António Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré , nasceu numa
pequena propriedade rural de seus pais em plena Serra de Santana, município de
Assaré, no Sul do Ceará, em 5 de Março de 1909. Filho mais velho dos seus cinco
irmãos, começou a vida trabalhando no campo e com a enxada. Foi casado com D.
Belinha, e pai de nove filhos. Cego de um olho aos quatro anos estudou apenas
quatro meses. Aos 16 começou a fazer do seu canto universal. A poesia aflorava
no jovem adolescente.
Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está
sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a
regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no
papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma
receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor.
"Basta, no mês de Maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do
meu sertão". Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de
cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos
trocou uma ovelha do pai por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e
enfrentou muita guerra e invejas com outros cantadores. Quando voltou, estava
consagrado: era o Patativa do Assaré. Nessa época os poetas populares vicejavam
e muitos eram chamados de "patativas" porque viviam cantando versos. Ele era
apenas um deles. Para ser melhor identificado, adotou o nome de sua cidade.
Obteve popularidade a nível nacional, possuindo diversas premiações, títulos e
homenagens (tendo sido nomeado por cinco vezes Doutor Honoris Causa). No
entanto, afirmava nunca ter buscado a fama, bem como nunca ter tido a intenção
de fazer profissão de seus versos. Patativa nunca deixou de ser agricultor e de
morar na mesma região onde se criou (Cariri) no interior do Ceará. Seu trabalho
se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos
e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder
de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após
os noventa anos de idade.
A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação
expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a
linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam
características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência,
hesitação, etc.). A complexidade da obra de Patativa é evidente também pela sua
capacidade de criar versos tanto nos moldes camonianos (inclusive sonetos na
forma clássica), como poesia de rima e métrica populares (por exemplo, a décima
e a sextilha nordestina). Ele próprio diferenciava seus versos feitos em
linguagem culta daqueles em linguagem do dia-a-dia (denominada por ele de poesia
"matuta").
Patativa transitava entre ambos os campos com uma facilidade camaleônica e
capacidade criadora e intelectual ainda não totalmente compreendidas pelo meio
acadêmico. Sua obra, de dimensão tanto estética quanto política, aborda
diferentes temas e possui outras vertentes além da social/militante; como a
telúrica, religiosa, filosófica, lírica, humorística/irônica, motes/glosas,
entre outras. As múltiplas tentativas de categorização da obra de Patativa do
Assaré (muitas vezes subjetivas e sem base teórica) expõem falhas inerentes dos
próprios parâmetros de julgamento.
Patativa do Assaré - Uma voz do Nordeste de Sylvie Debs
(tradução de Ana Maria Skinner)
“A literatura popular existe em outros países, mas nenhuma é tão relevante
quanto a do Nordeste (…) Aqui, no Nordeste, ela resiste e se transforma cada
vez mais.”- Raymond Cantel
Patativa do Assaré, cujo verdadeiro nome é Antônio Gonçalves da Silva, nascido
no dia 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural da
prefeitura de Assaré, ao sul do estado do Ceará, inclui-se na linhagem dos
cantadores sertanejos de quem ele mantém a tradição. Oriundo de um meio muito
modesto, descobre a literatura através dos folhetos de cordel e dos cantadores,
repentistas e violeiros do Nordeste. Casado, pai de nove filhos, dedicou sua
vida aos trabalhos dos campos de Assaré, No dia 23 de Março de 1995, o
presidente Fernando Henrique Cardoso rendeu uma homenagem pública ao poeta
popular, atualmente cego, conferindo-lhe a medalha “José de Alencar” quando de
sua passagem a Fortaleza (Ceará) para a celebração de seu octogésimo sexto
aniversário. Nessa ocasião foi lançado o disco Patativa do Assaré: 85 anos de
poesia. Patativa do Assaré, figura emblemática da poesia oral, tradicional e
popular, graças à sua memória impressionante, recitou trechos de sua obra que
celebram as grandezas e as misérias do sertão e cantou, acompanhado por Raimundo
Fagner, entre outros, o célebre Vaca estrela e Boi fubá (símbolo da aflição do
sertanejo diante das amarguras do destino e da rudeza de sua exploração) que
havia contribuído para a sua notoriedade nacional nos anos 70. A justaposição
deliberada de alguns elementos de uma sucinta biografia põe em perspectiva a
denominação de “Mestre da poesia popular” conferida pelo ensaísta e cineasta
Rosemberg Cariry, que largamente contribuiu para a divulgação de sua obra.
Assim, através da evocação do itinerário pessoal do poeta e da análise de seus
textos mais representativos, propomo-nos a apresentar as características
essenciais da poesia popular, examinada aqui em uma dimensão mais larga, aquela
da cultura popular nordestina. Primeiro ponto de amarração de nosso estudo, o
trabalho que Raymond Cantel, primeiro pesquisador francês a se interessar pelo
cordel, conduziu durante longos anos para a descoberta, o conhecimento, o estudo
e a conservação da literatura de cordel, percorrendo regularmente o Brasil a
partir de 1959 para recolher textos de repentistas, o que lhe valeu o título de
Embaixador itinerante outorgado pelos repentistas da Bahia. Segundo ponto, a
aproximação de culturas populares proposta por Jean-Claude Passeron, que tenta
ir além da atitude relativista (até mesmo populista), assim como da atitude
legitimista (até mesmo miserabilista). Terceiro ponto, nosso encontro pessoal
com o poeta, em Assaré, que nos concedeu diversas entrevistas e nos proporcionou
a ocasião de assistir às suas improvisações.
UMA APROXIMAÇÃO DA POESIA POPULAR
A denominação “poesia popular” foi muitas vezes associada a um certo número de
representações negativas que a situam no lado da literatura menor por oposição à
Literatura. As conotações mais correntes que lhe são conferidas são aquelas das
simplicidade dos temas abordados e das idéias tratadas, facilidade de
versificação e banalidade das rimas, ingenuidade dos sentimentos expressos,
falta de originalidade e de criatividade, pobreza de vocabulário, riqueza
estilística limitada, simbólica indigente. É nestes termos que Arthur Rimbaud
(1854-1891) confessa seu interesse pela arte popular: “Eu amava as pinturas
idiotas, estofos sobre portais, cenários, lonas de saltimbancos, tabuletas,
estampas coloridas populares; a literatura fora de moda, latim de igreja, livros
eróticos sem ortografia, romances de nossas avós, contos de fadas, livrinhos
infantis, óperas velhas, estribilhos piegas, ritmos ingênuos”. Esta concepção
se inscreve numa tradição romântica que compara o povo e a expressão artística e
popular a uma imagem errônea visto que idealizada, à imagem de um povo bom,
bonachão, trabalhador e virtuoso. De sua parte, o escritor e filósofo alemão
J.G. Herder (1774-1803), um dos teóricos do movimento romântico “Sturm und Drang”,
havia defendido, tanto de um ponto de vista filosófico quanto literário, uma
concepção da história segundo a qual os diferentes tipos de civilizações e de
culturas seriam a expressão da alma popular, opondo ao ideal clássico —
resultado do respeito a regras claramente enunciadas e respeitoso dos modelos da
Antigüidade greco-romana — o gênio popular, expressão natural e espontânea. A
poesia popular, segundo ele, é “a obra anônima do Homem Natural, irmão histórico
do Bom Selvagem: ela é a “Naturpoesia”. Nesta idéia, já estava presente a
aproximação que havia proposto Montaigne (1553 - 1592), persuadido de que o povo
era capaz de se exprimir espontaneamente: “A poesia natural e puramente natural
possui ingenuidade e graça, por onde ela se compara à principal beleza da poesia
perfeita segundo a arte: como se vê em vilarejos da gasconha e nas canções que
se nos relatam sobre nações que não possuem conhecimento de ciência alguma,
tampouco de escrita”. Em outros termos, a poesia popular existiria ao largo de
toda aprendizagem ou respeito às regras acadêmicas e apresentaria êxitos dignos
de serem reconhecidos.
