e acabam pecando cada vez mais contra a vontade Dele.
Sinto muito Maria. Desejo de coração que você tenha, um dia, tudo o que quiser e possa também ajudar seus pais. Quando crescer um pouco, poderá arrumar um emprego e ser alguém na vida. Vamos pedir a Deus para que isto aconteça. Você vai ser uma moça bonita e feliz.
- Mas eu não sei rezar, tia... Eu converso com Deus mas Ele não me responde...
- Responde sim. É que nós não temos como ouvir as palavras de Deus. Ele nos fala e, em nossa cabeça, nós que tentamos perceber o que Ele falou através de gestos de outras pessoas, através do dia que tivemos. Se você pensar só coisa boa, vai saber que Deus respondeu tudo que você perguntou e será feliz.
- Ah! Então vou conversar com Deus todos os dias, antes de sair de casa... Agora vou embora porque tenho que encontrar alguém que me dê alguma coisa para levar pra casa. Gostei muito de conversar com a senhora tia.  Quando eu conversar com Deus, vou pedir para que faça tudo que a senhora pedir pois é uma pessoa muito boa. Conversou comigo e me ensinou muita coisa. Foi o melhor presente que recebi até hoje, o seu carinho...
- Não tenha pressa Maria. Tome este dinheiro e, quando sua mãe chegar, vá com ela comprar alimentos para levar ao seu pai e irmão.
Vamos fazer um trato: toda semana, estarei esperando por você aqui, neste banco da praça. Eu lhe darei  outra vez meu carinho, minha atenção e também algo suficiente  para que não precise mais pedir às pessoas orgulhosas, aquelas que passam e ignoram sua presença... Vou ser sua madrinha e estarei sempre aqui, esperando por você, com muito amor no coração e muita saudade também. Serei seu Anjo da Guarda e não deixarei que se sinta diferente das outras meninas que encontrar na cidade. Deus deu a vida a  todos nós e, perante Ele, somos todos iguais.
Maria afastou-se e vi em seus olhinhos, um quê de felicidade, uma luz parecida com as estrelas que brilham no céu... De longe, acenou para mim e eu me senti tão feliz como se tivesse recebido de Deus, mais uma filha para cuidar e dar meu amor de mãe.
Desde então, todas as semanas, Maria e eu nos encontramos naquele banco da praça, naquele mesmo local onde nos conhecemos.
Conversamos, contamos nossos segredos, nossos desejos, enfim, falamos de tudo.
O que mais me agrada nisto tudo é ver que a cada dia que passa, Maria sente mais prazer pela vida, sinto-a feliz e igual a todas as meninas e, em seu semblante, noto a beleza da vida, num simples encontro que teve comigo e que mudou o seu viver.
E feliz também eu fico quando ela me beija para ir embora e diz:
- EU SOU FELIZ TIA...graças a Deus e a senhora que me fez ver que o mundo não é tão ruim como eu pensava. Basta que tenhamos fé e esperemos pelo dia certo em que Deus colocará à nossa frente, um anjo bom, aquele que mudará o rumo de nossas vidas, tornando o sofrimento mais leve e fazendo com que acreditemos na existência de Dele...
Toda semana eu fico mais jovem depois que converso com Maria. É como se eu a fizesse mais adulta e ela me tornasse uma criança... Trocamos nossas energias, nossos sentimentos de amor, amizade e conseguimos a felicidade.
A vida é muito engraçada. Uns minutos num banco de praça, uma troca de olhar com uma criança e duas vidas ficam diferentes do que eram até então.
Eu me sinto premiada pois consegui fazer de uma criança triste e pobre, uma quase adolescente mais feliz e confiante no futuro.
É preciso entender o olhar da alma, principalmente de uma criança carente e, fazer disto a união de duas pessoas que eram desconhecidas e hoje se amam pelo simples fato do amor ao próximo, do respeito ao ser humano, enfim, do amor a Deus que nos proporciona momentos como este.
Sou feliz...muito mais que a Maria...


Jandyra Adami
Nota da autora: Quando nasci, minha mãe queria que eu me chamasse Beatriz.

