Portal CEN  *** Pesquisas Carlos Leite Ribeiro ***

 

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Salgueiro Maia

 

(ou uma singela homenagem a um Herói Português do nosso tempo)

 

 

 

Nasceu a 01 de Julho de 1944

 

 

 

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

 

Formatação: Iara Melo




Madrugada do dia 25 de Abril de 1974, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém:

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!"
 
A coluna é composta por 240 homens, um esquadrão de reconhecimento com dez viaturas blindadas e um outro esquadrão de atiradores com doze viaturas de transporte de pessoal, duas ambulâncias e um jipe. Às três horas e vinte minutos, dá-se a partida de Santarém. A viagem decorre sem qualquer problema e às seis da manhã a revolução já está na Praça do Comércio. O aeroporto, a RTP, a Rádio Marconi, a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português já tinham sido tomados sem resistência. «Aqui, posto de comando do Movimento das Forças Armadas» – ouve-se aos microfones do RCP pouco depois das quatro horas. Um dos trunfos do êxito da revolução foi a rapidez com que Salgueiro Maia percorreu a distância entre Santarém e Lisboa. Duas horas apenas, sem ser interceptado nem ser obrigado a dar nenhum tiro. Uma lição que aprendera com o fracasso do 16 de Março. A cidade de Lisboa começa a acordar e a população sai de casa para a labuta do dia-a-dia. Com calma e tranquilidade, Salgueiro Maia dirige-se a quem demonstra a vontade de ir trabalhar. «Ó minha senhora, hoje não se trabalha. Amanhã, talvez… mas hoje não! Nem hoje, nem nos dias 25 de Abril que vierem, porque esta data passará a ser feriado!» O episódio mais complexo daquela manhã ocorre cerca das nove horas. Quatro carros de combate, uma companhia do Regimento de Infantaria n.º 1 e alguns pelotões da polícia militar, todos fiéis ao regime, aparecem dos Cais do Sodré, progredindo pela rua Ribeira das Naus e rua do Arsenal. O brigadeiro responsável exige que Maia se desloque para trás das suas tropas, mas, não sendo obedecido, dá ordens para disparar. Um a um, os seus homens desobedecem e passam para a facção contrária. A facção da liberdade. Na objectiva de Alfredo Cunha, ficou imortalizado o momento em que Salgueiro Maia se encontrava sozinho, no meio da rua, com os canhões à sua frente em posição de disparar, e apenas com um lenço branco na mão. O apoio popular à causa revolucionária agora já é evidente. A caminho do quartel do Carmo, onde Marcello Caetano está refugiado, Salgueiro Maia segue numa espécie de «cortejo» triunfal. A cumplicidade do povo, nesses momentos de enorme tensão, foi então decisiva.  Com o megafone na mão, por volta das três da tarde, Salgueiro Maia pede que o quartel se renda no espaço de dez minutos, período após o qual dará ordem de disparar. O prazo esgota-se sem haver qualquer resposta e a primeira rajada de tiros não se faz esperar. A ansiedade atinge níveis indescritíveis. «Militares, populares e jornalistas são por uma vez testemunhas e protagonistas da história. Há já milhares de cravos vermelhos. Canta-se a marcha do MFA e Grândola Vila Morena. Entoam-se palavras de ordem. Mas do meio da turba uma voz de comando destaca-se e o passo decidido de Salgueiro Maia cadencia o ritmo dos acontecimentos.» (António de Sousa Duarte) No momento em que se preparava para dar ordem de disparar maciçamente sobre o quartel, chega uma carta de Spínola dirigida a Marcello Caetano. Às perguntas dos mensageiros – quem manda aqui e quem é o oficial mais graduado – Salgueiro Maia responde da mesma forma. «Mandamos todos! Somos todos capitães!» Às cinco da tarde, porque a situação não se desenvolve, o capitão, temerário, entra no quartel para falar directamente com o presidente do Conselho. Na breve conversa com Marcello, Salgueiro Maia mostra toda a enormidade do seu carácter, das suas intenções e dos objectivos que o levaram a sair de Santarém para acabar «com o Estado a que chegámos». Assegura a protecção