No contexto nordestino, é preciso recordar que a poesia popular inscreve-se na
tradição oral desta região do interior: um de seus principais agentes, o
cantador, proveniente do meio rural, em geral analfabeto, improvisa ou narra,
graças à sua memória prodigiosa, “a história dos homens famosos da região, os
acontecimentos maiores, as aventuras de caçadas e de derrubas de touros,
enfrentando os adversários nos desafios que duram horas e noites inteiras, numa
exibição assombrosa de imaginação, brilho e singularidade na cultura
tradicional”. A versificação utilizada, em geral a sextilha hexassilábica ou a
décima heptassilábica de rimas contínuas, parece mais ser a expressão de uma
técnica de memorização do que a expressão de uma forma poética erudita, a
serviço da transmissão de um “saber simbólico: ciência, cultura popular,
tradição”. Daí, a escansão dos poemas propriamente é muitas vezes surpreendente
pela sua falta de preocupação expressiva: “Nenhuma preocupação de desenho
melódico, de música bonita. Monotonia. Pobreza. Ingenuidade. Primitivismo.
Uniformidade… Não se guarda a música de colcheias, martelos e ligeiras. A
única obrigação é respeitar o ritmo do verso”. A declamação se atém ao
essencial: a narrativa dos acontecimentos.
A convivência com os chamados textos de poesia clássica assim como a leitura da
obra de Patativa de Assaré permitem pôr em perspectiva esta primeira aproximação
e interrogar a conformidade destas conotações evocadas precedentemente. Sem
dúvida, conviria debruçar-se mais adiante sobre as temáticas abordadas para
aperceber-se de que, sob esta aparente ingenuidade, esconde-se uma profunda
experiência da vida quotidiana que confere uma dimensão simbólica determinante à
sua obra. Com efeito, como ressalta Claude Roy, “o que nos toca do nosso
folclore não é ele ser a obra “de quem não sabe”, mas, ao contrário, nascer do
sofrimento e da alegria, da malícia e do coração daqueles que sabem muito bem.
Eles sabem o que é ter fome ou dor de amor, ir à guerra quando não se queria ou
trabalhar com a última das forças. E estes encontram muito precisamente, ao
longo do tempo, palavras insubstituíveis para manifestar sua dor ou sua
felicidade, para embalar suas mágoas ou exprimir sua cólera”. Restituindo-se a
obra de Patativa de Assaré ao contexto sertanejo, considerando a influência das
tradições dos trovadores, dos repentistas, dos violeiros e da literatura de
cordel, é forçoso reconhecer na voz do poeta popular o eco dos sofrimentos, das
alegrias e das desgraças da população nordestina do sertão: “Poesia telúrica,
colhida da terra, dos roçados como se estivesse apanhando feijão, arroz,
algodão, ou quebrando milho e arrancando batata e mandioca. Sua inspiração não
é fruto de estudos. Ela germina dentro de si como a semente nas entranhas da
terra”. Testemunha então de um modo de vida, mas também reivindicação de
valores próprios, elaboração de uma identidade. Por isto, ele é apresentado
como o “verdadeiro, autêntico e legítimo intérprete do sertão”. Com efeito, uma
das dimensões mais marcantes da obra de Patativa do Assaré é a preocupação de
descrever a vida quotidiana do sertão e, através deste testemunho, protestar o
reconhecimento da dignidade, da integridade e da modéstia do camponês sertanejo
por oposição à arrogância do cidadão urbano ou do brasileiro do sul. Parece que
a afirmação de sua própria identidade passa mais freqüentemente pelo confronto
com o outro, como chama atenção o título da compilação: Cante lá que eu canto
cá. Esta última, composta a partir de uma seleção de textos feita pelo próprio
autor com a intenção de definir suas preferências literárias, traz o seguinte
subtítulo: “Filosofia de um trovador nordestino”. É, portanto, referindo-nos de
uma só vez ao conjunto dos poemas publicados e à vida de Patativa do Assaré que
tentaremos depreender as características próprias da sua obra.
I - Referências biográficas
Uma infância sertaneja
Segundo filho de um agricultor pobre da região do Cariri, havendo perdido muito
jovem a visão em um dos olhos em conseqüência de uma doença, órfão de pai aos
oito anos, Antônio Gonçalves da Silva é, naturalmente, conduzido a ajudar sua
mãe e sua família participando dos trabalhos nos campos, meio de subsistência
tradicional para os habitantes dessa região. Escolarizado durante seis meses
quando tinha doze anos, ele reconhece que seu mestre, embora extremamente
atencioso e generoso, era precariamente letrado e não sabia ensinar a
pontuação. É assim que ele aprende a ler sem ponto nem vírgula, como se o ritmo
das palavras fosse dado unicamente pela voz. Esta estranha aprendizagem, em
realidade, é apenas a expressão profunda da oralidade que caracteriza a cultura
popular e a tradição dos poetas-repórteres. Como a maior distração do jovem
Antônio, desde seu retorno dos campos, era ler ou escutar seu irmão mais velho
ler os folhetos da literatura de cordel, ele descobriu muito cedo sua vocação
poética e iniciou, ao contato desta literatura, a composição de versos: “De
treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os
serranos, pois os sentidos de tais versos eram o seguinte: brincadeiras de noite
de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos que deixavam o mato
estragar os plantios da roça, etc.”. Aos dezesseis anos, adquire uma viola de
dez cordas e decide fazer improvisações segundo a tradição sertaneja dos
violeiros, tratando de todos os assuntos concernentes à sua experiência
profissional, sobre o modelo: motivo-glosa. Põe-se a cantar por prazer, na
esperança de ser convidado para as festas: comemoração de santos, casamentos e
participou assim da vida local: “A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior
distração da minha vida. O meu fraco é fazer verso e recitar para os
admiradores, porém, nunca escrevo meus versos. Eu os componho na roça, ao
manejar a ferramenta agrícola e os guardo na memória, por mais extenso que seja”
confessa ele. Assim, se ele continuou a entregar-se às improvisações pelo
prazer, a poesia que ele destina à transcrição está intimamente ligada ao ritmo
do trabalho quotidiano, acompanhando os gestos dos trabalhos do campo e composta
mentalmente ao longo dos anos, servindo-se de capacidades impressionantes de
memorização.
