Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
D. Inês de Castro, era filha de um importante fidalgo
castelhano. Era uma das damas que D. Constança, casada com o futuro rei D. Pedro
Iº, trouxe para Portugal, em 1340. Em breve o então ainda infante D. Pedro,
passou a viver maritalmente com ela, dando-lhe quatro filhos. As relações
adulterinas, o parentesco entre os dois, pois eram primos em 2º grau, o seu
compadrio (era madrinha do 2º filho de D. Pedro e de D. Constança, e o perigo do
infante D. Fernando poder vir a ser afastado do trono, levaram o rei e pai de D.
Pedro, D. Afonso IV, depois de ouvir seus conselheiros, a mandar executar D.
Inês de Castro. Em 1360, D. Pedro declarou ter casado com ela, secretamente.
(...)A ligação amorosa entre o infante D. Pedro e Inês de Castro foi imediata o
que provocou forte conflito entre D. Afonso IV e seu filho e provocou a morte
prematura de Constança Manuel. Temendo o monarca a nefasta influência dos
Castros em seu filho, resolveu condenar à morte Inês de Castro, o que provocou a
rebelião de D. Pedro contra si. Contudo a paz entre o pai e o filho foi
estabelecida em breve e D. Pedro foi associado aos negócios do Estado,
ficando-lhe desde logo incumbida uma função, que sempre haveria de andar ligada
à sua memória – a de exercer justiça (...).
(...) D. Pedro traslada o corpo de Inês de Castro da sua sepultura em Coimbra
para o túmulo real no mosteiro de Alcobaça. É este sim o final da história, com
a lúgubre procissão nocturna que levou o corpo de Coimbra a Alcobaça, iluminada
pelas tochas seguras pelos nobres da corte, e com a tétrica cerimónia em que se
diz que D. Pedro obrigou a sua corte a prestar homenagem à sua rainha, cadáver
entronizado a que os nobres tiveram de beijar a mão (...).
Camões e a bela D. Inês de Castro
(...) Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas. (...)
D. Inês de Castro, dama castelhana, famosa por sua beleza, que acompanhou D.
Constança quando esta foi casar-se com o Príncipe Herdeiro, D. Pedro, filho de
D. Afonso IV. Logo o príncipe apaixonou-se por ela, iniciando um romance famoso
e desventurado, que envolveu, inclusive, aspectos políticos. Temia-se que o caso
fizesse afastar o sucessor legal e aumentasse a influência castelhana. O rei de
Portugal expulsou D. Inês de Portugal, mas, com a morte de D. Constança, D.
Pedro a fez voltar. Apesar da declaração formal de que se casara com ela, ainda
persiste dúvidas a esse respeito. D. Afonso IV consentiu no assassínio de D.
Inês, o que provocou cruel vingança do príncipe quando ascendeu ao trono, como
D. Pedro 1º.
Logo que assumiu o poder, foi sua principal ideia vingar-se dos matadores de D.
Inês de Castro. Conseguiu apanhar apenas dois, pois Diogo Lopes Pacheco pode
escapar-se a tempo. Mandou-os conduzir a Santarém, onde em 1358, fez-lhe dar
morte cruel. Diz o cronista Fernão Lopes, que a um foi arrancado o coração pelas
costas e outro pelo peito.
O tema de Inês de Castro tem sido um dos mais férteis na literatura português.
D. Pedro I, infante de Portugal, era filho do rei D. Afonso IV e de D. Beatriz
de Castela.
Em criança foi-lhe prometido casamento com a princesa D. Branca, filha do
Infante D. Pedro de Castela, prima do rei Afonso XI e neta de Sancho IV de
Castela e D. Maria Molina. Era um casamento político que acabou por não se
consumar, pois a jovem D. Branca, aos 14 anos, mostrava-se tão fraca e doente
que o Infante se recusou a casar com ela.
Terminado este triste episódio, D. Afonso IV voltou de novo a tentar arranjar -
lhe noiva, escolhendo D. Constança Manoel, filha do grande fidalgo D. João
Manoel, cronista e poeta, senhor de várias vilas e castelos. Depois de tempos
atribulados e de muitas intrigas pelo meio conseguiu-se enfim concretizar o
casamento, entrando em Portugal D. Constança, com as honrarias devidas a um
descendente dos reis de Castela, Leão e Aragão.
Ao Infante, no entanto, não agradou muito este enlace, pois queria ter sido ele
a escolher noiva.
Este casamento por conveniência levou a que o Infante se afastasse da esposa,
passando os dias a folgar e caçar nas terras de Touguia.
A vida de D. Pedro continuava assim afogada em excessos até que um dia seus
olhos pousaram na dama de companhia de D. Constança que o entonteceram de tal
maneira que pensou em nunca mais a abandonar.
O escândalo tomou tais proporções que a esposa , D. Constança, resolveu convidar
D. Inês para madrinha do filho que tinha no ventre pois considerava que este
parentesco espiritual os afastaria.
Porém, tal decisão não teve a eficácia necessária, pois D. Pedro, de carácter
extremamente apaixonado e arrebatado, não vergava a nada que impedisse a
concretização dessa paixão.
O seu amor excedeu de tal modo que o escândalo estalou na corte e o rei D.
