Trabalho e pesquisa de
Carlos Leite Ribeiro
Formatação: Iara Melo
O peixe
bacalhau atinge por vezes 1,50 metro de
comprimento, e pesca-se nas costas da
Terra Nova, da Noruega e da Inglaterra.
Em geral, aparece no mercado depois de
seco e espalmado. Ultimamente tem
aparecido o bacalhau fresco mas sem
assinalável êxito, pois seu gosto difere
muito do seco e salgado. O bacalhau é
reconhecido pelas suas numerosas
barbatanas ímpares (três dorsais e duas
anais e pelo seu borbulhão ímpar.
Modernamente, pescam-no com rede de
arrastar, ao largo da Terra Nova ou em
águas mais frias, durante o curto
período em que os bacalhaus se juntam
aos cardumes para desovar, pois vivem
dispersos durante o resto do ano. Em
Portugal, são comercializadas três
espécies de bacalhau: o legítimo ou
verdadeiro; o escamudo que, com a falta
do legítimo se consome muito em Portugal
e no Brasil, sem o sabor daquele e
conhece-se pelas espinhas, pela cor da
pele e pelo rabo.
Bacalhau é o nome comum para os peixes
do género Gadus , pertencente à família
Gadidae. A origem do vocábulo
designativo ainda é pouco clara. Talvez
assente nas formas franceses cab(e) liau
ou cabillaud, por meio da metátese das
sílabas iniciais, tendo estas, por seu
turno, origem possivelmente na língua
neerlandesa kabeljaauw (se é que não é
este que provém do português.
A história da pesca do bacalhau pelos
portugueses aparece pela primeira vez
referenciada em 1353, quando D. Pedro I
e Eduardo II de Inglaterra estabelecem
um acordo de pesca para pescadores de
Lisboa e do Porto poderem pescar o
bacalhau nas costas da Inglaterra por 50
anos. A necessidade de estabelecer um
acordo indicia que esta actividade já se
realizava em anos anteriores, e em tal
quantidade, que justificasse a
necessidade enquadrar esta actividade
nas relações entre os dois reinos.
Cerca de 1500 ou 1501 Gaspar Corte Real
navega até ao estreito de Davis, no que
segundos autores representa a descoberta
da Terra Nova. Na segunda desta viagem é
elaborado o planisfério de Cantino,
primeiro a apresentar uma visão mais
realista dessa região. Ora os pescadores
portugueses, na posse desta informação,
procuram nas áreas recém descobertas e
cartografadas melhores pesqueiros. No
entanto, já o seu pai, João Vaz Corte
Real, esteve numa expedição mandada
efectuar pelo Rei Cristiano I da
Dinamarca a pedido do rei de Portugal
Afonso V, em 1470. No relato desta
viagem ficou registada a Gronelândia e
“A Terra dos Bacalhaus”, o que mais uma
vez indicia a pratica da pesca
anteriormente.
Até ao século XIX, a pesca do bacalhau
feita pelos Portugueses desapareceu.
Isso não significou, no entanto, o fim
do consumo do peixe, apesar dos decretos
régios, nomeadamente do Marquês de
Pombal e de D. Maria I, que isentavam de
impostos a pesca do bacalhau, num
esforço para relançar a actividade. As
invasões napoleónicas do inicio do
século XIX mais contribuíram para a
dificuldade de reiniciar a pesca.
História do Bacalhau e Outras Histórias
- Gafanha da Nazaré, Dezembro de 1997
Fernando Marques (Médico Veterinário)
(...) Outros, além dos Corte-Reais e
Diogo de Teive, já referido, ou os que
estiveram na origem da carta de 1424,
jornadearam pelas terras dos bacalhaus.
Entre outros, citam-se por exemplo o
vianês João Alvares Fagundes, que depois
de chegar ao que hoje è Florida (que de
espaço visitou) rumou ao Norte,
costeando a costa americana, alcançando
a Terra Nova e a costa do Labrador. Em
recompensa veio a obter o senhorio do
Banco Grande da Terra dos Corte-Reais
para o exercício da pesca do bacalhau.
Mais minuciosa porém, seria a exploração
que fez de ponta a ponta, entre 1492 a
1495. De Fernandes Labrador e de Pedro
de Barcelos se falou, restando
acrescentar que nas suas mudanças
alcançou também a baía de Hudson.
