Que grandes verdades ditas
com palavras simples, haverá quem não
goste de António Aleixo?
Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão
António Fernandes Aleixo, é um
autodidacta, este poeta popular algarvio,
de vida acidentada e humano, morreu
tuberculoso em Loulé. Foi tecelão,
emigrante, pastor de cabras e
cauteleiro. Percorria as feiras
improvisando à guitarra ou vendendo
folhas avulso com quadra e glosas. A sua
poesia distingue-se pelo rigor de
inspiração e de talhe e caracteriza-se
por uma tendência conceptiva de
qualidade. As primeiras edições da sua
obra, disseminada oralmente, foram
promovidas por Joaquim da Rocha Peixoto
Magalhães, que recolheu sistematicamente
todo o manancial, quer a partir do
próprio autor, quer de amigos e
conterrâneos.
Sua Obra:
Quando começo a cantar – (1943);
Intencionais – (1945);
Auto da vida e da morte – (1948);
Auto do curandeiro – (1950);
Auto do Ti Jaquim - incompleto;
Este livro que vos deixo – (1969) -
reunião de toda a obra do poeta;
Inéditos – (1979); tendo sido, estes
quatro últimos, publicados postumamente.
O poeta António Aleixo, cauteleiro e
pastor de rebanhos, cantor popular de
feira em feira, pelas redondezas de
Loulé ( Algarve - Portugal ) é um caso
singular, bem digno de atenção de
quantos se interessam pela poesia.
Nasceu em Vila Real de Santo António a
18 de Fevereiro de 1899 e faleceu em
Loulé a 16 de Novembro de 1949.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
António Fernandes Aleixo (Vila Real de
Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 —
Loulé, 16 de Novembro de 1949) foi um
dos poetas populares algarvios de maior
relevo, famoso pela sua ironia e pela
crítica social sempre presente em seus
versos. Também é recordado por ter sido
simples, humilde e semi-analfabeto, e
ainda assim ter deixado como legado uma
obra poética singular no panorama
literário português da primeira metade
do século XX.
No emaranhado de uma vida recheada de
pobreza, mudanças de emprego, imigração,
tragédias familiares e doenças, na sua
figura de homem humilde e simples, havia
o perfil de uma personalidade rica,
vincada e conhecedora das diversas
realidades da cultura e sociedade do seu
tempo. Do seu percurso de vida fazem
parte profissões como tecelão, guarda de
polícia, servente de pedreiro, trabalho
este, que emigrado, também exerceu em
França.
De regresso ao seu país natal,
restabeleceu-se novamente em Loulé, onde
passou a vender cautelas e a cantar as
suas produções pelas feiras portuguesas,
actividades que se juntaram às suas
muitas profissões e que lhe renderia a
alcunha de "poeta-cauteleiro". Faleceu
por conta de uma tuberculose, em 16 de
Novembro de 1949, doença que tempos
antes havia também vitimado uma de suas
filhas.
Corrente do cancioneiro popular
português
O termo "cancioneiro" é, em geral,
atribuído à reunião de canções
populares; cada uma das colecções da
antiga poesia lírica portuguesa e
galega, com início entre os séculos XI e
XIII, reunidas sob a alçada de reis e
príncipes e constituídas por composições
de vários autores, de entre homens das
diversas classes sociais, é o
"cancioneiro" em língua portuguesa mais
conhecido. No Algarve, na primeira
metade do século XX, teria irrompido uma
poderosa corrente de um novo cancioneiro
popular português, a qual recebeu o nome
do poeta semi-analfabeto que lhe teria
"aberto as comportas": António Aleixo.
Quem apontou essa corrente foram o
artista plástico Tóssan também autor da
imagem supra, e o professor de liceu
Joaquim Magalhães, este último o
professor do Liceu de Loulé e
"descobridor" de António Aleixo, ao qual
se deve o registo e publicação da obra
do poeta popular algarvio e sua inclusão
no sistema literário português.
Estilo literário
Poeta possuidor de uma rara
espontaneidade, de um apurado sentido
filosófico e notável pela «capacidade de
expressão sintética de conceitos com
conteúdo de pensamento moral», António
Aleixo tinha por motivos de inspiração
desde as brincadeiras dirigidas aos
amigos até à crítica sofrida das
injustiças da vida. É notável em sua
poesia a expressão concisa e original de
uma amarga filosofia, aprendida na
escola impiedosa da vida.
A sua conhecida obra poética é uma parte
mínima de um vasto repertório literário.
