Assim que D. João l
subiu ao trono, nomeou
D. Nuno Álvares Pereira
para o alto cargo de
Condestável do Reino,
que quer dizer chefe
supremo de todos os
exércitos, e preparou-se
para continuar a guerra
com Castela.
Entretanto, um troço de
castelhanos invadiu
Portugal e, tendo
passado por Almeida e
Pinhel, chegou até Viseu.
Um hoste disciplinada de
Portugueses, comandada
por Martim Vasques da
Cunha e Gonçalo
Coutinho, partiu do
inimigo que foi
completamente derrotado
nas proximidades de
Trancoso. Esta batalha
ficou conhecida na
história, por Trancoso.
João 1 de Castela, não
se dando como vencido,
resolveu invadir
novamente Portugal com
um poderoso exército,
formado por 32 mil
combatentes. Entrando
pela Beira, e depois de
ter subjugado os
patriotas de algumas
terras por onde passou,
seguiu em direcção a
Leiria. D. João l e D.
Nuno, reunindo as suas
melhores tropas, num
total de pouco mais de 6
mil homens, no meio dos
quais sobressaía a Ala
dos Namorados (*)
resolveram impedir o
avanço dos castelhanos,
para o que tomaram
posições de combate nos
campos de Aljubarrota.
(*) (a Ala dos
Namorados, na qual
seguiram Rui de
Vasconcelos e Mem
Rodrigues, era formada
por estudantes da
Universidade de
Coimbra).
Os dois exércitos
encontram-se no dia 14
de Agosto de 1385. Em
face da grande diferença
de número entre os
combatentes, D. Nuno
Álvares Pereira anima
sua gente com palavras
de conforto e
patriotismo. Trava-se
depois uma grande
batalha (Aljubarrota)
que terminou com derrota
completa dos invasores.
O rei de Castela,
abandonou o campo mesmo
antes de a luta
terminar, fugindo a toda
a pressa para Santarém e
dali para Lisboa, onde
embarcou para Sevilha.
Portugal assegurou nesse
dia memorável a sua
independência – estava
livre do perigo
castelhano.
Os Lusíadas – Canto
IV
14 - Nuno Álvares
Pereira
"Mas nunca foi que este
erro se sentisse
No forte Dom Nuno
Alvares; mas antes,
Posto que em seus
irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades
inconstantes, Aquelas
duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras
que elegantes,
A mão na espada, irado,
e não facundo,
Ameaçando a terra, o
mar e o mundo:
15 - Fala de Nuno
Álvares Pereira
— "Como! Da gente
ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse
o pátrio Marte?,
Como! Desta província,
que princesa
Foi das gentes na
guerra em toda a parte,
Há-de sair quem negue
ter defesa?
Quem negue a Fé, o
amor, o esforço e arte
De Português, e por
nenhum respeito
O próprio Reino queira
ver sujeito?
16 - "Como! Não seis
vós inda os descendentes
Daqueles, que debaixo
da bandeira
Do grande Henriques,
feros e valentes,
Vencestes esta gente
tão guerreira?
Quando tantas
bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de
maneira
Que sete ilustres
Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa
que tiveram?
17 - "Com quem foram contino
sopeados
Estes, de quem o estais
agora vós,
Por Dinis e seu filho,
sublimados,
Senão co'os vossos fortes
pais, e avôs?
Pois se com seus descuidos,
ou pecados,
Fernando em tal fraqueza
assim vos pôs,
Torne-vos vossas forças o
Rei novo:
Se é certo que co'o Rei se
muda o povo.
18 - "Rei tendes tal, que se
o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora
alevantastes,
Desbaratareis tudo o que
quiserdes,
Quanto mais a quem já
desbaratasses.
E se com isto enfim vos não
moverdes
Do penetrante medo que
tomastes,
Atai as mãos a vosso vão
receio,
Que eu só resistirei ao jugo
alheio.
19 - "Eu só com meus
vassalos, e com esta
(E dizendo isto arranca meia
espada)
Defenderei da força dura e
infesta
A terra nunca de outrem
sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria
mesta,
Da lealdade já por vós
negada,
Vencerei (não só estes
adversários)
Mas quantos a meu Rei forem
contrários."—
20 - Bem como entre os
mancebos recolhidos
Em Canúsio, relíquias
sós de Canas,
Já para se entregar
quase movidos
A fortuna das forças
Africanas,
Cornélio moço os faz
que, compelidos
Da sua espada, jurem
que as Romanas
Armas não deixarão,
enquanto a vida
Os não deixar, ou nelas
for perdida:
21 - Preparativos de
Guerra
"Destarte a gente força
e esforça Nuno,
Que, com lhe ouvir as
últimas razões,
Removem o temor frio,
importuno,
Que gelados lhe tinha
os corações.
Nos animais cavalgam de
Neptuno,
Brandindo e volteando
arremessões;
Vão correndo e gritando
a boca aberta:
—"Viva o famoso Rei que
nos liberta!"—
22 - "Das gentes
populares, uns aprovam
A guerra com que a
pátria se sustinha;
Uns as armas alimpam e
renovam,
Que a ferrugem da paz
gastadas tinha;
Capacetes estofam,
peitos provam,
Arma-se cada um como
convinha;
Outros fazem vestidos
de mil cores,
Com letras e tenções de
seus amores.
23 - "Com toda esta
lustrosa companhia
Joane forte sai da
fresca Abrantes,
Abrantes, que também da
fonte fria
Do Tejo logra as águas
abundantes.
Os primeiros armígeros
regia
Quem para reger era os
mui possantes
Orientais exércitos,
sem conto,
Com que passava Xerxes
o Helesponto.
