Nascido na cidade de
Évora, foi poeta, historiógrafo,
desenhador, músico e cantor excelente,
além de homem naturalmente cordial e
espírito desperto para a policromia
vital e para os mais concretos matizes
do drama da convivência humana.
Sabe-se que em 1490 era
moço de câmara de D. João II (de 1481 a
1495) e, no ano seguinte, seu moço de
escrivaninha ou secretário particular,
cargo que exercia ainda em Alvor, onde o
soberano veio a falecer. Coube-lhe ser
designado secretário-tesoureiro da
faustosa embaixada de D. Manuel I
(1495-1521) ao Papa Leão X. Os últimos
anos de vida passou-os em Évora, onde
era proprietário.
Como muitos homens do Renascimento,
Garcia de Resende tinha muitas facetas:
trovava, tangia, desenhava e julga-se
que era entendido em arquitectura
militar.
Manteve sempre uma
posição privilegiada de confidente, no
Paço Real, quer no tempo de D. João II,
que foi seu secretário particular, quer
no de D. Manuel I, que serviu em
diversas missões, entre as quais a de
secretário da fantástica embaixada
enviada por este rei ao papa Leão X.
Encarregado de organizar
o célebre “Cancioneiro Geral” em 1516,
que ficou conhecido pelo seu nome e onde
estão incluídas poesias suas,
devem-se-lhe também dois magníficos
documentos historiográficos: “Vida e
Feitos de D. João II – escrito em 1545”
e “Miscelânea e Variedades de Histórias
– escrito em 1554.
Esta última obra
escreveu-a já retirado, sexagenário. E é
um bosquejo bem vivo da história geral
do seu tempo, escrito em verso, numa
linha a que hoje chamaríamos de
memorialismo.
Estes homens d'onde
irão?"
A morte de D. Inês de
Castro
Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!
A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’altura,
para d’alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.
Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim.
Começou-m’a desejar
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.
Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.
Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.
Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego,
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.
Como as cousas qu’hão de
ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.
E quando vi que descia,
saí a porta da sala,
devinhando o que queria;
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: - “Havei, senhor,
desta triste piedade!
“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
qu’ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.
“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim, só com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.
“Lembre-vos o grand’amor
que me vosso filho tem,
e que sentir grã dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, s’algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu’estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;
“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”
El-rei, vendo como
estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;
Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;
mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca disso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora.
Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dizia:
“-Senhor, vossa piedade
é digna de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas duma mulher.
E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.
“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.
“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará
filhos de benção terá,
será fora de pecado;
qu’agora será anojado,
amanhã lh’esquecerá.”
E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.
E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“-Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”