O poeta, que escrevia sempre usando a
métrica mais comum na língua portuguesa
(heptassílabos, em pequenas composições
de quatro versos, conhecidas como
"quadras" ou "trovas"), nunca teve a
preocupação de registar suas
composições. Apenas com o trabalho de
Joaquim de Magalhães, que se dedicou a
compilar os versos que lhe ditou o poeta
no intuito de compor o primeiro volume
de suas poesias ("Quando Começo a
Cantar", e com o posterior registo pelo
próprio poeta com o incentivo daquele
mesmo professor, é que a obra de Aleixo
recebeu algum registo escrito. Antes de
Magalhães, contudo, alguns amigos do
poeta lançaram folhetos avulsos com
quadras por ele compostas, mais no
intuito, à época, de angariar algum
dinheiro que ajudasse o poeta em uma
situação de miséria que com a intenção
maior de permanência da obra na forma
escrita.
Estudiosos de António Aleixo ainda
conjugam esforços no sentido de reunir o
seu espólio, que ainda se encontra
fragmentado por vários pontos do Algarve,
algum dele já localizado. Sabe-se também
que vários cadernos seus de poesia - nos
quais era incentivado por Joaquim de
Magalhães a registrar seus poemas, já
que antes os produzia espontaneamente em
suas apresentações em feiras e praças
públicas, sem a preocupação de
publicação - foram cremados como meio de
defesa contra o vírus infeccioso da
doença que o vitimou, sem dúvida, um
«sacrifício» impensado, levado a cabo
pelo desconhecimento de seus vizinhos.
Foi esta uma perda irreparável de um
património insubstituível no vasto mundo
da literatura portuguesa.
A opinião pública e reconhecidos amigos
A partir da descoberta de Joaquim de
Magalhães, o grande responsável por
"passar a limpo" e registar a obra do
poeta, António Aleixo passou a ser
apreciado por inúmeras figuras da
sociedade. Também é digno de registo
José Rosa Madeira, que o protegeu,
divulgou e coleccionou os seus escritos,
contribuindo no lançamento do primeiro
livro, "quando Começo a Cantar" (1943),
editado pelo Círculo Cultural do Algarve.
A opinião pública aceitou a primeira
obra de António Aleixo com bom agrado,
sendo bem acolhido pela crítica. Com uma
tiragem de 1.100 exemplares, o livro
esgotou-se em poucos dias, o que
proporciona a Aleixo uma pequena
melhoria de vida, que é ensombrada pela
morte de uma sua filha, doente com
tuberculose. Desta mesma doença viria o
poeta a sofrer pelos tratamentos que
vida lhe foi impondo, tendo que ser
internado no Hospital – Sanatório dos
Covões, em Coimbra, a 28 de Junho de
1943.
Em Coimbra começa uma nova era para o
poeta que descobre novas amizades e
deleita-se com novos admiradores, que
reconhecem o seu talento, de destacar o
Dr. Armando Gonçalves, o escritor Miguel
Torga e António Santos (Tossan), o
artista plástico e autor da mais
conhecida imagem do poeta algarvio,
amigo do poeta que nunca o desamparou
nas horas difíceis. Os seus últimos anos
de vida foram passados, ora no
sanatório, em Coimbra, ora no Algarve,
em Loulé.
Os Derradeiros momentos de António
Aleixo:
Caro Senhor Dr. Joaquim Magalhães;
Saúde! E boa vontade!
Este é o rogo do moribundo. Pasmo como
ainda lhe sobra vontade para querer
alguma coisa.
Deve ter adivinhado que se trata do
Aleixo. Ele mandou-me chamar hoje. Fui
encontrá-lo medonhamente acabado.
Olhou-me quando entrei e creio que lhe
faltavam as forças para o fazer mais
vezes. Enquanto me falou, - com esforço
visível, num sopro enrouquecido, -
fitava alguma coisa, longe ou perto com
a lividez gelada da última hora. Pasmei
como se poderia interessar por alguma
coisa.
Falou-me do livro e pediu-me que
telefonasse ainda hoje a desistir da
publicação. Disse-me que desistia e que
com o dinheiro ia dar de comer à família
que ultimamente vem passando mal… É
claro que lhe tirei isso do sentido;
pelo menos fiz o possível dizendo-lhe
que não, que isso era mal pensado e que
ele tinha a obrigação de pensar (como se
já lhe assistisse qualquer espécie de
obrigação) na receita que poderia advir
do livro em proveito da família, da sua
relativa continuidade, etc, etc.
Disse-lhe ainda que escreveria ao Sr.
Dr. no sentido de apressar o mais
possível a impressão do livro, -
argumento com que o convenci a não fazer
a asneira da desistência. Prometi
escrever ao Sr. Ainda hoje e lá o deixei
mais ou menos consolado com a ideia de
que tudo se iria passar rapidamente, não
como seria a nossa vontade mas dentro
das possibilidades de que dispomos.