Um poeta itinerante
Aos vinte anos, na ocasião de uma visita ao vilarejo de um primo materno, este
último, encantado pelas improvisações de Antônio, pediu autorização à sua mãe
para que lhe permitisse seguir com ele para o estado do Pará, propondo-se, de
sua parte, a auxiliar nas necessidades do jovem e consentindo que este
retornasse a seu lar sempre que quisesse. Foi nesta ocasião que ele conheceu o
escritor cearense José Carvalho de Brito, que lhe consagrou um capítulo em seu
livro intitulado O Matuto cearense e o Caboclo do Pará. Além disto, este
publica os primeiros textos de Antônio Gonçalves da Silva em O Correio do Ceará
para o qual ele colaborava. Estes textos foram acompanhados de um comentário
nos quais José Carvalho de Brito comparava a poesia espontânea de Antônio
Gonçalves da Silva à pureza do canto da patativa, pássaro do Nordeste. Foi
assim que nasceu o pseudônimo de Patativa. Pois, para distingui-lo de outros
improvisadores, se lhe acrescia o topônimo de sua vila natal: Assaré. Patativa
do Assaré empreendeu então uma viagem a Belém, em seguida a Macapá onde ficou
dois meses. Julgando a vida relativamente insípida, e não apreciando o fato de
deslocar-se sistematicamente por barco para ir de uma casa à outra, decidiu
retornar a Belém onde continuou suas improvisações em companhia de outros poetas
como Francisco Chapa, Antônio Merêncio e Rufino Galvão. Ao termo de cinco
meses, não resistindo mais aos ataques de saudades, ele decidiu tornar a viver
no Ceará.
A consagração oficial
Em seu retorno, José Carvalho de Brito entregou-lhe uma carta de recomendação
para obter uma audiência com a Dra. Henriqueta Galeno, filha do poeta Juvenal
Galeno. Ele foi recebido com honras dignas de um “poeta de classe, um poeta de
cultura, um poeta erudito” e improvisou, em seu salão, acompanhado de sua
viola. De volta a Assaré, retomou os trabalhos do campo aos quais dedicou o
resto de sua vida. Havendo sido notado pelo latinista José Arraes de Alencar,
que lhe havia escutado improvisar pela Rádio Araripe, este convoca-o para
perguntar porque não publicava seus textos tão “dignos de atenção e próprios de
divulgação” . Patativa do Assaré argumentou que não era mais do que um pobre
agricultor e que não dispunha, portanto, de meios de publicar sua obra. José
Arraes de Alencar lhe propõe uma solução: ele se encarregaria das negociações
com o editor Borçoi no Rio de Janeiro e Patativa do Assaré lhe reembolsaria os
custos da impressão com o produto da venda dos livros. É assim que surge a sua
primeira compilação Inspiração nordestina, em 1956. No prefácio, José Arraes
de Alencar sublinha as qualidades particulares aos poetas nordestinos: “Nada
arranca aos rapsodos nordestinos a admirável espontaneidade, que é um milagre da
inteligência, um inexplicável poder do espírito, faculdade portentosa daqueles
homens simples e incultos, de cuja boca prorrompem, em turbilhões, os mais
inspirados versos, as trovas mais dolentes e sentimentais, ou épicas estrofes,
que entusiasmam e arrebatam”. Havendo superado seu primeiro receio de não estar
em condições de reembolsar, Patativa do Assaré aceitou. O sucesso da antologia
lhe permitiu uma segunda edição em 1966, enriquecida de novos textos: Cantos de
Patativa. Nesta ocasião, ele passou quatro meses no Rio de Janeiro; entretanto
a venda de seus livros se deu essencialmente no Ceará.
A divulgação da obra
Em 1970, o professor José de Figueiredo Filho publicou uma nova coletânea de
poemas acompanhada de seus comentários: O Patativa do Assaré. Em 1978, a
partir da iniciativa do professor Plácido Cidade Nuvens (que trabalha na
Fundação do Padre Ibiapina cuja missão é preservar e divulgar a cultura popular
do Cariri), foi publicada pela Editora Vozes a compilação Cante lá que eu canto
cá, considerada até hoje como a compilação da maturidade. Em 1988, surge uma
nova antologia de textos de Patativa do Assaré, intitulada Ispinho e Fulô sob a
direção de Rosemberg Cariry, que compreende uma seleção de textos publicados nos
folhetos, jornais, revistas ou discos, produtos de numerosos recitais feitos
pelo país. Mais recentemente, na ocasião de seu octogésimo sexto aniversário, a
Secretaria de Cultura do Estado do Ceará publicou uma coletânea de textos em
homenagem ao poeta (Aqui tem coisas) que salienta sua originalidade, sua
ancoragem na oralidade, graças à prática da improvisação e à técnica de desafios
poéticos: “Métrica, ritmo e rima fluem com a naturalidade com que enuncia seu
canto. O que ele diz é transcrito para o papel, mas continua fiel aos códigos
de transmissão oral. É como se ele estivesse em permanente peleja, não contra
um rival de ofício, que ninguém chegaria à sua estatura, mas com a própria
poesia. Ele é o seu opositor e o seu duplo. A oralidade não seria decorrente
de sua cegueira, não que ele também retoma uma tradição que passa por Homero,
Aderaldo e Borges”. Assim, Patativa do Assaré, enquanto mestre da poesia oral,
nunca tentou publicar um texto com seus próprios meios, mas foi sempre publicado
pelos admiradores de sua obra. Da mesma forma, ele continua a ser solicitado
tanto pelos amadores quanto pelos especialistas da cultura popular, não somente
brasileiros mas também estrangeiros, que se interessam ao mesmo tempo pelo
processo de criação e de transmissão desta tradição nordestina.