Afonso IV forçou a amante do filho a sair do país. Inês escondeu-se no castelo
de Albuquerque, próximo da fronteira portuguesa, situado no alto de uma escarpa,
a poucos quilómetros do Alentejo.
Fora construído por D. Afonso Sanches, filho bastardo de D. Dinis e familiar de
D. Inês, pois aí tinha sido criada pela tia D. Teresa de Albuquerque, desde
tenra idade.
Foi no entanto, uma afronta a D. Afonso IV que sempre odiou esse irmão bastardo,
a quem culpava das desavenças tidas com o pai, o rei D. Dinis.
Entretanto, nem a distancia foi obstáculo aos dois amantes, visto que
continuaram a corresponder-se por intermédio de várias pessoas.
Em 1354, D. Constança morre ao dar à luz o terceiro filho. D. Pedro fica então
liberto para ir buscar a sua amada. Preso como estava a um casamento que não
procurara nem queria, viu na morte da esposa a sua libertação.
Logo a seguir à morte da sua esposa, D. Pedro traz D. Inês para Portugal e
leva-a para as terras da Lourinhã que eram muito do seu agrado. Instala-a numa
quinta em Moledo, nas proximidades do Paço da Serra, onde ele passava os seus
tempos de lazer. Viveram separados algum tempo e depois juntos, quer nesta duas
localidades, quer em Touguia.
Foram tempos felizes, apesar dos murmúrios do povo, que não via com bons olhos a
espanhola. Consideravam que a formosa dama era uma filha bastarda do poderoso
fidalgo galego Pedro Fernandez de Castro e os seus irmãos, Álvaro Pires de
Castro e Fernando de Castro não escondiam as suas ambições em relação ao poder.
Seguindo em Castela o partido do senhor de Albuquerque, que se colocara contra o
soberano castelhano, contribuíram para a má relação entre Portugal e Castela.
Ambicionando submeter à sua influência os dois reinos peninsulares. Conseguiram
que D. Pedro se declarasse pretendente às coroas de Leão e Castela, o que deixou
D. Afonso IV desgostoso, pois queria Portugal independente e neutral das lutas
castelhanas.
Por outro lado, Afonso IV via com apreensão a existência dos filhos bastardos de
D. Pedro, que considerava de mau prenúncio para a paz interna do pais.
Esta agudizou-se com o aparecimento da "peste" que apavorava toda a gente.
Então, os mais medrosos, diziam ser um "mau olhado" e culpavam D. Inês de todo o
mal.
O reino até então próspero, começa a empobrecer e o medo invade as populações.
D. Afonso IV, para minimizar a crise, publica e faz cumprir as "Leis do
Trabalho', mas a situação continuava difícil e sem solução à vista. Os campos
que tinham sido férteis, encontravam-se abandonados e as populações apavoradas
com a peste, fogem sem destino.
Neste clima, D. Pedro resolve partir com D. Inês e leva-a para os arredores do
Porto, para Canidelo, onde a instala com todas as honras e comodidades.
Entretanto o descontentamento aumenta à medida que o escândalo dos amores
prossegue. Os conselheiros falam que D. Pedro está dominado pelos irmãos de Inês
e a sua amizade torna-se cada vez mais preocupante – facto comprovado por várias
doações e nomeações feitas àquela família, tendo chegado Álvaro Pires de Castro
a Condestável do Reino. A desconfiança alastra e o ódio aos Castros também.
Tempos depois, já os dois amantes não estão em Canidelo, mas em Coimbra, numa
quinta próxima do Mosteiro de Santa Clara, o que foi muito mal aceite pelo povo,
que não via com bons olhos aqueles amores adúlteros, principalmente por se
passarem junto ao Convento de Santa Clara, onde a bondosa rainha D. Isabel de
Aragão vivera e se tornara santa. Mas a eles nada importava senão o seu amor...
Os notáveis do reino temiam cada vez mais a poderosa influência dos Castros e
insistem com o rei que a única solução é acabar com a vida de Inês.
Os conselheiros Pedro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco
pressentiram o perigo e temiam que os intriguistas e ambiciosos irmãos da
espanhola levassem D. Pedro a ser um mau rei e receavam pela vida do pequeno
Infante D. Fernando, o filho legitimo de D. Pedro e D. Constança e futuro rei de
Portugal. Nos primeiros dias de Janeiro de 1355 planeiam a morte de Inês no
Castelo de Montemor-o-Velho e pedem ao rei a sua anuência.
O rei ficou dividido entre as razões do Estado e o sentimento familiar. Acaba
por vencer a razão do Estado... e assim, no dia 7 de Janeiro desse mesmo ano, D.
Afonso IV mete-se a caminho de Coimbra, acompanhado de gente armada, para matar
a adúltera.
Conta-se que um facto estranho se passou em Coimbra nessa triste madrugada...
Antes da partida de D. Pedro para a caça, algo aconteceu: foi um pressentimento
do que iria suceder. Quando o Infante e os seus homens se preparavam para sair,
um velho cão negro, de aspecto feroz, destacou-se da matilha e enfurecido por
qualquer força estranha, correu em direcção a Inês. A fera estava horrível, com
um brilho demoníaco nos olhos, a boca a espumar, os dentes a brilhar, pronta a
atacar...
