Chico Buarque,

Nasceu a 19 de Junho de 1944

Trabalho e Pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

Arte Final: Iara Melo

 

 

Chico Buarque, nome por que é conhecido o artista brasileiro Francisco Buarque de Holanda, nasceu no Rio de Janeiro a 19 de Junho de 1944. Compositor e cantor, adquire notoriedade com a canção “A Banda” em 1966, a que se seguiram dezenas de outras em que o lirismo, a sensualidade e a preocupação social são as principais vertentes e onde é bem patente o poder quase mágico da palavra. Para o teatro escreveu, entre outras, “Roda Viva” em 1967 e Ópera do Malandro em 1979. Chico Buarque chegou a ingressar no curso de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU) em 1963. Cursou dois anos e parou em 1965, quando começou a se dedicar à carreira artística. Neste ano, lançou Sonho de Carnaval, inscrita no I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, transmitida pela TV Excelsior, além de Pedro Pedreiro, música fundamental para experimentação do modo como viria a trabalhar os versos, com rigoroso trabalho estilístico morfológico e politização, mais significativamente na década de 1970. A primeira composição séria, Canção dos Olhos, é de 1961. Conheceu Elis Regina, que havia vencido o Festival de Música Popular Brasileira (1965) com a canção Arrastão, mas a cantora acabou desistindo de gravá-lo devido à impaciência com a timidez do compositor. Chico Buarque revelou-se ao público brasileiro quando ganhou o mesmo Festival, no ano seguinte (1966), transmitido pela TV Record, com A Banda, interpretada por Nara Leão (empatou em primeiro lugar com Disparada, de Geraldo Vandré). No entanto, Zuza Homem de Mello, no livro A Era dos Festivais - Uma Parábola revelou que a banda venceu o festival. O musicólogo preservou por décadas as folhas de votação do festival. Nelas, consta que a música "A Banda" ganhou a competição por 7 a 5. Chico, ao perceber que ganharia, foi até o presidente da comissão e disse não aceitar a derrota de Disparada. Caso isso acontecesse, iria na mesma hora entregar o prêmio ao concorrente. No dia 10 de Outubro de 1966, data da final, iniciou o processo que designaria Chico Buarque como unanimidade nacional, alcunha criada por Millôr Fernandes. Canções como Ela e sua Janela, de 1966, começam a demonstrar a face lírica do compositor. Com a observação da sociedade, como nas diversas vezes em que citação do vocábulo janela está presente em suas primeiras canções: Juca, Januária, Carolina, A Banda e Madalena foi pro Mar. As influências de Noel Rosa podem ser notadas em A Rita, 1965, citado na letra, e Ismael Silva, como em marchas-ranchos.
 
