António Pereira
Nobre, nasceu no Porto, de uma
família da burguesia rural nortenha,
e da sua infância e adolescência
guardaria para sempre egolástrica
nostalgia.
No Porto ainda,
ligou-se a um grupo de jovens
escritores, entre os quais se
contavam Raul Brandão e Alberto de
Oliveira, que por ele nutriu uma
profunda amizade. Fracassados os
estudos de Direito, iniciados em
Coimbra, em 1888, parte, em 1890,
para Paris, onde frequentou a Escola
Livre de Ciências Políticas e a
Faculdade de Direito da Sorbonne,
nesta se licenciando em 1895.
Concorre então ao
lugar de Cônsul, mas a tuberculose,
que em 1900 o arrebataria
precocemente, já então o minava,
obrigando-o a iniciar as andanças, a
que só a morte pôs termo, em busca
da saúde que nem as montanhas da
Suíça, nem o clima de estufa da
Madeira, nem a viagem por mar até
Nova Iorque, ou as pensões do
Estoril e Belas lograram
restituir-lhe.
A organização
delicada e nervosa de António Nobre,
a dolorosa consciência crescente da
doença irremediável, marcaram-lhe o
temperamento (contemplativa e
pessimista), deram à sua obra o
carácter que a singulariza: um
profundo subjectivismo, um egotismo
expresso na sua exclusiva
preocupação de si próprio, mas de
grande poder de sugestão e
comunicação. Renovador do romantismo
nacionalista de Garrett, António
Pereira Nobre integra-se na corrente
decadentista-simbolista.
António Nobre figura entre os
grandes poetas da literatura
portuguesa de todos os tempos,
levando Fernando Pessoa a afirmar:
"Ele foi o primeiro a pôr em europeu
este sentimento português das almas
e das coisas, que tem pena de que
umas não sejam corpos, para lhes
poder fazer festas, e de que outras
não sejam gente, para poder falar
com elas". Muito ousada para a
época, a sua obra foi lida por
alguns como nacionalista e
tradicionalista, mas essas leituras
estão hoje bastante relativizadas,
valorizando a crítica mais recente
aspectos como aqueles que acima se
repertoriam. Não se trata de uma
obra solipsista e ensimesmada, antes
de representar um universo interior
e um Portugal que epitomizam o
sujeito finissecular e que expressam
uma crise de valores que em breve,
historicamente, há-de trazer
mudanças de vulto. E é, sobretudo,
como já se esboçou atrás, uma das
pedras de toque na gestação do
sujeito moderno: a memória não
permite recuperar o que se perdeu,
os heróis parecem condenados à
derrota, e Narciso tornou-se uma
figura deceptiva; em lugar dessa
felicidade perdida, o poeta
visionário ergue a forma possível de
resistência à ruína; a edificação da
Obra, assegurando a permanência do
seu nome e a do país que com tanta
subtileza soube retratar.
Sua obra:
“Só” – Paris 1892; “Despedidas”,
inclui um fragmento de “D.
Desejado”, poema
lírico-sebastianista de ambição
épica – 1902; “Primeiros versos” –
1921.
A sua correspondência encontra-se
reunida em vários volumes:
“Cartas Inéditas de António
Nobre” (introdução e notas de A.
Casais Monteiro – 1934); “Cartas e
Bilhetes-Postais a Justino de
Montalvão” com prefácio e notas de
Alberto de Serpa – 1956;
“Correspondência” (introdução e
notas de Guilherme de Castilho –
1967.
Vou sobre o Oceano
Vou sobre o oceano (o luar, de doce,
enleva!)
Por este mar de glória, em plena
paz.
Terras da Pátria somem-se na treva
Águas de Portugal ficam, atrás.
Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se
eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em
que jaz.
Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por
ela)
Na minha Nau Catrineta, adeus!
Paquete, meu paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! Pelo amor de Deus!
Trabalho e pesquisa de Carlos
Leite Ribeiro – Marinha Grande –
Portugal