MAGAZINE CEN
PROSA (com os temas "Lábios de Mel"
e "Pergunte à Lua..."
Janeiro 2012
Edição de Carlos Leite Ribeiro

Benedita Silva de Azevedo
Rio de Janeiro Brasil
Pergunte à lua...
A literatura está repleta de
histórias de casais que separam, voltam, separam... Um cônjuge
mata o outro e tantas... e tantas... peripécias. Mas, nada se
compara ao que aconteceu com John e Mary.
Mary, moça que parecia a todos um modelo de recato e meiguice
foi abordada por John, numa paquera de rua. Ela fugiu e se
refugiou na primeira porta aberta que encontrou. O jovem a
seguiu e percebeu que ali era o seu ambiente de trabalho.
John perguntou a Mary se poderiam conversar em outro lugar.
Preocupada com os olhares dos colegas de trabalho, passou seu
cartão para livrar-se daquela incômoda presença.
Quase completando quarenta anos e muitos relacionamentos
desfeitos, John atraía pretendentes pela beleza física. Loiro de
um lindo olhar azul, cor do céu, parecia não combinar com a
velha jaqueta de couro e sapatos furados de mesmo material.
Sentada à sua mesa da Casa de Empréstimos Consignados, onde
trabalhava, Mary falou alto com os companheiros:
- Que cara estranho! Seguiu-me por todo o quarteirão. Tão
bonito, mas tão andrajoso!
Ninguém se importou com a observação de Mary.
No dia seguinte, com o mesmo traje, lá estava John na esquina.
Ela apressou o passo e entrou no trabalho. Desta vez ele
desistiu e desapareceu. Mary ficou cismada por alguns dias, mas,
o trabalho era intenso e acabou esquecendo.
Sua rotina de casa para o trabalho e do trabalho para casa foi
quebrada quando, naquela noite, andando rápido para descontar o
atraso de um cliente retardatário, viu despencar do bonde de
Santa Tereza, um corpo bem à sua frente.
De coração agitado pela cena inesperada, nem percebeu a lua
brilhando sobre os Arcos da Lapa. Parou para se recompor.
Conhecia aquela roupa, aqueles sapatos... Não podia ser, ela
estava equivocada pelo stress do dia desgastante de trabalho.
Olharia ou não o rosto do infortunado homem? Um grupo de pessoas
rodeou o infeliz. Mary quase sem perceber, olhou para o local de
onde o homem caíra. Deparou-se com a luz fria da lua e não pode
evitar uma exclamação diante daquele paradoxo. Por que uma coisa
assim acontecia no coração da “Cidade Maravilhosa”, em um dos
pontos mais bonitos do Centro? Naquele momento, um mendigo
chegou com um cobertor e cobriu o corpo.
Mary ficou paralisada. Não conseguia sair do lugar. Com esforço
deu alguns passos e ficou ali olhando o corpo coberto... Uma
vontade enorme de desvendar a identidade da criatura. Seria
alguém conhecido? Havia anos que trabalhava ali pela redondeza e
nunca vira cena tão chocante.
Um curioso afastou a coberta e a moça pode ver o rosto de John
ainda de olhos abertos, refletindo o azul do céu da Lapa.
Benedita Silva de Azevedo

Brasilino Alves de Oliveira
Neto
Caçapava - São Paulo - Brasil
Pergunte à Lua.
Já não tenho mais o que fazer, pois
há anos ando a tua procura e não te encontro.
Segui caminhos tortuosos e retos, largos e estreitos, curtos e
longos aprazíveis e desconfortáveis, sempre em tua procura e
nada de te encontrar.
A solidão por isto é sempre minha companheira.
Contei, nesta caminhada com tudo de poesia e felicidades que a
vida me ofertava para te encontrar, mas isto não se deu e eu
continuo em minhas andanças para que se dê.
