
MAGAZINE CEN / Fevereiro 2012 “PROSA“
3º BLOCO
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Edição de Carlos Leite Ribeiro

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Maria Tomasia Middendorf
Rio de Janeiro
APENAS UMA LENDA
Em algumas das minhas andanças, que
não são muitas, a última foi mais proveitosa, porque, pude voltar ao
passado e vivenciar, hoje, o que somente conhecia através dos livros.
Conheci lendas que, para mim, são verdadeiras, são fatos e, uma delas, a
que me chamou mais a atenção e me fez vibrar de emoção, ocorreu no topo
do Aconcágua.
Há muitos séculos, as mulheres mapuches caminhavam sem levantar a vista,
com medo de enfrentar o olhar fulgurante de um deus muito jovem e
apolíneo, que estava sempre naquelas bandas.
Um dia, uma das mais ousadas, ainda que amedrontada, arriscou levantar o
olhar e, seus olhos, encontraram os do jovem e poderoso deus e por ele
se apaixonou perdidamente.
O deus, com aquele ato, se comoveu e levou-a consigo para o norte, para
esse pico que desafiava os céus e todos os
deuses do Olimpo e de onde brotava a luz: O Aconcágua.
Porém, ele tinha que partir, já que na terra não podia habitar por ser
um deus muito poderoso mas, ofereceu à sua amada, uma morada cujo nome
se traduz como “a casa da jovem” e, também, uma eterna promessa, um
encantamento, um néctar do qual ela poderia se deliciar, e, com o qual,
viveria de novo e sempre, toda a alegria de seu olhar:
O VINHO!

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Maura Soares
Florianópolis, Santa Catarina
AS TELHAS
A tarefa diária do escravo era fazer
o barro, amassado com seus pés e moldar as telhas para a casa do senhor.
Embora não chicoteasse os servos que trabalhavam as telhas, ainda sim o
trabalho era como se fosse. Penoso, como todo trabalho braçal que exige
força.
Julião era o seu nome, dado pelo patrão. Não possuía sobrenome, mas era
conhecido, como os outros, de Julião Santos, sobrenome do seu dono.
Pelo registro de sua compra, Julião deveria estar com 45 anos, mas
aparentava mais, pois o encurvamento de suas costas denunciava os anos
de sofrimento, de trabalhos forçados primeiramente na lavoura e, após
alcançar a maturidade, no fabrico das telhas.
A região onde se situava a fazenda do coronel Santos era pródiga do
barro que dava boas telhas, vasos e outros ornamentos.
Julião estava na equipe das telhas.
As ferramentas para a fabricação das telhas eram as mãos e as coxas dos
escravos.
Assim que o dia amanhecia, sem nem lavar o rosto do sono profundo pelo
cansaço, Julião achegava-se na porta da cozinha para receber a ração
diária que, para pessoas normais que fazem trabalho braçal, era ínfima.
O patrão apostava na força de seus escravos. Embora fosse um homem que
não castigava escravos no tronco, a comida que lhes dava era irrisória.
Mesmo assim, Julião tinha forças para aguentar. Talvez o desejo de um
dia ser livre o motivasse a receber toda a carga de trabalho e não se
queixar, mas em seu íntimo, a esperança crescia a cada dia. Até lá,
enquanto a alforria não chegava, Julião continuava a fazer as telhas.
Naquela manhã de abril, o calor ainda queimava a pele. Julião foi para a
sua tarefa. Chegou ao local onde estava o barro a ser tirado, o capataz
separou a sua cota e Julião foi para o seu canto trabalhar. Arregaçou a
esfarrapada calça, colocando o barro na sua coxa e começou com suas
habilidosas mãos a moldar a primeira telha do dia.
Até cerca de meio-dia, somente água os escravos recebiam. Era proibido
conversarem. Somente olhares eram transmitidos entre si. Julião, em seu
íntimo, cantava os cânticos de sua Mãe África. Lembrava-se do navio em
que viera, com cinco anos, com sua mãe, seu pai e dois irmãos. Na
fazenda nasceram mais dois. A mãe, além dos filhos, também tinha a
incumbência de amamentar os filhos do patrão. Carlota ajudava a patroa
nas lidas domésticas e, no final da tarde, olhava os filhos. Dura vida,
dupla jornada e o sonho de ver seus filhos livres.
Enquanto a liberdade não acontecia, Julião sonhava fazendo as telhas.
Após cada unidade, o objeto era colocado em uma forquilha para a
secagem. O temperamento calmo do escravo possibilitava a contemplação do
seu trabalho e ele gostava do que fazia, pois caprichava no acabamento.