O príncipe e os seus homens ficaram petrificados, mas de repente, D. Pedro,
decidido, avançou com a espada e de um só golpe degolou a fera, que veio a cair
cambaleante aos pés de Inês salpicando-lhe o traje de gotas de sangue. Um pavor
supersticioso gelou o ambiente... D. Inês ficou só... e um grande temor a
inundou. Ao menor barulho o coração tremia como que adivinhasse a tragédia.
E ela iria consumar-se. O rei D. Afonso IV e os seus conselheiros entram no
paço e apesar das súplicas da “mísera e mesquinha” a tragédia desenrola-se...
não sem que o rei hesite, angustiado, perante a fragilidade da dama e os choros
das crianças... Inês é finalmente assassinada.
Após o assassínio, D. Inês foi levada para a igreja de Santa Clara e foi
enterrada no dia 7 de Janeiro de 1355. Estava consumada a tragédia...
Ao ter conhecimento do bárbaro feito, a reacção de D. Pedro foi violenta:
levantou um exército contra o rei, seu pai e entre os seus apoiantes. D. Afonso
IV marchou para o norte à frente das suas tropas e só a intervenção da rainha D.
Beatriz, D. Pedro assinou a paz com o pai.
Em 1357 morreu D. Afonso IV e D. Pedro subiu finalmente subiu ao trono. Este
procurou de imediato reaver os assassinos de D. Inês que se encontravam
refugiados em Castela. Graças a um contrato com o primo D. Pedro de Castela, D.
Pedro I, conseguiu a extradição de Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves, já que Diogo
Lopes Pacheco conseguira fugir a tempo para Aragão e posteriormente para França.
Foram entregues ao rei, em Santarém. Este, desejoso de vingança, mandou tirar o
coração pelo peito a Pêro Coelho e pelas costas a Álvaro Gonçalves. Depois, reza
a história, não contente com isso pediu que lhe trouxessem cebola e vinagre e
segundo a lenda teria trincado os corações.
Entretanto, D. Pedro mandou construir um belo túmulo destinado a recolher os
restos mortais daquela que, segundo afirmou, fora sua esposa e que queria
dignificada depois da morte.
Em 2 de Abril de 1361, fez-se a transladação do corpo de D. Inês de Castro do
Mosteiro de Santa Clara de Coimbra para o Mosteiro de Alcobaça.
Razões para a Impossibilidade do Amor entre D. Inês e D. Pedro
A beleza singular de D. Inês despertou desde logo a atenção do Príncipe, que
veio a apaixonar-se profundamente por ela. Desta paixão nasceu entre D. Pedro e
D. Inês uma ligação amorosa que provocou escândalo na Corte portuguesa, motivo
por que o rei resolveu intervir, expulsando do reino Inês de Castro, que veio a
instalar-se no castelo de Albuquerque, na fronteira de Espanha.
Constança morre de parto em 1345 e a ligação amorosa entre D. Pedro e D. Inês
estreita-se ainda mais: contra a determinação do rei, D. Pedro manda que D. Inês
regresse a Portugal e instala-a na sua própria casa, onde passam a viver uma
vida de marido e mulher, de que nascem quatro filhos.
Os conselheiros do rei aperceberam-se das atenções com que o herdeiro do trono
português recebia os irmãos de D. Inês e outros fidalgos galegos, chamaram a
atenção de D. Afonso IV para aquele estado de coisas e para os perigos que
poderiam advir dessa circunstância, uma vez que seria natural antever a
possibilidade de se vir a criar uma influência dominante de Castela sobre a
política portuguesa. Persuadiram o rei de que esse perigo poderia afastar-se
definidamente, se cortasse pela raiz a causa real desse perigo: a influência que
D. Inês exercia sobre o príncipe D. Pedro, que um dia viria a ser rei de
Portugal. Para isso seria necessário e suficiente eliminar D. Inês de Castro.
O problema foi discutido na presença dos três conselheiros do rei em
Montemor-o-Velho, e aí ficou resolvido que Inês seria executada sem demora.
Quando D. Inês soube desta resolução, foi ter com o rei, rodeada dos filhos,
para implorar misericórdia, uma vez que ela se considerava isenta de qualquer
culpa. As súplicas de Inês só momentaneamente apiedaram D. Afonso IV, que
entretanto se deslocara a Coimbra para que se desse cumprimento à deliberação
tomada. A execução de D. Inês efectuou-se em 7 de Janeiro de 1355, segundo o
ritual e as práticas daquele tempo.
Temia-se, por um lado, a influência nefasta dos Castros junto do infante e, por
outro, futuras lutas na sucessão ao trono entre os filhos legítimos de D. Pedro
e os que teve de D. Inês, comprometendo a segurança do estado. Assim se explica
a decisão de D. Afonso IV de afastar D. Inês de Castro, condenando-a à morte,
sendo julgada e degolada em Coimbra, a 7 de Janeiro de 1355. Após a execução, D.