Em uma delas, colhido pelo cansaço, num principio de entardecer
recostei-me na mureta de uma pequena, mas singela e acolhedora
cachoeira, onde dos respingos dela sobrados, havia um lindo pé
de margaridas brancas, e tão alvas quando os primeiros raios de
luz emanados de uma linda Lua, em fase Nova.
Olhando para os céus vislumbrava sua imensidão e imaginava o
quanto haveria de caminhar para poder te encontrar.
Mas a esperança deste encontro, mesmo sem saber quando se daria
me confortava, e ali adormeci a luz da Lua que tomava o
firmamento.
O sonho que tinha acordado perdurou no meu sono e continuei
pensando em você e o que precisaria fazer para te encontrar.
O brilho da luz do luar que envolve todos os enamorados envolvia
meu ser e o sonho que tenho em te encontrar.
Surge neste sonho um Ser em forma de Anjo, que tinha a beleza e
encantos de seu rosto e não me contive com tanta beleza e não
queria jamais acordar, quando dele ouvi: “Queira sim acordar e
depois ‘Pergunte à Lua’ aonde você pode me encontrar e ela, se
acreditar realmente no amor que você me devota, te dirá”.
Relutante despertei, olhei para a Lua e disse a ela o amor que
lhe dedicava e perguntei como e o que deveria fazer para poder
te encontrar ?
Observei que a Lua não acreditou plenamente na declaração que
lhe fazia, mas mesmo assim respondeu-me que deveria seguir as
trilhas que iluminava e que ao amanhecer, quando seus raios já
estivessem ofuscados pela luz do Sol, na casa branca à beira do
caminho, onde tinha pés de margaridas brancas plantadas, que
colhesse uma delas e a despetalasse com o bem-me-quer e
mal-me-quer e se a pétala final fosse do ‘bem-me-quer’ e ali
poderia encontrar a quem há anos busco.
Sai apressadamente, mas fui alertado pela voz da Lua que não
adiantava correr, pois somente após seus raios estarem ofuscados
pela luz do sol que me seria possível a chegada ao lugar.
Diminui meus passos, mas meu coração continuava em desabalada
carreira, batia além de sua capacidade, pois tinha um só
objetivo: Encontrar-te e contigo para sempre ficar.
Amanheceu o dia os raios solares surgiram e encontrei a casa
branca com margaridas no jardim, entrei e colhi uma delas com a
esperança de que a última fosse a ‘bem-me-quer’.
Tremia de medo e meu coração batia célere e descompassadamente,
neste instante abre a porta e surge uma linda moça também
vestida de branco, com os encantos e beleza do Anjo que me
aparecera, iniciei o despetalar da margarida começando pelo
bem-me-quer.
A penúltima pétala foi a do mal-me-quer e iniciei minha
caminhada na direção daquele Anjo que estava na Terra,
imaginando-me ter encontrado a mulher a quem dedico minha
incessante busca, quando, no entanto, sem palavras ela deu um
passo para traz e fechou a porta, foi quando puxei a última
pétala que era a do ‘bem-me-quer’, tudo de forma que se
cumprisse a profecia que a Lua me fizera, pois era tudo o que eu
queria e acreditava.
Porém, a pétala do ‘bem-me-quer’ se parte ao meio fazendo-me
entender que a Lua, a quem eu fizera a pergunta, não acreditara
no amor que eu havia lhe declarado e não me entregou a mulher a
quem continuarei buscando.
Podem passar anos, séculos, eras e até mesmo tempos infinitos,
continuarei na tua busca, em tua procura, pois preciso de você
para ser feliz.
Venha !

Carlos Couto
Rio de Janeiro Brasil
"Lábios de Mel"
Me lembro claramente, de cada
detalhe daquela menina. Passados tantos anos, não sou traído por
minha memória , sempre que a busco, ela a devolve intacta, com
toda sua exuberância. Tinha olhos amendoados, inquietos e
alegres. Tinha pele alva, aveludada. O cabelo pareciam fios de
ouro, presos em um rabo de cavalo alto ou então num gracioso
coque. Nariz empinado, belo formato de rosto , muito belo,
diferente de todas as meninas do nosso colégio. O corpo? Esguio
e esbelto. Mas o ponto alto de toda aquela formosura, era sem
dúvida, seus lábios. Quem teria sido o artista que fez contornos
tão precisos, desenhos tão delineados?. Quem esculpiu aquela
obra de arte?
