Vigésimo primeiro rei de Portugal,
fundador da dinastia de Bragança, também
conhecida por Brigantina, era filho de
D. Teodoro ll, sétimo Duque de Bragança
e de sua mulher, a Duquesa D. Ana de
Velasco. Nasceu em Vila Viçosa em 1604.
A sua juventude decorreu tranquilamente
no seu magnífico domínio em Vila Viçosa
(Alentejo, votada quase inteiramente aos
prazeres da música e da caça. Chamado ao
trono português pela Revolução de 1640,
o novo rei organizou, sem perder tempo,
da organização da defesa de Portugal.
Depois teve de castigar uma conspiração,
formada por vários fidalgos portugueses
que tinham a intenção de o assassinar,
e, em seguida voltar a entregar Portugal
aos espanhóis. O Marquês de Vila Real, o
Duque de Caminha, ( "Marinha Grande -
Penedo da Saudade (**), em o Conde de
Armamar e D. Agostinho Manuel, que eram
com o arcebispo de Braga, os principais,
expiaram o seu crime (lesa-majestade),
no cadafalso e o arcebispo acabou os
seus dias num cárcere. Durante o reinado
de D. João lV, a guerra com a Espanha
arrastou-se numa série de pequenos
combates e escaramuças, com uma única
excepção: a Batalha do Montijo (*) que
foi para os portugueses uma brilhante
vitória.
No Brasil, a luta contra os holandeses,
começada em 1642, terminava em 1654 com
a expulsão destes. Em África, um
luso-brasileiro de nome Salvador Correia
de Sá, depois de libertar o Rio de
Janeiro, rumou para Angola e S. Tomé e
Príncipe e também de lá expulsou os
holandeses.
As características de D. João lV era o
bom senso, a prudência e o tacto
governativo; o seu principal defeito era
ser egoísta. Jaz em S. Vicente de Fora
(Lisboa).
(*) Batalha de Montijo (Badajoz –
Espanha). Célebre vitória dos
portugueses, comandados por Matias de
Albuquerque sobre os espanhóis,
capitaneados pelo barão de Mollingen, em
26 de Maio de 1644.
(**)A Lenda do Penedo da Saudade -
Carlos Leite Ribeiro
Recordamos que "Penedo da Saudade"
existem dois: um romântico situado em
Coimbra, voltado para o vale do Calhabé,
e o outro em S. Pedro de Moel. É deste
que vamos contar a Lenda.
Contrariamente ao que possam imaginar,
não vamos falar da Rainha Santa Isabel,
da sua mantilha, nem das lágrimas de
esposa traída pelo seu rei e senhor D.
Dinis o "Lavrador", que gozava de fama
(e talvez proveito) de ser uma grande
sedutor.
O drama de que vamos falar (lenda),
respeita aos Duques de Caminha: D.
Miguel Luís Meneses e de sua esposa D.
Juliana.
Este feliz casal vivia uma vida muito
recatada no seu palácio, afastado do
bulício e das intrigas da Corte e da
política bem efervescente naquele ano de
1941.
Mas ...
Cert dia foram surpreendidos por um dos
seus criados que anunciou a chegada do
senhor Marquês de Vila Real, pai de D.
Miguel de Meneses.
D. Juliana teve logo o presságio de que
algo de grave se tratava, dado que se
levantou empalidecida. Em vão seu
esposo, D. Miguel, tentava acalmar sua
amantíssima esposa. Entretanto, mandou
entrar seu pai.
Não obstante o desejo do Marquês falar a
sós com seu filho, este insistiu para
que a esposa ficasse presente.
"Seja !" - concordou por fim o Marquês
de Vila Real. O seu aspecto era grave o
que deixou o casal ainda mais inquieto.
D. Miguel quis saber da visita de seu
pai: "O que se passa, senhor meu pai
?...
Este encarou bem de frente o filho e
retorquiu-lhe: "Senhor Duque de Caminha
e meu filho, chegou a hora de el-rei D.