24 - Ordem de batalha
"Dom Nuno Alvares digo,
verdadeiro
Açoute de soberbos
Castelhanos
Como já o fero Huno o
foi primeiro
Para Franceses, para
Italianos.
Outro também famoso
cavaleiro,
Que a ala direita tem
dos Lusitanos,
Apto para mandá-los, e
regê-los,
Mem Rodrigues se diz de
Vasconcelos.
25 - "E da outra ala,
que a esta corresponde,
Antão Vasques de Almada
é capitão,
Que depois foi de
Abranches nobre Conde,
Das gentes vai regendo
a sestra mão.
Logo na retaguarda não
se esconde
Das quinas e castelos o
pendão,
Com Joane, Rei forte em
toda parte,
Que escurecendo o preço
vai de Alarte.
26 - "Estavam pelos
muros, temerosas,
E de um alegre medo
quase frias,
Rezando as mães, irmãs,
damas e esposas,
Prometendo jejuns e
romarias.
Já chegam as esquadras
belicosas
Defronte das amigas
companhias,
Que com grita
grandíssima os recebem,
E todas grande dúvida
concebem.
27 - "Respondem as
trombetas mensageiras,
Pífaros sibilantes e
atambores;
Alférezes volteam as
bandeiras,
Que variadas são de
muitas cores.
Era no seco tempo, que
nas eiras
Ceres o fruto deixa aos
lavradores,
Entra em Astreia o Sol,
no mês de Agosto,
Baco das uvas tira o
doce mosto.
28 - Começa a batalha
"Deu sinal a trombeta
Castelhana,
Horrendo, fero, ingente
e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro,
e Guadiana
Atrás tornou as ondas
de medroso;
Ouviu-o o Douro e a
terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo
duvidoso;
E as mães, que o som
terríbil escutaram,
Aos peitos os filhinhos
apertaram.
29 - "Quantos rostos ali
se vêem sem cor,
Que ao coração acode o
sangue amigo!
Que, nos perigos
grandes, o temor
É maior muitas vezes
que o perigo;
E se o não é, parece-o;
que o furor
De ofender ou vencer o
duro amigo
Faz não sentir que é
perda grande e rara,
Dos membros corporais,
da vida cara.
30 - Proeza de Nuno
Álvares Pereira
"Começa-se a travar a
incerta guerra;
De ambas partes se move
a primeira ala;
Uns leva a defensão da
própria terra,
Outros as esperanças de
ganhá-la;
Logo o grande Pereira,
em quem se encerra
Todo o valor, primeiro
se assinala:
Derriba, e encontra, e
a terra enfim semeia
Dos que a tanto
desejam, sendo alheia.
31 - "Já pelo espesso ar
os estridentes
Farpões, setas e vários
tiros voam;
Debaixo dos pés duros
dos ardentes
Cavalos treme a terra,
os vales soam;
Espedaçam-se as lanças;
e as frequentes
Quedas coas duras
armas, tudo atroam;
Recrescem os amigos
sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que
os apouca.
32 - "Eis ali seus
irmãos contra ele vão,
(Caso feio e cruel!)
mas não se espanta,
Que menos é querer
matar o irmão,
Quem contra o Rei e a
Pátria se alevanta:
Destes arrenegados
muitos são
No primeiro esquadrão,
que se adianta
Contra irmãos e
parentes (caso estranho!)
Quais nas guerras civis
de Júlio e Magno.
33 - Sertório.
Coriolano. Catilina.
"Ó tu, Sertório, ó
nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros
dos antigos,
Que contra vossas
pátrias, com profano
Coração, vos fizestes
inimigos,
Se lá no reino escuro
de Sumano
Receberdes gravíssimos
castigos,
Dizei-lhe que também
dos Portugueses
Alguns tredores houve
algumas vezes.
34 - "Rompem-se aqui
dos nossos os primeiros,
Tantos dos inimigos a
eles vão!
Está ali Nuno, qual
pelos outeiros
De Ceita está o
fortíssimo leão,
Que cercado se vê dos
cavaleiros
Que os campos vão
correr de Tetuão:
Perseguem-no com as
lanças, e ele iroso,
Torvado um pouco está,
mas não medroso.
35 - "Com torva vista
os vê, mas a natura
Ferina e a ira não lhe
compadecem
Que as costas dê, mas
antes na espessura
Das lanças se
arremessa, que recrescem.
Tal está o cavaleiro,
que a verdura
Tinge co'o sangue
alheio; ali perecem
Alguns dos seus, que o
ânimo valente
Perde a virtude contra
tanta gente.
36 - Dom João I
"Sentiu Joane a afronta
que passava
Nuno, que, como sábio
capitão,
Tudo corria e via, e a
todos dava,
Com presença e
palavras, coração.
Qual parida leoa, fera
e brava,
Que os filhos que no
ninho sós estão,
Sentiu que, enquanto
pasto lhe buscara,
O pastor de Massília
lhos furtara;
37 - "Corre raivosa, e
freme, e com bramidos
Os montes Sete Irmãos
atroa e abala:
Tal Joane, com outros
escolhidos
Dos seus, correndo
acode à primeira ala:
—"Ó fortes
companheiros, ó subidos
Cavaleiros, a quem
nenhum se iguala,
Defendei vossas terras,
que a esperança
Da liberdade está na
vossa lança.
38 - "Vedes-me aqui, Rei
vosso, e companheiro,
Que entre as lanças, e
setas, e os arneses
Dos inimigos corro e
vou primeiro:
Pelejai, verdadeiros
Portugueses!"—
Isto disse o magnânimo
guerreiro,
E, sopesando a lança
quatro vezes,
Com força tira; e,
deste único tiro,
Muitos lançaram o
último suspiro.