Por conta da minha incurável timidez , por temer ser repelido,
jamais tentei uma aproximação maior. Melhor assim. Teria sido um
desastre, afinal só tínhamos 17. Ela não se foi, nunca se foi,
ainda mora, povoa e passeia na minha mente. Nome? Isabel. Pra
mim, que com os anos de afastamento me tornei íntimo, Lábios de
Mel.

Lucas Ferreira da Silva
Divinópolis - Brasil
CORAÇÃO ADOLESCENTE
Já escurecia e apesar da chegada da
noite, João Vitor sentia um intenso calor. Caminhava pela praia
e ouvia o barulho das ondas nas pedras, quebrando violentamente,
com um barulho quase ensurdecedor, mas inaudível para ele. Ele
não prestava atenção naquele belo cenário no finalzinho da
tarde. Poucas pessoas ainda estavam por perto. No domingo,
muitos se vão mais cedo pra casa, para suas vidas particulares e
trancadas nos seus lares. Ele estava em êxtase profundo, não
sentia o frio da água que estava molhando seus pés descalços. A
calça jeans estava dobrada e ele carregava o tênis nas mãos. A
camiseta verde estava molhada de suor, num completo contraste
com o clima ameno daquele dia. Seus cabelos pretos e curtos
estavam sujos de areia da praia, evidenciando que ele estivera
deitado por um período longo, a pensar em algo. Não era em algo,
mas em alguém. Ele andava pela praia cantando desafinadamente e
de forma desajeitada uma dessas canções que a gente se permite
quando o coração está no comando.
Durante aquela tarde havia sido realizado um grande sonho.
Fernanda, a menina mais linda do colégio aceitara aquele velho
convite pra sair e tomar sorvete com ele. JV, como os colegas o
chamam tem quinze anos e está descobrindo o mundo. É alto e já
está cheio dos sonhos adolescentes. Quer uma família, quer um
mundo melhor, quer defender o meio ambiente... quer tudo. Quer
mesmo o amor e o carinho dela. Ela é de estatura mediana, tem
cabelos pretos ondulados e um rosto moldado pelo melhor dos
escultores. Tem um sorriso encantador, capaz de dissipar nuvens
sobrecarregadas e um olhar enigmático, que parece penetrar na
alma da pessoa visualizada. Meiga, não liga muito pra moda e
essas coisas de menina. Anda do seu jeito, da forma que a faz
sentir-se bem.
A praça tinha sido o local escolhido. Também não poderia haver
outro. No Arraial das Flores não há muitos lugares para se
visitar: poucas ruas, casas raras, uma praça onde as pessoas vão
passar os fins de tarde, bem à beira do mar. Para qualquer canto
se vê um pedaço de paraíso. A igrejinha de uma só torre lateral
é dedicada a Nossa Senhora da Anunciação, e apesar de ser logo
do início da colonização, tem formas geométricas simples, sendo
uma maravilha de se contemplar. Ao alto, um sino trazido de
Portugal dá os recados à população ainda hoje. Ao fundo, atrás
da rua principal, uma moldura divina, a Serra do Mar, com a mata
Atlântica como decoração. Bem de frente à praça, o mar... Ah o
mar! Pedras e praia transformam o lugar no paraíso de JV. Foi
ali, na sorveteriazinha de uma porta só que eles passaram a
tarde toda. Riram, conversaram, se olharam, confidenciaram
segredos durante horas.