João lV pagar a sua tirania! A
conspiração está organizada e, dela
fazem parte o arcebispo-primaz, o Conde
de Armamar, D. Agostinho de Vasconcelos,
eu e vós !".
Muito surpreendido, D. Miguel que não
havia sido anteriormente consultado,
tentou não fazer parte da conjura: "Não
meu pai !".
O velho fidalgo quase que fuzilou o
filho com o olhar: "E se vos der uma
ordem ?... não deveis trair-nos !". D.
Juliana assistia atónica e horrorizada
ao diálogo trágico travado entre seu
sogro e o seu marido.
Cabisbaixo e bastante consternado, D.
Miguel, não tendo outra alternativa,
decidiu ser um dos conjurados.
D. Juliana, perante a louca decisão de
seu amado esposo, caiu desmaiada num
canapé, onde, momentos antes partilhava
as carícias do esposo que tanto amava.
Gorada a conjura, feitos prisioneiros
todos os conjurados, entre os quais
estava o Duque de Caminha, foram
encarcerados na fortaleza de S. Vicente
de Belém (Torre de Belém - Lisboa).
Aí, no silêncio da noite, estendido nas
palhas putrefactas do cárcere, D. Miguel
tomou noção da sua fraqueza em ter
acedido às ordens de seu pai ! Tomou
então a decisão de escrever a el-rei
pedindo-lhe perdão - mas em vão. D.
Juliana também implorou a el-rei o
perdão para o marido - mas também sem o
conseguir.
D. Miguel de Meneses subiu ao cadafalso
e com a morte pagou a fidelidade que o
ligava a seu pai.
Inocente ?... Culpado ?... a decisão
fora sua !
Para o povo, ele estaria inocente e
pagou pelo crime do pai.
Refugiada em S. Pedro de Moel, a Duquesa
de Caminha, ia todos os dias chorar as
suas desgraças num penedo solitário. Os
soluços que se soltavam de seu peito e
as suas lágrimas, misturavam-se com as
ondas do mar e foram-se espalhando, qual
balada trágica, por esse mundo fora.
Perante tamanha dor, o povo de S. Pedro
de Moel, passou a chamar àquele rochedo,
o Penedo da Saudade.
E assim fez-se lenda ...
Já em 1638, os conjurados da Revolução
de 1640 tinham procurado obter a
aceitação de D. João para uma revolta
contra Espanha. Mas as hesitações, ou
cautelas, do duque fizeram levantar a
hipótese de se conseguir o regresso do
infante D. Duarte, solução que falhou,
tendo-se mesmo encarado a instauração de
uma república, nos moldes da das
Províncias Unidas.
A verdade é, que depois da sua aclamação
como rei a 15 de Dezembro de 1640, todas
as hesitações desapareceram e D. João IV
fez frente às dificuldades com um vigor
que muito contribuiu para a efectiva
restauração da independência de
Portugal. Da actividade global do seu
reinado, deveremos destacar o esforço
efectuado na reorganização do aparelho
militar - reparação das fortalezas das
linhas defensivas fronteiriças,
fortalecimento das guarnições, defesa do
Alentejo e Beira e obtenção de material
e reforços no estrangeiro; a intensa e
inteligente actividade diplomática junto
das cortes da Europa, no sentido de
obter apoio militar e financeiro,
negociar tratados de paz ou de tréguas e
conseguir o reconhecimento da
Restauração; a acção desenvolvida para a
reconquista do império ultramarino, no
Brasil e em África; a alta visão na
escolha dos colaboradores; enfim, o
trabalho feito no campo administrativo e
legislativo, procurando impor a presença
da dinastia nova.
Quando morreu, o reino não estava ainda
em segurança absoluta, mas D. João IV
tinha-lhe construído umas bases
suficientemente sólidas para vencer a
crise. Sucedeu-lhe D. Afonso VI, seu
segundo filho.
Ficha genealógica:
D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19
de Março de 1604 e morreu em Lisboa, a 6
de Dezembro de 1656, tendo sido
sepultado no Mosteiro de S. Vicente de
Fora. Era filho de D. Teodósio II, 7 °
duque de Bragança, e de sua mulher, D.