Ás vezes recebia crítica pela demora em cada telha e, de cabeça baixa,
dizia que gostava do trabalho e procurava fazer bem feito. O capataz,
após alguns dias de admoestação, deixou-o em paz. Já havia conversado
com o coronel e este lhe havia dito que Julião era um bom escravo, que
ele o deixasse sossegado, pois desempenhava um bom trabalho e suas
telhas eram as mais bem feitas.
Julião sonhava, antevia um futuro melhor para si, Maria e dos pequenos.
Não sabia que no Brasil um movimento abolicionista estava sendo
preparado para que aqueles seres pudessem, enfim, ganhar suas
liberdades.
A notícia final, da assinatura da Lei Áurea, caiu como uma bomba na
fazenda do Coronel Santos. De há muito ouvia conversas aqui e ali, até
que o fato se concretizou. Era um homem bom, mas era escravocrata, um
ser pernicioso no olhar dos abolicionistas.
Finalmente aconteceu. Santos teve que libertar seus escravos.
- E agora? Estou livre, disse Julião, com a carta de alforria nas mãos.
Abraçou Maria e as crianças.
Maria, porém, não sorria. Abraçou seu homem e ficou quieta.
- O que tens, Maria? Tantos anos para a liberdade e estás quieta?
Maria, olhos marejados de lágrimas, disse:
-Julião, como viveremos? Pelo menos tínhamos o que comer na casa
do sinhô. Não temos nenhum casebre pra ficar, pois vivemos até agora na
senzala. O pouco que vestimos o sinhô dava. O que vamos comer, Julião?
Não temos braça de terra pro plantio.
- A gente arruma. Já ouvi dizer que agora a gente pode trabalhar
e ganhar pelo trabalho.
- Mas quem vai nos empregar, Julião?
- Deus proverá, disse Julião.
- Não tenho a fé que tens, marido.
- Meu finado pai dizia que Deus quando fecha uma porta abre uma
janela. Então, mulher, ora pros nossos orixás e vamos ter o que comer, o
que vestir, onde dormir.
Alguns dias após Julião haver recebido a carta de alforria,
preparava-se para ir embora com a família.
Na casa grande o patrão, desolado, estava em reunião com os
filhos tentando resolver como ficaria a fazenda sem os escravos.
Um dos filhos argumentou que o pai poderia contratar os escravos
melhores e mandar embora os outros; assim o fabrico das telhas não
sofreria continuidade.
- Pai, o senhor pode ficar com o Julião e a família dele.Os
meninos estão grandes e podem ajudar e até a Maria também. Além da
família do Carlos, que são em cinco, do Ambrósio, que são em seis.Com
quinze pessoas o senhor pode ir levando até conseguir trabalhadores
mesmo pra aumentar a produção. Quando ao canavial havia muita gente à
procura de emprego, gente branca que também estava precisando trabalhar
pra se manter.
E assim aconteceu. A fabricação das telhas continuou, agora num
ritmo mais acelerado. Os empregados ganharam um pequeno terreno pra
construir cada qual a sua maloca.
O Senhor, ao cabo de 3 meses, viu sua produção aumentar, com
pedidos de telhas, pois o povoado começava a crescer.
Julião, com a telha nas coxas, olha para a mulher que também
havia entrado no batente e sorri.
- Não disse, Maria? Com Deus é assim. Ele não erra.
Maura Soares, Grupo de Poetas Livres, Florianópolis, SC

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Regina Araujo
Rio de Janeiro
INTERPRETAÇÃO E SENSUALIDADE
- Já sei Professor...
Entendi o seu silêncio, crítico: Menos sensualidade e mais romantismo.
- Não rebole! Isso aqui não é lambada. Você está
interpretando uma poesia.
Fiquei dura, presa, rija, mas foi só dar um passinho..., e a
bundinha já começou a sacolejar. Ele fez um muxoxo negativo com a boca,
indicando que comecei de novo a rebolar.
- Ai, professor. Não me reprime. Quero mesmo é na poesia me
soltar. Não tenho culpa se você vê tanta sensualidade jorrando de mim.
Assim, me sinto desnuda. Deus! Me ajuda. Afinal, estou declamando sobre
“língua”. Quer algo mais sensual que isto? Como ficar presa, quieta?
- Não reclame. Comece de novo. Três vezes seguidas. Sem
rebolar! Você tem uma sensualidade muito aflorada.
- Sensualidade aflorada? – questionei em meus pensamentos silenciosos,
com olhos arregalados de susto. - Passei vinte anos presa em uma cadeira
durante oito horas por dia sem poder me expressar como mulher, na minha
função de psicóloga... Em um relacionamento, sim. Sou intensamente
sexual, mas fora disso? Não! O que está acontecendo?