Ele revelou que vai seguir a carreira de seu pai, ambientalista,
e ela, entusiasmada, disse querer ser veterinária. O sorriso
bobo de ambos demonstrava a eterna vontade de ali ficarem por
toda a extensão do dia e adentrarem a noite. Em boa parte do
tempo eles nem conversavam, apenas se olhavam e se viam na
pupila dos olhos do outro. Sorriam inocentes sentimentos e
sonhavam um mundo em que seus braços se entrelaçavam num abraço
eterno e suas almas ficassem unificadas na infindável vida. O
amor nascia em forma de paixão avassaladora, embora apenas
tivessem trocados alguns beijos pouco ousados. Ela é muito
tímida, acostumada a gente pouca. No arraial, apenas nas férias
escolares o movimento aumenta por causa da Praia dos Amores,
onde está a praça da cidade. É uma praia simples, apenas um
barzinho com uma música ao fundo e alguns poucos turistas de fim
de semana, que ficam na capital e ali passam o dia. Talvez por
quase não sair de casa, fica constantemente vermelha com
qualquer elogio. JV é mais atirado, mais ousado, mas não quis
precipitar. Só quis contemplar os belos olhos negros de Nanda.
Ambos estiveram sentados bem ao lado do outro, dividindo o mesmo
lado da mesinha e a mesma visão do mar azul de ondas
comportadas. O ar úmido e fresco, entrava em seus pulmões e
enchiam a alma de um sentimento estonteante e de uma milagrosa
felicidade que se encaminhava em cada parte do seu corpo.
João Vítor estava dando passos desarticulados pela praia e em
sua mente visualizava sua casa à beira mar, Nanda trabalhando
com ele e dois meninos lindos como filhos num futuro tão
desejado. Sonhar é sua especialidade. Andava pela praia
observando o mar e ouvindo as ondas sem se dar conta que já
escurecia e que os turistas se foram. Senta numa pedra e admira
já no céu a lua cheia, grande, radiante, como o amor que estava
sentindo dentro de seu coração. JV vive um êxtase místico tal
qual os grandes santos. Seus pés não tocam o chão e seu corpo
flutua com as nuvens, parecendo pairar sobre as ondas que
rebentam nas pedras e lhe molham todo o corpo ainda suado. Ele
se levanta ao observar que a lua já está no meio do céu,
denunciando hora já avançada. É quando JV percebe que não há
mais ninguém ali por perto, parecendo acordar do seu sonho.
Ainda assim volta os olhos para as ondas que incessantemente
chegam e saem da praia, numa demonstração de vida contínua,
futura,constante... E se vai dali para casa, respirando aquele
ar úmido e frio da noite, rindo feito bobo, coração apaixonado,
saltitante no peito.
Nanda olha pela janela de sua casa a observar a lua naquele
mágico momento, sentindo o gosto do beijo da tarde. Seu sono se
foi, sua TV ligada em um canal qualquer, ela suspirando paixão à
espera do novo dia. JV chega em casa, sua mãe louca de
preocupação dá o maior espalho. Ele apenas sorri de maneira
inconsequente e vai entrando com olhos brilhantes e pele vívida,
olhando para a mãe que fica pasma, sem nada entender. Deita-se
na cama após um longo banho restaurador, mas não dorme. Leva
constantemente os dedos aos lábios, sentindo o coração pular
peito afora ao sentir o cheiro impregnado de Nanda e o gosto dos
lábios dela tocando os seus. O corpo jogado na cama, o som
preferido no ar, estômago sem fome, olha apenas o céu pela sua
janela e as estrelas dançando no firmamento ao som de sua paixão
e sob o frescor do mar que é seu quintal.
Ao pé da montanha, do outro lado da praça, numa casa que tem a
floresta como quintal, Nanda respira o ar virgem da mata, e
dorme, e sonha... JV também sonha, mas acordado, anunciando a
sua primeira longa noite de paixão. E a vida lhe reservará
tantas outras num futuro indecifrável, talvez incontido,
possivelmente arrebatadoras, tragicamente devastadoras ou
inundadas de uma água que sustenta toda uma vida, tal qual o
furacão interno no peito do garoto que acabou de descobrir que o
mundo é muito maior que o Arraial das Flores, e da Praia dos
Amores, e da Igrejinha da Anunciação, e da sorveteria de uma
porta só...