II- Apresentação da obra
Patativa do Assaré, um poeta da oralidade
Na condição de herdeiro da tradição nordestina, os primeiros esboços da obra de
Patativa do Assaré, improvisações e encomendas, conforme ressaltamos, são
marcados pelo aspecto lúdico e comemorativo: poemas de circunstância, ligados
aos acontecimentos sociais, religiosos, em relação direta com o presente, únicos
e efêmeros: festas de Santos, casamentos, aniversários. Poesia improvisada a
partir de um esboço tradicional, poesia repetitiva por suas formas e temas,
personalizada em função de seu destinatário. Poesia declamada ou cantada, ela
participa plenamente da vida da comunidade: “age falando, cantando,
representando, dançando no meio do povo, nos terreiros das fazendas, nos pátios
das igrejas nas noites de “novena”, nas festas tradicionais do ciclo do gado,
nos bailes do fim das safras de açúcar, nas salinas festas dos “padroeiros”,
potirum, ajudas, bebidas nos barracões amazônicos, espera de “Missa do Galo”; ao
ar livre, solta, álacre, sacudida, ao alcance de todas as críticas de uma
assistência que entende letra e música, todas as gradações e mudanças do
folguedo”. Convém ressaltar que Patativa do Assaré entregando-se sempre a este
gênero de improvisações, uma parte importante da obra não foi nem será, nunca
portanto, transcrita. Este aspecto efêmero e circunstancial é, com efeito, uma
das características da poesia oral tradicional.
Quando se descobre a transcrição dos poemas de Patativa do Assaré, o primeiro
elemento determinante da oralidade da obra é o recurso sistemático do emprego de
uma língua falada, que retoma o estilo e a pronúncia popular, a saber, a
utilização do que José Arraes de Alencar definiu como a língua cabocla: “a
linguagem sertaneja, de tonalidade própria, fértil em metafonias e metáteses,
avessa aos esdrúxulos, com freqüente abrandamento ou amolecimento e vocalização
de consoantes e grupos consonantais, com a eliminação das letras e fonemas
finais”. Assim, os primeiros versos de Coisas do meu sertão são transcritos
conforme seguem:
“Seu dotô que é da cidade
por “Senhor Doutor que é da cidade
Tem diproma e posição
Tem diploma e posição
E estudou derne minino
E estudou desde menino
Sem perdê uma lição”
Sem perder uma lição”
A marca oral e regional era tão intrínseca à primeira compilação que foi
publicada com um um Elucidário que propunha três esclarecimentos diferentes ao
leitor: uma simples restituição fonética (biête por bilhete ou muié por
mulher), uma correspondência referencial (cão por diabo), uma explicação
denotativa (tipóia: rede pequena, rede velha). A necessidade deste “Elucidário”
é justificada pela observação de José Arraes de Alencar: “a linguagem cabocla -
o linguajar da rude gente sertaneja é tão crivado de erros, de mutilações e
acréscimos, de permutas e transposições, que os vocábulos, com freqüência, se
desfiguram completamente, sendo imprescindível um elucidário para o leitor não
habituado a essas formas bárbaras e, ao mesmo tempo, refeitas de típico e
singular sabor”[33]. Essas marcas da oralidade confirmam a origem rural do
poeta e reforçam o caráter sertanejo do universo descrito. O registro de língua
utilizado, a alteração das palavras, o vocabulário regional conferem a estes
textos todo o sabor e originalidade da língua do interior das terras, do sertão.
Uma outra marca significativa desta oralidade é a forte presença, muitas vezes
desde o título, da função conativa da linguagem: interpelação do ouvinte como
Cante lá que eu canto cá, interrogações como Você se lembra?, Seu Dotô me
conhece?, destinação como Ao leitor, Aos poetas clássicos, À minha esposa
Belinha. Da mesma forma, os primeiros versos de seus poemas instauram,
geralmente, o ritual discursivo, seja como forma de indagação: Querem saber
quem eu sou?(ATC, p.63), seja sob forma de oração: Quero que me dê licença para
uma história contá. (CLCC, p.47); seja por uma saudação: Boa noite, home e
menino e muié dêste lugá. (IN, p.27), seja ainda por uma ordem: Vem cá, Maria
Gulora, Escuta, que eu vou agora uma coisa te contá. (IN, p.47). Enfim, a
invocação do interlocutor abre diversos poemas: As formas mais utilizadas são
Seu Moço (IN, p.19, 51, 99) e Seu Dotô (IN, p. 60,66,69). Encontram-se
variantes sob a forma de Meu filho querido (IN, p.132), Meu amigo (IN, p.209),
Minha gente (IN, p. 206), Sinhô Dotô (IN, p.203) [34].
A relação de vizinhança está sublinhada pelo emprego do tom familiar: meu, que
indica igualmente o enraizamento do poeta a seu meio. Estes termos de
endereçamento traduzem ao mesmo tempo o respeito de uma hierarquia social
estrita, em uma sociedade onde a taxa de analfabetismo é elevada. O poeta,
enquanto personagem familiar, é originário do mesmo meio, dirigindo-se em pé de
igualdade aos seus interlocutores, seja ao mais rico, ao mais poderoso ou ao
mais diplomado, pedindo licença para contar uma história simples à sua maneira.
Último elemento enfim, todavia essencial: o próprio poeta Patativa do Assaré.
Não havendo jamais escrito texto algum e dotado de uma notável capacidade de
memorização (é capaz de recitar qualquer uma de suas composições, qualquer
que seja a sua antigüidade), ele continua a praticar a improvisação em todas as
circunstâncias: “A agilidade do improviso, o inesgotável repertório de
situações, as respostas instantâneas às sugestões recebidas acentuam o
repentista à capela (…). Métrica, ritmo e rima fluem com a naturalidade com que
enuncia seu canto. O que ele diz é transcrito para o papel, mas continua fiel
aos códigos da transmissão oral”. É freqüente que o poeta, após haver
perguntado o nome e algumas informações sobre as pessoas que vêm vê-lo,
improvise um pequeno poema no qual traça um retrato de seu visitante, apesar de
sua cegueira. Muito atento durante as discussões, sua habilidade lhe permite
apoderar-se da personalidade de seu interlocutor. A voz permanece para ele o
instrumento privilegiado do conhecimento e da comunicação.
Patativa do Assaré, um poeta popular
Fiel à tradição dos poetas de cordel, ele mesmo autor de cordéis, Patativa do
Assaré compõe uma poesia essencialmente narrativa que testemunha a história
quotidiana do sertanejo e torna-se, de qualquer maneira, “o mediador encarregado
de traduzir o mundo exterior aos sertanejos”. Esta obra, “nascida no seio do
povo, aplaudida e amada por esse mesmo povo”, coloca-se ao lado das referências
literárias do Nordeste como A Bagaceira, Pedra Bonita, Vidas secas, O Quinze,
Grande Sertão: veredas, na medida em que o autor contribui para a elaboração de
uma imagem da identidade nordestina e de representações simbólicas que nos
permitem compreender melhor os valores fundamentais do sertanejo através das
personagens encenadas. Se a origem social do poeta e a origem social de seu
público são determinantes para qualificar esta poesia como popular, é preciso
igualmente levar em consideração outros critérios que permitem caracterizar sua
obra: os assuntos tratados, a função do poeta e a filosofia empregada. Ao longo
da leitura de títulos de cordéis recentemente editados pela URCA, constata-se a
presença de numerosos temas habitualmente abordados na literatura popular
nordestina: o ciclo religioso e o messianismo, a tradição épica, a descrição da
vida do Nordeste com seus flagelos, caatinga, inundações, secas, migrações:
Saudação ao Juazeiro do Norte, História de Aladim e a lâmpada maravilhosa, ABC
do Nordeste flagelado, A Triste partida, Emigração… Uma leitura mais abrangente
da obra descobre também a presença de personagens tradicionais do sertão: o
vaqueiro, o caboclo, o roceiro, o caçador, o mendigo, sem esquecer os animais
familiares como o cavalo, o boi e o cachorro. É preciso ressaltar, enfim, a
grande variedade de personagens que habitam os poemas e que são nomeados de
forma tradicional e popular, seja por referência ao pai (Zé Geraldo), à mãe (Zé
de Ana), ou à atividade profissional (Ciça do Barro Cru).
