Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Formatação: Iara Melo

 

 

O Algarve, fica na extremidade meridional de Portugal, e sua capital é Faro. Esta província portuguesa é cotada pelas serras do Caldeirão e de Monchique, ao pé das quais se encontram zonas irrigadas. Seu nome advém do reino mourisco “Al-Rharz” ou seja, “País do Poente que se estendia também sobre o litoral marroquino nos séculos VIII a XIII. Antigo reino do domínio mouro, às vezes referido como os “Algarves”, é a região mais meridional de Portugal, isolada do província do Alentejo por altas montanhas, separada da Espanha pelo rio Guadiana e banhada pelo Ociano Atlântico. Foi no Algarve que os mouros se mantiveram mais tempo, sendo afinal expulsos definitivamente por D. Afonso III.
No Mitologia, o geógrafo grego Estrabão situou no Cabo de São Vicente – O Sacrum Promontorium, de que Sagres herdará o nome), não só o limite ocidental da Europa mas o extremo de todo o mundo habitado, um lugar mágico em que um outro grego, Artemídoro, contava que os deuses vinham dançar logo que o Sol poente, cem vezes maior do que o normal, caía no oceano como um ferro em brasa. Aí, nessa cunha empurrada contra o mar, os Fenícios teriam homenageado El e Melkart e os Helenos teriam erguido um santuário, talvez a Héracles, o herói musculado, talvez a Cronos, o tempo impiedoso, aqui exilado, porventura, por seu filho Zeus.
Bem, o que sabemos é que o extremo ocidental do Algarve foi desde sempre caminho de passagem e ponto de paragem para os marinheiros que, vindos do Mediterrâneo, eram frequentemente obrigados a deter-se nas suas praias, impedidos pelos ventos dominantes do Norte, de demandarem directamente a Europa Setentrional para onde se dirigiam. Os romanos e os muçulmanos, ambos com projectos mediterrâneos – centrífugos, optaram pela conquista territorial, deixando uns e outros, talvez mais os segundos que os primeiros, vestígios da sua estada secular na paisagem e no património construído no Algarve. Da presença dos romanos são sinais as grandes “villae” do século I depois de Cristo, como a de Milreu, perto de Faro. Da presença islâmica os vestígios mais significativos encontram-se, porventura, em Silves, capital de um influente reino mouro, de que o governante e poeta do século XI, Al-Um’tamid, futuro rei se Sevilha (Espanha), é a figura mais emblemática. A reconquista cristã do território algarvio, começada, eventualmente, ainda no reinado de D. Afonso Henriques, continua co D. Sancho I, com a conquista efémera de Silves entre 1189 e 1191, afirma-se com D. Sancho II, que conquistou Cacela em 1239, Alvor em 1240, Tavira e Paderne em 1242; a sua conclusão teria sido com D. AfonsoIII em 1249, apoiado pela Ordem de Santiago, conquista Albufeira, Porches, Silves e Faro. A integração definitiva do Algarve em Portugal só ficará, no entanto, integralmente legitimada em 1267, uma vez resolvido o conflito sobre direitos senhoriais entre o rei de Portugal e o de Casteloa (Afonso X).
A partir de 1268, D. Afonso III passa a intitular-se “Rei de Portugal e do Algarve”, reconhecendo uma autonomia política que atravessará séculos e está simbolizada na “Cruz de Portugal”, o belo cruzeiro quinhentista que, na saída de Silves para Messines, marcava a “fronteira” do reino meridional. De 1595 a 1808, o Algarve teve um governador próprio e, até finais do século XVIII, gozou de um sistema fiscal diferente das outras províncias. Durante o século XV, o Algarve desempenha um papel fundamental no movimento expansionista português.
O Infante D. Henrique viveu aí boa parte da sua vida, fixando-se quer em Lagos, quer em Vila do Infante, povoação que mandou construir, mas ainda hoje de localização controversa, que esteve no mito da origem da “Escola de Sagres”, que talvez fosse uma base de dados principalmente para futuras navegações. O Algarve além de ser local de partida e chegadas de muitas embarcações, forneceu também grande número de marinheiros para as primeiras grandes viagens marítimas e de soldados que participaram nas campanhas de conquista do Norte de África.
Na segunda metade do século XVIII, o litoral algarvio conhece um período de grande desenvolvimento, após os efeitos devastadores do terramoto de 1755, sentido em quase todo o País, que arruinaram as principais povoações, incluindo Lagos e Faro. Além da reconstrução urbana, de que a obra mais notável foi a reedificação, segundo um magnífico plano de Vila Real de Santo António – antiga aldeia de Santo António da Arenilha – as autoridades pombalinas promoveram acções de fomento nos domínios da agricultura, do comércio e das pescas, com destaque para a fundação da Companhia Geral das Reiais Pescas do Reino do Algarve, em 1773.

http://www.carlosleiteribeiro.caestamosnos.org/Distritos_Portugueses/Faro.html
 
A Lenda do Castelo de Alcoutim
 
Guião do Dr. Gentil Marques para o programa “Lendas da Nossa Terra” – Rádio Clube Português / 1962
 