Ana Lucia (Violetta)
Porto Alegre,Rio Grande do Sul,Brasil
O Sabor do Mel
A noite caía e lá fora o vento
trazia o aroma da terra úmida, chovia muito e algumas pessoas
corriam para protegerem-se da pancada de verão. O vilarejo
pequenino acostumado com o silêncio do tempo ia aos poucos
acomodando-se. No fundo de uma das ruas pequeninas do lugarejo
surgia uma carreta puxada por um boi, enorme e sonolento. Um
rapaz conduzia a carreta ora tocando o relho no dorso do enorme
animal, ora olhando a escuridão do céu buscando algo além
daquele breu…
Uma luz fraca refletia uma sombra numas das pequeninas
casinholas do vilarejo. Como todas era caiada de branco e o
telhado coberto por um barro seco ,não tinham vidros as janelas,
os postiços eram de madeira forte para sobreviver aos ventos do
inverno e dentro da casa no forte calor do verão a fresca
fazia-se ali. A carreta passava devagar pelas fileiras de
casarios, neste da luz amarelada o rapaz pousou os olhos
amendoados e cuspiu fora um bagaço de cigarro. Olhou a janela e
nela pode ver o vulto feminino parado em frente ao espelho.
Morena era a pele, e mel era o seu sabor, dor era o latejo no
corpo do rapaz. Um olhar de mágoa misturado com ardor fez ele
descer da carreta e ir logo espiar por entre a cortina que o
separava daquela pele morena. Debruçando-se sobre o parapeito da
janela sentiu o perfume adocicado que sempre o perseguia, ouviu
um cantarolar suave a voz doce o fez estremecer de desejo, olhou
em volta não havia ninguém, a chuva caia e sua pele branca
molhada ardia em meio a tanto desejo.
Na casa Munira cantarolava uma pequenina canção, o cabelo
sedoso, comprido até as costas era suavemente escovado, enquanto
olhava-se no espelho tentava ouvir a chuva. Aquilo lhe dava paz
e podia descansar depois de um dia de trabalho.
Munira atendia na quitanda da
esquina principal do vilarejo, cozinhava e limpava o lugar. Moça
bonita, dos olhos cor de mel, órfão e muito assediada pelos
homens da vizinhança. Seu patrão um velho tropeiro, muito
fanfarrão cuidava para que ninguém chegasse perto da moça, seu
pai fora companheiro dele nas muitas viagens que fizeram quando
jovens ,morrera numa briga esfaqueado e sua mãe fugira com um
índio bugre. Ficara a criança ainda de colo com o enorme e
loiro tropeiro. Munira era sua filha e nenhum homem do vilarejo
serviria para ela.
Olímpio puxou devagar a cortina e viu a moça debruçada na
penteadeira, pulou rapidamente a janela e foi direto a jovem.
Munira voltou-se e sorriu, esperava o moço algum tempo, a chuva
havia lhe avisado a visita repentina; beijaram-se e rolaram pelo
chão ,entre afagos e murmúrios saudosos foram amando-se. A
madrugada adormeceu o velho tropeiro no macio sofá, Munira
dormia a chuva continuava, tudo silenciosamente em paz.