Canções de Chico Buarque:
A Aurora de Nova York; A Banda; A Bela e a Fera; A Cidade dos Artistas; A Cidade Ideal; A Galinha; A Ilha; A Mais Bonita; A Moça Do Sonho; A Mulher de Cada Porto; A Mulher do Aníbal; A Noiva Da Cidade; A Ostra e o Vento; A Permuta Dos Santos; A Rita; A Rosa; A Televisão; A Vida do Viajante; A Violeira; A Visinha do Lado; A Volta do Malandro; Abandono; Acorda Amor; Agora Falando Sério; Ai, Se Eles Me Pegam Agora; Almanaque; Alô, liberdade; Amanhã, ninguém sabe; Amigo É Pra Essas Coisas; Amor Barato; Anos dourados; Apesar De Você; Aquela Mulher; As Minhas Meninas; Até o Fim; Até Segunda-Feira; Bandolim; Bárbara; Beatriz; Bem-Querer; Benvinda; Biscate; Boi Voador Não Pode; Bolsa de Amores;  Caçada; Cala a Boca, Bárbara; Cálice; Canção de Natal; Canção de Pedroca; Canção dos olhos; Cantiga de Acordar; Cantores Do Rádio; Capital Do Samba; Cara a Cara; Carioca; Carolina; Carta ao Tom; Cecília; Cem Mil Réis; Chão de Esmeraldas; Chega De Mágoa; Choro Bandido; Cobra de Vidro; Cobras E Lagartos; Com Açúcar, Com Afeto; Como Um Samba De Adeus; Construção; Conversa de Botequim; Copo Vazio; Cordão; Corrente; Cuidado Com a Outra; De Volta ao Samba; Deixe a Menina; Desafio do Malandro; Deus Lhe Pague; Dinheiro em penca; Divina Dama; Dona Carola; Doze Anos; Ela desatinou; Ela é Dançarina; Ela e Sua Janela; Ela faz cinema; Ensaio Geral; Esconde-Esconde; Essa Moça Tá Diferente; Essa Passou; Estação Derradeira; Estamos Aí; Eu Quero Um Samba; Eu Sou A árvore; Eu Te Amo; Fado Tropical; Fantasia; Feijoada Completa; Feito Mistério; Fica; Filosofia;  Flor da Idade; Foi Assim; Folhetim; Fora De Hora; Forrobodó; Fortaleza; Frevo Diabo; Futuros Amantes; Garota de Ipanema; Gente Humilde; Gota d'água; História De Uma Gata; Hoje; Hollywood; Homenagem Ao Malandro; Iolanda; Iracema Voou; Januária; Lábia; Lágrima; Ligia; Linguagem do morro; Logo Eu?; Lola; Lua Cheia; Ludo Real; Lugar de Cobra É No Chão; Luísa; Malandro Quando Morre; Mambembe; Maninha; Mano a Mano; Mar e Lua; Marcha Para um Dia de Sol; Me Deixe Mudo; Meia-noite; Meio-dia Meia-lua; Meninos, Eu Vi; Meu Caro Amigo; Meu Refrão; Mil Perdões; Minha História; Morena de Angola; Morena dos Olhos D'água; Morro Dois Irmãos; Mulher, Vou Dizer Quanto Eu Te Amo; Mulheres de Atenas; Noite De Verão; Noite dos Mascarados; Novo Amor; O Circo Místico; O Jumento; O Que Será; O Rei De Ramos; O Velho; Olê, Olá; Olha; Olha Maria; Olhos Nos Olhos; Onde é Que Você Estava; Ópera; Outra Noite; Outros Sonhos; Palavra de Mulher; Pássara; Pedaço de Mim; Pois é; Porque Era Ela, Porque Era Eu; Qualquer Amor; Qualquer Canção; Quando o Carnaval Chegar; Quem Te Viu, Quem Te Vê; Querido Amigo; Renata Maria; Roda Viva; Romance; Rosa-dos-Ventos; Sábado a Noite; Sabiá; Samba da Boa Vontade; Samba do Grande Amor; Samba e Amor; Se Eu Fosse Teu Patrão; Sem Açúcar; Sem Compromisso; Sem Fantasia; Sem Você; Sempre; Sempre em Frente; Sentimental; Será que Cristina Volta?; Sílvia; Sinuca do Malandro; Sob Medida; Sol e Chuva; Soneto; Sonho de um Carnaval; Sonho Impossível; Sou Eu; Tanto Amar; Tanto Mar; Te Amo; Teresinha; Tira as Mãos de Mim; Tropicália; Um Dia de Cão; Um Tempo Que Passou; Uma Menina; Uma Palavra; Vai Passar; Vai Trabalhar Vagabundo; Valsa Brasileira; Valsa para uma Menininha; Valsa Rancho; Vem Logo; Vence na Vida quem diz Sim; Vida; Viver do Amor; Você não entende nada; Você Não Ouviu; Você não sabe amar; Você vai me Seguir; Voltei a Cantar; Xote De Navegação; Yolanda.


 
A Banda
Chico Buarque/1966
 
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
 


Chico Buarque, nome artístico de Francisco Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944), é um músico, dramaturgo e escritor brasileiro. Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, iniciou sua carreira na década de 1960, destacando-se em 1966, quando venceu, com a canção A Banda, o Festival de Música Popular Brasileira. Em 1969, com a crescente repressão da Ditadura Militar no Brasil, se auto-exilou na Itália, tornando-se, ao retornar, um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Na carreira literária, foi ganhador do Prêmio Jabuti, pelo livro Budapeste, lançado em 2004.

Casou-se com e separou-se da atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas: Sílvia, que é atriz e casada com Chico Diaz, Helena, casada com o percussionista Carlinhos Brown e Luísa. É irmão das cantoras Miúcha, Ana de Hollanda e Cristina. Ao contrário do que tem sido propagado na internet, Aurélio Buarque era apenas um primo distante do pai de Chico.

Ameaçado pelo Regime Militar no Brasil, esteve exilado na Itália em 1969, onde chegou a fazer espetáculos com Toquinho. Nessa época teve suas canções Apesar de você (que dizem ser uma alusão negativa ao presidente Emílio Garrastazu Médici, mas que Chico sustenta ser em referência à situação) e Cálice proibidas pela censura brasileira. Adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide, com o qual compôs apenas três canções: Milagre Brasileiro, Acorda amor e Jorge Maravilha. Na Itália Chico tornou-se amigo do cantor Lucio Dalla, de quem fez a belíssima Minha História, versão em português (1970) da canção Gesù Bambino (título verdadeiro 4 marzo 1943), de Lucio Dalla e Paola Palotino.

