MAGAZINE CEN

PROSA (com os temas "Lábios de Mel" e "Pergunte à Lua..."

Janeiro 2012

Edição de Carlos Leite Ribeiro

 

 


Benedita Silva de Azevedo
Rio de Janeiro  Brasil

 

Pergunte à lua...


 

A literatura está repleta de histórias de casais que separam, voltam, separam... Um cônjuge mata o outro e tantas... e tantas... peripécias. Mas, nada se compara ao que aconteceu com John e Mary.
Mary, moça que parecia a todos um modelo de recato e meiguice foi abordada por John, numa paquera de rua. Ela fugiu e se refugiou na primeira porta aberta que encontrou. O jovem a seguiu e percebeu que ali era o seu ambiente de trabalho.
John perguntou a Mary se poderiam conversar em outro lugar. Preocupada com os olhares dos colegas de trabalho, passou seu cartão para livrar-se daquela incômoda presença.
Quase completando quarenta anos e muitos relacionamentos desfeitos, John atraía pretendentes pela beleza física. Loiro de um lindo olhar azul, cor do céu, parecia não combinar  com a velha jaqueta de couro e sapatos furados de mesmo material.
Sentada à sua mesa da Casa de Empréstimos Consignados, onde trabalhava, Mary falou alto com os companheiros:
- Que cara estranho! Seguiu-me por todo o quarteirão. Tão bonito, mas tão andrajoso!
Ninguém se importou com a observação de Mary.
No dia seguinte, com o mesmo traje, lá estava John na esquina. Ela apressou o passo e entrou no trabalho. Desta vez ele desistiu e desapareceu. Mary ficou cismada por alguns dias, mas, o trabalho era intenso e acabou esquecendo.
Sua rotina de casa para o trabalho e do trabalho para casa foi quebrada quando, naquela noite, andando rápido para descontar o atraso de um cliente retardatário, viu despencar do bonde de Santa Tereza, um corpo bem à sua frente.
De coração agitado pela cena inesperada, nem percebeu a lua brilhando sobre os Arcos da Lapa. Parou para se recompor. Conhecia aquela roupa, aqueles sapatos... Não podia ser, ela estava equivocada pelo stress do dia desgastante de trabalho. Olharia ou não o rosto do infortunado homem? Um grupo de pessoas rodeou o infeliz. Mary quase sem perceber, olhou para o local de onde o homem caíra. Deparou-se com a luz fria da lua e não pode evitar uma exclamação diante daquele paradoxo. Por que uma coisa assim acontecia no coração da “Cidade Maravilhosa”, em um dos pontos mais bonitos do Centro? Naquele momento, um mendigo chegou com um cobertor e cobriu o corpo.
Mary ficou paralisada. Não conseguia sair do lugar. Com esforço deu alguns passos e ficou ali olhando o corpo coberto... Uma vontade enorme de desvendar a identidade da criatura. Seria alguém conhecido? Havia anos que trabalhava ali pela redondeza e nunca vira cena tão chocante.
Um curioso afastou a coberta e a moça pode ver o rosto de John ainda de olhos abertos, refletindo o azul do céu da Lapa.

Benedita Silva de Azevedo

 

 

Brasilino Alves de Oliveira Neto
Caçapava - São Paulo - Brasil

 

 

Pergunte à Lua.


 

