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Gabriela - Cravo e Canela

 

 

Sonia Braga - A Inesquecível Gabriela

 

 

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Formatação: Iara Melo

 

 

Telenovela estreada em Portugal em 16 de Maio de 1977

Bahia (Brasil), 1925. Uma das maiores secas da história do Nordeste leva para Ilhéus Gabriela uma bela retirante que com sua beleza e sensualidade conquista a todos, principalmente Nacib dono do bar mais popular da cidade, que emprega Gabriela para trabalhar em sua casa e com quem tem um caso. O relacionamento dos dois fica tão intenso que eles se casam, mas tudo parece desmoronar quando Gabriela lhe é infiel com o maior conquistador da cidade. Paralelamente, um "coronel" vai ser julgado por ter matado sua mulher com o amante. Os outros "coronéis" acham que ele tem de ser inocentado, pois houve um forte motivo para o crime, mas os tempos mudaram e determinados conceitos do passado estão sendo enterrados.
O Portugal que via televisão parou para ver esta coisa nova que dava todos os dias à hora do jantar: o novo hábito ou ritual de ver a telenovela estabeleceu-se mais depressa do que qualquer outro nas últimas décadas. Quem não tinha televisão em casa juntava-se nos cafés ou tascas; e até as pessoas importantes, como os deputados - a Assembleia da República! -, interrompiam o trabalho pela nação para se juntarem à multidão separada que assistia aos episódios, aliás capítulos, e conhecia e aprendia, também pela primeira vez, esse orgulho quente que é o português falado no Brasil.

 
Modinha Para Gabriela - canta Gal Costa - Composição: Dorival Caymmi

Quando eu vim para esse mundo
Eu não atinava em nada
Hoje eu sou Gabriela
Gabriela ê meus camaradas
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Quem me baptizou quem me nomeou
Pouco me importou é assim que eu sou
Gabriela sempre Gabriela

Quando eu vim para esse mundo
Eu não atinava em nada
Hoje eu sou Gabriela
Gabriela ê meus camaradas
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Quem me baptizou quem me nomeou
Pouco me importou é assim que eu sou
Gabriela sempre Gabriela

Gabriela sempre Gabriela
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Sempre Gabriela
 
Em 1977 foi uma bomba em Portugal. Depois do charme de Sónia Braga, nada ficou igual. Na moda, na linguagem, na forma de amar. A primeira novela brasileira em Portugal. E uma história imortal! Passados 30 anos, ninguém que tenha visto a primeira telenovela exibida em Portugal se esqueceu da envolvente história de amor vivida entre a bela, ingénua e analfabeta Gabriela (interpretada por Sónia Braga) e o seu desajeitado patrão de origem libanesa, Seu Nacib (Armando Bógus). Mas não foi só o amor que falou mais alto. Há quem não se esqueça igualmente do confronto, na cidade de Ilhéus, entre os poderosos e retrógrados senhores da terra do cacau, liderados pelo Coronel Ramiro Bastos (Paulo Gracindo), e os interesses emergentes das gentes ligadas ao comércio e às profissões liberais, que tinham no advogado Mundinho Falcão (José Wilker) um esclarecido defensor.
Realizada em 1975 por Walter Avancini, constituiu um enorme êxito em Portugal, traduzido em grandes audiências, na adopção de nomes e de palavras usadas no Brasil, assim como de novas formas de relacionamento social e de comportamento.
O actor Rui Mendes afirma à Correio TV que esta obra “foi importante na mudança operada na mentalidade do telespectador, proporcionando uma maior abertura, que se reflectiu na generalidade da população portuguesa”. A questão não se resume ao hábito criado de, a partir de então, exibir novelas em horário nobre, o que só veio a assumir carácter absorvente nos anos 90, quando a SIC passou a transmitir os folhetins televisivos da Globo, e, a partir de 2000, com a exploração do correspondente filão português pela TVI.

UMA QUESTÃO DE MODA
Apesar de reproduzir um estilo antiquado (anos 20), o corte de cabelo da personagem Malvina (Elizabeth Savalla) passou a ser visto com alguma frequência nalgumas cidades portuguesas, assumindo um toque de modernidade e inconformismo. “Havia então da nossa parte [Portugal] muita receptividade para tudo o que fosse novo, designadamente nos costumes e hábitos”, sublinha a política e linguista Edite Estrela. Três anos antes, o nosso país tinha saído de um longo período de ditadura que tinha deixado marcas redutoras, designadamente nos domínios da cultura, da convivência, da moral e da própria moda. “Vivíamos, em 1977, uma conjuntura muito especial, que potenciou os efeitos inovadores da telenovela, o que contribuiu para a assimilação do que era diferente e especial”, sublinha Edite Estrela, hoje deputada ao Parlamento Europeu.
Com ‘Gabriela’ aconteceu algo que já se havia registado em 1969 com ‘Zip Zip’, o primeiro ‘talk--show’ exibido em Portugal: as ruas despovoavam-se na hora das transmissões. Para isso contribuiu o facto de a telenovela a que coube o mérito de estrear o género em Portugal ser um produto de grande qualidade. O historiador e comunicador televisivo José Hermano Saraiva sublinha o facto de o romance em que o argumento se baseia ser da autoria de Jorge Amado, “que já nessa altura era um escritor predilecto da língua portuguesa, a quem não deram o Nobel da Literatura apenas por razões políticas”.

