

Álvares de
Azevedo
Nasceu a 12 de
Setembro
de 1831
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
Manuel António Álvares de Azevedo, poeta
brasileiro da fase romântica, nasceu em
São Paulo a 12 de Setembro de 1831, e
morreu no Rio de Janeiro a 25 de Abril
de 1852. Ligou-se à corrente
representada na Europa por Byron,
Musset, Espronceda e Leopardi. Encarna
como nenhum dos seus companheiros de
geração o espírito do chamado ". Foi
ainda dramaturgo e contista. As suas
principais obras foram todas póstumas:
"Lira dos Vinte anos" em 1853;
"Macário", teatro em 1855 e "A Noite na
Taberna" em 1855.
Patrono da Cadeira Nº 0 2 da Academia
Brasileira de Letras, por escolha de
Coelho Neto. Era filho do então
estudante de Direito Inácio Manuel
Álvares de Azevedo e de Maria Luísa Mota
Azevedo, ambos de famílias ilustres.
Segundo afirmação de seus biógrafos,
teria nascido na sala da biblioteca da
Faculdade de Direito de São Paulo;
averiguou-se, porém, ter sido na casa do
avô materno, Severo Mota. Em 1833, em
companhia dos pais, mudou-se para o Rio
de Janeiro e, em 40, ingressou no
colégio Stoll, onde consta ter sido
excelente aluno. Em 44, retornou a São
Paulo em companhia de seu tio. Regressa
novamente ao Rio de Janeiro no ano
seguinte, entrando para o internato do
Colégio Pedro 2º. Em 1848 matriculou-se
na Faculdade de Direito de São Paulo,
onde foi estudante aplicadíssimo e de
cuja intensa vida literária participou
activamente, fundando, inclusive, a
Revista Mensal da Sociedade Ensaio
Filosófico Paulista. Entre seus
contemporâneos, encontravam-se José
Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e
Bernardo Guimarães, estes dois últimos
as suas maiores amizades em São Paulo,
com os quais constituiu uma república de
estudantes na Chácara dos Ingleses. O
meio literário paulista, impregnado de
afectação byroniana, teria favorecido em
Álvares de Azevedo componentes de
melancolia, sobretudo a previsão da
morte, que parece tê-lo acompanhado como
demónio familiar. Imitador da escola de
Byron, Musset e Heine, tinha sempre à
sua cabeceira os poemas desse trio de
românticos por excelência, e ainda de
Shakespeare, Dante e Goethe. Proferiu as
orações fúnebres por ocasião dos
enterros de dois companheiros de escola,
cujas mortes teriam enchido de
presságios o seu espírito. Era de pouca
vitalidade e de compleição delicada; o
desconforto das "repúblicas" e o esforço
intelectual minaram-lhe a saúde. Nas
férias de 1851-52 manifestou-se a
tuberculose pulmonar, agravada por tumor
na fossa ilíaca, ocasionado por uma
queda de cavalo, um mês antes. A
dolorosa operação a que se submeteu não
fez efeito. Faleceu às 17 horas do dia
25 de Abril de 1852, domingo da
Ressurreição. Como quem anunciasse a
própria morte, no mês anterior escrevera
a última poesia sob o título "Se eu
morresse amanhã", que foi lida, no dia
do seu enterro, por Joaquim Manuel de
Macedo. Entre 1848 e 1851, publicou
alguns poemas, artigos e discursos.
Depois da sua morte surgiram as Poesias
(1853 e 1855), a cujas edições
sucessivas se foram juntando outros
escritos, alguns dos quais publicados
antes em separado. As obras completas,
como as conhecemos hoje, compreendem:
Lira dos vinte anos; Poesias diversas, O
poema do frade e O conde Lopo, poemas
narrativos; Macário, "tentativa
dramática"; A noite na taverna, contos
fantásticos; a terceira parte do romance
O livro de Fra Gondicário; os estudos
críticos sobre Literatura e civilização
em Portugal, Lucano, George Sand,
Jacques Rolla, além de artigos,
discursos e 69 cartas.
Álvares de Azevedo é um dos vultos
exponenciais do Romantismo. Embora tenha
morrido aos vinte anos, produziu uma
obra poética de alto nível, deixando
registada a sua incapacidade de
adaptação ao mundo real e sua capacidade
de elevar-se a outras esferas através do
sonho e da fantasia para, por fim,
refugiar-se na morte, certo de aí
encontrar a paz tão almejada. Grande
leitor, Álvares de Azevedo parece ter
"devorado" tantos os clássicos como os
românticos, por quem se viu
irremediavelmente influenciado.
Embebedando-se na dúvida dos poetas da
geração do mal du siècle, herdou deles o
pendor do desregramento, para a vida
boémia e para o tédio. Contrabalança a
influência de Byron com os devaneios de
Musset, Hoffman e outros. Lira dos Vinte
Anos, única obra preparada pelo autor, é
composta de três partes. Na primeira,
através de poesias como "Sonhando", "O
poeta", "A T..." surge o poeta sonhador
em busca do amor e prenunciando a morte.
Nas poesias citadas, desfila uma série
de virgens sonhadoras que ajudam a criar
um clima fantástico e suavemente
sensual. Por outro lado, em poemas como
"Lembranças de morrer", ou "Saudades"
surge o poeta que percebe estar próximo
da morte, confessa-se deslocado e
errante, deixando "a vida como deixa o
tédio/ Do deserto, o poento caminheiro".
A terceira parte de A Lira, praticamente
é uma extensão da primeira e, portanto,
segue a mesma linha poética. É na
segunda parte que se encontra a outra
face do poeta, o poeta revoltado,
irónico, realista, concreto que soube
utilizar o humor estudantil e
descomprometido. Esta segunda parte
abre-se com um prefácio de Álvares de
Azevedo que adverte "Cuidado leitor, ao
voltar esta página!", pois o poeta já
não é o mesmo: "Aqui dissipa-se o mundo
visionário e platónico." Algumas
produções maiores do poeta aí estão como
"Ideias íntimas" e "Spleen e charutos",
poesias que perfeitamente bom-humor,
graciosidade e uma certa alegria.
Deixa-se levar pelo deboche em "É ela!,
É ela!, É ela!, É ela!" , em que revela
sua paixão pela lavadeira; em "Namoro a
cavalo", registando as intempéries por
que passa o namorado para encontrar sua
amada que mora distante.
Macário link Macário
É ela! É ela! É ela! É ela! - de Álvares
de Azevedo
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.
Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus
passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase
caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...
Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...
Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...
É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande – Portugal |
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