Olímpio acarinhando o corpo sinuoso da morena Munira perguntava
baixinho quando eles fugiriam daquele lugar ermo para a grande
cidade. Ao que ela respondia nunca "irei casar com um homem rico
e terei terras, empregados e vestidos lindos um para cada
hora."O rapaz entristecia e um olhar de ira brilhava seus olhos
amendoados,
porque ele não poderia ser este
homem a dar-lhe as riquezas que tanto sonhava, a moça sorrindo,
passando os dedos pelo peito do rapaz dizia baixinho por que
você nasceu carreteiro e morrerá assim. Sou moça bonita, tenho o
que muitos querem mereço a riqueza de um bom marido. Olímpio
sentava-se hirto na beira da cama, olhava-se no espelho, tinha
25 anos sentia-se tão cansado e maduro, perdia-se no corpo de
Munira no entanto um ódio lhe palpitava o coração quando a moça
lhe falava assim. Fora sempre pobre, mas um bom homem Munira não
podia dizer-lhe estas coisas.
Munira levantou-se a nudez do seu corpo surgia na sombra na
parede caiada, suavemente delineava-se e um sabor de desejo
fazia-se nos lábios de Olímpio. Suas mãos calejadas pela vida a
percorriam, murmurando seu nome, ao que a moça fugia e logo num
muxoxo completava "vai-te ,deita lá com tuas vacas ,teus bois,
aqui não passa a noite homem algum."Olímpio não sabia mas além
dele outros também por ali passavam, mas nenhum mexia com Munira
como ele. Porém era pobre, não sabia falar direito e vivia
cheirando a estábulo.
Olímpio levantou-se e seguiu seu caminho até o fim da rua. Logo
algumas horas seria de manhã e ele teria que retornar levando
mercadorias, nestas idas e vindas ele planejava a sua vida com
Munira. Na cidade grande iria trabalhar e arrumar dinheiro para
juntos alugarem um pequeno quarto e então iniciarem a vida
felizes. Adormeceu na carreta, sonhando e maldizendo a morena
que lhe atiçava o corpo.
amanheceu a chuva passara a terra úmida perfumava o vilarejo,
gotinhas cintilavam os campos nos arredores das duas ruazinhas
do vilarejo. Uma porta abriu-se era o tropeiro, espreguiçando-se
logo abriria a quitanda e as senhoras e outros moradores logo
iriam ali para comprar, conversar, passar o tempo, ali era o
local onde o povo reunia-se e tudo se sabia. Munira acordou
colocou o vestido que usava nas quintas ,a cada dia um colorido,
quando casasse teria um a cada hora. Sonhava em ter muito e logo
sair do vilarejo nas mãos de um grande proprietário ou daqueles
homens que ouvia falar na quitanda , homens de casaca e cartola
,homens donos das fábricas. Aquelas que ouvia algumas jovens
comentar ,quando iam a cidade grande.
Munira não queria saber de conversa pela manhã queria logo fazer
o seu trabalho, ouvira que iria chegar uma correspondência e
junto alguns visitantes, uma fazenda havia sido comprada e os
novos proprietários viriam ver o local. Escolhera o vestido
melhor e penteara o cabelo colocando uma flor azul no lado
esquerdo, os olhos cor de mel reluziam em contraste a flor,
sorrindo seguiu até a quitanda.
Olímpio acordara, lavara-se na tina ao canto do estábulo teria
que fazer o seu trabalho e partir a tarde, mas antes tinha que
ver a sua morena. Iria só mas ao voltar levaria a moça. Sabia
que ela não negaria. Foi logo fazer a sua entrega.
Uma carroça enfeitada por inúmeras fitinhas coloridas cujo
cavalo branquinho puxava conduzindo o pároco do lugarejo chegou
e junto com ele um homem jovem usando chapéu de palha
cobrindo-lhe o rosto .Falava pausadamente e percebia-se ser de
outra condição .O pároco entrou na quitanda cumprimentando a
todos, apresentou o jovem ao velho tropeiro, era filho do
comprador da fazenda próxima ao vilarejo e também dono deste,
pois o vilarejo fora criado pelos antigos donos era caminho das
carretas que ali passavam, vinha demarcar o local, mudanças
iriam ali ocorrer. Uma estrada de ferro seria ali construída
atravessando o vilarejo ,para conduzir o café até a cidade
grande.