Foi por volta do ano de 1240. Parte do Sul do Alentejo e algumas terras do Algarve haviam já caído em poder de D. Sancho II. E Alcoutim, vendo-se desamparada e cercada, acabou por render-se. Chefiando os primeiros cristãos escolhidos para entrarem no castelo, ia D. Rui Gomes, cavaleiro distinto, fidalgo muito querido pelas damas da Corte. De pulso vigoroso, fez cumprir as ordens do seu rei para que fosse poupado todo o mouro que se entregasse e reconhecesse vencido. Chegado à sala principal do castelo. O cavaleiro cristão encontrou-se com o ex-alcaide. Junto dele, estava uma linda moura, que atentamente observava o cavaleiro português através dos seus olhos de um negro invulgar. O ex-alcaide saudou-o:
- “Salaam! Estás em tua casa. Não quis partir sem cumprir até ao fim o meu dever. Esta é a minha sobrinha Zuleima”.
D. Rui Gomes olhou-a profundamente. Sorriu-lhe, cavalheiresco, num cumprimento gracioso. E voltando-se de novo para o ex-alcaide. Disse:
- Ouvi dizer que tinhas um filho.”
A expressão do velho mouro fechou-se.
- Sim, tenho. Mas Ali Hassan partiu sem esperar por ti. Deve, pois, ficar por ele!
- Porque se ausentou Ali Hassan?
- Porque não quis sujeitar-se à derrota. Ordenei-lhe que ficasse. Desobedeceu-me! Em sua substituição deixou-me Zuleima, minha sobrinha e sua noiva. Diz-me para onde devo morar.
- Não queres partir também?
- Não para quê?
- Para te juntares a Ali Hassan.
- Não. Aceito s derrota. Ele não a aceitou! É um guerreiro como tu. Poderás talvez compreendê-lo.
D. Rui voltou a olhar a jovem. E respondeu levemente irónico:
- Não, não o compreendo bem. Zuleima devia valer para ele mais que seu orgulho de guerreiro.
O ex-alcaide tentou desculpar o filho: “Ali partiu para voltar!”
- Pois quando voltar encontrar-nos-emos! O meu exército e o dele resolverão nessa altura o assunto. Não vou, como vingança, dispor da tua liberdade e da liberdade da jovem que te acompanha. Via. És livre! Escolhe apenas um lugar para morar, dentro do território que foi estabelecido.
O ex-alcaide fez um cumprimento: “Agradeço-te, e crê que saberás sempre onde me encontrar”.
Zuleima então falou, deixando ouvir a sua voz de um timbre suave: “Descansem. Ali Hassan não voltará para combater”.
D. Rui Gomes sorriu-lhe. E declarou: “Nesse caso… não voltará!”.
Baixou o olhar, o ex-alcaide. Parecia inquieto. Depois falou como se o fizesse apenas para o jovem moura: “O regresso de Ali depende de ti apenas, Zuleima. Ele ama-te. Tu é que não quiseste partir com ele”.
Os olhos da jovem moura encheram-se de lágrimas. Murmurou, olhando o ex-alcaide: “Não podia deixá-lo só, meu tio”.
D. Rui sorriu. E para quebrar o embaraço estabelecido entre tio e sobrinha, declarou com cortesia: “Ninguém pode fugir ao que está escrito no Livro do Destino”.
 