 

 

 

 

 

 

Jorge Cortás Sader Filho
Niterói RJ

 

Pinella Hope 


            Vejo no Vote Brasil reportagem feita pela BBC na Flórida, Estados Unidos, que a situação americana social, resguardados os limites, é assemelhada a de tantos países pobres.
            Com a crise econômica que desanda pelo mundo, muitas famílias de classe média transformaram-se em sem teto.  Perderam suas moradias e resolveram a questão montando barracas de acampamento em Pinella Hope, Flórida.  Sofrem com o frio, quando o gelo se acumula no teto das barracas.  O mofo é uma constante, ameaçando a saúde dos moradores, que crescem assustadoramente.
            O mais incrível é que a polícia e entidades assistenciais se comunicam com o acampamento, perguntado sobre a possibilidade de outras pessoas para lá se transferirem.  Numa barraca comunitária maior, existe luz elétrica, computador e telefone.  Nos abrigos de nylon, que formam o conjunto, nem água corrente existe.  Não há notícia de criminalidade no lugar, o que não significa que ela inexista.
            Ora, mesmo as favelas mais pobres do Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, parecem estar em condições piores do que a norte-americana.
            O que deduzo facilmente é uma grande diferença: aqui a pobreza sempre existiu desta forma, em barracões.  Os moradores jamais atingiram a classe média, sempre foram pobres.  Esta é a grande diferença, mas que em termos práticos resultam numa só verdade.  Miséria e abandono.
            O que me chamou mais a atenção foi o pedido de auxílio das entidades governamentais e assemelhadas aos sem teto da Flórida.  Não existe repressão ou ações judiciais de manutenção de posse.  Há o pedido de socorro para outras famílias lá se instalarem. 
            Por incrível que pareça, o fato não é novo.  Vem aumentando dia a dia.
            O cronista fica imaginando para onde caminha o mundo.

 

 

 

 

Juçara Medeiros Lasmar
Belo Horizonte - Minas Gerais

 

Saga de uma quarta-feira

 