Munira chegara-se perto do balcão onde o jovem encontrava-se
sorrindo ofereceu-lhe um copo de vinho este pegou o copo
enquanto sorvia o líquido vermelho olhava a morena, um desdém
surgiu-lhe ,agradeceu e disse-lhe "Criada” vá pegar minha
bagagem e veja se não deixes cair nada "Munira ficou ali olhando
ele nem notara sua flor muito menos seu vestido tão pouco sua
beleza. Saiu emburrada a fazer o que lhe pediram.
Olímpio entrou no local e tirando o chapéu cumprimentou a todos,
o jovem fazendeiro sorriu-lhe e ofereceu-lhe um lugar, o rapaz
humildemente aceitou quando Munira chega com as bagagens ao
tentar ajudar-lhe percebeu que o moço olhava-o atentamente,
sentiu o desejo do rapaz ,já vira isto antes mas sempre evitava
estes tipos. No entanto o olhar daquele homem tão bem vestido
apesar do chapéu de palha fez-lhe sentir algo estranho, logo
buscou Munira esta dividiu a bagagem comentando baixinho" que
tipo esquisito!"
Após o meio dia todos descansavam, Munira numa cadeira
descascava legumes, iria fazer a janta o jovem da cidade iria
ficar ali, queria logo resolver suas tarefas, escolheu a
quitanda para hospedar-se já que as casinhas eram pequenas e mal
ofereciam espaço para mais alguém. A quitanda também servia de
hospedagem e correio, era o centro social do vilarejo.
Cantarolava baixinho, uma mão passou pelo seu pescoço descendo
até o seu seio, ela virou-se era Olímpio, beijando-a dizia já
partir mas logo que voltasse iriam para a cidade. Ela pegando
uma batata dizia "Se for para morrer pobre prefiro ficar
aqui!"Tu fedes a boi e vaca, tens as mãos sujas e água teu corpo
não bebe" Ria-se e ia preparando a janta, muitos iriam jantar
ali naquela noite.
Olímpio partiu, ao chegar no fim do vilarejo, um portão separava
o lugar das terras vizinhas, olhou e disse a si mesmo ela não
pode falar assim de minha vida. Seguiu em frente
A noite todos em volta da enorme mesa que ficava na cozinha da
quitanda, uma toalha de linho cobria a mesa já gasta pelos anos
e entre conversas e beberanças as noticias iam dissolvendo-se.
Munira percebera que o jovem da cidade não lhe notara, percebera
também que além de esquisito ele tinha um ar muito delicado para
um homem .Acostumada com os do vilarejo, simples, rudes porém
másculos. Este além de franzino, mexia muito com as mãos e uma
voz fina percorria a cozinha."Esquisito" Pensava a morena.
A noite já tarde todos recolheram-se. Munira em seu quarto, o
velho tropeiro no sofá macio, o jovem no quarto da quitanda, ao
lado o pároco, um assovio de uma coruja avisava a chegada da
madrugada. As horas silenciosas passavam-se. Silêncio do breu, a
coruja observava, virando-se de cá a lá ficava a turna a
observar.
"O mel de tua boca na minha pele para sempre ficará morena
"Assim pronunciava Olímpio ao beijar a ponta do seio de Munira e
com uma mão tocar-lhe o ventre descendo seus dedos até sua
vulva. Estremecia a moça a cada toque do rapaz. Assim foram até
ao amanhecer, quando o velho tropeiro os encontrou mortos na
cama, Olímpio havia envenenado a moça a cada beijo seu, já que
ela não o queria pobre morreria rica com o seu desejo a
envenenar-lhe a alma.
O vilarejo acordou com os prantos e gritos do velho tropeiro,
sua menina morrera, a quitanda seria derrubada pois a estrada de
ferro por ali passaria. A chuva trouxera mudanças, a cidade
grande chegando perto ,a vida mudando seu rumo.
Só a coruja continuaria ali a
observar nas madrugadas cintilantes o silêncio do tempo.
Violetta