Ao voltar ao Brasil continuou com composições que denunciavam aspectos sociais, econômicos e culturais, como a célebre Construção ou a divertida Partido Alto. Apresentou-se com Caetano Veloso (que também foi exilado, mas na Inglaterra) e Maria Bethânia. Teve outra de suas músicas associada a críticas a um presidente do Brasil. Julinho da Adelaide, aliás, não era só um pseudônimo, mas sim a forma que o compositor encontrou para driblar a censura, então implacável ao perceber seu nome nos créditos de uma música. Para completar a farsa e dar-lhe ares de veracidade, Julinho da Adelaide chegou a ter cédula de identidade e até mesmo a conceder entrevista a um jornal da época.

Uma das canções de Chico Buarque que criticam a ditadura é uma carta em forma de música, uma carta musicada que ele fez em homenagem ao Augusto Boal, que vivia no exílio, quando o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.

A canção se chama Meu Caro Amigo e foi dirigida a Boal, que na época estava exilado em Lisboa. A canção foi lançada originalmente num disco de título quase igual, chamado Meus Caros Amigos, do ano de 1976.


Nordeste já
Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura, cantou, ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira de We Are the World, o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985) abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto de criação coletiva com as canções Chega de mágoa e Seca d´água. Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi no entanto criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.


Obra Teatral:
Em 1965, a pedido de Roberto Freire (o escritor e terapeuta, não confundir com o político), diretor do Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA), na PUC-SP, Chico musicou o poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua presença no teatro brasileiro tem sido constante:
Roda viva
A peça Roda viva foi escrita por Chico Buarque no final de 1967 e estreou no Rio de Janeiro, no início de 1968, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, com Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio Pedro nos papéis principais. A temporada no Rio foi um sucesso, mas a obra virou um símbolo da resistência contra a ditadura durante a temporada da segunda montagem, com Marília Pêra e Rodrigo Santiago. Um grupo de cerca de 110 pessoas do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e depredou o cenário. No dia seguinte, Chico Buarque estava na plateia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa de Roda viva e contra a censura nos palcos brasileiros. Chico disse no documentário Bastidores, que pode ter havido um erro, e que a peça que o comando deveria invadir acontecia em outro espaço do teatro.

Calabar: o Elogio da Traição, foi escrita no final de 1973, em parceria com o cineasta Ruy Guerra e dirigida por Fernando Peixoto. A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Era uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de 30 mil dólares e empregava mais de 80 pessoas. Como sempre, a censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome "Calabar" e proibiu que a proibição fosse divulgada. O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme. Seis anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.

Em 1975, Chico escreveu com Paulo Pontes a peça Gota d'Água, a partir de um projeto de Oduvaldo Viana Filho, que já havia feito uma adaptação de Medeia, de Eurípedes, para a televisão. A tragédia urbana, em forma de poema com mais de quatro mil versos, tem como pano de fundo as agruras sofridas pelos moradores de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-dia, e, no centro, a relação entre Joana e Jasão, um compositor popular cooptado pelo poderoso empresário Creonte. Jasão termina por largar Joana e os dois filhos para casar-se com Alma, a filha do empresário. A primeira montagem teve Bibi Ferreira no papel de Joana e a direção de Gianni Ratto. O saudoso Luiz Linhares foi um dos atores daquela primeira montagem.

O texto da Ópera do malandro é baseado na Ópera dos mendigos (1728), de John Gay, e na Ópera de três vinténs (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho e Carlos Gregório.

A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito valeram os filmes Ópera de três vinténs, de Pabst, e Getúlio Vargas, de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort O teatro e sua realidade, as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Participou ainda o professor Manuel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três óperas. O professor Werneck Viana contribuiu posteriormente com observações muito esclarecedoras. E Maurício Arraes juntou-se ao grupo, já na fase de transposição do texto para o palco. A peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.

Inspirado no poema do modernista Jorge de Lima, Chico e Edu Lobo compuseram juntos a canção homônima para este espetáculo. Em 1983, e durante os dois anos seguintes, viajaram o país apresentando este que foi um dos maiores e mais completos espetáculos já realizados. Um disco coletivo foi lançado pela Som Livre para registrar a obra, com interpretações de grandes nomes da MPB.
 

 

 

 

Fundo Musical: Vai Passar

Intérprete: Chico Buarque

Arte Final: Iara Melo

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