NOVA LINGUAGEM
Com ‘Gabriela’, alguns termos e expressões características dos brasileiros começaram a entrar no português que se fala em Portugal. Edite Estrela, que sublinha o reconhecimento “da existência de um português mais melódico, de mais fácil compreensão para um estrangeiro, que se fala no outro lado do Atlântico”, destaca também a vantagem “da descoberta de alguns termos que tinham caído em desuso em Portugal, mas que ainda eram utilizados no Brasil.” Foi o caso da forma de saudação ‘inté’ (até logo).
Simone Oliveira, por seu turno, considera que com ‘Gabriela’ “abrasileirámos um pouco a nossa forma de falar”, o que não lhe suscita críticas. Afirma, também, que “esta telenovela extraordinária, realizada com um grau de qualidade que não foi posteriormente prosseguido, teve outros efeitos na sociedade portuguesa”. No entender desta cantora, actriz e apresentadora televisiva, “os brasileiros quando amam, amam, e quando têm de dizer as coisas dizem, o que contrasta connosco, que fazemos de conta”. Dessa forma, a exibição de ‘Gabriela’ em 1977 terá constituído, para Simone de Oliveira, “uma boa amostragem de como é possível libertarmo-nos de preconceitos que cultivávamos na altura e que cultivamos ainda hoje”.

As interpretações de Sónia Braga, Paulo Gracindo, Roberto Bonfim (Chico Chicão), Eloísa Mafalda (Maria Machadão), Nívea Maria (Jerusa), Elizabeth Savalla, Fúlvio Stefanini (Tonico Bastos) e José Wilker, entre outros, eram muito admiradas pelo público português. Apesar de se considerar um artista “pouco interessado em televisão e no género novelístico, embora esteja atento e procure espreitar tudo o que aparece”, o actor Rui Mendes, que se celebrizou nos anos 80 como protagonista da série ‘Duarte e Companhia’ (RTP), e que vimos mais recentemente em ‘O Olhar da Serpente’ (SIC) e ‘Olá Pai’ (TVI), considera que ‘Gabriela’ “era uma telenovela muito bem representada”. Simone de Oliveira diz mesmo que “as interpretações eram extraordinárias”, acentuando que deu nas vistas “a naturalidade com que os actores brasileiros se apresentavam na TV”, contrastando com os portugueses que, no entanto, “ainda hoje são melhores do que os brasileiros em teatro, exceptuando o Paulo Autran e a Fernanda Montenegro”.

NOVOS HÁBITOS
O historiador José Hermano Saraiva conta à Correio TV que, quando exerceu as funções de embaixador de Portugal no Brasil (1972-74), detectou a novidade. “No Brasil passavam telenovelas admiráveis, como ‘O Bem Amado’ (1973), que eu vi e que me levou a fazer algumas diligências para que a nossa TV as passasse cá”, afirma. O apresentador de ‘A Alma e a Gente’ (RTP) sublinha que a sua iniciativa foi motivada pelo facto de ter constatado que “as telenovelas brasileiras eram extraordinárias obras de arte e de poderem representar para os portugueses um importante meio de se habituarem à pronúncia brasileira”. Em seu entender, ‘Gabriela’ e outras telenovelas que se seguiram “tiveram como principal efeito o recrudescimento do interesse do público pela TV”.
Também por efeito desta exibição, os romances de Jorge Amado passaram a ser mais lidos em Portugal, com destaque para ‘Gabriela Cravo e Canela’ que nesse mesmo ano de 1977 foi a obra mais vendida na edição da Feira do Livro de Lisboa. A qualidade e o poder de atracção da obra eram tais que o próprio primeiro-ministro de então, Mário Soares, e alguns ministros foram então objecto de notícias que reportavam a alteração, numa ou noutra circunstância, dos horários de exercício das respectivas funções, para poderem desfrutar este ou aquele episódio da original narrativa de Jorge Amado.