Entretanto, nem as narrativas das aventuras de um destes habitantes do sertão (Brosogó,
Militão e o Diabo, As façanhas de João Mole, Vicença e Sofia, ou o castigo de
mamãe), nem a descrição das dificuldades encontradas pelo sertanejo são jamais
apresentadas fora de uma preocupação educativa: divertindo o ouvinte ou o
leitor, o poeta tem por tarefa instruí-lo, transmitindo valores morais. Do
ponto de vista da função determinada para a poesia popular, encontramos
paradoxalmente um dos componentes do ideal clássico: “agradar e instruir”.
Quanto à estrutura mesma dos textos, eles estão muito próximos do modelo da
fábula: conduz o leitor à abertura, narra, formulação da moral no desfecho. Com
efeito, os primeiros versos focalizam a atenção sobre as intenções do autor ou
sobre os valores morais que ele se propõe a transmitir aos receptores; como, por
exemplo, a abertura de As Façanhas de João Mole, a seguir:
“Neste pequenino drama
O caro leitor verá
Que dentro de cada homem
Um pouco de ação está
E um só homem sem coragem
No nosso mundo não há”
Esta vontade didática está claramente afirmada na medida em que os cordéis
terminam geralmente por uma evocação direta do leitor e por uma lembrança da
lição que convém extrair da história escutada. A última estrofe do cordel acima
citado se encerra nestes termos:
“Agora, caro leitor,
Não desaprove o que digo
Todo homem tem coragem
O rico, o pobre e o mendigo
No ponto da hora H
Insulte um, e verá
O mais feroz inimigo”
Os valores morais aos quais se refere Patativa do Assaré não são fundados sobre
os princípios teóricos; são ou simples heranças de gerações anteriores, ou fruto
direto de uma experiência vivida. Sua concepção do mundo e sua relação com o
outro repousam sobre uma crença que se poderia qualificar de humanista ou de
cristã e que corresponde, além disto, à uma realidade cultural nordestina.
Assim a abertura de Brosogó, Militão e o Diabo afirma como ponto de partida os
valores seguintes:
“O melhor da nossa vida
É paz, amor e união
E em cada semelhante
A gente vê um irmão”
Raymond Cantel já havia, por sua vez, sublinhado largamente as intenções
moralistas da literatura popular nordestina: “Os sentimentos tradicionais, a
família e o amor do próximo são celebrados, mas trata-se, antes de tudo, de
ensinar ao sertanejo, sempre distraindo-o, que se ele não souber resistir aos
impulsos de seu temperamento, ele terá de suportar as conseqüências”. Patativa
do Assaré explica a origem de certas composições por estas mesmas razões:
melhor que punir um de seus netos desobedientes ou um menino da vizinhança que
lhe havia enganado para melhor roubá-lo, ele optou por recorrer à poesia, com o
duplo objetivo de expor publicamente aquele que cometeu uma falta (punição que
ele julga mais eficaz do que um acerto de contas cara a cara) e ensinando-o, ao
mesmo tempo, o perdão e a boa conduta (Incelência das Cuinhas). Esta atitude de
sabedoria popular constitui um ensinamento moral prático que toma suas
referências no quotidiano.
É assim que Patativa do Assaré preenche sua função de educador tanto junto às
crianças consideradas por ele como um elemento fundamental “A criança, para mim,
é a maior riqueza do mundo” [46], quanto junto aos seus compatriotas
sertanejos: “Ele (o poeta) deve empregar a sua lira em benefício do povo, em
favor do bem comum. Ele deve empregar a sua poesia numa política em favor do
bem comum, uma política que requer os direitos humanos e defende o direito de
cada um”. Em um contexto de miséria e analfabetismo largamente propagado, em
outros termos, em meio à ausência de estruturas educativas de base, o poeta
popular desempenha um papel importante no despertar da consciência cívica e
política, Patativa do Assaré afirma sua solidariedade com a luta dos sertanejos
pelo reconhecimento de seus direitos e com a reivindicação de uma reforma
agrária que lhe permitiria ter um nível de vida mais digno: “A temática social
que domina sua poesia está assentada em aspirações universais de justiça e
igualdade, sem qualquer refinamento ideológico” .
Agricultor, ele denuncia a morosidade dos políticos que jamais tentaram eliminar
a seca, flagelo maior do Nordeste, que é a origem das constantes migrações de
sertanejos: “A seca pertence ao império da natureza, mas pode ser resolvida pelo
homem. Em países de clima igual ou pior que o nosso, o problema de
abastecimento de água foi superado. A diferença aqui é que os donos do poder
não se interessam pela solução. “Eles vivem do problema”, declara Patativa do
Assaré. Na coletânea Cante lá que eu canto cá, ele confere uma posição
preponderante à questão da terra e numerosos poemas evocam esta realidade
dramática: O poeta da roça, Eu e o sertão, E coisa do meu sertão, Vida
sertaneja, Caboclo roceiro, Cabocla da minha terra, No terreiro da choupana, A
terra é natura, O retrato do sertão, Serra de Santana, Minha Serra, Coisas do
meu sertão, ABC do Nordeste flagelado. O poeta, com efeito, ergue não somente
uma atestação amarga da realidade quotidiana,
“Minha vida é uma guerra
E duro o meu sofrimento
Sem tê um parmo de terra:
Eu não sei como sustento
A minha grande famia…”
(Terreiro da Choupana)
mas, reivindica a necessidade de uma reforma agrária:
“A bem do nosso progresso
Quero o apoio do congresso
Sobre uma Reforma Agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária”
(Eu quero)
Defendendo, assim, a principal reivindicação dos habitantes do sertão, ele
torna-se verdadeiramente a voz do Nordeste e o símbolo de um processo de
reconhecimento dos direitos elementares: “Em todas as grandes lutas sociais e
políticas do Ceará, Patativa disse: presente ”. Este comprometimento, faz com
que um certo número de poemas como Triste partida, Lição do Pinto, Vaca Estrela
e Boi Fubá tenham se tornado emblemas do povo nordestino, atestando a
importância do sucesso que ele alcançou junto aos sertanejos. Com efeito,
Patativa do Assaré passou de uma poesia sentimental e lírica para uma poesia de
protesto: “uma poesia que pede reforma agrária, reclama contra o abandono do
nordestino, contra o sistema de meação vigente no campo, contra a seca”.