Ana de Velasco. Do seu casamento,
celebrado em 12 de Janeiro de 1633, com
D. Luísa Francisca de Gusmão, que nasceu
em San Lucar de Barrameda, a 13 de
Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27
de Outubro de 1666, filha do 8 ° duque
de Medina-Sidónia, D. Juan Manuel Pérez
de Guzman, e da duquesa D. Joana de
Sandoval, nasceram:
1. D. Teodósio, que nasceu em Vila
Viçosa a 8 de Fevereiro de 1634 e morreu
em Lisboa, a 13 de Maio de 1653. Foi 9 °
duque de Bragança e príncipe do Brasil,
em 1645;
2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a
21 de Janeiro de 1635 e morreu no mesmo
dia; estando enterrada no Convento das
Chagas daquela vila;
3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a
18 de Setembro de 1635 e morreu em
Lisboa, a 17 de Novembro de 1653;
sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e
mais tarde trasladada para o Mosteiro de
S. Vicente de Fora;
4. D. Catarina, que nasceu em Vila
Viçosa, a 25 de Novembro de 1638 e
morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de
1705. Foi sepultada no Mosteiro dos
Jerónimos e mais tarde trasladada para o
Mosteiro de S. Vicente de Fora. Foi
rainha de Inglaterra pelo seu casamento,
em 1661, com o Carlos II, rei de
Inglaterra, que morreu em 16 de
Fevereiro de 1685;
5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa,
a 6 de Setembro de 1640 e faleceu no
mesmo dia, tendo sido sepultado no
Convento de S. Francisco daquela vila;
6. D. Afonso VI, que herdou a coroa;
7. D. Pedro II, que sucedeu ao
precedente;
Teve D. João IV uma filha ilegítima, de
mãe desconhecida:
8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30
de Abril de 1644, e morreu em Carnide, a
7 de Fevereiro de 1693, no Convento de
S. João dos Carmelitas Descalços. Foi
reconhecida pelo progenitor, o qual lhe
fez mercê das vilas de Torres Vedras e
Colares e dos lugares de Azinhaga e
Cartaxo, tendo-se dado à vida
religiosa.
Fontes:
Joel Serrão - Pequeno Dicionário de
História de Portugal, Lisboa,
Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão - História de
Portugal, Volume V: A Restauração e a
Monarquia Absoluta (1640-1750),
Lisboa, Verbo, 1980
Guerra da Restauração
A guerra da Restauração mobilizou todos
os esforços que Portugal podia despender
e absorveu enormes somas de dinheiro.
Pior do que isso, impediu o governo de
conceder ajuda às frequentemente
atacadas possessões ultramarinas. Mas,
se o cerne do Império, pelo menos na
Ásia, teve de ser sacrificado, salvou
pelo menos a Metrópole de uma ocupação
pelas forças espanholas.
Portugal não dispunha de um exército
moderno, as suas forças eram escassas –
sobretudo na fronteira terrestre –, as
suas coudelarias haviam sido extintas,
os seus melhores generais lutavam pela
Espanha algures na Europa. Do lado
português, tudo isto explica por que
motivo a guerra se limitou em geral a
operações fronteiriças de pouca
envergadura. Do lado espanhol, é preciso
lembrar que a Guerra dos Trinta Anos
(prolongada em Espanha até 1659) e a
questão da Catalunha (até 1652)
demoraram quaisquer ofensivas de vulto.
Regra geral, a guerra, que se prolongou
por 28 anos, teve os seus altos e baixos
para os dois contendores até ser
assinado o Tratado de Lisboa, em 13 de
Fevereiro de 1668, entre Afonso VI de
Portugal e Carlos II de Espanha, em que
este último reconhece a independência do
nosso País.
Salvador Correia de Sá e Benevides
Restaurador de Angola, conhecido também
pelo nome de Salvador Correia de Sá e
Benevides. Descendia da gloriosa família
de Mem de Sá e de Estácio de Sá, os
fundadores do Rio de Janeiro.