Em suma, fomos nós, portugueses, os
primeiros a pisar a terra do Novo Mundo
e os primeiros também a aproar à Terra
Nova. Antes de nós só os viquingues o
podiam ter feito, todavia os seus
vestígios na terra dos Bacalhaus são
nulos, ao passo que tanto os dos
Corte-Reais, por exemplo, são mais que
muitos e visíveis, não apenas na
celebrada Pedra de Dighton, com
numerosas denominações geográficas que,
com corruptela ou sem ela, pontilham as
cartas marítimas da região. São, na
verdade mais de uma centena os topónimos
portugueses existentes portulanos da
costa atlântica dos Estados Unidos e
Canadá, como por exemplo, além de
Labrador e cabo Raso (Cap Race), a baías
da Conceição (Conception Bay) e da
Boavista (Bonavista Bay) (Cfr. a este
respeito, memória sobre a Pesca do
Bacalhau, de Jacob Pereira de Azaruja
(Lisboa, 1835). De resto, segundo refere
João Verasini, um italiano ao serviço da
França - no registo da viagem que fez à
Terra Nova, publicado em 1525, quando os
Normandos lá chegaram em 1504 já
encontraram instalados os Portugueses
firmemente estabelecidos nas costas da
Grande Ílhavo, juntamente com gente de
Viana. Ao que parece de parceria com
pescadores da Terceira, os Ilhavos e os
Minhotos fundaram aí um grande porto de
armamento e uma feitoria para lhes
servir de apoio.
Já referimos que a partir do reinado de
D. Dinis até à perda da independência, o
governo do reino, continuou
infatigavelmente a dispensar total apoio
às pescas longínquas, por ver nelas um
alfobre de pilotos das Descobertas, uma
verdadeira escola náutica ao serviço do
projecto eminentemente nacional da
abertura do mundo. Nesse intuito, D.
Sebastião, não obstante o seu curto
trânsito sobre a terra, vai mais longe:
confere às frotas ocupadas nas operações
da pesca longínqua um regimento no
sentido de lhes dar uma orgânica
própria, enquadrando-as e
subordinando-as a um comando único.
Não tardou, porém, que soçobrem as
estruturas laboriosamente erguidas ao
longo desses reinados em consequência da
guerra desencadeada pela Espanha dos
Filipes contra a Inglaterra e,
acessoriamente, contra os Países Baixos.
Outrossim, no que diz respeito a Aveiro,
as vicissitudes da barra, a partir do
momento em que inexoravelmente segue
para sul da Senhora das Areias, hoje S.
Jacinto, reflectem-se, negativamente, na
constituição da nossa frota pesqueira, a
qual antes de 1585, contava com mais de
60% das caravelas que demandavam os
Bancos.
Mas desgraça maior foi, de facto, a
destruição da Invencível Armada, no mar
da Mancha, em 29 de Junho de 1588, com a
ajuda de temerosa tempestade, pelo
flibusteiro - nobilitado e feito
almirante por Isabel I de Inglaterra -
Francis Drake. Como é sabido a armada
filipina, que saiu a barra de Lisboa a
17 de Janeiro do mesmo ano, era composta
por uma chusma de embarcações
portuguesas e espanholas de todos os
tipos e feitios, não só de guerra, mas
também mercantes e de pesca, em suma, de
todas as naus de onde se pudesse abrir
fogo sobre o inimigo, inclusive de
galeões e caravelas.
Sem barcos e sem homens, deixam os
Bancos até cerca de 1835, ou seja uma
ausência superior a duas centúrias, ao
longo das quais as tradicionais
virtualidades da nossa gente do mar
tinham em parte desaparecido. A
deslocação austral da barra condicionava
o marasmo; instala-se o calvário da ria:
a produção de sal esvai-se e a frota
pesqueira definha ainda mais. O cordão
lagunar, que em 1584 pairava onde hoje
se perfila a Costa Nova, sessenta anos
depois atingia a Vagueira para, volvidos
mais quarenta, alcançar a Quinta do
Inglês e, em 1756, Portomar, já nos
plainos dunares de Mira.
Compreende que, paralelamente ao avanço
das barras, decai a força viva das marés
e, daí, o arrasto dos depósitos
aluvionares acumulados nos canais
efluentes da laguna, dificultando ou
impedindo mesmo, a entrada da água
salgada, alfa e omega da produção de
sal. As barras vão gradualmente deixando
de ser de boa entrada, o comércio e a
pesca fenecem e só ressurgem, ainda que
mal, nos alvores do sec. XIX, mais
concretamente a partir de 3 de Março de
1808, com a abertura pelo homem da
actual Barra Nova, sob os auspícios do
engº. Luís Gomes de Carvalho. Mas nem as
facilidades concedidas, em 1842, pelos
Ingleses, na Terra Nova, nem pelos
Franceses, sete anos depois, em Saint
Pierre e Miquellon, conseguem
ultrapassar por inteiro a apatia.