Já não tenho mais o que fazer, pois há anos ando a tua procura e não te encontro.
Segui caminhos tortuosos e retos, largos e estreitos, curtos e longos aprazíveis e desconfortáveis, sempre em tua procura e nada de te encontrar.
A solidão por isto é sempre minha companheira.
Contei, nesta caminhada com tudo de poesia e felicidades que a vida me ofertava para te encontrar, mas isto não se deu e eu continuo em minhas andanças para que se dê.
Em uma delas, colhido pelo cansaço, num principio de entardecer recostei-me na mureta de uma pequena, mas singela e acolhedora cachoeira, onde dos respingos dela sobrados, havia um lindo pé de margaridas brancas, e tão alvas quando os primeiros raios de luz emanados de uma linda Lua, em fase Nova.
Olhando para os céus vislumbrava sua imensidão e imaginava o quanto haveria de caminhar para poder te encontrar.
Mas a esperança deste encontro, mesmo sem saber quando se daria me confortava, e ali adormeci a luz da Lua que tomava o firmamento.
O sonho que tinha acordado perdurou no meu sono e continuei pensando em você e o que precisaria fazer para te encontrar.
O brilho da luz do luar que envolve todos os enamorados envolvia meu ser e o sonho que tenho em te encontrar.
Surge neste sonho um Ser em forma de Anjo, que tinha a beleza e encantos de seu rosto e não me contive com tanta beleza e não queria jamais acordar, quando dele ouvi:  “Queira sim acordar e depois ‘Pergunte à Lua’ aonde você pode me encontrar e ela, se acreditar realmente no amor que você me devota,  te dirá”.
Relutante despertei, olhei para a Lua e disse a ela o amor que lhe dedicava e perguntei como e o que deveria fazer para poder te encontrar ?
Observei que a Lua não acreditou plenamente na declaração que lhe fazia, mas mesmo assim respondeu-me que deveria seguir as trilhas que iluminava e que ao amanhecer, quando seus raios já estivessem ofuscados pela luz do Sol, na casa branca à beira do caminho, onde tinha pés de margaridas brancas plantadas, que colhesse uma delas e a despetalasse com o bem-me-quer e mal-me-quer e se a pétala final fosse do ‘bem-me-quer’ e ali poderia encontrar a quem há anos busco.  
Sai apressadamente, mas fui alertado pela voz da Lua que não adiantava correr, pois somente após seus raios estarem ofuscados pela luz do sol que me seria possível a chegada ao lugar.
Diminui meus passos, mas meu coração continuava em desabalada carreira, batia além de sua capacidade, pois tinha um só objetivo: Encontrar-te e contigo para sempre ficar.
Amanheceu o dia os raios solares surgiram e encontrei a casa branca com margaridas no jardim, entrei e colhi uma delas com a esperança de que a última fosse a ‘bem-me-quer’.
Tremia de medo e meu coração batia célere e descompassadamente, neste instante abre a porta e surge uma linda moça também vestida de branco, com os encantos e beleza do Anjo que me aparecera, iniciei o despetalar da margarida começando pelo bem-me-quer.
A penúltima pétala foi a do mal-me-quer e iniciei minha caminhada na direção daquele Anjo que estava na Terra, imaginando-me ter encontrado a mulher a quem dedico minha incessante busca, quando, no entanto, sem palavras ela deu um passo para traz e fechou a porta, foi quando puxei a última pétala que era a do ‘bem-me-quer’, tudo de forma que se cumprisse a profecia que a Lua me fizera, pois era tudo o que eu queria e acreditava. 
Porém, a pétala do ‘bem-me-quer’ se parte ao meio  fazendo-me entender que a Lua, a quem eu fizera a pergunta, não acreditara no amor que eu havia lhe declarado e não me entregou a mulher a quem continuarei buscando.
Podem passar anos, séculos, eras e até mesmo tempos infinitos, continuarei na tua busca, em tua procura, pois preciso de você para ser feliz.
Venha !

 

 

Carlos Couto

Rio de Janeiro  Brasil

 

 

"Lábios de Mel"


 

Me lembro claramente, de cada detalhe daquela menina. Passados tantos anos, não sou traído por minha memória , sempre que a busco, ela a devolve intacta, com toda sua exuberância. Tinha olhos amendoados, inquietos e alegres. Tinha pele alva, aveludada. O cabelo pareciam fios de ouro, presos em um rabo de cavalo alto ou então num gracioso coque. Nariz empinado, belo formato de rosto , muito belo, diferente de todas as meninas do nosso colégio. O corpo? Esguio e esbelto. Mas o ponto alto de toda aquela formosura, era sem dúvida, seus lábios. Quem teria sido o artista que fez contornos tão precisos, desenhos tão delineados?. Quem esculpiu aquela obra de arte?
Por conta da minha incurável timidez , por temer ser repelido, jamais tentei uma aproximação maior. Melhor assim. Teria sido um desastre, afinal só tínhamos 17. Ela não se foi, nunca se foi, ainda mora, povoa e passeia na minha mente. Nome? Isabel. Pra mim, que com os anos de afastamento me tornei íntimo, Lábios de Mel.