Nasceu nesta cidade em 1591 e morreu em
Lisboa em 1 de Janeiro de 1688. Era
filho de Martim de Sá e de sua mulher D.
Maria de Mendoza y Benavides.
Em 1612, contando 18 anos, entrou no
serviço militar, distinguindo-se nas
guerras contra os índios. Pouco tempo
depois começaram os holandeses a
infestar as costas do Brasil,
assenhoreavam-se daquela grande região,
e Salvador Correia, que já então tinha
perto de 30 anos, mostrou o que valia
não só a sua bravura, como a sua perícia
militar, começando por levar a
salvamento de Pernambuco para Lisboa um
comboio de 30 navios. Ao voltar desta
expedição, que era arriscada porque a
marinha holandesa dominava os mares,
Salvador Correia alistou na capitania de
S. Vicente uns 200 homens, meteu-os a
bordo de duas caravelas e de três canoas
de guerra, a conduziu-os à empresa da
restauração da Baía, empresa importante
para a qual no ano de 1624 saíra de
Lisboa uma esquadra hispano‑portuguesa,
bastante numerosa. De caminho para a
Baía, desembarcou Salvador Correia na
capitania do Espírito Santo, e
demorando-se ali algum tempo, teve
ensejo para surpreender um troço de
holandeses, que também haviam saltado em
terra, e que foram pelo jovem herói
completamente derrotados. Seguindo para
a Baía, distinguiu-se muito na conquista
dessa praça, em 1 de Maio de 1625, tendo
chegado poucos dias antes ao campo dos
sitiadores.
Em 1634, Salvador Correia, que granjeara
grande reputação, foi nomeado almirante
dos mares do sul. Tratava-se para os
espanhóis de resolver uma questão vital
para o seu domínios nas margens do rio
da Prata. Ardia ali há muitos anos a
rebelião que devastava principalmente a
província de Tucuman, rebelião conhecida
pelo nome de revolta dos Caléquis e
dirigida por um hábil chefe, D. Pedro
Chamay. Salvador Correia dirigiu a
campanha com tanta habilidade e energia,
que, tendo ganho a batalha de Pelingarta,
havendo aprisionado D. Pedro Chamay, e
tendo também recebido um grande numero
de frechadas, porque a luta foi áspera e
rude e Salvador Correia não se poupou,
conseguiu restabelecer completamente a
ordem nas margens dos rios da Prata a do
Paraguai. Foi então nomeado
capitão-general do Rio de Janeiro, dando
a carta régia, que o nomeava, testemunho
dos altos serviços prestados pelo
agraciado à coroa de Espanha. Foi por
essa ocasião também que Salvador
Correia, filho de espanhola, foi
procurar esposa à fidalguia dessa nação,
casando com D. Catarina de Velasco.
filha de D. Pedro Ramirez de Velasco,
governador do Chile.
Apesar destas relações tão íntimas de
parentesco que o ligavam à Espanha,
apesar de ter militado e comandado em
terreno exclusivamente espanhol, e de
não ter razão de queixa pessoal do
governo de Espanha, nem por isso
Salvador Correia deixava de ser
essencialmente patriota e de sentir
pulsar no peito um coração português.
Apenas chegou ao Rio de Janeiro a
notícia da revolução de 1 de Dezembro de
1640, logo sem a mínima hesitação se
proclamou nessa cidade a realeza de D.
João IV. Salvador Correia lutava com
dificuldades muito graves, porque os
jesuítas queriam executar as leis a as
bulas que lhes concediam a liberdade dos
índios, e os paulistas, que tinham
índios como escravos, recusavam-se a
libertá-los, chegando a revoltar-se
abertamente contra os jesuítas, que
Salvador Correia defendia e sustentava
com toda a energia, porque na verdade
eles defendiam nesse momento a causa da
civilização e da humanidade. Salvador
Correia esperava que o grande sucesso da
restauração de Portugal abrandasse os
ânimos dos paulistas, ou pelo menos os
decidissem a mandar representantes ao
Rio de Janeiro com poderes bastantes
para resolverem as questões que
promoviam conflito, mas os paulistas
entenderam, pelo contrario, que a
fidelidade de que tinham dado provas e o
modo como tinham acolhido a aclamação de
D. João IV, os tornava credores da
gratidão do rei de Portugal, e portanto
as suas pretensões deviam ser atendidas
pelo capitão-mor do Rio de Janeiro.