39 - "Porque eis os
seus acesos novamente
Duma nobre vergonha e
honroso fogo,
Sobre qual mais com
ânimo valente
Perigos vencerá do
Márcio jogo,
Porfiam: tinge o ferro
o sangue ardente;
Rompem malhas primeiro,
e peitos logo:
Assim recebem junto e
dão feridas,
Como a quem já não dói
perder as vidas.
40 - Perdas Castelhanas
"A muitos mandam ver o
Estígio lago,
Em cujo corpo a morte e
o ferro entrava:
O Mestre morre ali de
Santiago,
Que fortissimamente
pelejava;
Morre também, fazendo
grande estrago,
Outro Mestre cruel de
Calatrava;
Os Pereiras também
arrenegados
Morrem, arrenegando o
Céu e os fados.
41 - "Muitos também do
vulgo vil sem nome
Vão, e também dos
nobres, ao profundo,
Onde o trifauce Cão
perpétua fome
Tem das almas que
passam deste mundo.
E porque mais aqui se
amanse e dome
A soberba do amigo
furibundo,
A sublime bandeira
Castelhana
Foi derribada aos pés
da Lusitana.
42 - Desbarato do rei
de Castela
"Aqui a fera batalha se
encruece
Com mortes, gritos,
sangue e cutiladas;
A multidão da gente que
perece
Tem as flores da
própria cor mudadas;
Já as costas dão e as
vidas; já falece
O furor e sobejam as
lançadas;
Já de Castela o Rei
desbaratado
Se vê, e de seu
propósito mudado.
43 - "O campo vai
deixando ao vencedor,
Contente de lhe não
deixar a vida.
Seguem-no os que
ficaram, e o temor
Lhe dá, não pés, mas
asas à fugida.
Encobrem no profundo
peito a dor
Da morte, da fazenda
despendida,
Da mágoa, da desonra, e
triste nojo
De ver outrem triunfar
de seu despojo.
44 - "Alguns vão
maldizendo e blasfemando
Do primeiro que guerra
fez no mundo;
Outros a sede dura vão
culpando
Do peito cobiçoso e
sitibundo,
Que, por tomar o
alheio, o miserando
Povo aventura às penas
do profundo,
Deixando tantas mães,
tantas esposas
Sem filhos, sem
maridos, desditosas.
45 - Pasa Nuno Álvares
ao Alentejo e Andaluzia
"O vencedor Joane
esteve os dias
Costumados no campo, em
grande glória;
Com ofertas depois, e
romarias,
As graças deu a quem
lhe deu vitória.
Mas Nuno, que não quer
por outras vias
Entre as gentes deixar
de si memória
Senão por armas sempre
soberanas,
Para as terras se passa
Transtaganas.
46 - "Ajuda-o seu
destino de maneira
Que fez igual o efeito
ao pensamento,
Porque a terra dos
Vândalos fronteira
Lhe concede o despojo e
o vencimento.
Já de Sevilha a Bética
bandeira
E de vários senhores
num momento
Se lhe derriba aos pés,
sem ter defesa
Obrigados da força
Portuguesa.
47 - Pazes
"Destas e outras
vitórias longamente
Eram os Castelhanos
oprimidos,
Quando a paz, desejada
já da gente,
Deram os vencedores aos
vencidos,
Depois que quis o Padre
omnipotente
Dar os Reis inimigos
por maridos
As duas ilustríssimas
Inglesas,
Gentis, formosas,
ínclitas princesas.
Após a
Batalha de Aljubarrota, era
altura de D. Nuno passar à
ofensiva. Saindo de Estremoz
com um reduzido exército,
invadiu o reino de Castela
pela fronteira de Badajoz e
derrotou mais uma vez os
castelhanos na batalha de
Valverde, em Outubro de
1385.
As hostilidades com Castela,
continuaram ainda durante
alguns anos. O rei de
Castela, porém, sentindo-se
cada vez mais enfraquecido,
propôs a paz, que só veio a
assinar-se em 1411. Assim
terminou a Guerra da
Independência, que durara 27
anos.
A nossa aliança com a
Inglaterra, estabelecida em
1373, por D. Fernando l, foi
confirmada e reforçada por
D. João l, em 1386, pelo
Tratado de Windson. Devido a
este novo tratado de aliança
e amizade, ficou combinado o
casamento do rei de Portugal
com D. Filipa de Lencastre,
filha do duque de Lencastre,
casamento que se efectuou em
1387. A rainha D. Filipa foi
um perfeito modelo de raras
virtudes, tendo contribuído
muito para o brilho e
felicidade da Corte
Portuguesa e esmerada
educação de seus filhos,
que, por seus grandes
feitos, vieram a tornar-se
todos célebres: D. Duarte,
que sucedeu a seu pai e foi
um bom rei e distinto
escritor; D. Pedro, que se
revelou um grande estadista
pelo seu bom governo durante
a menoridade de seu sobrinho
D. Afonso V; D. Henrique,
que fundou a Escola Náutica
de Sagres e foi o iniciador
dos nossos descobrimentos
marítimos; e D. Fernando, a
quem chamam “santo”, pelos
martírios que padeceu em Fez
(Marrocos).
D. João l casou um filho
natural, D. Afonso, com D.
Beatriz, filha única de D.
Nuno Álvares Pereira, tendo
então os cônjuges recebido o
condado de Barcelos, em
1401.
Ao mesmo D. Afonso, foi dado
mais tarde o título de Duque
de Bragança, Casa reinante
na futura 4ª Dinastia.
