Carlos Drummond de Andrade

 

Morreu a 17 de Agosto de 1987

 

 

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

 

Formatação: Iara Melo

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade, nasceu em ltabira, Estado de Minas Gerais a 31 de Outubro de 1902 e faleceu no Rio de Janeiro a 17 de Agosto de 1987. Fez os estudos secundários na capital Belo Horizonte, num colégio interno, onde permaneceu até que um período de doença levou-o de novo para ltabira. Voltou para outro internato, desta vez em Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. Pouco ficaria nessa escola: acusado de "insubordinação mental" - sabe-se lá o que poderia ser isso! -, foi expulso do colégio. Em 1921 começou a colaborar com o Diário de Minas. Em 1925, diplomou-se em farmácia, profissão pela qual demonstrou pouco interesse. Nessa época, já redactor do Diário de Minas, tinha contacto com os modernistas de São Paulo. Na Revista de Antropofagia publicou, em 1928, o poema "No meio do caminho", que provocaria muitos comentários.
Essencialmente poeta, a sua prosa excelente é marcada pelo humor e o cepticismo, onde não disfarça uma vaga esperança pela nossa condição de homens sós. Além de contista, é também crítico e cronista, lembrando a propósito que manteve durante anos uma crónica regular no jornal português “Jornal do Fundão”. Mas é como poeta que o autor se afirma numa atitude vigilante de depuração temática despojando-se do acidental, embora explorando o campo aparentemente prosaico das pequenas coisas quotidianas. Inserido no Modernismo brasileiro, bem depressa afastou da sua poesia todo o tipo de restrição que a escola lhe poderia impor e se afirmou inconfundivelmente pelo estilo e tratamento dos temas da sua preferência a ponto de atingir verdadeira serenidade e pureza clássica em algumas das suas composições.

 

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA - de Carlos Drummod de Andrade
          
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por
sina cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda 
 


“Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá”.
 

Carlos Drummond de Andrade é considerado um dos principais poetas da literatura brasileira devido à repercussão e alcance de suas obras. Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Formado em farmácia, durante a maior parte da vida foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguido até seu falecimento, que se deu em 1987 no Rio de Janeiro, doze dias após a morte de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade. Além de poesia, produziu livros infantis, contos e crónicas.


Drummond e o Modernismo brasileiro:
Drummond, como os modernistas, proclama a liberdade das palavras, uma libertação do idioma que autoriza modelação poética à margem das convenções usuais. Segue a libertação proposta por Mário de Andrade; com a instituição do verso livre, acentua-se a libertação do ritmo, mostrando que este não depende de um metro fixo (impulso rítmico). Se dividirmos o Modernismo numa corrente mais lírica e subjectiva e outra mais objectiva e concreta, Drummond faria parte da primeira, ao lado do próprio Mário de Andrade.


A poesia de Drummond:
Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estréias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De fato herda a liberdade lingüística, o verso livre, o metro livre, as temáticas quotidianas. Mas vai além. "A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi (1994).
Affonso Romano de Sant'ana costuma estabelecer que a poesia de Carlos Drummond a partir da dialéctica “eu x mundo”, desdobrando-se em três atitudes:
Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irónica
Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social
Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica
Sobre a poesia política, algo incipiente até então, deve-se notar o contexto em que Drummond escreve. A civilização que se forma a partir da Guerra Fria está fortemente amarrada ao neocapitalismo, à tecnocracia, às ditaduras de toda sorte, e ressoou dura e secamente no eu artístico do último Drummond, que volta, com frequência, à aridez desenganada dos primeiros versos: A poesia é incomunicável / Fique quieto no seu canto. / Não ame. No final da década de 1980, o erotismo ganha espaço na sua poesia até seu último livro.
Temas típicos da poesia de Drummond:
O Indivíduo: "um eu todo retorcido". o indivíduo na poesia de Drummond é complicado, torturado, estilhaçado.
A Terra Natal: a relação com o lugar de origem, que o indivíduo abandona.
A Família: O indivíduo interroga, sem alegria, mas sem sentimentalismo, a estranha realidade familiar, a família que existe nele próprio.
Os Amigos: "cantar de amigos", (título que parafraseia com as Cantigas de Amigo). Homenagens a figuras que o poeta admira, próximas ou distantes, de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, de Machado de Assis a Charles Chaplin.
O Choque Social. O espaço social onde se expressa o indivíduo e as suas limitações face aos outros.
O Amor: Nada romântico ou sentimental, o amor em Drummond é uma amarga forma de conhecimento dos outros e de si próprio
A Poesia. O fazer poético aparece como reflexão ao longo da sua poesia.
Exercícios lúdicos, ou poemas-piada. Jogos com palavras, por vezes de aparente inocência naïf.
A Existência: a questão de estar-no-mundo...

Depois do jantar - de Carlos Drummond de Andrade

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.
O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.
— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?
— Não fumo, respondeu o outro.
Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:
— 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.
— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.
— Como?
— Já disse. Vai passando o relógio.
— Mas ...
— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.
— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.
O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.
— Agora posso continuar?
— Continuar o quê?
— O passeio. Eu estava passeando, não viu?
— Vi, sim. Espera um pouco.
— Esperar o quê?
— Passa a carteira.
— Mas...
— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?
— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar...
— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?
— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.
— Diga.
— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.
— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?
— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?
— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?
— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.
— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.
— Não precisa, não precisa.
— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.
— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.
— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?
— Claro.
— Você, o assaltado. Certo?
— Confere.
— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.
— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.
— Tá bom, não se discute.
— Vamos, procure nos... nos escaninhos.
— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.
— Deixe ao menos tirar os documentos?
— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.
—  Nem uma de quinhentos? Uma só.
—  Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.
—  Nem eu ia aceitar dinheiro de você.
— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.
Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.
(Do livro "Os dias lindos").


Sua Obra
Poesia: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); A Rosa do Povo (1945); Claro Enigma (1951); Fazendeiro do ar (1954); Quadrilha (1954); Viola de Bolso (1955); Lição de Coisas (1964); Boitempo (1968); A falta que ama (1968); Nudez (1968); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo (Boitempo II) (1973); A Visita (1977); Discurso de Primavera (1977); Algumas Sombras (1977); O marginal clorindo gato (1978); Esquecer para Lembrar (Boitempo III) (1979); A Paixão Medida (1980); Caso do Vestido (1983); Corpo (1984); Amar se aprende amando (1985); Poesia Errante (1988); O Amor Natural (1992); Farewell (1996); Os ombros suportam o mundo.
Antologia poética: 50 poemas escolhidos pelo autor (1956); Antologia Poética (1962); Antologia Poética (1965); Seleta em Prosa e Verso (1971); Amor, Amores (1975); Carmina drummondiana (1982); Boitempo I e Boitempo II (1987); A última pedra no meu caminho ( 1950).
Infantis: O Elefante (1983); História de dois amores (1985); O pintinho (1988).
Prosa: Confissões de Minas (1944); Contos de Aprendiz (1951); Passeios na Ilha (1952); Fala, amendoeira (1957); A bolsa & a vida (1962); Cadeira de balanço (1966); Caminhos de João Brandão (1970); O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso (1972); De notícias & não-notícias faz-se a crônica (1974); Os dias lindos (1977); 70 historinhas (1978); Contos plausíveis (1981); Boca de luar (1984); O observador no escritório (1985); Tempo vida poesia (1986); Moça deitada na grama (1987); O avesso das coisas (1988); Auto-retrato e outras crônicas (1989).
 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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