Negaram-se então a consentir em
quaisquer medidas que tivessem por fim a
libertação dos índios. Vendo que era
indispensável ir tratar directamente com
os revoltosos, Salvador Correia partiu
para Santos, onde depois de largas
negociações conseguiu que os paulistas
elegessem 48 procuradores para tratarem
do assunto, chegando enfim a um
resultado, que se não resolveu
inteiramente a questão, pelo menos
apaziguou a capitania. O novo governo de
Lisboa depositava nele plena confiança,
e nomeou-o sucessivamente em 1644
general da frota que devia escoltar os
navios do comércio brasileiro ameaçados
nos mares da América pelos holandeses,
nos da Europa pelos espanhóis, delegado
do conselho ultramarino, e dando-lhe
finalmente amplos poderes para explorar
as minas, cuja existência e riqueza no
vasto território que estava sob a
jurisdição de Salvador Correia já então
se pressentiam. Bem convinha o seu
descobrimento ao governo de D. João I V,
que fez a Salvador Correia as mais
brilhantes promessas, no caso de
conseguir explorá-las com felicidade;
porém este, com todo o desinteresse,
delegou em outros a viagem das minas e o
exercício do lugar para que fora
escolhido, e aceitou a comissão mais
gloriosa, menos rendosa, e mais
perigosa, a de comboiar os navios
mercantes que iam do Rio de Janeiro para
a Europa. Fez três viagens: escoltando
na primeira 37 velas. Nessa primeira
viagem prestou um alto serviço à
insurreição pernambucana, porque
escoltou até ao porto de Tamadaré 8
navios da Baía que levavam a João
Fernandes Vieira, que acabava de ganhar
a batalha de Tabocas, um reforço de 800
homens ainda mais precioso por serem os
chefes dos terços André Vidal de
Negreiros e Martim Soares Moreno, cujas
heróicas espadas não haviam de
contribuir pouco para a expulsão
definitiva dos holandeses de Pernambuco.
Mais duas viagens fez ainda Salvador
Correia até que em 1648 D. João IV o
encarregou dum emprego de alta
importância, porque se tratava de
arrancar Angola ao poder dos holandeses.
A importância de Angola era extrema,
porque era dali que se fornecia o Brasil
de escravos pretos indispensáveis para a
cultura das suas terras. A empresa de a
reconquistar era tanto mais difícil,
quanto pela situação extravagante em que
nos achávamos com os holandeses, nossos
aliados na Europa, era indispensável que
Salvador Correia encontrasse meio de
tomar Angola, sem que parecesse que fora
ele que tomara a ofensiva, para se não
considerarem rotas as pazes com a
Holanda. Salvador Correia chegou ao Rio
de Janeiro, e apelando para o
patriotismo e até para os interesses
próprios dos homens abastados, interesse
que a perda desse reino prejudicava
altamente, despendendo também com
liberalidade os seus próprios dinheiros,
conseguiu juntar 15 navios, 4 dos quais
foram comprados à sua custa, e levando
neles 900 homens de desembarque, partiu
no dia 12 de Maio para Angola. Nunca
empresa tão importante fora intentada
com tão pequenas forças. O fim aparente
da expedição era edificar um forte na
enseada de Quicombo, afim de estabelecer
comunicações com os portugueses, que
desde a perda de Angola se tinham
refugiado em Massangano. Chegou a
Quicombo, mas, tomando pretexto de
hostilidades que os holandeses faziam
aos restos da antiga guarnição
portuguesa declarou que era isto uma
quebra flagrante da paz, que o
autorizava a pedir-lhes uma satisfação.