“De união anterior ao
casamento, com uma Inês
Pires teve dois filhos, D.
Afonso (1380-1461), que foi
8º conde de Barcelos e 1º
Duque de Bragança, e D.
Beatriz (1382-1439).
Inês Pires: Amante do Mestre
de Avis e depois D. João I,
era filha de Pêro Esteves e
de Maria Anes e natural de
Veiros, segundo uns, ou ou
de Portel, segundo outros.
Dos amores com o Mestre de
Avis nasceu D. Afonso, que
depois casou com D. Beatriz
filha de D. Nuno Álvares
Pereira . D. Afonso foi o 1º
Duque de Bragança. Daqui
procede a casa de Bragança.
Inês Pires foi depois
comendadeira de Santos.
Dizem os cronistas que Pêro
Esteves, sapateiro judeu,
desgostoso com os amores da
filha nunca mais cortou as
barbas e daí o povo o
alcunhou de "Barbadão".
Diz ainda a tradição que
Pêro Esteves concebeu um
plano para matar o Mestre de
Avis, desistindo do intento
por saber que D. João I era
o primeiro a respeitar o seu
desgosto”.
Portugal sentia necessidade
de expandir-se. Os filhos
mais velhos de D. João l, D.
Duarte, D. Pedro e D.
Henrique, querendo mostrar o
seu valor militar,
resolveram continuar a luta
com os mouros, em África.
Por isso, lembraram ao pai a
conquista de Ceuta, cidade
muçulmana, rica e
importante, ao norte daquele
continente. Uma esquadra de
cerca de 200 navios, levando
a bordo a melhor gente de
Portugal, e em que seguiram
o próprio rei, aqueles seus
três filhos e o valoroso
Condestável D. Nuno, largou
do Tejo no dia 25 de Julho
de 1415. No dia 21 de Agosto
do referido ano estava às
portas de Ceuta. Nesse mesmo
dia procedeu-se ao
desembarque, e a praça foi
tomada de assalto, muito se
tendo distinguido na luta os
infantes Duarte, Pedro e
Henrique, que ali foram
armados cavaleiros.
“A conquista de Ceuta foi
preparada com a antecedência
necessária, durante alguns
anos em que se recolheram
várias informações sobre a
cidade. Era rica e formosa.
O Infante D. Henrique,
natural do Porto, organiza
nesta cidade, uma esquadra
que se irá juntar à do pai,
D. João I que em 1415,
comandou uma expedição com
200 navios levando 19 000
combatentes e 1700
marinheiros que o levou à
conquista de Ceuta”.
O Infante D. Henrique,
depois de voltar de Ceuta,
sempre dominado pelo
sentimento patriótico de
descobrir e tomar novas
terras, abandonou a Corte e
retirou-se para Sagres, onde
fundou uma escola náutica.
Aí aprenderam os marinheiros
portugueses a arte de
navegar. Foi esta escola,
mantida à custa dos próprios
rendimentos do Infante, que
originou a Epopeia Marítima
dos nossos descobrimentos.
“Como pôde um pequeno país,
com menos de dois milhões de
habitantes, realizar a
Epopeia dos Descobrimentos
por “Mares Nunca Dantes
Navegados”?
Portugal foi o
pioneiro dos descobrimentos
empreendidos pela Europa
cristã nos séculos XV e XVI,
seguido pela Espanha e
depois por outras Nações.
Até fins do
século XIV, além da Europa
cristã, o conhecimento
máximo do Planeta
correspondia a cerca de 1/4
de toda a Terra e
encontrava-se grosso modo na
posse da civilização
islâmica. Ao longo do século
XVI, o conhecimento do orbe
terrestre aproxima-se da sua
totalidade e passa a ser
influenciado decisivamente
pela Europa cristã.
Essa Epopeia
começa com a conquista de
Ceuta, na África, em 1415.
Depois vem a exploração das
ilhas da Madeira e dos
Açores, nas décadas de 20 e
30. Segue-se o
reconhecimento da costa
africana, em 1434, tendo
sido ultrapassado o Cabo
Bojador, atingindo-se o
extremo sul do Continente
pelo Cabo da Boa Esperança,
em 1487. Logo depois foi
aberta a rota das Índias, em
1497, por Vasco da Gama.
O primeiro
empreendimento espanhol data
de 1492, com Cristóvão
Colombo, a serviço dos Reis
Católicos. A expansão
efectuada por outros povos
europeus é bastante
posterior. As primeiras
iniciativas relevantes de
franceses e ingleses surgem
apenas nos anos 30 do século
XVI”.
Sob a direcção do Infante D.
Henrique, foram lançadas à
água as primeiras caravelas
que partiram a desfazer as
lendas do Mar Tenebroso, em
busca de terras
desconhecidas.
Assim, em 1418, João
Gonçalves Zarco e Tristão
Vaz Teixeira, cavaleiros da
Casa do Infante, descobriram
a Ilha do Porto Santo.
No ano seguinte, os mesmos,
acompanhados por Bartolomeu
Perestrelo, voltaram a Porto
Santo e depararam com outra
ilha a que deram a nome de
Madeira. Por volta de 1431,
Gonçalo Velho Cabral chegou
à Ilha de Santa Maria
(Açores).
Uma medida importante tomada
por D. João l, foi a de
determinar que a Era de
César, pela qual na
Península Ibérica se
contavam os anos, fosse
substituída pela Era de
Cristo. Ao ano de 1460 da
Era de César, em que tal
medida foi outorgada,
correspondia o ano de 1422
da Era Cristã, 38 anos mais
moderna do que aquela.
Neste reinado começou a ser
construído o Mosteiro da
Batalha em evocação à
Batalha de Aljubarrota.