O OLHAR DE LAURO ANTÓNIO
O aparecimento da telenovela ‘Gabriela’ em Portugal foi um acontecimento único, a vários níveis. Desde logo, porque marcou a estreia do formato telenovela diária nos ecrãs portugueses. Depois porque, sendo uma obra adaptada de um romance de Jorge Amado, garantia à partida uma qualidade e interesse acima da média (não o sabíamos nessa altura, mas viemos a confirmá-lo posteriormente: ‘Gabriela’ foi, se não a melhor, uma das melhores telenovelas produzidas no Brasil). Depois, tanto criadores e técnicos, a começar pelo realizador Walter Avancini, como o elenco, eram de primeiríssima grandeza, com Sónia Braga, José Wilker, Armando Bógus, Dina Sfat, Paulo César Pereio, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, e tantos outros, em plena forma e carreiras ascensionais.
Era uma delícia descobrir estes actores e vê-los trabalhar com o sabor de uma língua portuguesa recriada, reinventada. A história era magnífica, a forma como as situações se multiplicavam e se entrechocavam num modelo criativo brilhante, os cenários naturais espantosos, descobrindo-nos, a nós portugueses, uma cultura e uma civilização irmãs, onde nos víamos igualmente reflectidos com nitidez.
Portugal parava diariamente à hora da telenovela, o parlamento fechou mais cedo nos derradeiros dias da sua exibição, todos os programas se organizavam em redor do episódio do dia – não era alienação colectiva, era apenas o sedutor poder do espectáculo no seu melhor. A sociedade portuguesa transformou-se obviamente assistindo a esta obra: adoptou o sotaque brasileiro como segunda língua, adoptou as actrizes e os actores brasileiros como vedetas indispensáveis em qualquer festejo fraterno, adoptou usos e costumes, expressões idiomáticas, e começou a rebolar a bunda ao som do samba. Calmamente. Ao ritmo nacional.
Depois, houve algumas outras telenovelas que quase roçaram o céu (estou a lembrar-me por exemplo de ‘Roque Santeiro’), mas o milagre não voltou a surtir o mesmo efeito. ‘Gabriela’ foi o estado de graça irrepetível. Como será revê-la, hoje em dia, trinta anos depois? Certamente um prazer, mas não um prazer igual ao primeiro. Saravah!
J. L. Feronha
 
Há 30 anos, a televisão pública, canal único em Portugal, pôs no ar o primeiro episódio da telenovela baseada na obra de Jorge Amado, "Gabriela, cravo e canela", que veio a parar o país e a marcar uma geração.
Posto perante a questão do êxito sem precedentes desta telenovela, o sociólogo especialista na área da Comunicação, Pedro Andrade, considera que o facto de ela "ser visionada por muitos segmentos da sociedade, de todos os quadrantes", se deve ao "ineditismo do formato". Na época, inaugurava "um novo tipo de entretenimento". Outro ponto a favor, terá sido a autoria de Jorge Amado, ainda que o texto fosse adaptado a televisão.
"Em suma, a telenovela 'Gabriela', embora passando-se num mundo de ficção, refere-se a um mundo real e colocou a sociedade em geral como observadora dos seus próprios problemas, reais e virtuais", salienta Pedro Andrade.
O impacto que a telenovela teve na sociedade de então, merece do sociólogo António Costa Pinto, três notas essenciais "Primeiro, aquilo que nós poderíamos chamar de luso-tropicalismo, ou seja, a 'Gabriela' alterou completamente uma imagem do Brasil ao remeter para a realidade cultural do Nordeste, como sejam as origens portuguesas; por outro lado, ela introduz na sociedade portuguesa, apesar da transição democrática, o choque de costumes que não era tradicional na cultura de massas televisiva". Por último: "Alterou sensivelmente a relação dos portugueses com a televisão, apesar de termos um canal único".
Para António Costa Pinto, Portugal era uma sociedade rural relativamente significativa nessa altura e estava justamente em processo de massificação sob o ponto de vista do acesso à televisão. "É nessa sociedade rural, com valores mais tradicionalistas, que a telenovela deu de facto outra imagem do Brasil, como também remeteu para outros factores que caracterizavam a sociedade portuguesa que estavam ali caricaturadas, como a influência a Igreja e as elites tradicionais".
Como entretenimento por excelência, a primeira novela da história televisiva nacional, serviu, segundo o também investigador Pedro Andrade, "em particular na área do ócio, para os telespectadores verem em 'Gabriela' o oposto à aridez do seu dia-a-dia". De certa forma, "veio superar o défice de lazeres e de excitação do seu quotididiano."
A actriz brasileira Sónia Braga, que interpretou a inesquecível "Gabriela", papel que lhe trouxe grande visibilidade na televisão e no cinema, pode ser vista actualemte em "Páginas de Vida", na SIC. Mudou-se, em 1985, para os Estados Unidos, sendo, actualmente, uma das personalidades mais conhecidas e requisitadas para trabalhar fora do seu país.
João Quaresma

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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