 

 

 

Lucas Ferreira da Silva 

Divinópolis - Brasil  

 

CORAÇÃO ADOLESCENTE

 

Já escurecia e apesar da chegada da noite, João Vitor sentia um intenso calor. Caminhava pela praia e ouvia o barulho das ondas nas pedras, quebrando violentamente, com um barulho quase ensurdecedor, mas inaudível para ele. Ele não prestava atenção naquele belo cenário no finalzinho da tarde. Poucas pessoas ainda estavam por perto. No domingo, muitos se vão mais cedo pra casa, para suas vidas particulares e trancadas nos seus lares. Ele estava em êxtase profundo, não sentia o frio da água que estava molhando seus pés descalços. A calça jeans estava dobrada e ele carregava o tênis nas mãos. A camiseta verde estava molhada de suor, num completo contraste com o clima ameno daquele dia. Seus cabelos pretos e curtos estavam sujos de areia da praia, evidenciando que ele estivera deitado por um período longo, a pensar em algo. Não era em algo, mas em alguém. Ele andava pela praia cantando desafinadamente e de forma desajeitada uma dessas canções que a gente se permite quando o coração está no comando.
Durante aquela tarde havia sido realizado um grande sonho. Fernanda, a menina mais linda do colégio aceitara aquele velho convite pra sair e tomar sorvete com ele. JV, como os colegas o chamam tem quinze anos e está descobrindo o mundo. É alto e já está cheio dos sonhos adolescentes. Quer uma família, quer um mundo melhor, quer defender o meio ambiente... quer tudo. Quer mesmo o amor e o carinho dela. Ela é de estatura mediana, tem cabelos pretos ondulados e um rosto moldado pelo melhor dos escultores. Tem um sorriso encantador, capaz de dissipar nuvens sobrecarregadas e um olhar enigmático, que parece penetrar na alma da pessoa visualizada. Meiga, não liga muito pra moda e essas coisas de menina. Anda do seu jeito, da forma que a faz sentir-se bem.
A praça tinha sido o local escolhido. Também não poderia haver outro.  No Arraial das Flores não há muitos lugares para se visitar: poucas ruas, casas raras, uma praça onde as pessoas vão passar os fins de tarde, bem à beira do mar. Para qualquer canto se vê um pedaço de paraíso. A igrejinha de uma só torre lateral é dedicada a Nossa Senhora da Anunciação, e apesar de ser logo do início da colonização, tem formas geométricas simples, sendo uma maravilha de se contemplar. Ao alto, um sino trazido de Portugal dá os recados à população ainda hoje. Ao fundo, atrás da rua principal, uma moldura divina, a Serra do Mar, com a mata Atlântica como decoração. Bem de frente à praça, o mar... Ah o mar! Pedras e praia transformam o lugar no paraíso de JV. Foi ali, na sorveteriazinha de uma porta só que eles passaram a tarde toda. Riram, conversaram, se olharam, confidenciaram segredos durante horas.
Ele revelou que vai seguir a carreira de seu pai, ambientalista, e ela, entusiasmada, disse querer ser veterinária. O sorriso bobo de ambos demonstrava a eterna vontade de ali ficarem por toda a extensão do dia e adentrarem a noite. Em boa parte do tempo eles nem conversavam, apenas se olhavam e se viam na pupila dos olhos do outro. Sorriam inocentes sentimentos e sonhavam um mundo em que seus braços se entrelaçavam num abraço eterno e suas almas ficassem unificadas na infindável vida. O amor nascia em forma de paixão avassaladora, embora apenas tivessem trocados alguns beijos pouco ousados. Ela é muito tímida, acostumada a gente pouca. No arraial, apenas nas férias escolares o movimento aumenta por causa da Praia dos Amores, onde está a praça da cidade. É uma praia simples, apenas um barzinho com uma música ao fundo e alguns poucos turistas de fim de semana, que ficam na capital e ali passam o dia. Talvez por quase não sair de casa, fica constantemente vermelha com qualquer elogio. JV é mais atirado, mais ousado, mas não quis precipitar. Só quis contemplar os belos olhos negros de Nanda.
Ambos estiveram sentados bem ao lado do outro, dividindo o mesmo lado da mesinha e a mesma visão do mar azul de ondas comportadas. O ar úmido e fresco, entrava em seus pulmões e enchiam a alma de um sentimento estonteante e de uma milagrosa felicidade que se encaminhava em cada parte do seu corpo.
João Vítor estava dando passos desarticulados pela praia e em sua mente visualizava sua casa à beira mar, Nanda trabalhando com ele e dois meninos lindos como filhos num futuro tão desejado. Sonhar é sua especialidade. Andava pela praia observando o mar e ouvindo as ondas sem se dar conta que já escurecia e que os turistas se foram. Senta numa pedra e admira já no céu a lua cheia, grande, radiante, como o amor que estava sentindo dentro de seu coração. JV vive um êxtase místico tal qual os grandes santos. Seus pés não tocam o chão e seu corpo flutua com as nuvens, parecendo pairar sobre as ondas que rebentam nas pedras e lhe molham todo o corpo ainda suado. Ele se levanta ao observar que a lua já está no meio do céu, denunciando hora já avançada. É quando JV percebe que não há mais ninguém ali por perto, parecendo acordar do seu sonho. Ainda assim volta os olhos para as ondas que incessantemente chegam e saem da praia, numa demonstração de vida contínua, futura,constante... E se vai dali para casa, respirando aquele ar úmido e frio da noite, rindo feito bobo, coração apaixonado, saltitante no peito.
Nanda olha pela janela de sua casa a observar a lua naquele mágico momento, sentindo o gosto do beijo da tarde. Seu sono se foi, sua TV ligada em um canal qualquer, ela suspirando paixão à espera do novo dia. JV chega em casa, sua mãe louca de preocupação dá o maior espalho. Ele apenas sorri de maneira inconsequente e vai entrando com olhos brilhantes e pele vívida, olhando para a mãe que fica pasma, sem nada entender. Deita-se na cama após um longo banho restaurador, mas não dorme. Leva constantemente os dedos aos lábios, sentindo o coração pular peito afora ao sentir o cheiro impregnado de Nanda e o gosto dos lábios dela tocando os seus. O corpo jogado na cama, o som preferido no ar, estômago sem fome, olha apenas o céu pela sua janela e as estrelas dançando no firmamento ao som de sua paixão e sob o frescor do mar que é seu quintal.
Ao pé da montanha, do outro lado da praça, numa casa que tem a floresta como quintal, Nanda respira o ar virgem da mata, e dorme, e sonha... JV também sonha, mas acordado, anunciando a sua primeira longa noite de paixão. E a vida lhe reservará tantas outras num futuro indecifrável, talvez incontido, possivelmente arrebatadoras, tragicamente devastadoras ou inundadas de uma água que sustenta toda uma vida, tal qual o furacão interno no peito do garoto que acabou de descobrir que o mundo é muito maior que o Arraial das Flores, e da Praia dos Amores, e da Igrejinha da Anunciação, e da sorveteria de uma porta só...