Neste mosteiro encontram-se
os restos mortais de D. João
l, sua esposa e seus filhos,
na Sala da Ínclita Geração.
“A Ínclita Geração
É o nome dado por
historiadores portugueses
aos filhos do rei João I de
Portugal e de Filipa de
Lencastre. O epíteto
refere-se ao valor
individual destes príncipes
que, de várias formas,
marcaram a História de
Portugal e da Europa. Eles
foram:
Duarte, Rei de Portugal
(1391-1438)
Pedro, Duque de Coimbra
(1392-1449, morto na Batalha
de Alfarrobeira, foi regente
de Afonso V, seu sobrinho;
considerado o príncipe mais
culto da sua época
Henrique, Duque de Viseu
(1394-1460), o grande
impulsionador dos
Descobrimentos portugueses
Isabel de Portugal
(1397-1471), casada com
Filipe III, Duque da
Borgonha, actuou em nome do
marido em vários encontros
diplomáticos e é considerada
como a verdadeira governante
da Borgonha no seu tempo
João, Infante de Portugal
(1400-1442), condestável de
Portugal e avô da rainha
Isabel de Castela e do rei
Manuel I de Portugal
Fernando, o Infante Santo
(1402-1433), morre no
cativeiro em Fez, depois de
recusar entregar Ceuta em
troca da sua própria
liberdade.”
Morte de Dom João I
"Não consentiu a morte
tantos anos
Que de Herói tão ditoso
se lograsse
Portugal, mas os coros
soberanos
Do Céu supremo quis que
povoasse.
Mas para defensão dos
Lusitanos
Deixou, quem o levou
quem governasse,
E aumentasse a terra
mais que dantes,
Inclita geração, altos
Infantes.
(Canto lV de Os Lusíadas 50)
***
D. Nuno
Álvares Pereira
Nuno
Álvares Pereira nasceu na
vila de Cernache do
Bonjardim, concelho da
Sertã. Foi filho de Álvaro
Gonçalves Pereira e de Iria
Gonçalves do Carvalhal.
Casou com Leonor de Alvim
em, em 1377 em Vila Nova da
Rainha, freguesia do
concelho de Azambuja. Quando
o rei Fernando de Portugal
morreu em 1383, sem
herdeiros a não ser a
princesa Beatriz casada com
o rei João I de Castela,
Nuno foi um dos primeiros
nobres a apoiar as
pretensões de João, o Mestre
de Avis à coroa. Apesar de
ser filho ilegítimo de Pedro
I de Portugal, João
afigurava-se como uma
hipótese preferível à perda
de independência para os
castelhanos. Depois da
primeira vitória de Álvares
Pereira frente aos
castelhanos na batalha dos
Atoleiros em Abril de 1384,
João de Avis nomeia-o
Condestável de Portugal e
Conde de Ourém.
A 6 de Abril de 1385, João é
reconhecido pelas cortes
reunidas em Coimbra como Rei
de Portugal. Esta posição de
força portuguesa desencadeia
uma resposta à altura em
Castela. João de Castela
invade Portugal com vista a
proteger os interesses de
sua mulher Beatriz. Álvares
Pereira toma o controlo da
situação no terreno e inicia
uma série de cercos a
cidades leais a Castela,
localizadas principalmente
no Norte do país. A 14 de
Agosto, Álvares Pereira
mostra o seu génio militar
ao vencer a batalha de
Aljubarrota à frente de um
pequeno exército de 6,000
portugueses e aliados
ingleses, contra as 30,000
tropas castelhanas. A
batalha viria a ser decisiva
no fim da instabilidade
política de 1383-1385 e na
consolidação da
independência portuguesa.
Finda a ameaça castelhana,
Nuno Álvares Pereira
permaneceu como condestável
do reino e tornou-se Conde
de Arraiolos e Barcelos.
Entre 1385 e 1390, ano da
morte de João de Castela,
dedicou-se a realizar raides
contra a fronteira de
Castela, com o objectivo de
manter a pressão e dissuadir
o país vizinho de novos
ataques.
Do seu casamento com Leonor
de Alvim, o Condestável teve
apenas uma filha, Beatriz
Pereira de Alvim, que se
tornou mulher de Afonso, o
primeiro Duque de Bragança,
sendo assim um dos
antepassados da actual casa
real portuguesa. Lembrado
como um dos melhores
generais portugueses,
abraça, nos últimos anos, a
vida religiosa carmelita.
NUN' ÁLVARES PEREIRA -
Fernando Pessoa, Mensagem
(1934)
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que,
erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
***
Batalha de
Aljubarrota
Aljubarrota, talvez a mais
importante batalha entre os
exércitos português e o
castelhano, foi travada no
dia 14 de Agosto de 1385, no
chamado planalto cumeira de
Aljubarrota, que fica a
cerca de 10 Km da localidade
do mesmo nome. O exército
português era comandado por
D. João 1º de Portugal e o
espanhol por João 1º de
Castela (na altura, Espanha
era formada por vários
condados). Esta batalha
marcou o fim de diversas
tentativas feitas pelo rei
de Castela para dominar
Portugal, após a morte de D.
Fernando 1º.
As tropas invasoras tentaram
manobrar de forma a evitar o
confronto com as tropas
portuguesas, o que não
conseguiram, acabando por
ter de bater-se. O local
havia sido escolhido pelos
portugueses devido à sua
situação, que oferecia
vantajosas condições
defensivas, condições essas
ainda aumentadas por outras
defesas feitas pelos
portugueses, como fossos e
paliçadas.
Tudo isso contribuiu para
que o exército inimigo,
muito superior em número,
fosse completamente
derrotado, no espaço de
algumas horas.