Pedro revoltou-se contra o pai, e, com o apoio de nobres que lhe eram favoráveis
e de D. Fernando e D. Álvaro Pires de Castro, irmãos de D. Inês, declarou guerra
a seu pai. Montou o seu quartel general no norte, chegando mesmo a tentar
apoderar-se da cidade do Porto. Em breve, contudo, a paz se iria restabelecer,
graças à intervenção de D. Beatriz, a rainha-mãe, que evitou o encontro militar
entre pai e filho, firmando-se a reconciliação entre ambos em Marco de
Canaveses.
Assim, uma das consequências deste assassínio diz respeito à reacção de D. Pedro
perante o facto consumado. Apenas uma intervenção da rainha, D. Beatriz de
Castela, impede uma provável luta entre pai e filho. O acordo de paz entre D.
Pedro e seu pai foi firmado em Marco de Canaveses no dia 15 de Agosto de 1355,
tendo desde logo D. Afonso IV delegado em D. Pedro grande parte do poder. Neste
acordo prometeu D. Pedro esquecer o passado, nomeadamente a morte de D. Inês,
assim como os seus intervenientes, incluindo os seus carrascos. Ficou o infante
desde esta altura incumbido de, com certas reservas, exercer justiça em todo o
reino.
Anos depois, em 1360, D. Pedro I, já então rei de Portugal, jurou, perante a sua
corte, que havia casado clandestinamente com D. Inês um ano antes da sua morte.
A relação de D. Pedro com D. Inês de Castro, que pertencia a uma das famílias
mais nobres e poderosas de Castela, poderia conduzir ao trono português um dos
filhos nascidos desta relação ilegítima. O herdeiro legítimo, filho de D. Pedro
e D. Constança seria, assim, preterido. A independência nacional era posta em
causa.
Daí advém a principal razão de este assassínio ter acontecido.
É na Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, conhecido por Mosteiro de
Alcobaça, que se encontram os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, enquadrando-se
o valor simbólico de que se revestem na mística austera da espiritualidade
cisterciense. Em 1361, por ordem de D. Pedro, foi colocado no lado direito do
transepto o túmulo de D. Inês de Castro e, anos mais tarde, dando-lhe a direita,
o túmulo do próprio D. Pedro. A actual colocação dos dois túmulos data de meados
deste século, após obras de restauro e de reposição das naves da Igreja no
estilo gótico inicial. Os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, mandados esculpir
pelo próprio Rei, constituem os mais belos exemplares da arte tumulária medieval
portuguesa.
Os baixos relevos do de D. Inês têm por tema principal cenas da Vida de Jesus,
da Ressurreição e do Juízo Final. Nas esculturas do de D. Pedro estão
representadas cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a
Portugal.
Foi em 1178, no contexto da concretização do projecto europeu da Reconquista
Cristã, que D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, incumbiu os monges da
Ordem de Cister de iniciarem a construção, em Alcobaça, de uma Abadia e de
outras obras destinadas à fixação das populações e ao aproveitamento agrícola
das terras recentemente reconquistadas aos mouros.
A estrutura da obra seguiu o plano da Igreja-Mãe de Claraval como modelo. A
simplicidade e a austeridade eram de regra, a que o esforço de guerra
acrescentava atributos de fortaleza, igualmente notórios na Sé romântica de
Coimbra. O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça é o primeiro edifício de estilo
gótico evoluído que se construiu em Portugal.
D. Inês de Castro foi morta no dia 7 de Janeiro de 1355 e foi enterrada no
Mosteiro de Santa Clara em Coimbra. No entanto, no dia 2 de Abril de 1361,
fez-se a transladação do corpo de Inês de Castro desse local para o Mosteiro de
Alcobaça.
D. Fernão Lopes, que viveu depois de referido acontecimento descreve-o do
seguinte modo:
“Mandou D. Pedro obrar um monumento de alva pedra, todo muito subtilmente
lavrado sobre a tampa de cima a imagem dela com a coroa na cabeça como se fora
ha; e neste momento mandou pôr no Mosteiro de Alcobaça, não à entrada onde fazem
os Reis, mas dentro de igreja, à mão direita, junto da Capela Mor, e fez fazer o
seu corpo do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde fazia, o mais honradamente
que se pode fazer, porque ele vinha em umas andas muito preparados para tal
tempo, as quais traziam grandes cavalos acompanhados de grandes Fidalgos, e
outra muita gente, e Donzelas, e outra muita Cleresia; e pelo caminho estavam
muitos mil homens com círios nas mãos, de tal sorte ordenados, sempre o seu
corpo foi todo o caminho por entre círios acesos; e assim chegaram até ao dito
Mosteiro, que eram dali dezassete mil léguas, onde com muitas missas, e grande
solenidade foi posto em aquele momento. E foi esta a mais honrada transladação,
que até aquele tempo em Portugal fora visto.”
Como se pode observar por esta descrição não houve sítio por onde o corpo de D.
Inês passasse que não estivesse alumiado por velas, quer fosse de dia ou de
noite, fizesse sol ou chovesse. Schoffer diz que D. Inês de Castro foi
conduzida a Alcobaça por entre duas filas de estrelas.
A transferência do seu cadáver do Mosteiro de Santa Clara em Coimbra para o
Mosteiro de Alcobaça promoveu, de certo modo, a reabilitação da figura de D.