É certo que algumas tentativas se
desenham no sentido de vencer o marasmo,
porém a principio sem êxito palpável.
Todavia, os sucessivos insucessos
tiveram, ao menos, o mérito de irem
preparando novos armadores, novos
capitães - por vezes simbioses de ambas
as espécies - e de novos tripulantes
para as campanhas que viriam a eclodir
com o despontar do século.
Pouco a pouco, o armamento volta a
Aveiro: em 1903 com um navio de 177
toneladas; em 1904 os navios já eram
sete, perfazendo um total de 1137
toneladas de arqueação; em 1917 o
efectivo decresce, acompanhando o
período de recessão da 1ª Guerra
Mundial, para três unidades num total de
597 toneladas, mas, três anos volvidos,
sobe para onze e 2312 toneladas e em
1929 para vinte e duas e 5705 toneladas.
Contudo, em 1932 volta a registar-se um
decréscimo - são onze, com 2822
toneladas, os barcos utilizados na pesca
do bacalhau, mas volta a crescer o
número e em 1939 são já dezanove com
8075 toneladas de arqueadura.
Em 1930, o lugre "Santa Mafalda" da
Empresa de Pesca de Aveiro (E.P.A.)
zarpa a pescar nas costas da Gronelândia
e daí em diante a pesca bacalhoeira
passa a exercer-se tanto na Terra Nova
como em outros novos pesqueiros, e não
tarda o advento do motor para manobra
dos ferros e a turbina, em 1933, para
locomover os lugres e três anos depois o
primeiro arrastão - o "Santa Joana", da
E.P.A. e, decorridos mais quatro, o
"Santa Princesa" e o "Santa Mafalda",
ambos também da E.P.A. Seria ocioso
referir, aqui e agora, por miúdo, os
homens e os factos que balizaram a
ascensão. Nem é esse o propósito deste
epítome da história do "fiel amigo". Uns
e outros, por demasiado próximos no
tempo, é cedo, talvez, para os trazer a
lume. Na verdade, já incerto autor do "Sirácides"
do Antigo Testamento insistia que "só
com a morte são revelados os feitos do
homem". Quanto muito e não só por isso,
quem há que ser lembrado é o comandante
Tenreiro, que morreu, de certo modo, a
tempo de não assistir ao desmantelar de
uma obra de que foi protagonista, mas
que outros, unidos na mesma linha de
pensamento e acção, ajudaram a erguer e
que agora vegeta - perdoai o negro humor
- em águas de bacalhau...
Desta recente história é melhor não
falar, trazendo à colação ver correr os
políticos à desfilada, de braços
abertos, a apanhar o comboio com medo de
o perder, para o chamado Clube dos Ricos
- sem cuidar, ao menos, de procurar
alternativa (e talvez houvesse...) - com
as consequências que se conhecem e mais
aquelas que porventura estarão para vir.
Tudo visto, é tempo de concluir este
conto, que, ainda que dado à letra de
forma no Natal neste ano da graça de 97,
não é propriamente, na falta de fagueiro
epílogo, um conto de Natal, por
coincidência, na portentosa Gafanha da
Nazaré, personagem, também ela, e em
larga medida, da narração do Amigo Fiel,
pois graças a ele cresceu depressa e
bem: do parto telúrico, saído do caos
das águas e das lamas, vai talvez para
três centos de anos, surgiu esta úbere
terra dos bacalhoeiros.(...)
Portugal e o "fiel amigo"
Devemos aos portugueses o reconhecimento
por terem sido os primeiros a
introduzir, na alimentação, este peixe
precioso, universalmente conhecido e
apreciado".
(Auguste Escoffier, chef-de-cuisine
francês, 1903).
Os portugueses descobriram o bacalhau no
século XV, na época das grandes
navegações. Precisavam de produtos que
não fossem perecíveis, que suportassem
as longas viagens, que levavam às vezes
mais de 3 meses de travessia pelo
Atlântico.
Fizeram tentativas com vários peixes da
costa portuguesa, mas foram encontrar o
peixe ideal perto do Pólo Norte. Foram
os portugueses os primeiros a ir pescar
o bacalhau na Terra Nova ( Canadá ), que
foi descoberta em 1497. Existem registos
de que em 1508 o bacalhau correspondia a
10% do pescado comercializado em
Portugal.