As invasões espanholas,
começaram na Batalha de
Trancoso, quando um troço de
castelhanos invadiu Portugal
e, tendo passado por Almeida
e Pinhel, chegou até Viseu.
Uma hoste disciplinada de
portugueses, comandada por
Martim Vasques da Cunha e
Gonçalo Coutinho, partiu ao
encontro do inimigo que foi
completamente derrotado nas
proximidades de Trancoso.
Então, deu-se a Batalha de
Aljubarrota, pois o rei de
Castela, a quem a sorte de
armas tinha corrido
desfavorável, resolveu
invadir novamente Portugal,
com um poderoso exército,
formado por cerca de 32 mil
homens. Entrando pela Beira,
foi conquistado algumas
terras por onde passou,
seguindo sempre na direcção
de Leiria.
Às dez horas da manhã do dia
14 de Agosto de 1385,
encontraram-se frente a
frente, os exércitos
português e castelhano,
formando em linha de
batalha. O exército
português era formado na
vanguarda por 1.700 lanças,
800 besteiros e 4.000
infantes sob o comando do
Condestável Nuno Alvares
Pereira, e na retaguarda por
700 lanças e 300 besteiros
sob o comando de D. João I.
O exército castelhano era
formado por 5.000 lanças
francesas e doutras nações,
2.000 ginetes, 8.000
besteiros e 15.000 infantes
com apoio de artilharia, sob
o comando do Rei de Castela.
Depois de três quartos de
hora de renhido combate,
onde de parte a parte se
feriram sem dó, a vitória
declarou-se a favor dos
portugueses, tendo o Rei de
Castela fugido. Ficou esta
grande batalha, memorável
pelo grande feito das forças
portuguesas em desvantagem
de homens e armamento. Em
comemoração da Batalha de
Aljubarrota, edificou D.
João I o Convento de Santa
Maria da Vitória na Batalha,
e D. Nuno Alvares Pereira o
Convento do Carmo em
Lisboa.
D. João 1º e D. Nuno Álvares
Pereira, reunindo as suas
melhores tropas, num total
de um pouco mais de 6 mil
homens, onde se encontra a
famosa Ala dos Namorados,
formada por estudantes da
Universidade de Coimbra,
comandados Rui de
Vasconcelos e Mem Martins,
resolveram impedir o avanço
dos Castelhanos, para o que
tomaram posições de combate
nos campos de Aljubarrota.
Os dois exércitos
encontraram-se no dia 14 de
Agosto de 1385. Em face da
grande diferença de número
entre os combatentes, o
Condestável do Reino, D.
Nuno Álvares Pereira anima a
sua gente com palavras de
conforto e patriotismo,
repassadas de fé em Deus e
na Virgem. Trava-se depois
uma grande Batalha, que
terminou pela derrota
completa dos invasores. O
rei de Castela, abandonando
o campo mesmo antes de a
luta terminar, fugiu a toda
a pressa para Santarém e
dali para Lisboa, onde
embarcou para Sevilha
(Andaluzia – Sul de
Espanha).
Após a Batalha de
Aljubarrota, D. Nuno Álvares
Pereira, passou à ofensiva.
Saindo de Extremoz com um
reduzido exército, invadiu o
reino de Castela pela
fronteira de Badajoz e
derrotou mais uma vez os
castelhanos, em Outubro de
1385, na Batalha de Valverde.
Apesar de estar
absolutamente garantida a
independência do Reino de
Portugal com as continuas
derrotas infligidas aos
castelhanos, as hostilidades
continuaram ainda durante
alguns anos. O rei de
Castela, porém, sentindo-se
cada vez mais enfraquecido,
propôs a paz, que só veio a
assinar-se em 1411. Assim,
terminou a Guerra da
Independência, que durara 27
anos.
Durante este período, a
forma de governo foi
monarquia hereditária, sob o
regime absoluto. As três
classes ainda se mantiveram,
ou seja: clero, nobreza e
povo. Embora a Santa Fé,
como Beneplácito régio,
tivesse perdido parte da sua
da sua preponderância, o
clero continuou a gozar de
muita consideração e
influência. A nobreza perdeu
grande parte do seu
prestígio e poderios
antigos. O povo, desde de D.
João 1º até D. João 2º,
cresceu na estima e
importância, tendo defendido
em cortes, muitas vezes
convocadas, os seus
direitos.
No fim do século XIV, a
Europa encontrava-se a
braços com uma época de
crise e revolução. A Guerra
dos Cem Anos devastava a
França, epidemias de peste
negra levavam vidas em todo
o continente, a
instabilidade política
dominava e Portugal não era
excepção.
Em 1383, el-rei D. Fernando
1º morreu sem um filho varão
que herdasse a coroa. A sua
única filha era a infanta D.
Beatriz, casada com o rei D.
João de Castela. A burguesia
mostrava-se insatisfeita com
a regência da Rainha D.
Leonor Teles e do seu
favorito, o conde Andeiro e
com a ordem da sucessão, uma
vez que isso significaria
anexação de Portugal por
Castela. As gentes
alvoroçaram-se em Lisboa, o
conde Andeiro foi morto e o
povo pediu ao mestre de Avis,
filho natural de D. Pedro 1º
de Portugal, que ficasse por
regedor e defensor do Reino.
O período de interregno que
se seguiu ficou conhecido
como crise de 1383-1385.
Finalmente a 6 de Abril de
1385, D. João, mestre da
Ordem de Avis, é aclamado
rei pelas cortes reunidas em
Coimbra, mas o rei de
Castela não desistiu do
direito à coroa de Portugal,
que entendia advir-lhe do
casamento. Em Junho invade
Portugal à frente da
totalidade do seu exército e
auxiliado por um contingente
de cavalaria francesa.