Inês de Castro, visto que esta cerimónia se revestiu de uma imponência e
grandiosidade nunca antes vista em Portugal.
Segundo o que se diz, após a sua chegada ao referido Mosteiro, o rei mandou
colocar o cadáver de D. Inês num trono, colocou-lhe sobre o crânio a coroa real
e obrigou todos os nobres a beijar a descarnada mão da rainha morta.
Isto porque D. Pedro jurou em 12 de Junho de 1360, na vila de Cantanhede, que
sete anos antes, quando se encontrava em Bragança, recebera como sua legitima
esposa D. Inês de Castro. Por esse motivo, era de justiça que mesmo depois de
morta, recebesse as homenagens devidas.
Segundo Fr. Manuel dos Santos, D. Pedro I veio muitas vezes ao Mosteiro de
Alcobaça, não só no tempo em que lavrara a sepultura como depois da transladação
de D. Inês.
Este monarca tinha uma grande afinidade com este mosteiro e terá sido por isso
que Pedro I restituiu ao Mosteiro de Alcobaça tudo o que foi lhe havia sido
tirado por el-rei, D. Afonso IV, durante o seu reinado.
D. Pedro I mandou, em vida, fazer o seu sarcófago e ordenou em seu testamento o
sepultassem no Mosteiro de Alcobaça, frente à sepultura de sua amada. O
objectivo seria que quando o mundo acabasse e os mortos regressassem à vida, a
primeira pessoa que ele visse fosse a sua eterna amada.
Faleceu este monarca em Estremoz, no dia 17 de Janeiro de 1367.
A Quinta das Lágrimas, construída no século XVIII mas,
devido a um incêndio, apresenta arquitectura do século XIX, cuja origem se perde
nos séculos, foi o cenário dos amores proibidos do príncipe D. Pedro e D. Inês
de Castro, dama de companhia de sua mulher D. Constança. Diz a lenda que foi na
Quinta das Lágrimas que D. Inês chorou pela última vez, enquanto era trespassada
pelos punhais dos fidalgos a quem o rei Afonso IV ordenara a sua morte. As
lágrimas então derramadas inspiraram Luís de Camões a criar o nome de Fonte das
Lágrimas e muitos outros escritores a consagrar o amor eterno de Pedro e Inês.
O Jardim foi idealizado no século XIX, seguindo uma tendência da época, a da
constituição de uma espécie de Museu Vegetal, onde estariam representadas
espécies de todo o mundo. A sua flora forma um conjunto de tal maneira rico e
diversificado que se equipara em raridade e exotismo aos mais completos jardins
botânicos.
Coimbra é, assim, a terra dos amores de Pedro e Inês. Aqui se terão visto pela
primeira vez. Os "saudosos campos do Mondego" e os arvoredos da Fonte dos Amores
terão sido o palco dos seus secretos encontros.
Após a morte de D. Constança, passaram a viver no Paço régio, situado junto do
Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Nele terão nascido os três filhos: os Infantes
D. Pedro e D. Dinis e a Infanta D. Beatriz. Aí ou em local muito próximo, terá
sido executada a sentença que condenara D. Inês. É, no entanto, de tradição
popular que a tragédia ocorreu no local depois conhecido por Fonte das Lágrimas
ou Fonte dos Amores.
PEDRO, JUSTICEIRO E CRU
Quero comentar esta chacina com os meus companheiros de viagem. Procuro por eles
em Santa Clara, em Coimbra, no choupal, nas margens esquerda e direita do
Mondego, mas não os encontro. Concluo que, arrepiados com a morte matada de Inês
de Castro, cada qual decidira regressar ao seu próprio tempo, esse é o centro de
gravidade que está sempre a puxar por nós. Fácil é tornar a ele, é só escorregar
e deixar-nos ir a meio do sono; quando acordamos já estamos lá. Mais difícil é
livrar-nos dele, há que ter condão. Eu, que sou um obstinado, resolvo ficar por
aqui mais um bocado...
Vejo D. Pedro pegar em armas contra o pai. Com a sua tropa, tenta mesmo ocupar a
cidade do Porto. Mas também vejo o bispo de Braga a tentar apaziguar a
desavença. Para minha surpresa, D. Pedro amansa. Deduzo que as palavras mágicas
tenham sido “a guerra civil envolve sempre o martírio de inocentes”, e D. Pedro
a lembrar-se então da inocência dos seus filhos com D. Inês...
El-Rei exige que D. Pedro não persiga os matadores de Inês de Castro e o
Príncipe garante que já os perdoou. El-Rei finge aceitar a palavra dada, mas
dela desconfia... De qualquer forma, começa a partilhar com o filho o mando e o
comando do Reino. Mas quando em 1357 cai no leito de morte, ainda consegue
aconselhar os matadores a exilarem-se em Castela. Pelo sim, pelo não, os três
abalam e tratam de cruzar fronteira...
Morre el-Rei D. Afonso IV e a primeira medida de D. Pedro de Portugal é combinar
com D. Pedro de Castela (filho de D. Afonso XI), a troca de homiziados
castelhanos em Portugal por homiziados portugueses em Castela. É assim que são
entregues à justiça portuguesa Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. Diogo Lopes
Pacheco consegue fugir a tempo de Castela para Aragão e daqui para França.