Patativa do Assaré, uma identidade sertaneja
É verdade que não somente a língua, os personagens e o quotidiano descrito
pertencem ao mundo rural sertanejo que viu nascer e viver Patativa do Assaré,
mas também as aspirações sociais, as reivindicações políticas e econômicas. O
combate que ele conduz é aquele do “caboclo roceiro, do camponês sertanejo, da
classe matuta”. Com efeito, o elemento mais tocante da identidade sertaneja é
esta evocação constante de uma vida extremamente difícil, de uma terra
particularmente hostil, de um universo encerrado sobre si mesmo. Patativa do
Assaré testemunha de forma direta:
“Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
P’ra sê poeta divera
Precisa tê sofrimento…”
(Cante lá que eu canto cá),
ou ainda:
“Pois aqui vive o matuto
De ferramento na mão.
A sua comida é sempre
Mio, farinha e fejão”
(Coisas do meu sertão)
Por outro lado, as numerosas expressões colhidas por Plácido Cidade Nuvens em
seu estudo intitulado O Universo fascinante do sertão, fazendo referência a um
quotidiano brutal, massacrante, absurdo, asfixiante, traduzem esta luta
constante do sertanejo: “vida apertada, lida pesada, sina tirana, grande
labutação, vida de cativo, correr estreito, tormento do triste agregado, vida
mesquinha, rojão seguro, gaio duro, situação crua, quebradeira, horrível peleja,
aperreio, grande canseira, meu cativeiro, constante lida, batalha danada,
verdadeiro inverno, situação mesquinha”. Todas estas denominações refletem o
abandono, o isolamento, a extrema penúria. Manifestam a tenacidade, a
obstinação, a resistência do sertanejo. A coragem, a paciência, a resistência à
fadiga aparecem como atributos fundamentais dos sertanejos. A poesia cabocla,
feita de suor, de fome e de fatiga, e nascida desta miséria, reivindica sua
diferença face a poesia de salão:
“Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paiça, da serra ao sertão”
(O poeta da roça).
Uma das figuras recorrentes desta afirmação de identidade é a oposição: o
sertanejo se determina essencialmente pela diferença. O poema inaugural de sua
obra escrita, Ao leitô, avisa ao leitor que ele vai descobrir uma poesia marcada
pela deficiência; a ladainha das negações e das restrições sublinha
estilisticamente esta confissão:
“Não vá percurá neste livro singelo
Os cantos mais belo da lira vaidosa,
Nem brio de estrêla, nem moça encantada,
Nem ninho de fada, nem chêro de rosa”. (IN, p.15)
Em Cante lá que eu canto cá, o poeta sertanejo salienta, sempre por negações
anafóricas, a pobreza que o condena ao duro trabalho da terra:
“Sou matuto sertanejo
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem quêjo,
Nem ôro, prata nem cobre”
(Vida sertaneja)
Igualmente, o sistema de negações parece ser a pedra angular de uma percepção
desvalorizada de si. Patativa do Assaré tece, paralelamente a isto, uma rede
semântica de conotação negativa. No poema O poeta da roça, ele se apresenta
como “cantô de mão grossa, poeta das brenha, não tenho sabença, meu verso
rastêro, singelo e sem graça”(IN, p.16). Em Seu Dotô me conhece?, ele se
define como “o mendigo sem sossêgo, desgraçado, aquêle rocero sem camisa e sem
dinhêro”(IN, p.69). Em No meu sertão, Patativa do Assaré salienta sua falta de
educação “Inducação eu não tenho”(IN, p.75). Em “Aos poetas clássicos”, ele
recorda sua origem humilde: “Sou um caboclo rocêro, sem letra e sem instrução”
(CLCC, p.19). Em “O retrato do sertão”, ele recorda que é “poeta de mão calosa,
(…) que não conhece cinema, teatro, nem futebol”(CLCC, p.238). Em “Emigrante
nordestino no sul do país”, ele define seus compatriotas como “vagando
constantemente, sem roupa, sem lar, sem pão”. Toda descrição, toda
desvalorização se faz sempre em referência ao cidadão urbano, ao letrado, ao
rico, ao Sul.
Patativa do Assaré propõe uma visão dicotômica do mundo tanto sobre o plano
espacial (sertão / cidade; Nordeste / Sul) quanto sobre o plano temporal
(passado / presente). Na coletânea Cante lá que eu canto cá, esta oposição
espacial anunciada desde o título, se traduz por uma constante recordação das
diferenças de identidade. A oposição mundo urbano/mundo rural está construída a
partir de diferenças sócio-culturais e do sistema de valores: educação e saber
contra analfabetismo e ignorância; dinheiro e bem-estar contra pobreza e
sofrimento; hipocrisia e vaidade contra honestidade e modéstia. Patativa do
Assaré rejeita o “poeta niversitaro, poeta de cademia de rico vocabularo cheio
de mitologia” (Aos poetas clássicos) a quem ele recomenda cantar “a cidade que é
sua”, porque ele teve inducação, aprendeu munta ciença, mas das coisa do sertão
não tem boa esperiênça” (Cante lá que eu canto cá). Ao ensino livresco, ele
opõe o ensino prático: “Aqui Deus me ensinou tudo, sem de livro precisá” ou a
experiência do sertão (O poeta da roça, Eu e o Sertão, E coisa do meu sertão,
Vida sertaneja, Seu Dotô me conhece?, O vaqueiro)
Assim como faz com o ensinamento moral, as tomadas de posição de Patativa do
Assaré são fundadas sobre a experiência: aquele que não conheceu o sertão na
carne, dele não pode falar; a única legitimidade admissível é a de pertencer a
seu povo:
“Na minha pobre linguage
A minha lira servage
Canto que a minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida da minha gente’
(Aos poetas clássicos).
Ao dinheiro, ele opõe a felicidade; assim, em “Ser Feliz” ele ressalta que a
felicidade “nasceu na simplicidade sem ouro, sem lar nem pão”. Opõe os bens
materiais à riqueza interior: “Dentro da minha pobreza, eu tinha grande
riqueza”(A morte de Nana) e fustiga aqueles que são escravos dos bens materiais
em detrimento do respeito aos valores humanos. (A escrava do dinheiro). Com
efeito, o sertanejo confere uma importância maior à qualidade das relações
humanas: “O que mais estima e qué, é a paz, a honra e o brio, o carinho de seus
fio e a bondade da muié”(Vida sertaneja).