Pensei em responder com as palavras na ponta da língua, repletas de
raiva e despeito: - Sim! Minha sensualidade é aflorada. Sou qual uma
flor desabrochada. Porém, daquelas que mesmo arreganhadas ainda
permanecem com o miolo bem pequenininho. Você tem é tesão reprimido.
Isso é distúrbio afetivo.
Porém, me contive raciocinando que: - Como isso aqui não é terapia vou é
jogar tudo na poesia e acabar logo com essa pseudo-fantasia. - terminei
minha raivosa reflexão com os lábios trincados doidos para expurgarem as
palavras num impulso exagerado.
E lá fui eu tentando, mas a bundinha não parava no lugar.
- Olhe pra mim! Se concentre. – ele gritou.
- Olho nada. – pensei eu já sem graça. – Esse olhão azul a
me encarar, aí mesmo é que essa tal sensualidade vai aflorar.
Depois de várias tentativas...
- Ah, professor, tem jeito não. É, meu mestre... Pra mim,
romantismo rima é com cinismo. Eu vivo de paixão, torneada por muito
tesão, e não quero mudar isso não. Vamos continuar deixando meu
romantismo no papel, e o desejo na interpretação. O que não quero mais é
viver sem inspiração.
Entendo que “Estar Com você” (uma poesia que fiz há alguns anos atrás,
ao fim de uma boa relação com uma grande paixão) é fenomenal. E “te
guardar em minhas dobras” (citação de outra poesia de minha autoria) é
sensacional.
No entanto, esse romantismo barato de convidar para um vinho, um papo,
um jantar, que nunca acontece e enquanto isso, manter olhares e selinhos
na boca, quando me pega desprevenida... Dizer no meu ouvido “que me
adora”, e no final nada nunca rola, porque o indivíduo não tem tempo...
Ah, isso é desculpa de Mané que não consegue manter a bola no pé. Pura
masturbação mental, neurose, insegurança e coisa e tal. Não tenho saco
pra isso, não!
O que gosto mesmo é de rolar no tapete, agarrar na piscina e terminar
grudados no peitoril da varanda da cobertura, enrijecidos pela chuva,
que contrai os músculos, e o mantém todinho preso dentro de mim. Aí sim!
Na hora do gozo sou toda romantismo. Canto ao pé do seu ouvido e faço
poesia no cangote.
Parei estatelada, assustada com minhas próprias palavras e refleti:
“Mas... Espera aí. Pô! Que confusão! Estou meio tonta e perdendo a
razão. Ele é o professor. Eu faço isso é com o cantor! Vamos separar as
situações, pois não estou acostumada com esse negócio de interpretação,
não.”.
Descontrolada, coloquei as mãos no rosto, pedi um tempo, me afastei,
virei de costas para o professor, olhei ao alto e comecei a falar
sozinha, em voz baixa:
- Ô, minha psicóloga, comportada, neutra e assexuada. Meu lado sem
tesão! Baixa aqui nesse momento. Vem me tirar desse tormento.
- Tu me abandonaste. Me trocaste pela poesia, caindo dentro, de corpo e
alma, nessa tal de declamação em saraus em festivais. Deixaste de ser a
mulher racional, concreta e objetiva. Agora te vira. Usa tua poesia.
Senta, escreve e te resolve.
- Não! Por favor... Me ajuda. Estou toda confusa com essa nova
“sensualidade aflorada” que está aparecendo desnorteadamente.
- Tudo bem. É muito simples: Professor pra cá. Cantor pra lá. Um na
teoria que te inspira. O outro na prática que te alucina.
- Ai, que alívio. Pensei que estivesse em transferência.
- Nada disso. É que para lidar com homem, seja ele professor ou cantor,
tem que ter muita paciência.
- Coisa que não tenho.
- É que tu vives com a alma transparente.
- E a calma ausente. O que faço?
- Vive a vida intensamente.
- Com ou sem tesão?
- Dá pra dividir um pouco para a poesia e um tanto mais para o cantor.
Minha alma psicóloga se foi. Respirei fundo. Virei de frente e encarei
o poeta a me aguardar. Olhei fundo em seus olhos azuis. Senti a minha
corrente sanguínea fervilhar. Interpretei a poesia sem parar, de maneira
forte, firme, concreta. Não rebolei, mas deixei a sensualidade realmente
se aflorar em cada gesto, em cada palavra, em cada olhar. Respirei
sensualidade. Fui sensualidade.
- Muito bom. – ele sorriu. – De novo. ... De novo. ... De novo. ...