Dirigiu-se para Luanda, tendo já perdido
um navio por causa dum rombo no porão, e
apenas chegou à capital da província,
participou aos holandeses os motivos da
sua vinda, as suas razões de queixa,
declarando-lhes que, logo que eles não
respeitavam a paz estabelecida, também
ele se não julgava obrigado a deixar de
a infringir, e portanto que exigia que
eles se entregassem. Surpreendidos os
holandeses com esta audácia, avaliaram
em maior do que era o poder dos
assaltantes, e pediram 8 dias para
tomarem uma decisão. O fim evidente era
reunirem as tropas que andavam pelo
campo, e Salvador Correia, percebendo-o,
apenas lhes concedeu dois dias. No fim
do prazo marcado. desembarcou em
chalupas 650 soldados e 250 marinheiros,
deixando 180 nos navios com muitas
figuras pelas enxárcias e pelas
amuradas, para que de longe se julgasse
muito mais numerosa a tripulação dos
navios. Os holandeses, repelidos de
todos os pontos exteriores,
refugiaram-se na fortaleza do Morro de
S. Miguel e no forte de Nossa Senhora da
Guia, tendo abandonado tanto à pressa o
fortim de Santo António, que nem tiveram
tempo de encravar mais do que duas peças
das oito que o fortim possuía.
Aproveitou-as Salvador Correia, e
juntando-as, a quatro meios canhões que
mandou desembarcar, formou uma bateria
que principiou a bombardear a fortaleza,
causando pouco dano, mas produzindo
grande terror aos holandeses,
assombrados da rapidez com que a bateria
se assentara. Viu, porém, Salvador
Correia que seria demorado o êxito da
bateria, a apertado pela necessidade de
impedir que os holandeses fossem
reforçados, mandou no dia seguinte, 15
de Agosto de 1648, dar assalto às duas
fortalezas ocupadas pelo inimigo. A
temeridade era incrível e seria
indesculpável, se não fosse a situação
perigosa em que Salvador Correia se via.
Tinha apenas 900 homens e ia assaltar
duas fortalezas, onde a artilharia quase
nem tinha aberto brecha e guarnecidas
por 1.200 soldados europeus e outros
tantos negros. Por isso o assalto deu
resultados terríveis. Depois duma
escalada audaciosa em que os assaltantes
foram repelidos, Salvador Correia mandou
recolher as forças, e viu que perdera
163 soldados mortos e 160 feridos. Tinha
por conseguinte fora do combate mais da
terça parte do seu exército. Salvador
Correia, sombrio mas resoluto, ia fazer
uma segunda tentativa, quando com grande
surpresa, viu aparecer um parlamentário,
que vinha propor uma capitulação, o que
Salvador Correia resolveu aceitar,
receando o resultado de um novo assalto,
em vista das perdas enormes que já
sofrera. A capitulação foi concedida com
todas as honras, facilitando-lhes logo a
amnistia que eles pediram para os seus
partidários, e assinada a capitulação
viu-se o caso estranho de saírem
rendidos de duas fortalezas, onde nem
quase havia brecha, 1.100 homens e
passarem, diante de menos de 600, que a
essa força estava reduzida, depois do
primeiro assalto, o exército sitiador.
Havia já 5 dias que Salvador Correia
tomara posse das fortalezas, quando
apareceu na cidade, vindo do sertão um
corpo de 250 homens acompanhados por
mais de 2.000 negros, súbditos da rainha
Ginga (V. Portugal, vol. III, pág. 737).
Bem desejariam eles romper a
capitulação, mas Salvador Correia tomara
as suas precauções, fazendo logo
embarcar em três navios a guarnição
holandesa da cidade; de sorte que os
recém chegados, vendo-se sós,
capitularam também. Os negros da rainha
Ginga é que não quiseram sujeitar-se, e
arrojaram os maiores impropérios aos
holandeses, por eles os desampararem. A
guarnição de Benguela rendeu se a dois
navios portugueses sem disparar um tiro,
e a da ilha do S. Tomé, apenas soube que
Luanda se rendera, partiu desamparando a
ilha, deixando a artilharia e munições,
de forma que os navios que Salvador
Correia enviara para procurarem
apoderar-se dessa nossa antiga e
importante colónia, encontraram já a
bandeira portuguesa arvorada nos fortes.