Este olhar sobre o mundo, numa perspectiva espacial, recupera também uma
oposição passado/presente; tradição/modernidade. A situação do sertanejo
obrigado a abandonar sua terra em função da seca, a ir em direção às cidades do
litoral, ou então em direção às cidades do Sul, é uma posição delicada, na
medida em que ele passa sem transição de um mundo rural à escala humana a um
mundo urbano onde impera o anonimato. O encontro destes dois universos é, não
raro, doloroso e acompanhado de um voltar-se para os valores tradicionais. As
cidades, o progresso, a técnica são acusados de veicular os piores males da
civilização: “Mas a civilização faz coisa que eu acho ruim”(O puxadô de roda).
O sul, em particular, é tido como a sede da corrupção: “Nos centros
desconhecidos Depressa vê corrompidos Os seus filhos inocentes, Na populosa
cidade De tanta imoralidade E costumes diferentes” (Emigrante nordestino no sul
do país). Assim, o universo descrito por Patativa do Assaré é percebido como um
espelho da realidade. O aspecto quase documental da sua poesia foi salientado
por um certo número de críticos, entre os quais Luzanira Rego que afirma que sua
obra: “ reflete em seus poemas todo o mundo visionário e fantasmagórico do
caboclo nordestino, pintando, em ácidas estrofes, a realidade de uma região,
onde o homem e a terra se unem pela força do mesmo abandono”.
Conclusão
O que faz a força e o sabor da poesia de Patativa do Assaré é, sem dúvida, este
vínculo indestrutível entre o poeta, o sertão e o público. O canto só pode
nascer da repetição do quotidiano, com seu labor, suas alegrias e sofrimentos.
O canto só pode ser plenamente compreendido por aqueles que comungam desse
quotidiano e dessas mesmas experiências. Testemunhando a afeição com que é
tratado pelos habitantes do sertão que vêm visitá-lo e que pedem que lhes recite
o seu poema preferido; o sucesso que ele encontra durante suas excursões e,
notadamente junto às comunidades sertanejas do Sul; os cordéis escritos em sua
homenagem, prova irrefutável de que ele se tornou , por sua vez, um
personagem-chave do Panteão nordestino. Patativa do Assaré é um poeta popular
que, mesmo se no início cantou o sertão de forma essencialmente nostálgica e
lírica, tomou consciência das possibilidades de mudança e do impacto que podia
ter a sua voz. Embora sendo recebido pelos responsáveis políticos e honrado por
sua obra, ele não cessa de lhes recordar a realidade de onde ele extraiu a sua
principal fonte de inspiração. Uma de suas maiores preocupações é um futuro
melhor para as gerações que virão. Este objetivo não pode ser alcançado sem
passar por uma melhor educação e Patativa do Assaré vê no livro o seu auxiliar
indispensável: “É por meio da leitura Que poderá a criatura Na vida desenvolver,
O livro é companheiro Mais fiel e verdadeiro Que nos ajuda a vencer”(Ao meu
afilhado Cainã). É notável que aquele que representa hoje a tradição oral da
forma mais monumental, sonhe em continuar sua ação através da tradição escrita:
sinal dos tempos, evolução das tradições? Pesquisadores e universitários têm
lamentado, há alguns anos, o fim da literatura de cordel, avaliando que este
modo de transmissão de conhecimentos não resistirá mais diante dos novos meios
de comunicação. Talvez fosse preciso formular diferentemente o problema diante
do lugar ocupado por Patativa do Assaré: herdeiro de uma forte tradição logrou
transformar seu papel e sua mensagem. O que é, sem nenhuma dúvida, o objeto de
uma evolução, é a função do poeta popular e não sua arte propriamente dita.
Sylvie Debs é Doutora em Literatura Comparada pela Universidade de Toulouse -
França ( tese de doutorado: La projection d'une identité national - Literature
et cinéma au Brésil - 1902/1998 - Le cas du Nordeste ) e correspondente de
PALAVRARTE na França.
Bibliografia:
ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA, (O PATATIVA):
Inspiração nordestina, Cantos de Patativa, Rio de Janeiro, 1967 , 2ª edição
ampliada, p.231
PATATIVA DO ASSARÉ:
Cante lá que eu canto cá, Filosofia de um trovador nordestino, Editora Vozes,
Petrópolis, 1978, p. 355
PATATIVA DO ASSARÉ:
Ispinho e Fulô, Fortaleza, 1988, Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto,
Imprensa oficial do Ceará, p. 284
PATATIVA E OUTROS POETAS DE ASSARÉ:
Balceiro, Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1991, p. 112
PATATIVA DO ASSARÉ:
Aqui tem coisa, Fortaleza, 1994, Multigraf/ Editora, Secretaria da Cultura e
Desporto do Estado do Ceará, p. 252
PATATIVA DO ASSARÉ:
Cordéis, Juazeiro do Norte, URCA, Universidade Regional do Cariri.
Ensaios críticos:
FIGUEIREDO, Filho:
Patativa do Assaré, Novos poemas comentados, 1970.
NUVENS, Plácido Cidade:
Patativa e o universo fascinante do Sertão, Fortaleza, 1995, Fundação Edson
Queiroz, p. 261
Estudos críticos:
ALENCAR, José Arraes de:
Prefácio, Rio de Janeiro de 5/2/1956, in Inspiração Nordestina, Rio de Janeiro,
1967, 2a edição, p. 232
ALENCAR, FS
Patativa do Assaré, poeta compassivo, in Cante Lá que eu Canto Cá, Rio de
Janeiro, Vozes, 1978, p. 355
CARIRY, Rosemberg:
A poesia popular está viva, in Balceiro, Fortaleza, 1991, p.9-11.
CARIRY, Rosemberg:
Patativa do Assaré, um mestre da Poesia popular, in Ispinho e Fulô, Fortaleza,
1988, p. I-VI.
CARIRY, Rosemberg e BARROSO, Oswald:
Patativa do Assaré, sua poesia, sua vida (entrevista), in Cultura insubmissa,
Nação Cariri Editora, Fortaleza, 1982.
CAVALCANTE, Raimundo:
Testemunho poético de um tempo, in Aqui tem coisa, 2ª edição, 1995, Fortaleza,
UECE/RVC.
CARVALHO, Gilmar de :
Prefácio, in Aqui tem coisa, Fortaleza, 1994, Multigraf/ Editora, Secretaria da
Cultura e desporto do Estado do Ceará, p. 252
NUVENS, Plácido Cidade:
Patativa do Assaré, poeta social, in Cante Lá que eu Canto Cá, Rio de Janeiro,
Vozes, 1978, p. 355
VIEIRA, Antônio:
Patativa do Assaré, in Ispinho e Fulô, Fortaleza, 1988, p. VII- XI.