Quando as notícias da
invasão chegaram, João 1º
encontrava-se em Tomar na
companhia de D. Nuno Álvares
Pereira, o Condestável do
reino, e do seu exército. A
decisão tomada depois de
alguma hesitação foi a de
enfrentar os castelhanos
antes que pudessem levantar
novo cerco a Lisboa. Com os
aliados ingleses, o exército
português intersectou os
invasores perto de Leiria.
Dada a lentidão com que os
castelhanos avançavam, D.
Nuno Álvares Pereira teve
tempo para escolher o
terreno favorável para a
batalha, assistido pelos
experientes ingleses. A
opção recaiu sobre uma
pequena colina de topo plano
rodeada por ribeiros, perto
de Aljubarrota. Pelas dez
horas da manhã do dia 14 de
Agosto, o exército tomou a
sua posição na vertente
norte desta colina, de
frente para a estrada por
onde os castelhanos eram
esperados. Seguindo o mesmo
plano de outras batalhas do
século XIV (Crécy e Poitiers
são bons exemplos), as
disposições portuguesas
foram as seguintes:
cavalaria desmontada e
infantaria no centro da
linha, rodeadas pelos
flancos de archeiros
ingleses, protegidos por
obstáculos naturais (neste
caso ribeiros). Na
retaguarda, aguardavam os
reforços comandados por D.
João 1º de Portugal em
pessoa. Desta posição
altamente defensiva, os
portugueses observaram a
chegada do exército
castelhano protegidos pela
vertente da colina.
A vanguarda do exército de
Castela chegou ao teatro da
batalha pela hora do almoço,
sob o Sol escaldante de
Agosto. Ao ver a posição
defensiva ocupada por aquilo
que considerava os rebeldes,
o rei de Castela tomou a
acertada decisão de evitar o
combate nestes termos.
Lentamente, devido aos 30
mil soldados que constituíam
o seu efectivo, o exército
castelhano começou a
contornar a colina pela
estrada a nascente. As
patrulhas castelhanas tinham
verificado que a vertente
Sul da colina tinha um
desnível mais suave e era
por aí que pretendiam
atacar.
Em resposta a este
movimento, o exército
português inverteu a sua
disposição e dirigiu-se à
vertente Sul da colina. Uma
vez que era muito menos
numeroso e tinha um percurso
mais pequeno pela frente, o
contingente português
atingiu a sua posição final
ao início da tarde. Para
evitar o nervosismo dos
soldados e manter a moral
elevada, D. Nuno Álvares
Pereira ordenou a construção
de um conjunto de
trincheiras e covas de lobo
em frente à linha de
infantaria. Esta táctica
defensiva, muito típica dos
exércitos ingleses, foi
talvez uma sugestão dos
aliados britânicos presentes
no terreno.
Pelas seis da tarde, os
castelhanos estão prontos
para a batalha. De acordo
com o registo escrito por
el-rei de Castela depois da
batalha, os seus soldados
estavam bastante cansados do
dia de marcha em condições
de muito calor. Mas não
havia tempo para voltar
atrás e a batalha começou.
A iniciativa de começar a
batalha partiu de Castela,
com uma típica carga da
cavalaria francesa: a toda a
brida e em força, de forma a
romper a linha de infantaria
adversária. Mas tal como
sucedeu na batalha de Crécy,
os archeiros colocados nos
flancos e o sistema de
trincheiras fizeram a maior
parte do trabalho. Muito
antes de sequer entrar em
contacto com a infantaria
portuguesa, já a cavalaria
se encontrava desorganizada
e confusa, dado o medo dos
cavalos em progredir em
terreno irregular e à
eficácia da chuva de flechas
que sobre eles caía. As
baixas da cavalaria foram
pesadas e o efeito do ataque
nulo. A retaguarda
castelhana demorou em
prestar auxílio e em
consequência, os cavaleiros
que não morreram foram
feitos prisioneiros pelos
portugueses.
Depois deste percalço, a
restante e mais substancial
parte do exército castelhano
entrou na contenda. A sua
linha era bastante extensa,
pelo elevado número de
soldados. Ao avançar em
direcção aos portugueses, os
castelhanos foram forçados a
desorganizar as suas
próprias fileiras, de modo a
caber no espaço situado
entre os ribeiros. Enquanto
os castelhanos se
desorganizavam, os
portugueses redispuseram as
suas forças dividindo a
vanguarda de D. Nuno Álvares
em dois sectores, de modo a
enfrentar a nova ameaça.
Vendo que o pior ainda
estava para chegar, D. João
1º de Portugal ordenou a
retirada dos archeiros
ingleses e o avanço da
retaguarda através do espaço
aberto na linha da frente.
Foi então que os portugueses
necessitaram chamar todos os
homens ao combate e tomaram
a decisão de executar os
prisioneiros franceses.
Esmagados entre os flancos
portugueses e a retaguarda
avançada, os castelhanos
lutaram desesperadamente por
uma vitória. Nesta fase da
batalha, as baixas foram
pesadas para ambos os lados,
principalmente no lado de
Castela e no flanco esquerdo
português, recordado com o
nome Ala dos Namorados. Ao
pôr-do-sol a posição
castelhana era já
indefensável e com o dia
perdido, D. João de Castela
ordenou a retirada. Os
castelhanos debandaram
desordenados do campo de
batalha. Soldados e povo das
redondezas seguiam no seu
encalço e não hesitavam em
matar os fugitivos.