Assim desampararam os holandeses também
as suas feitorias de Benguela-a-Velha,
de Leango e da Pinda, de forma que em
dois meses tinham voltado ao domínio
português. Angola e S. Tomé. A vitória
quase miraculosa de Salvador Correia
deixou de si lembrança tão viva na
memória dos povos, que ainda em 1812 se
celebrava em Luanda uma festa em acção
de graças no dia 15 de Agosto pela
vitória alcançada nesse dia por Salvador
Correia. Expulsos os holandeses, tinha
ainda de subjugar e punir os negros que
haviam seguido o seu partido. Os
principais eram os súbditos da rainha
Ginga, e Salvador Correia, dispondo de
poucas forças, alistou ao seu exército
muitos franceses, que faziam parte da
guarnição holandesa e que tinham ficado
em Angola. O comando foi confiado a
Bartolomeu de Vasconcelos, que
facilmente subjugou os negros
dissidentes, vendo-se a rainha Ginga
forçada a pedir a paz, por se convencer
que nada podia contra os portugueses. No
entretanto Salvador Correia dava grande
impulso às suas medidas administrativas,
favorecendo o desenvolvimento de Luanda,
onde se demorou até 1651, ano em que
tornou a partir para o Rio de Janeiro,
deixando por seu sucessor Rodrigo de
Miranda Henriques.
Por carta régia de 17 de Setembro de
1658, muito honrosa para o agraciado,
fora-lhe conferido o governo das
capitanias do sul do Brasil com absoluta
independência do governo da Baía. Quando
chegou ao Rio de Janeiro, achou a cidade
em deplorável situação, com o comércio
paralisado, as tropas mal pagas, e os
cofres públicos exaustos. Foi preciso
recorrer a novos tributos, o que
descontentou o povo, sendo necessário
todo o prestígio de Salvador Correia
para o manter na obediência; mas quando
o governador saiu da cidade para visitar
a província de S. Paulo, deixando como
seu substituto Tomé Correia de
Alvarenga, a insurreição rebentou,
reclamando os insurgentes a deposição de
Salvador Correia, depondo o seu delegado
Alvarenga, e elegendo para os governar
Agostinho Barbalho Bezerra. Quis a
câmara do Rio de Janeiro obter o auxílio
dos paulistas, mas estes não só não
aceitaram o convite, mas ofereceram-se a
Salvador Correia para o ajudarem a
subjugar os rebeldes. Preferiu este
recorrer aos meios pacíficos, e chegou a
declarar a Bezerra que o consideraria
como governador, se se considerasse seu
delegado, mas os revolucionários
julgando ver nisto uma prova de
fraqueza, não quiseram aceitar estas
propostas pacíficas, e prepararam-se
para resistir à força aberta. Pouco lhes
durou, porém, esta resolução, porque,
vendo-se isolados, depuseram as armas,
apenas lá lhes apareceu o desembargador
Pessanha, enviado da Baía para inquirir
a respeito da revolta, e Salvador
Correia de Sá tomou de novo posse do
governo, que exerceu até ao ano de 1662,
e entregando-o então ao seu sucessor,
partiu para Lisboa. Como sucedeu a todos
os grandes homens que tantos serviços
prestaram à pátria, a intriga conseguiu
feri-lo. Os seus inimigos, que não eram
poucos, desde que a rainha regente D.