Enquanto trincha e come a sua vianda mal passada pelas brasas e bebe o seu vinho
tinto, D. Pedro I vai assistindo à demorada tortura de Pero Coelho e Álvaro
Gonçalves. A um, é arrancado o coração pelas costas, a outro pelo peito.
Persignam-se os nobres e murmuram, apavorados:
- El-Rei traiu a palavra dada...
Mas a um homem bom (é o nome que neste tempo se dá a um burguês conceituado),
ouço dizer:
- Quem trai a quem fez traição, tem cem anos de perdão...
A obsessão d’el-Rei D. Pedro I passa a ser a justiça que aplica, de forma
inclemente, contra criminosos quer de origem nobre, quer plebeia, sem fazer
distinção entre uns e outros, o que muito agrada à arraia-miúda. Porém, mais do
que fazer justiça, D. Pedro gosta é de ver aplicá-la, goza muito com o
sofrimento dos condenados. Por isso ora dizem que é Justiceiro, ora dizem que
ele é Cru (cruel). Séculos mais tarde irão chamá-lo psicopata, sádico. Não digo
que não seja mas estou em crer que a sua Inês degolada em frente dos filhos,
infectou e fez purgar o lado obscuro da sua alma...
Nos intervalos entre a aplicação da justiça e a governação do Reino, do que D.
Pedro mais gosta é de sair pelas ruas a bailar e a folgar com outros foliões da
arraia-miúda.
Mas nunca se esquece da sua paixão. Comentam que, depois da morte de D.
Constança, teria casado secretamente com Inês de Castro. Nunca ouvi D. Pedro
dizer tal coisa e duvido que isso tenha acontecido, pois seria afrontar
desnecessariamente el-Rei D. Afonso IV. Além do mais, para poder casar com uma
prima, teria que obter licença especial, bula papal. E desta não há qualquer
notícia...
Tenta é preservar a memória de Inês de Castro. Mandou esculpir dois túmulos, um
para Inês, outro para ele. Colocados lado a lado, virão a ser os grandes
expoentes da arte tumular medieval portuguesa. Os baixos relevos do túmulo de D.
Inês representam cenas da vida de Jesus, da Ressurreição e do Juízo Final. Sobre
a tampa está esculpida a imagem de Inês, de corpo inteiro, com coroa na cabeça
como se fora rainha. As esculturas do túmulo de D. Pedro representam cenas da
vida dos dois apaixonados desde a chegada de Inês a Portugal. Por sua ordem, os
dois túmulos são colocados dentro da igreja, à mão direita, cerca da capela-mor
do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. Em 1361 D. Pedro manda trasladar os
resto mortais de D. Inês, do Mosteiro de Santa Clara para o Mosteiro de
Alcobaça. Os restos mortais seguem em liteira de luxo, conduzida por grandes
cavaleiros, acompanhada por muita gente, nobres, clérigos, burgueses e plebeus.
Pelo caminho até Alcobaça, muitos homens com círios nas mãos. No Mosteiro,
muitas missas e grande solenidade para depositar os restos de Inês em túmulo
novo.
Túmulos de D. Pedro e D. Inês No transepto e de cada lado, encontram-se os
túmulos de D. Pedro I e D. Inês de Castro, os eternos amantes de uma das mais
belas e trágicas histórias de amor. O túmulo de D. Inês apresenta nas faces
laterais cenas da vida de Cristo. O túmulo de D. Pedro alude à vida de S.
Bartolomeu. Na cabeceira, vê-se uma espantosa Rosa da Vida do par amoroso. Nas
dezoito edículas que se dispõe em duas faixas circulares concêntricas, está
documentado todo o trágico poema de amor, desde as cenas da vida dos dois
amantes, até ao sangrento fim da doce Inês e o castigo dos assassinos. Na parte
inferior da rosácea, no pequeno túmulo com uma estátua jacente lê-se o supremo
adeus: "Até ao fim do Mundo..."