Da perseguição popular
surgiu uma tradição
portuguesa em torno da
batalha: uma mulher, de seu
nome Brites de Almeida (*),
recordada como a Padeira de
Aljubarrota, muito forte
alta e com seis dedos em
cada mão, emboscou e matou
pelas próprias mãos muitos
castelhanos em fuga. Esta
história é apenas uma lenda
popular, mas o massacre que
se segui à batalha é
histórico.
Na manhã de 15 de Agosto, a
catástrofe sofrida pelos
castelhanos ficou bem à
vista: os cadáveres eram
tantos que chegaram para
barrar o curso dos ribeiros
que flanqueavam a colina.
Para além de soldados,
morreram também muitos
fidalgos castelhanos, o que
causou luto em Castela até
1387. A cavalaria francesa
sofreu em Aljubarrota mais
uma derrota contra tácticas
defensivas de infantaria,
depois de Crécy e Poitiers.
A batalha de Azincourt, já
no século XV, mostrou que
Aljubarrota não foi o último
exemplo.
Com esta vitória, D. João 1º
tornou-se no rei
incontestado de Portugal, o
primeiro da dinastia de Avis.
Para celebrar a vitória e
agradecer o auxílio divino
que acreditava ter recebido,
D. João I mandou erigir o
Mosteiro de Santa Maria da
Vitória e fundar a vila da
Batalha.
Fontes Consultadas:
A. H. de Oliveira Marques,
História de Portugal, vol.
1, Lisboa, Presença, 1997
Fernão Lopes, Crónica de D.
João I, vol. 1, s.l.,
Civilização, imp. 1994.
João Gouveia Monteiro,
Aljubarrota: 1385: a batalha
real, Lisboa, Tribuna da
História.
(*) - A Lenda de Brites de
Almeida - a Padeira de
Aljubarrota
A Padeira de Aljubarrota é
uma das personagens mais
curiosas ligadas à famosa
Batalha de Aljubarrota
(século XIV), onde, mais uma
vez, os portugueses venceram
os castelhanos.
Não se pode afirmar com
certeza que esta pessoa
tenha existido, nem sequer
que a história que se conta
acerca dela seja verdade,
mas ela vai estar sempre
ligada à Batalha!
Uma coisa é certa: existiu
alguém, de nome Brites de
Almeida, que foi padeira
naquela terra. E parece que
era tão corajosa como a da
lenda.
Brites de Almeida nasceu em
meados do século XIV em
Santa Maria de Faaron (hoje
conhecida como Faro) e os
seus pais eram gente muito
humilde.
Conta-se que quando era
pequena já era alta, muito
forte e musculada. E como
era meio «Maria rapaz»,
gostava de resolver tudo com
a ajuda dos punhos.
Parece que quando tinha 20
anos os pais morreram e ela
usou o pouco dinheiro que
eles lhe deixaram para
aprender a usar uma espada
(só os homens nobres é que o
faziam!).
Então, para ganhar dinheiro,
começou a usar os seus
conhecimentos em feiras,
onde fazia combates contra
homens.
Ora esta história chamou a
atenção de um soldado que a
desafiou: se o soldado
ganhasse, Brites casava com
ele. Se perdesse, ela
matava-o. O que acabou por
acontecer...
O problema é que matar (um
soldado) é crime, mesmo
nessa época. Por isso Brites
fugiu. Roubou um bote com o
objectivo de ir para
Espanha, mas um grupo de
piratas raptou-a e levou-a
para Argel (na Argélia),
onde a vendeu a um árabe
rico.
No entanto, a «nossa Brites»
não era pessoa para ficar
presa. Passado um ano
convence outros dois
escravos portugueses a fugir
para Portugal.
Disfarçou-se de homem e
seguiu para Torres Vedras,
onde comprou dois machos e
se transformou em almocreve
(quem aluga e conduz bestas
de carga).
Mesmo assim, os sarilhos não
a largaram e, depois de se
envolver em várias lutas e
provocar algumas mortes na
zona de Lisboa, Brites
apanhou um barco para
Valada, de onde, já vestida
de mulher, acabou por ir
parar a Aljubarrota.
Para sobreviver, já cansada
e sem maneira de ganhar
dinheiro, começou a pedir
esmola à porta de um forno,
o que chamou a atenção da
padeira, já idosa, que
reparou que Brites era uma
mulher forte e que a podia
ajudar. Assim, começou a
carreira de Brites como
padeira. Um dia, já depois
da velha padeira ter morrido
e já sendo Brites a dona do
negócio, deu-se uma grande
batalha em Aljubarrota.
Como a maioria do povo
português, ela também estava
do lado de D. João, Mestre
de Avis, e não queria os
espanhóis a governar
Portugal. Conta a lenda que,
depois de Nuno Álvares
Pereira vencer os espanhóis
nessa batalha, Brites
chefiou um grupo de
populares que perseguiram os
espanhóis em fuga.
Nessa noite de 14 de Agosto
de 1385, ao regressar, a
padeira chegou a casa e
encontrou sete espanhóis
escondidos no forno onde
costumava cozer o pão.
Sem hesitar, pegou na pá de
levar o pão ao forno e
bateu-lhes até os matar, um
a um, à medida que saíam do
forno.
Várias versões desta lenda
aumentam o número de
castelhanos e também o
número de crueldades que a
padeira lhes fez...
Nós preferimos a versão mais
simples em que, mesmo assim,
a Padeira de Aljubarrota faz
parte da História de
Portugal, nunca mais sendo
esquecida.
Claro que a sua história não
acaba na época da Batalha.
Parece que quando fez 40
anos se casou com um
lavrador rico que a admirava
muito e chegou a ter filhos.