Consolei-o dizendo que todas as pessoas
que mais ou menos contribuem para a
publicação do livro estão a fazer o que
podem nesse sentido e com toda a boa
vontade - Na verdade, creio que por mais
depressa que o assunto se resolva não
virá a horas de lhe dar a satisfação que
ele vê fugir, - a sua grande e última
satisfação. Penso que poucas horas lhe
restarão. Demais ele já não come há dois
dias. Todo o volume que ele faz no leito
não excede o de uma criança de poucos
anos. Todavia há que pensar na miséria
que o rodeia e que muito se acentuará
depois do seu último dia. Talvez por
isso ele peça por meu intermédio ao Sr.
Dr. Magalhães toda a urgência.
Por mim espero que o Sr. Dr. Magalhães
fará o possível, assim como já terá dado
alguns passos no sentido de regularizar
os registos de autor do Aleixo, dos
quais ele me falou hoje e a que eu lhe
respondi que o Sr. andava a tratar do
caso como lhe era possível.
Posto o que ficou dito, fico em boa
consciência pensando que nada mais
poderia fazer.
Recomendo-me e cumprimento-o
respeitosamente
Armando Gonçalves (médico que assistiu
Aleixo no Sanatório dos Covões -
Coimbra)
QUADRAS POPULARES - de António Aleixo
Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
«»
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
«»
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.
«»
P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
«»
Enquanto o homem pensar
que vale mais que outro homem,
são como os cães a ladrar,
não deixam comer, nem comem.
«»
A vida na grande terra
corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
prefiro a serra à cidade.
«»
Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.
«»
Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
«»
Num arranco de loucura,
filha desta confusão,
vai todo o mundo à procura
daquilo que tem à mão.
«»
Entre leigos ou letrados,
fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.
«»
Quando te vês mal, e dizes
que preferias a morte,
pensa que outros menos felizes
invejam a tua sorte.
«»
Tem a música o poder
de tornar o homem feliz;
nem há quem saiba dizer
tanto quanto ela nos diz.
«»
Gosto do preto no branco,
como costumam dizer:
antes perder por ser franco
que ganhar por não ser.
«»
Queremos ver sempre à distância
o que não está descoberto,
Sem ligarmos importância
ao que está à vista e perto.
«»
Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.
«»
Quantas sedas aí vão,
quantos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!
«»
Quando não tenhas à mão
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos da mágoa que sinto.
«»
Julgam-me mui sabedor
E é tão grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!
«»
A quadra tem pouco espaço
Mas eu fico satisfeito
Quando numa quadra faço
Alguma coisa com jeito
«»
Nos versos que se improvisem,
Os poetas sabem ler,
Para além do que eles dizem,
Tudo o que querem dizer
«»
Falemos sinceramente,
Como p'ra nós mesmos, a sós;
Lá longe de toda a gente,
Do mundo, e até de nós
«»
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz
«»
Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande,
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.
«»
A arte em nós se revela
Sempre de forma diferente:
Cai no papel ou na tela
Conforme o artista sente
«»
Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles sejam
O que os Homens são no fundo.
Porque o mundo me empurrou,
caí na lama, e então
tomei-lhe a cor, mas não sou
a lama que muitos são.
«»
À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra
«»
Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a Razão mesmo vencida,
não deixa de ser Razão?
«»
Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.
«»
Eu já não sei o que faça
p'ra juntar algum dinheiro;
se se vendesse a desgraça
já hoje eu era banqueiro.
«»
O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!
«»
Bate a fome à porta deles
e é lá mais mal recebida
do que na casa daqueles
que a sofreram toda a vida.
«»
Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes,
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes.
«»
Vinho que vai para vinagre
não retrocede o caminho;
só por obra de milagre,
pode de novo ser vinho.
«»
Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.
«»
Mentiu com habilidade,
fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade
ninguém crê no que ele diz.
«»
Quando os homens se convençam
que a força nada faz,
serão felizes os que pensam
num mundo de amor e paz.
«»
Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.
«»
Porque será que nós temos
na frente, aos montes, aos molhos,
tantas coisas que não vemos
nem mesmo perto dos olhos?
«»
Vemos gente bem vestida,
no aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
tudo é miséria dourada.
«»
Julgam-me mui sabedor;
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer.
«»
Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.
«»
Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem de comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime, sem querer
«»
Nada direi, mas, enfim,
Vou ter a grande alegria
De a Arte dizer por mim
Tudo quanto eu vos diria
«»
Falemos sinceramente,
Como p'ra nós mesmos, a sós;
Lá longe de toda a gente,
Do mundo, e até de nós
«»
Após um dia tristonho
de mágoas e agonias
vem outro alegre e risonho:
são assim todos os dias
«»
São parvos, não rias deles,
deixa-os ser, que não são sós;
às vezes rimos daqueles
que valem mais do que nós
«»
Quando os Homens se convençam
Que à força nada se faz,
Serão f’lizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.
«»
Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.
«»
Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
- Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!