 

 

Ana Lucia (Violetta)
Porto Alegre,Rio Grande do Sul,Brasil

 


O Sabor do Mel

 

A noite caía e lá fora o vento trazia o aroma da terra úmida, chovia muito e algumas pessoas corriam para protegerem-se da pancada de verão. O vilarejo pequenino acostumado com o silêncio do tempo ia aos poucos acomodando-se. No fundo de uma das ruas pequeninas do lugarejo surgia uma carreta puxada por um boi, enorme e sonolento. Um rapaz conduzia a carreta ora tocando o relho no dorso do enorme animal, ora olhando a escuridão do céu buscando algo além daquele breu…
Uma luz fraca refletia uma sombra numas das pequeninas casinholas do vilarejo. Como todas era caiada de branco e o telhado coberto por um barro seco ,não tinham vidros as janelas, os postiços eram de madeira forte para sobreviver aos ventos do inverno e dentro da casa no forte calor do verão a fresca fazia-se ali. A carreta passava devagar pelas fileiras de casarios, neste da luz amarelada o rapaz pousou os olhos amendoados e cuspiu fora um bagaço de cigarro. Olhou a janela e nela pode ver o vulto feminino parado em frente ao espelho. Morena era a pele, e mel era o seu sabor, dor era o latejo no corpo do rapaz. Um olhar de mágoa misturado com ardor fez ele descer da carreta e ir logo espiar por entre a cortina que o separava daquela pele morena. Debruçando-se sobre o parapeito da janela sentiu o perfume adocicado que sempre o perseguia, ouviu um cantarolar suave a voz doce o fez estremecer de desejo, olhou em volta não havia ninguém, a chuva caia e sua pele branca molhada ardia em meio a tanto desejo.
Na casa Munira cantarolava uma pequenina canção, o cabelo sedoso, comprido até as costas era suavemente escovado, enquanto olhava-se no espelho tentava ouvir a chuva. Aquilo lhe dava paz e podia descansar depois de um dia de trabalho.

Munira atendia na quitanda da esquina principal do vilarejo, cozinhava e limpava o lugar. Moça bonita, dos olhos cor de mel, órfão e muito assediada pelos homens da vizinhança. Seu patrão um velho tropeiro, muito fanfarrão cuidava para que ninguém chegasse perto da moça, seu pai fora companheiro dele nas muitas viagens que fizeram quando jovens ,morrera numa briga esfaqueado e sua mãe fugira com um índio bugre.  Ficara a criança ainda de colo com o enorme e loiro tropeiro. Munira era sua filha e nenhum homem do vilarejo serviria para ela.
Olímpio puxou devagar a cortina e viu a moça debruçada na penteadeira, pulou rapidamente a janela e foi direto a jovem. Munira voltou-se e sorriu, esperava o moço algum tempo, a chuva havia lhe avisado a visita repentina; beijaram-se e rolaram pelo chão ,entre afagos e murmúrios saudosos foram amando-se. A madrugada adormeceu o velho tropeiro no macio sofá, Munira dormia a chuva continuava, tudo silenciosamente em paz.
Olímpio acarinhando o corpo sinuoso da morena Munira perguntava baixinho quando eles fugiriam daquele lugar ermo para a grande cidade. Ao que ela respondia nunca "irei casar com um homem rico e terei terras, empregados e vestidos lindos um para cada hora."O rapaz entristecia e um olhar de ira brilhava seus olhos amendoados,