Já em 1596, no reinado de D. Manuel, se
mandava cobrar o dízimo da pescaria da
Terra Nova nos portos de Entre Douro e
Minho. Também pescavam o bacalhau na
costa da África.
O bacalhau foi imediatamente incorporado
aos hábitos alimentares e é até hoje uma
de suas principais tradições. Os
portugueses se tornaram os maiores
consumidores de bacalhau do mundo,
chamado por eles carinhosamente de "fiel
amigo". Este termo carinhoso dá bem uma
ideia do papel do bacalhau na
alimentação dos portugueses.
“Os meus romances, no fundo, são
franceses, como eu sou, em quase tudo,
um francês – excepto num certo fundo
sincero de tristeza lírica que é uma
característica portuguesa, num gosto
depravado pelo fadinho, e no justo amor
do bacalhau de cebolada!”
Eça de Queiroz (carta a Oliveira
Martins)
A Pesca do Bacalhau em Portugal
O bacalhau chegava a Portugal de várias
formas. Até o meio do século XX, os
próprios portugueses aventuravam-se
pelos perigosos mares da Terra Nova, no
Canadá, para a pesca do bacalhau.
"Nos finais do séc. XIX, as embarcações
portuguesas enviadas à pesca do Bacalhau
eram de madeira e à vela, sendo
praticada a pesca à linha. Tratava-se de
uma prática muito trabalhosa, apenas
rentável em regiões onde abundava o
peixe. Este tipo de pesca era praticado
a partir dos dóri: pequenas embarcações
de fundo chato e tabuado rincado,
introduzidas em Portugal nos finais do
século passado."( Extraído de
Apontamentos Etnográficos de Aveiros -
Universidade de Aveiros - http://www.dlc.ua.pt/etnografia).
O artigo de Teresa Reis, sobre a Pesca
do Bacalhau, retrata um pouco desta
aventura:
"Na pesca do bacalhau, tudo era
duplamente complicado. Maus tratos, má
comida, má dormida...Trabalhavam vinte
horas, com quatro horas de descanso e
isto, durante seis meses. A fragilidade
das embarcações ameaçava a vida dos
tripulantes" dizia Mário Neto, um
pescador que viveu estes episódios e
pode falar deles com conhecimento de
causa.
Quando chegava à Terra Nova ou
Groenlândia, o navio ancorava e largava
os botes. Os pescadores saíam do navio
às quatro da manhã e só regressavam à
mesma hora do dia seguinte, com ou sem
peixe e uma mínima refeição: chá num
termo, pão e peixe frito. No navio, o
bacalhau era preparado até às duas ou
três da manhã. Às cinco ou seis horas
retomava-se a mesma faina. Isto, dias e
dias a fio, rodeados apenas de mar e
céu. ... Vidas duras...!"
Nos dias actuais, Portugal importa
praticamente todo o bacalhau salgado e
seco que consome. Também importa muito
bacalhau "verde", que é salgado e curado
nas próprias indústrias portuguesas,
como a Riberalves, localizada em Torres
Vedras (Centro de Portugal).
Como identificar o legítimo bacalhau
Identificar o Bacalhau não é tarefa
muito fácil, por isso peça sempre que o
estabelecimento onde você compra informe
correctamente o tipo e a classificação
do bacalhau que está sendo vendido.
Mas você pode fazer algumas observações
que ajudam a identificar se está
comprando o legítimo bacalhau:
1) Observe na hora da compra:
A forma do peixe - o legítimo bacalhau é
largo e permite o corte em lombos.
As espinhas laterais são pouco curvas.
O rabo do peixe - deve ser quase direito
ou ligeiramente curvado para dentro, de
cor uniforme ( se tiver uma espécie de
"bordado" branco na extremidade, não é o
legítimo ).
A cor "palha" - se o bacalhau é
branquinho, não é o legítimo.
A pele - solta com facilidade; puxe um
pouquinho para verificar.
2) Repare se o peixe está bem escovado:
sua aparência deve ser limpa, sem
manchas escuras. Manchas (pretas,
marrons) podem ser resíduos do peixe
como sangue, bílis, etc. , significando
que ele não foi bem trabalhado.
3) Verifique também se ele está bem
seco: pegue o bacalhau firmemente pela
"cabeça" e solte a cauda. Se ele ficar
recto (direito) - ou quase recto
(direito) - está bem curado, se dobrar
"caindo" para baixo está mal curado e
húmido.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
– Marinha Grande – Portugal