Crônica de D. Pedro I - de Fernão Lopes
Como foi trelladada Dona Ines pera o moesteiro Dalcobaça, e da morte delRei Dom
Pedro
Por que semelhante amor, qual elRei Dom Pedro ouve a Dona Enes, raramente he
achado em alguuma pessoa, porem disserom os antiigos quc nenhuum he tam
verdadeiramente achado, como aquel cuja morte nom tira da memoria o gramde
espaço do tempo. E se alguum disser que muitos forom ja que tanto e mais que el
amarom, assi como Adriana e Dido, e outras que nom nomeamos, segumdo se lee em
suas epistolas, respomdesse que nom fallamos em amores compostos, os quaaes
alguuns autores abastados de eloquemcia, e floreçentes em bem ditar, hordenarom
segumdo lhes prougue, dizemdo em nome de taaes pessoas, razoões que numca
nenhuuma dellas cuidou; mas fallamos daquelles amores que se contam e leem nas
estorias, que seu fumdamento teem sobre verdade. Este verdadeiro amor ouve elRei
Dom Pedro a Dona Enes como se della namorou, seemdo casado e aimda Iffamte, de
guisa que pero dela no começo perdesse vista e falla, seemdo alomgado, como
ouvistes, que he o prinçipal aazo de se perder o amor, numca çessava de lhe
emviar recados, como em seu logar teemdes ouvido. Quanto depois trabalhou polla
aver, e o que fez por sua morte, e quaaes justiças naquelles que em ella forom
culpados, himdo contra seu juramento, bem he testimunho do que nos dizemos. E
seemdo nembrado de homrrar seus ossos, pois lhe ja mais fazer nom podia, mandou
fazer huum muimento dalva pedra, todo mui sotillmente obrado, poemdo emlevada
sobre a campãa de çima a imagem della com coroa na cabeça, como se fora Rainha;
e este muimento mandou poer no moesteiro Dalcobaça, nom aa emtrada hu jazem os
Reis, mas demtro na egreja ha maão dereita, açerca da capella moor. E fez trazer
o seu corpo do mosteiro de Samta Clara de Coimbra, hu jazia, ho mais
homrradamente que se fazer pode, ca ella viinha em huumas andas, muito bem
corregidas pera tal tempo, as quaaes tragiam gramdes cavalleiros, acompanhadas
de gramdes fidalgos, e muita outra gente, e donas, e domzellas, e muita
creelezia. Pelo caminho estavom muitos homeens com çirios nas maãos, de tal
guisa hordenados, que sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre çirios
açesos; e assi chegarom ataa o dito moesteiro, que eram dalli dezassete legoas,
omde com muitas missas e gram solenidade foi posto em aquel muimento: e foi esta
a mais homrrada trelladaçom, que ataa aquel tempo em Portugal fora vista.
Semelhavelmente mandou elRei fazer outro tal muimento e tam bem obrado pera si,
e fezeo poer açerca do seu della, pera quamdo se aqueeçesse de morrer o deitarem
em elle. E estamdo el em Estremoz, adoeçeo de sua postumeira door, e jazemdo
doemte, nembrousse como depois da morte Dalvoro Gomçallvez e Pero Coelho, el
fora çerto, que Diego Lopes Pachequo nom fora em culpa da morte de Dona Enes, e
perdohou-lhe todo queixume que del avia, e mandou que lhe emtregassem todos seus
beens; e assi o fez depois elRei Dom Fernamdo seu filho, que lhos mandou
emtregar todos, e lhe alçou a semtemça que elRei seu padre comtra elle passara,
quamto com dereito pode. E mandou elRei em seu testamento, que Ihe tevessem em
cada huum ano pera sempre no dito mosteiro seis capellaaens, que cantassem por
el e lhe dissessem cada dia huuma missa oficiada, e sahirem sobrel com cruz e
augua beemta: e elRei Dom Fernamdo seu filho, por se esto melhor comprir e se
cantarem as ditas missas, deu depois ao dito moesteiro em doaçom por sempre o
logar que chamam as Paredes, termo de Leirea, com todallas rendas e senhorio que
em el avia. E leixou elRei Dom Pedro em seu testamento çertos legados, a saber,
aa Iffamte Dona Beatriz sua filha pera casamento cem mil livras; e ao Iffamte
Dom Joham seu filho viimte mil livras; e ao Iffamte Dom Denis outras viinte mil;
e assi a outras pessoas. E morreo elRei Dom Pedro huuma segumda feira de
madurgada, dezoito dias de janeiro da era de mil e quatro cemtos e cimquo anos,
avemdo dez annos e sete meses e viimte dias que reinara, e quaremta e sete anos
e nove meses e oito dias de sua hidade, e mandousse levar aaquel moesteiro que
dissemos, e lamçar em seu muimento, que esta jumto com o de Dona Enes. E por
quamto o Iffamte Dom Fernamdo seu primogenito filho nom era estomçe hi, foi
elRei deteudo e nom levado logo, ataa que o Iffamte veo, e aa quarta feira foi
posto no muimento. E diziam as gentes, que taaes dez annos numca ouve em
Portugal, como estes que reinara elRei Dom Pedro.
Fernão Lopes (1380? – 1460?) terá nascido em Lisboa, de uma família do povo. É
considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à
preocupação pela busca da verdade. Foi escrivão de livros do rei D. João I e
"escrivão da puridade" do infante D. Fernando. D. Duarte concedeu-lhe uma tença
anual para ele se dedicar à investigação da história do reino, devendo redigir
uma Crónica Geral do Reino de Portugal. Correu a província a buscar informações,
informações estas que depois lhe serviram para escrever as várias crónicas
(Crónica de D Pedro I, Crónica de D. Fernando, Crónica de D. João I, Crónica de
Cinco Reis de Portugal e Crónicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal.). Foi
"guardador das escrituras" da Torre do Tombo.
Protagonistas
D. Afonso IV
D. Afonso IV, o Bravo, procurou, no essencial, prosseguir a política de boas
relações com Castela e Aragão, que o Pai havia mantido com êxito, por forma a
garantir a estabilidade da Casa de Portugal. Quando D. Constança, mulher do
Infante D. Pedro morreu, pouco depois de ter nascido D. Fernando, D. Afonso IV,
temendo que o filho decidisse casar com D. Inês e aumentasse por isso, a
influência dos Castros, seus irmãos, sobre as opções de estratégia diplomática e
política de D. Pedro, logo que este passasse a ter a responsabilidade da
governação, decidiu afastar drasticamente os seus receios e os dos seus
conselheiros pela condenação à morte de D. Inês de Castro.