Um silêncio impressionante atabafava os campos, como mão possante a abafar o grito da natureza. O Sol descia para se esconder na linha do Atlântico. No firmamento, nuvens de fogo punham reflexos estranhos na terra e no mar. Mas o silêncio continuava sereno, senhor dos campos, rei absoluto. Também eles -º Zuleima e D. Rui – não se atreviam a quebrá-lo. Abraçados, olhavam esse fim de tarde, que por magia lhes punha na alma um travo de amargura. Os seus dedos faziam pressão no corpo que enlaçavam. Era o único contacto vivo, o único fluído que passava através dos nervos dos dois enamorados. Ele, porém, pareceu ficar inquieto. Ia falar. Ela pousou-lhe suavemente, os dedos sobre os lábios. Foi ela quem quebrou o silêncio: “Não digas nada! Deixa-me viver mais este momento de paz e de amor! Tenho medo de qualquer ruído. Até da nossa própria voz…”
Ele acariciou-a: “Tontinha! Há mais de um mês que vivemos em paz. Que receias agora?
Ela pensou um pouco antes de responder: “Não sei. O outro dia debruçámo-nos sobre o poço. As nossa imagens viam-se ligadas, lá em baixo, nítidas e serenas. Mas um grãozito de areia resvalou e caiu. Foi o suficiente para que as nossas imagens se agitassem e deformassem…”
D. Rui puxou-a mais ainda para si: “Que louca és! Por que te preocupas tanto com coisas supérfluas? Amamo-nos e somos felizes!”
- Sim, amamo-nos… Mas ainda não somos felizes – respondeu-lhe ela.
Ele admirou-se e afastou-a um pouco, para indagar: “Que dizes? Por mim, declaro-te que nunca o fui como depois de conhecer-te”.
Ela olhou-o com uma tristeza infinita: “Tudo me diz que vou ficar sem ti!”
- Pressentimentos? – Perguntou-lhe D. Rui.
- Sim. Posso mesmo dizer-te: quase a certeza!
Ele suspirou: “Só uma ordem de el-rei para deixar o castelo de Alcoutim e seguir para outras terras me poderia afastar de ti. Mas não é provável. O senhor D. Sancho conheceu agora o amor e vai casar-se. Recebi ainda há pouco essa notícia. Não pensará pois em guerras nestes meses mais próximos. E ainda que eu partisse … havia de voltar!”
Zuleima escutara-o em silêncio. Depois maneou a cabeça e declarou: “Não saberei viver sem ti!”
D. Rui Gomes olhou, surpreendido, a jovem moura: “Zuleima, assustas-me! Poderei ficar aqui mais algumas semanas… Mas sou guerreiro, não o esqueças! El-rei pode chamar-me e não poderei levar-te”.
Silenciosa, as lágrimas começaram a rolar pelas faces morenas da bela Zulaima. Murmurou: “Por isso eu sei que a minha vida durará enquanto o teu olhar estiver preso ao meu!”
D. Rui inquietou-se: “Zuleima, meu amor, não fales assim…”
- Rui, juro-o por Alá!
- Não jures minha querida Zuleima. Nem tenhas pensamentos que nos roubem a felicidade…”
- Bem quisera vê-los em debandada! Mas este pressentimento que me põe um nó na garganta quase não me deixa respirar!
- Querida … então!...
- Desde ontem que o trago comigo. Mas hoje… hoje quase sufoco!
Zuleima chorava. D. Rui alarmou-se ainda mais: “Começo a recear os teus pressentimentos! Obrigas-me a voltar para o castelo. Já lá não vou há dois dias… e às vezes … pode chegar algum mensageiro d’ el-rei. Seria desastroso se eu não estivesse lá para o receber e enviar resposta.
- Pois vai! Não devo prender-te.
Voltarei amanhã de manhã. Tu é que me puseste inquieto. Preciso sossegar o espírito. Compreendes decerto, a minha ansiedade.
- Compreendo sim. Vai, que o meu pensamento irá contigo.
Ele beijou-a e disse-lhe: “Amanhã já estaremos novamente juntos”.
Zuleima não respondeu. Mas as suas lágrimas continuaram a correr, num silencioso desabafo.
 
O pressentimento de Zuleima teve o condão de alertar o cavaleiro D. Rui Gomes. Galopava, ansioso por chegar ao castelo. Porém, ao passar por duas grandes árvores de azinheira, quando as muralhas já estavam próximas sofreou o andamento do cavalo. A angústia que o torturava sem saber porquê é que não diminuiu: aumentou até! Quase a passo, D. Rui dirigiu-se para a entrada. Mas de uma sebe, outro cavaleiro surgiu subitamente, atacando-o pelas costas com um golpe certeiro. D. Rui Gomes curvou-se sobre a cabeça do cavalo. Depois, escorregando, tombou desamparado no chão. Relinchou o cavalo e soou, simultâneo, um grito estridente. E outro cavaleiro, que seguia atrás, caiu desmaiado aos pés do cavaleiro agressor. Este desceu rapidamente da montada e olhou o rosto de quem se cobria com um manto guerreiro. Era Zuleima, que seguira D. Rui, mas que chegara tarde para o defender. Então, Ali Hassan – pois era ele o cavaleiro embuçado – tomou-a nos braços, subiu com ela para o cavalo, e deu de esporas, correndo pelo campo fora.
O grito de Zuleima e o relincho do cavalo de D. Rui Gomes tinham despertado as atenções das vigias do castelo. Saíram à pressa alguns guerreiros cristãos, receosos já pela demora de D. Rui. Mas, apenas passaram as portas, toparam como cadáver do cavaleiro cristão. Não se detiveram, entretanto, pois outros desceriam a buscá-los. Ao longe, ouvia-se o galopar do cavalo que levava consigo o assassino de D. Rui. Correram sobre ele. A distância começava a diminuir entre cristãos e o mouro, cansado já o seu cavalo da caminhada até Alcoutim. Cercado, quando lanças caíram sobre o guerreiro mouro e o companheiro, ignorantes, os cristãos, de quem era o guerreiro da capa branca que compartilhava da mesma montada. Assim morreu Ali Hassan. Assim terminou os seus dias a bela Zuleima, que tanto amara D. Rui, o cavaleiro cristão, morto traiçoeiramente por um guerreiro mouro …
 
E conta a lenda que ainda hoje, em determinadas noites, junto ao castelo de Alcoutim se ouve distintamente o chorar convulsivo da jovem moura Zuleima, procurando o seu bem-amado cavaleiro cristão.

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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