porque ele não poderia ser este homem a dar-lhe as riquezas que tanto sonhava, a moça sorrindo, passando os dedos pelo peito do rapaz dizia baixinho por que você nasceu carreteiro e morrerá assim. Sou moça bonita, tenho o que muitos querem mereço a riqueza de um bom marido. Olímpio sentava-se hirto na beira da cama, olhava-se no espelho, tinha 25 anos sentia-se tão cansado e maduro, perdia-se no corpo de Munira no entanto um ódio lhe palpitava o coração quando a moça lhe falava assim. Fora sempre pobre, mas um bom homem Munira não podia dizer-lhe estas coisas.
Munira levantou-se a nudez do seu corpo surgia na sombra na parede caiada, suavemente delineava-se e um sabor de desejo fazia-se nos lábios de Olímpio. Suas mãos calejadas pela vida a percorriam, murmurando seu nome, ao que a moça fugia e logo num muxoxo completava "vai-te ,deita lá com tuas vacas ,teus bois, aqui não passa a noite homem algum."Olímpio não sabia mas além dele outros também por ali passavam, mas nenhum mexia com Munira como ele. Porém era pobre, não sabia falar direito e vivia cheirando a estábulo.
Olímpio levantou-se e seguiu seu caminho até o fim da rua. Logo algumas horas seria de manhã e ele teria que retornar levando mercadorias, nestas idas e vindas ele planejava a sua vida com Munira. Na cidade grande iria trabalhar e arrumar dinheiro para juntos alugarem um pequeno quarto e então iniciarem a vida felizes. Adormeceu na carreta, sonhando e maldizendo a morena que lhe atiçava o corpo.
amanheceu a chuva passara a terra úmida perfumava o vilarejo, gotinhas cintilavam os campos nos arredores das duas ruazinhas do vilarejo. Uma porta abriu-se era o tropeiro, espreguiçando-se logo abriria a quitanda e as senhoras e outros moradores logo iriam ali para comprar, conversar, passar o tempo, ali era o local onde o povo reunia-se e tudo se sabia. Munira acordou colocou o vestido que usava nas quintas ,a cada dia um colorido, quando casasse teria um a cada hora. Sonhava em ter muito e logo sair do vilarejo nas mãos de um grande proprietário ou daqueles homens que ouvia falar na quitanda , homens de casaca e cartola ,homens donos das fábricas. Aquelas que ouvia algumas jovens comentar ,quando iam a cidade grande.
Munira não queria saber de conversa pela manhã queria logo fazer o seu trabalho, ouvira que iria chegar uma correspondência e junto alguns visitantes, uma fazenda havia sido comprada e os novos proprietários viriam ver o local. Escolhera o vestido melhor e penteara o cabelo colocando uma flor azul no lado esquerdo, os olhos cor de mel reluziam em contraste a flor, sorrindo seguiu até a quitanda.
Olímpio acordara, lavara-se na tina ao canto do estábulo teria que fazer o seu trabalho e partir a tarde, mas antes tinha que ver a sua morena. Iria só mas ao voltar levaria a moça. Sabia que ela não negaria. Foi logo fazer a sua entrega.
Uma carroça enfeitada por inúmeras fitinhas coloridas cujo cavalo branquinho puxava conduzindo o pároco do lugarejo chegou e junto com ele um homem jovem usando chapéu de palha cobrindo-lhe o rosto .Falava pausadamente e percebia-se ser de outra condição .O pároco entrou na quitanda cumprimentando a todos, apresentou o jovem ao velho tropeiro, era filho do comprador da fazenda próxima ao vilarejo e também dono deste, pois o vilarejo fora criado pelos antigos donos era caminho das carretas que ali passavam, vinha demarcar o local, mudanças iriam ali ocorrer. Uma estrada de ferro seria ali construída atravessando o vilarejo ,para conduzir o café até a cidade grande.