D. Pedro Iº
D. Pedro nasceu em Coimbra, em 1320. Aos vinte anos recebeu em casamento D.
Constança, filha do Infante D. Juan Manuel, e descendente de Afonso X de
Castela.
Acompanhava-a, no seu séquito, D. Inês de Castro, de uma nobre família da Galiza
muito influente na política castelhana. De uma beleza que deixou fama, tudo
parece indicar que o Infante cedo se deixou enamorar por ela, dando lugar, de
imediato, a resistências que culminariam com o seu exílio na vila fronteiriça de
Albuquerque. Mas só depois do falecimento de D. Constância, Pedro e Inês
passaram a viver mais livre e publicamente a paixão que os consumia.
Os Lugares e Os Acontecimentos
Coimbra
Coimbra é a terra dos amores de Pedro e Inês. Aqui se terão visto pela primeira
vez. Os "saudosos campos do Mondego" e os arvoredos da Fonte dos Amores terão
sido o palco dos seus secretos encontros. Após a morte de D. Constança, passaram
a viver no Paço régio, situado junto do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Nele
terão nascido os três filhos: os Infantes D. Pedro e D. Dinis e a Infanta D.
Beatriz. Aí ou em local muito próximo, terá sido executada a sentença que
condenara D. Inês. É, no entanto, de tradição popular que a tragédia ocorreu no
local depois conhecido por Fonte das Lágrimas.
Montemor-o-Velho
No Castelo de Montemor-o-Velho, nos primeiros dias de Janeiro de 1355, D. Afonso
IV reuniu o seu conselho, em que estiveram presentes nobres influentes, como
Diogo Lopes Pacheco, Pero Coelho e Álvaro Gonçalves. A decisão de condenar Inês
de Castro à morte terá sido tomada numa das salas do austero Paço Real, hoje
desaparecido. Temiam todos que, por influência dos Castros, D. Pedro acabasse
por ser levado a intervir nas lutas internas de Castela, como estivera para
acontecer nos finais de 1354, tendo sido disso proíbido, à última hora, pelo
próprio Afonso IV. Mas também temiam perder, com D. Pedro, a influência que
havia muito detinham junto do velho monarca. Na manhã seguinte, dirigiram-se
todos a Coimbra, onde aproveitaram a ausência de D. Pedro, numa caçada, para dar
cumprimento à decisão tomada em Montemor.
O poeta e dramaturgo renascentista, António Ferreira, procura reconstituir a
tragédia dos últimos momentos da vida de Inês de Castro e o conflito em que o
rei Bravo se terá debatido. As "razões da estabilidade política", invocadas
pelos conselheiros, sobrepunham-se às "razões dos afectos".
Cantanhede
Foi em Cantanhede, em local não rigorosamente identificado, que D. Pedro, em
1360, proferiu a célebre "Declaração" em que afirmava ter contraído matrimónio
com D. Inês de Castro, declaração polémica quanto à sua veracidade, devido não
só à imprecisão de alguns dados tidos por fundamentais, como também quanto à sua
real intenção, orientada provavelmente para a legitimação dos filhos de D. Inês.
A "Declaração" de Cantanhede inscrevia-se, afinal, na mesma linha de actuação
que conduziu à cerimónia da lendária coroação póstuma de Inês como Rainha de
Portugal, no Mosteiro de Santa Clara.
Mosteiro de Alcobaça
É no transepto da Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça que se encontram
os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, enquadrando-se o valor simbólico de que se
revestem na mística austera da espiritualidade cisterciense. Em 1361, por ordem
de D. Pedro, foi colocado no lado direito do transepto o túmulo de D. Inês de
Castro e, anos mais tarde, dando-lhe a direita, o túmulo do próprio D. Pedro. A
actual colocação dos dois túmulos data de meados do século XX, após obras de
restauro e de reposição das naves da Igreja no estilo gótico inicial.
Os túmulos de D. Pedro e de D. Inês, mandados esculpir pelo próprio Rei,
constituem os mais belos exemplares da arte tumulária medieval portuguesa. Os
baixos relevos do de D. Inês têm por tema principal cenas da Vida de Jesus, da
Ressurreição e do Juízo Final. Nas esculturas do de D. Pedro estão representadas
cenas da vida dos dois amantes desde a chegada de Inês a Portugal.
Foi em 1178, no contexto da concretização do projecto europeu da Reconquista
Cristã, que D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, incumbiu os monges da
Ordem de Cister de iniciarem a construção, em Alcobaça, de uma Abadia e de
outras obras destinadas à fixação das populações e ao aproveitamento agrícola
das terras recentemente reconquistadas aos mouros. A estrutura da obra seguiu o
plano da Igreja-Mãe de Claraval como modelo. A simplicidade e a austeridade eram
de regra, a que o esforço de guerra acrescentava atributos de fortaleza,
igualmente notórios na Sé românica de Coimbra. O Mosteiro de Santa Maria de
Alcobaça é o primeiro edifício de estilo gótico evoluído que se construiu em
Portugal.