Luísa de Gusmão criara de propósito para
ele um governo independente no Rio de
Janeiro, trataram de o intrigar, e de o
afastar do ânimo dos ministros, apesar
de ser muito favorito do conde de
Castelo Melhor seu filho mais velho,
Martim Correia de Sá, que o grande
ministro fez em 1665 visconde de Asseca
em recompensa dos muitos serviços de seu
pai. Ainda assim maiores amarguras teve
Salvador Correia de Sá, quando o conde
de Castelo Melhor caiu do poder porque
tendo-o D. Afonso VI chamado para se
aconselhar com ele, isso bastou,
juntamente com a privança que seu filho
tivera, para o tornar odiado do infante
D. Pedro, e para o tornar alvo de tantas
perseguições, que chegou a ser condenado
a degredo de 10 anos para essa mesma
África, onde ressoava ainda o eco das
suas vitórias. À custa de muito dinheiro
conseguiu que o deixassem ficar num
convento, e depois que o deixassem
passar à sua casa em Santos, onde se
conservou preso sem menagem. Foi seu
filho, que fora ferido em Badajoz e que
ficara gravemente enfermo, quem instou
com ele para que requeresse esta última
concessão, porque o heróico restaurador
de Angola, profundamente ferido e
desgostoso com todas estas perseguições,
estava resolvido a terminar a vida num
convento. A morte do visconde de Asseca,
sucedida pouco depois, e a orfandade em
que ficaram os netos de Salvador Correia
de Sá, fizeram com que o príncipe
regente pensasse que era vergonhoso,
realmente, que o homem que tão altos
serviços prestara ao seu país, estivesse
agora quase octogenário preso como um
criminoso, enquanto seus netos não
tinham quem os amparasse e guiasse na
estrada da vida. Deu ordem para que
fosse solto, e logo em seguida voltou ao
lugar que lhe pertencia de membro do
Conselho Ultramarino.
Consta que Salvador Correia de Sá
escrevera umas Memorias da sua vida, que
infelizmente se perderam. Fal. contando
91 anos de idade, conservando até aos
últimos dias da sua vida e rijeza do
corpo e do espírito.
Portugal - Dicionário Histórico,
Corográfico, Heráldico, Biográfico,
Bibliográfico, Numismático e Artístico,
Volume VI, pág. 434-436.
Padre António Vieira
Após a Restauração da Independência em
Portugal (1640), em 1641 Padre António
Vieira iniciou a carreira diplomática.
Em 1644 deixou Portugal como embaixador
(seu pai, que antes vivera pobre, foi
nomeado pensionista real) para negociar
com os Países Baixos a devolução da
Região Nordeste do Brasil.
O povo de Portugal não gostava das
pregações de Vieira em favor dos judeus.
Após esses tempos conturbados da
política portuguesa acabou voltando ao
Brasil, onze anos após voltar para a
Europa. Permaneceu na região Nordeste
por algum tempo, tendo voltado para a
Europa com a morte de D. João IV,
tornando-se confessor da Regente, D.
Luísa.
Com a morte de D. Afonso IV, António
Vieira não encontrou apoio, e a
Inquisição vingou-se, acusando-o de
heresia com base numa carta de 1659,
endereçada ao bispo do Japão, na qual
António Vieira expunha a sua teoria do
Quinto Império, segundo a qual Portugal
estaria predestinado a ser a cabeça de
um grande império do futuro. Foi expulso
de Lisboa, desterrado) e encarcerado no
Porto e depois em Coimbra, enquanto os
jesuítas perderam os seus privilégios.
Em 1667 foi condenado a internamento e
proibido de pregar, mas, seis meses
depois, a pena foi anulada. Em 1669,
desiludido com D. Pedro III partiu para
o Vaticano, onde encontrou o Papa à
beira da morte.
Quando em 1671 uma nova expulsão dos
judeus foi promovida, Vieira novamente
os defendeu. Em 1675 foi absolvido
totalmente pela Inquisição, e voltou
para Lisboa por ordem de D. Pedro, mas
afastou-se dos negócios públicos.
Em 1681 voltou para o Brasil e
dedicou-se à tarefa de continuar a
edição completa em quinze volumes dos
seus Sermões, iniciada em 1679, e à
conclusão da Clavis Prophetarum. As suas
obras começaram a ser publicadas na
Europa, onde foram elogiadas até pela
Inquisição.
Já muito velho e doente, teve que
espalhar circulares sobre a sua saúde
para poder manter em dia a sua vasta
correspondência. Em 1694 já não
conseguia escrever de próprio punho. Em
10 de Junho começou a agonia quando
perdeu a voz e silenciaram-se os seus
discursos. Em 17 de Junho de 1697
faleceu na Bahia, com 89 anos.