Munira chegara-se perto do balcão onde o jovem encontrava-se sorrindo ofereceu-lhe um copo de vinho este pegou o copo enquanto sorvia o líquido vermelho olhava a morena, um desdém surgiu-lhe ,agradeceu e disse-lhe "Criada” vá pegar minha bagagem e veja se não deixes cair nada "Munira ficou ali olhando ele nem notara sua flor muito menos seu vestido tão pouco sua beleza. Saiu emburrada a fazer o que lhe pediram.
Olímpio entrou no local e tirando o chapéu cumprimentou a todos, o jovem fazendeiro sorriu-lhe e ofereceu-lhe um lugar, o rapaz humildemente aceitou quando Munira chega com as bagagens ao tentar ajudar-lhe percebeu que o moço olhava-o atentamente, sentiu o desejo do rapaz ,já vira isto antes mas sempre evitava estes tipos. No entanto o olhar daquele homem tão bem vestido apesar do chapéu de palha fez-lhe sentir algo estranho, logo buscou Munira esta dividiu a bagagem comentando baixinho" que tipo esquisito!"
Após o meio dia todos descansavam, Munira numa cadeira descascava legumes, iria fazer a janta o jovem da cidade iria ficar ali, queria logo resolver suas tarefas, escolheu a quitanda para hospedar-se já que as casinhas eram pequenas e mal ofereciam espaço para mais alguém. A quitanda também servia de hospedagem e correio, era o centro social do vilarejo. Cantarolava baixinho, uma mão passou pelo seu pescoço descendo até o seu seio, ela virou-se era Olímpio, beijando-a dizia já partir mas logo que voltasse iriam para a cidade. Ela pegando uma batata dizia "Se for para morrer pobre prefiro ficar aqui!"Tu fedes a boi e vaca, tens as mãos sujas e água teu corpo não bebe" Ria-se e ia preparando a janta, muitos iriam jantar ali naquela noite.
Olímpio partiu, ao chegar no fim do vilarejo, um portão separava o lugar das terras vizinhas, olhou e disse a si mesmo ela não pode falar assim de minha vida. Seguiu em frente
A noite todos em volta da enorme mesa que ficava na cozinha da quitanda, uma toalha de linho cobria a mesa já gasta pelos anos e entre conversas e beberanças as noticias iam dissolvendo-se. Munira percebera que o jovem da cidade não lhe notara, percebera também que além de esquisito ele tinha um ar muito delicado para um homem .Acostumada com os do vilarejo, simples, rudes porém másculos. Este além de franzino, mexia muito com as mãos e uma voz fina percorria a cozinha."Esquisito" Pensava a morena.
A noite já tarde todos recolheram-se. Munira em seu quarto, o velho tropeiro no sofá macio, o jovem no quarto da quitanda, ao lado o pároco, um assovio de uma coruja avisava a chegada da madrugada. As horas silenciosas passavam-se. Silêncio do breu, a coruja observava, virando-se de cá a lá ficava a turna a observar.
"O mel de tua boca na minha pele para sempre ficará morena "Assim pronunciava Olímpio ao beijar a ponta do seio de Munira e com uma mão tocar-lhe o ventre descendo seus dedos até sua  vulva. Estremecia a moça a cada toque do rapaz. Assim foram até ao amanhecer, quando o velho tropeiro os encontrou mortos na cama, Olímpio havia envenenado a moça a cada beijo seu, já que ela não o queria pobre morreria rica com o seu desejo a envenenar-lhe a alma.
O vilarejo acordou com os prantos e gritos do velho tropeiro, sua menina morrera, a quitanda seria derrubada pois a estrada de ferro por ali passaria. A chuva trouxera mudanças, a cidade grande chegando perto ,a vida mudando seu rumo.