Seis horas da manhã ouço minha música preferida, era o despertador do celular...  Precisava me levantar rápido, tinha dentista as sete e trinta e como uma dona de casa sai sem deixar as coisas organizadas? Eu não consigo, precisava fazer o café, arrumar a cama, detesto sair e deixar a cama em desordem, colocar o lixo no corredor, tomar meu café, tomar banho... O frio era intenso, mas outra coisa que não consigo é me vestir sem tomar banho... E assim foi... Desci para  a garagem entrei, no carro e logo procurei meu programa matinal, aquele de músicas dos anos sessenta, principalmente... Meu marido pegaria carona até a metade do caminho, a moto está na revisão... Fico ouvindo música enquanto espero ele descer, os homens demoram. Quando ele aparece vai logo dizendo para eu sair do carro, sem maiores explicações. Quando desço ele me mostra o pneu da frente completamente murcho e ainda reclama que eu apenas entro no carro, não olho nada... Neste momento começa o estresse. Ele  reclama, eu falo para irmos de táxi, ele começa a trocar o pneu e eu espero de olho no relógio, já estava quase na minha hora. Verifica-se que a roda está amassada, o carro caiu em algum buraco nas andanças de minha filha... Continuo esperando já aflita, quando termina cadê o parafuso de algum lugar? Procuramos por todo lado e não encontramos, à noite ele lembrou que tinha colocado no pára-choque da camionete ao lado, o dono da camionete saiu e o tal parafuso foi passear com ele... Neste momento faço minha opção e ligo pedindo um táxi; sorte que no meu celular tinha o telefone de um. Faltam dez minutos para o meu horário e o dentista é em outro bairro. Cheguei atrasada, mas como ele é calmo ainda demorou alguns minutos para me chamar.
Meu plano inicial era passar no supermercado na volta. Como a despensa já estava vazia de vários itens preferi manter o plano inicial e fazer as compras, eu uso o serviço de entregas, pois meu prédio não tem elevador e subir vários lances de escada carregando caixas de leite arruínam a coluna e os joelhos... Andei até uma avenida onde tem o ônibus que passa bem perto do supermercado... Ninguém merece o trânsito das oito e trinta... Fiquei quarenta minutos dentro de um ônibus super cheio, eu estava sentada, ainda bem.  Que moleza, um trecho que de carro seria feito em dez minutos se tanto... No momento das compras eu relaxo, gosto de fazer compras sozinha, sem ninguém me apressando ou pedindo para comprar isto ou aquilo.  Escolho com calma, vejo ofertas, procuro as marcas das quais não abro mão... Algum produto dá para comprar em ofertas, mas, outros não, como arroz, café, feijão, sabão em pó... Estes custem o preço que for, tenho minhas marcas preferidas.  Já estava faminta comprei uma barra de chocolate e quando vinha  para casa andando adocei a boca comendo gulosa vários pedaços...
Chegando em casa, nossa, a pia da cozinha estava abarrotada de vasilhas sujas e algumas não dava para lavar na
lava-louças... Roupas para colocar na máquina, outras para serem dobradas e guardadas, a sala coberta de gelatina em pó que minha neta abriu, comeu e derrubou... Era o caos... Ainda bem que o almoço já havia sido aquecido pela minha filha, sobrou muito da véspera...
Bem, mantive a calma e fui tentando fazer uma coisa por vez, pois estava cansada ao extremo... Neste momento as compras chegaram e minha copa fica parecendo um supermercado que sofreu uma invasão...  Precisava guardar tudo... Mas ao mesmo tempo tinha de servir o almoço de minha filha engessada, tirar a roupa da máquina e estender... Precisava almoçar também... Antes de mais nada fui telefonar para avisar que chegaria atrasada ao compromisso de uma e trinta, melhor já avisar que as quatorze e trinta também não vai dar para ir. Comprometi-me a chegar às quinze... O telefone toca e alguém me avisa que a  bebezinha de quatorze dias, filha de  minha amiga irmã, está internada em estado bem grave...
Neste momento tudo deixou de ter importância, a pia cheia, as roupas, o chão coberto de gelatina, meu cansaço... Troquei de blusa e de sapatos e fui imaginando como deveria estar a minha amiga, precisava ir, dar uma força, ajudar, apoiar... No táxi liguei novamente para o compromisso dizendo que não iria em horário algum.
Hospital público, só entrava um de cada vez, sem levar as bolsas,  desagradável, parece que estão desconfiando da gente, mas é para ninguém levar comida ou algum remédio escondido.
Terceiro andar de rampas, nossa, minhas pernas já estavam doendo... Criancinha linda, que dó, cheia de tubos, o peito subindo para conseguir ar, que vontade de chorar por esta vida tão frágil, mas tinha de ficar forte, minha amiga precisava de palavras encorajadoras e meu choro não resolveria nada, só iria atrapalhar... Fiquei um bom tempo e desci para que minha filha pudesse subir. Fiquei embaixo esperando e meus pés e pernas doíam de ficar tanto tempo de pé... Mais de uma hora...
Voltando para casa vimos a loja de calçados, botas com ótimos preços, entramos, experimentamos, compramos... Como meus pés estavam doendo muito experimentei um sapato super confortável, dos que chamo de sapatos de turista, pois nos permite caminhar o dia todo sem nenhum incômodo. Comprei também.
Chegando em casa enfrento as vasilhas sujas, quem inventou a lava-louça merece meus agradecimentos... Roupas amontoadas para serem dobradas... Nos meus planos iniciais do dia eu faria um caldo de feijão para a noite. Mantive os planos e fiz. Mais telefonemas... Na hora das novelas  me permiti sentar para assistir e dobrar as roupas... Arrumar camas, ajeitar o banho da engessada,  mais vasilhas sujas... Lavar feijão e deixar de molho, cortar carnes para tirar salmoura, ante preparo para uma feijoada no feriado do dia seguinte. Quase meia noite e eu ainda na cozinha.
Desdobrei-me em sete e mesmo assim achei que não conseguiria.
Finalmente dormi pensando que no dia seguinte tomaria uma deliciosa caipirinha...

 

 

 

 

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