Pára! Agora sim. Agora, você é a pura sensualidade da “língua”. Vá
buscar seu prêmio.
Eu fui e trouxe o prêmio. Daquele dia em diante, nunca mais escondi
minha sensualidade. E se alguém não gostar, vá procurar uma psicóloga
pra se consultar!

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Renã Leite Pontes
Rio Branco - Acre
DO REINO DO FAZ DE CONTA: CONFISSÃO REAL
E pensar que tudo isto
começou a acontecer, depois que me permiti dominar pelos amigos da
cobiça... mas, eu sou sincero.
No reino onde a Deus não dei
poder, sou rei risonho e bonachão.
No meu reino não há trabalho infantil... nem juvenil, nem “adultil”
e nem senil.
Por vislumbrar outras prioridades, não dou trabalho a ninguém, só
para os meus chegados. Não gosto de deixar brincar com bola, com
música, com livro, de passear por outros lugares e nem de palhaçada.
Gosto de ver os jovens “ralando” e preocupados com a ralação. Nas
horas de folga, gosto de ver o povo brincando de desempregado
(depois de tanto haver estudado), de testemunha das cachorradas do
senado, de amigos da escola e, em última instância, brincando de
caixa de supermercado... em dia de domingo, depois das 17.
Tenho determinado aos meus ministros que incentivem os desempregados
ao voluntariado, para ratificar o paradoxo real, que estimula a
existência dos álacres contingentes de pessoas trabalhando sem
ganhar, para justificar a existência de um montão de “beldades”
ganhando sem trabalhar.
Mas, meu povo é capaz de sofrer, perder a esperança e ainda
continuar em ordem e em paz.
Ainda gosto deveras, também, de orientar os meus assessores para
gastar todo o dinheirinho do “caixa” com asfalto, embora nunca tenha
conseguido fazer uma rua que preste. Não vou dizer o porquê, mas,
tenho que admitir que as pessoas têm razão em me apelidar de:
"viciado em asfalto".
Eu me divirto as pampas, deixando meus amiguinhos brincarem de
emprestar (com “juríssimos” para os “assalariadíssimos”), aquela
dinheirama que também tomaram emprestado. Aí depois festejamos os
lucros com pizza. Sabe qual é a nossa fruta preferida para
sobremesa?
- Se você disse “LARANJA”, adivinhou.
Também promovemos sistematicamente e por força das leis que impomos
aos súditos, as festas da brincadeira plurianual. É nesta
brincadeira que ocorrem os revezamentos do poder, mentindo mudança
nova, para os bobinhos da corte hipotecada. Nessa brincadeirinha, o
mais importante é o teatro, e quem é eleito rei-mor, rei, vice-rei,
não precisa pagar sedex, avião, alimentação, segurança, luz...
roupinhas, lembranças, festanças, etc, etc, e ganha bem “muitão” por
um longo “periodão”. Todavia, nestas festas, os melhores manjares
são destinados às mandíbulas daqueles assessores que têm o dom de
mentir com mais realidade e atravessar o “fosso da vergonha”, sem
depois padecer de remorsos.
Brincar de rei é a melhor brincadeira: de mandar, de bater pé, de
prometer, de enganar a gurizada inteira e leiloar o que eu peguei
pra ter.
Gostou do meu reino?
Então
Vamos brincar de índio, mas com reizinho para você votar.
Agradecido por ler minha cartinha até o fim. De mim, muito
obrigadinho.
Aqui em baixo não vou assinar. Fiquei um pouquinho pesaroso. No meu
reino, depois que comecei a importar “burros” para mandarem nos
técnicos e ensinei-lhes a mentira, tornei legal o anonimato.
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Rosa Pena
Rio de Janeiro
Quero Quero
Quero chuva sem pára-brisa, olhar com olhar,
girassol sem girar, face com face, mistério sem enigma, ombro com ombro,
foto sem saudade, nariz com nariz, fungada sem gripe, mão com mão,
champanhe sem taça, boca com boca, agasalho sem frio, abraço com laço,
chicote sem açoite, grito com suspiro, dança sem música, Adão com Eva,
paraíso sem maçã, devagar com pressa, jogo sem juiz, coxa com coxa,
fogueira sem São João, arroz com feijão, mordida sem siso, salsa com
merengue, bumba sem boi, cerveja com tremoços, demônio sem inferno,
sutiã com tênis, anel sem cobrança, “porraloucura”com doidice,
calendário sem dia, paixão com amor, sonho sem despertador, dia com
noite, ontem sem passado, fim com recomeço, amanhã sem adeus, a chama
com o infinito. Quero você!
www.rosapena.com
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Fim do 3º BLOCO