Só a coruja continuaria ali a observar nas madrugadas cintilantes o silêncio do tempo.

Violetta

 
 

Hiroko Hatada Nishiyama
São Paulo, Brasil


Pergunte à Lua

 
Pergunte à lua, qual o mistério do lado escuro de sua face oculta nas noites de lua cheia, ou ainda nas noites de lua nova.
Certamente, ela nos dirá: quem me vê sonhadora, pálida e resplandecente, lua dos enamorados, inspiradora dos poetas e dos amantes, das mocinhas apaixonadas, e a alegria dos grilos em cri-cris uníssonos e os pirilampos com lanternas à procura das namoradas. E dos pássaros silenciando seus gorjeios, em repouso nos arvoredos fantasmagóricos recortados no breu da noite, não sabe do outro lado oculto onde guardo o segredo dos amores proibidos, dos amores incompreendidos, e até mesmo dos amores pecaminosos que se escondem no imo de cada ser.
E certamente quando cubro minha face com o véu escuro fico totalmente triste com saudade da luz do meu Rei e Senhor, ninguém sabe do lado oculto onde permencem os amores que para lá se dirigiram e lá ficaram, mas que por algum tempo se tornam amores iluminados pela luz do meu Rei e Senhor.
Pergunte à Lua, então:
Como viver assim, ora iluminada, ora em penumbra e ela nos responderá:
A felicidade não existe, a luz do meu Rei e Senhor, ilumina-me toda, mas em fragmentos de amor, nunca total, como se fora fatias do tempo, concedidas a mim, em segundos, em minutos, em horas. Desfaleço pouco a pouco. E, nesse compasso, passo a eternidade sem a entrega plena ao meu Rei e Senhor!
Pergunte à Lua, com um sussurro:
Quem é você?
E ela nos dirá, sou a sua alma e o seu coração!
O seu coração pode ser desvendado, mas a sua alma permanecerá para sempre como Eu! E sempre terá alguém a lhe dizer:
Pergunte à Lua...

Hiroko

 

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