Artigos de imprensa:
CARIRY, Rosemberg:
Patativa do Assaré, um lavrador, um poeta do seu povo, in O POVO, Fortaleza,
20/10/77.
CARVALHO, Eleuda de:
Retrato 5x4 do Poeta Patativa, in O POVO, Fortaleza, 25/03/95.
CARVALHO, Gilmar de:
Quem é cego: Patativa ou nós?, in O POVO, Fortaleza, 25/03/95
CERRI, Claudio:
Canto da terra, in Globo rural, Rio de Janeiro, Setembro 1994.
MEDINA, Arlen:
Presidente condecora Patativa e recebe pedido pela refinaria, in O POVO,
Fortaleza, 24/03/95
NETO, Lira:
Gosto de ser Cabra-da-Peste, in O POVO, Fortaleza, 25/03/0\95.
NUVENS, Plácido Cidade:
Patativa é poesia em estado puro, in O POVO, Fortaleza, 25/03/95.
REGO, Luzanira:
Patativa do Assaré, poeta das injustiças e do sertão, in Diário Pernambuco,
Recife, 3/10/ 78.
VICELMO, Antônio:
Patativa e o universo fascinante do Sertão, in Diário do Nordeste, Fortaleza,
22/10/95
Filmes:
CARIRY, Rosemberg:
Patativa de Assaré, Um poeta camponês, curta-metragem documentário, 1979,
Fortaleza, Brasil.
Patativa do Assaré, Um poeta do povo, curta-metragem documentário, 1984,
Fortaleza, Brasil.
Fonte: Cláudio Portella - Autobiografia de Patativa do Assaré
Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria
Pereira da Silva, nasci aqui, no Sítio denominado Serra de Santana, que dista
três léguas da cidade de Assaré. Meu pai, agricultor muito pobre, era possuidor
de uma pequena parte de terra, a qual depois de sua morte, foi dividida entre
cinco filhos que ficaram, quatro homens e uma mulher. Eu sou o segundo filho.
Quando completei oito anos, fiquei órfão de pai e tive que trabalhar muito, ao
lado de meu irmão mais velho, para sustentar os mais novos, pois ficamos em
completa pobreza. Com a idade de doze anos, freqüentei uma escola muito
atrasada, na qual passei quatro meses, porém sem interromper muito o trabalho de
agricultor. Saí da escola lendo o segundo livro de Felisberto de Carvalho e
daquele tempo para cá não freqüentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando
com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que
sou apaixonado pela poesia, onde alguém lia versos, eu tinha que demorar para
ouvi-los. De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de
graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte:
Brincadeiras de noite de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos,
que deixavam o mato estragar os plantios das roças, etc. Com 16 anos de idade,
comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já
improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam. Nunca quis
fazer profissão de minha musa, sempre tenho cantado, glosado e recitado, quando
alguém me convida para este fim.
Quando eu estava nos 20 anos de idade, o nosso parente José Alexandre Montoril,
que mora no estado do Pará, veio visitar o Assaré, que é seu torrão natal, e
ouvindo falar de meus versos, veio à nossa casa e pediu à minha mãe, para que
ela deixasse eu ir com ele ao Pará, prometendo custear todas as despesas. Minha
mãe, embora muito chorosa, confiou-me ao seu primo, o qual fez o que prometeu,
tratando-me como se trata um próprio filho. Chegando ao Pará, aquele parente
apresentou-me a José Carvalho, filho de Crato, que era tabelião do 1o. Cartório
de Belém. Naquele tempo, José Carvalho estava trabalhando na publicação de seu
livro "O matuto Cearense e o Caboclo do Pará", o qual tem um capítulo referente
a minha pessoa e o motivo da viagem ao Pará. Passei naquele estado apenas cinco
meses, durante os quais não fiz outra coisa, senão cantar ao som da viola com os
cantadores que lá encontrei. De volta do Ceará, José Carvalho deu-me uma carta
de recomendação, para ser entregue à Dra. Henriqueta Galeno, que recebendo a
carta, acolheu-me com muita atenção em seu Salão, onde cantei os motes que me
deram.
Quando cheguei na Serra de Santana, continuei na mesma vida de pobre agricultor;
depois casei-me com uma parenta e sou hoje pai de uma numerosa família, para
quem trabalho na pequena parte de terra que herdei de meu pai. Não tenho
tendência política, sou apenas revoltado contra as injustiças que venho notando
desde que tomei algum conhecimento das coisas, provenientes talvez da política
falsa, que continua fora do programa da verdadeira democracia. Nasci a 5 de
março de 1909. Perdi a vista direita, no período da dentição, em conseqüência da
moléstia vulgarmente conhecida por Dor-d'olhos. Desde que comecei a trabalhar na
agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não
plantei roça, no ano em que fui ao Pará. ANTÔNIO GONÇALVES DA SILVA, Patativa do
Assaré.
Patativa, dono de uma memória extraordinária, sabia de cor todos os seus mais de
mil poemas. Ele não burilava seus versos como os poetas de bancada fazem; seus
versos e rimas brotavam em sua cabeça como as plantas brotavam em seu roçado. O
poema nascia pronto e exato, redondo, sem precisar de emendas.
Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal
Vaca
Estrela e boi Fubá
Compositor (Patativa do
Assaré)
Intérpretes: Luiz
Gonzaga e Fagner
Seu doutô, me dê licença
Pra minha história contá
Hoje eu tô numa terra
estranha
E é bem triste o meu
pená
Mas já fui muito feliz
Vivendo no meu lugá
Eu tinha cavalo bão
Gostava de campear
Todo dia eu aboiava
Na porteira do currá
Êeeeiaaaa
Êeee vaca Estrela
Ôoooo boi Fubá
Eu sô filho do
Nordeste
Não nego meu naturá
Mas uma seca medonha
Me tangeu de lá prá cá
Lá eu tinha meu gadinho
Não é bão nem alembrá
Minha linda vaca Estrela
E o meu belo boi Fubá
Quando era de tardizinha
Eu começava aboiá
Êeeeiaaaa
Êeee vaca Estrela
Ôoooo boi Fubá
Aquela seca
medonha
Fez tudo se atrapaiá
Não nasceu capim no
campo
Para o gado sustentá
O sertão se esturricô
Fez os açude secá
Morreu minha vaca
Estrela
Se acabô meu Boi Fubá
Perdi tudo quanto eu
tinha
Nunca mais pude aboiá
Êeeeiaaaa
Êeee vaca Estrela
Ôoooo boi Fubá
Hoje nas terra do
Sul
Longe do torrão natá
Quando vejo em minha
frente
Uma boiada a passá
As águas corre dos óio
Começo logo a chorá
Lembro da minha vaca
Estrela
E do meu boi Fubá
Com sodade do Nordeste
Dá vontade de aboiá