do chefe do Governo, diz que programas políticos não são consigo e coloca todos os membros do MFA no mesmo plano. Salgueiro Maia, primeiro, e Francisco Sousa Tavares, depois, apelam à calma e tranquilidade dos presentes. Spínola já chegou e Marcello Caetano acaba de lhe entregar o poder. Ao capitão, ainda lhe estava reservada uma última missão: conduzir Caetano ao comando do MFA, na Pontinha. A revolução estava consumada, o nosso herói podia tranquilamente voltar para a sua Escola Prática de Cavalaria, para a sua Santarém, como se nada tivesse acontecido. «Era um militar de bravura inigualável, mas também extremamente sensato e um homem de coração. Maia era um chefe nato e dele emanava a força serena dos homens habituados a dominarem-se e, sendo preciso, a dominar os outros. Foi assim que Salgueiro Maia, com os seus homens, dos quais a maioria sem qualquer experiência e praticamente sem instrução de tiro, venceu na revolução e virou a página da história de Portugal. Dominou calmamente, no Terreiro do Paço, o tenente-coronel Ferrand de Almeida, dominou o brigadeiro que se lhe quis opor e, pela calma fixa do seu olhar, dominou um a um os homens que receberam ordem para disparar sobre ele. No Carmo dominou tudo e todos: dominou a guarda, dominou o Governo, dominou os ministros que choravam, dominou a multidão e dominou o ódio colectivo dos que gritavam vingança. E dominou o tempo e a vitória que veio ter com ele, obediente e fascinada.» (Francisco Sousa Tavares)  Nos anos seguintes, recusou ser comandante da Escola Prática de Cavalaria, membro do Conselho de Revolução, adido militar numa embaixada, governador civil de Santarém e membro da Casa Militar da Presidência da República. Tudo recusou, porque a única ambição que tinha era de continuar em Santarém com o posto que ocupava. Aos que constantemente lhe lembravam os actos heróicos que protagonizara, respondia apenas: «O que lá vai, lá vai.» Entre 1977 e 1984, foi completamente ostracizado. Como que punido por ter feito a revolução. Aconteceu-lhe a ele como a muitos outros dos militares de Abril. «Até já poderemos ser acusados e presos por implicação no 25 de Abril» – chegou a confessar a João Paulo Guerra. Desalentado, tentou um último reconhecimento da hierarquia militar. Em 1988, já doente, solicita uma irrisória pensão por «serviços excepcionais ou relevantes» prestados ao país. Foi-lhe recusada a pensão, ao mesmo tempo que era atribuída a dois antigos inspectores da PIDE. Morreu em 3 de Abril de 1992, depois de quatro anos de sofrimento, nos quais se incluíram quatro operações cirúrgicas. Ao funeral, realizado em Castelo de Vide ao som da «Grândola», como era seu desejo, ocorreram as mais altas instâncias, passadas e presentes, da governação. Confirmando o que alguém disse nesse exacto momento: «Mesmo depois de morrer, o Maia continua a servir sem se servir.»
 
Fonte: RTP - Os Grandes Portugueses
É um exemplo de valentia e grandeza na Revolução dos Cravos. Salgueiro Maia, soldado português, comandou as forças que avançaram sobre Lisboa no 25 de Abril de 1974. Pôs fim à ditadura militar e forçou a rendição de Marcello Caetano. Foi aclamado em apoteose. Salgueiro Maia impediu uma devastação desnecessária e deu aos Portugueses um novo amanhecer. Personifica o herói dos tempos modernos. “A tranquilidade, coragem e serenidade que soube transmitir fazem com que simbolize todo aquele movimento”, refere a escritora Inês Pedrosa.
É o mais puro símbolo da coragem e generosidade dos capitães de Abril. “É a figura da Revolução”, diz a escritora Alice Vieira. Salgueiro Maia, militar português, avançou sobre Lisboa em 25 de Abril de 1974. À frente de 240 homens e com dez carros de combate da Escola Prática de Cavalaria, ocupou o Terreiro do Paço, levando à fuga os ministros de um regime ditatorial que durava há quase 50 anos. Obrigou Marcello Caetano à rendição e a demitir-se. “Eu, o António Pedro Vasconcelos e o João César Monteiro fomos para o Largo do Carmo. Reparei nele, na maneira como conduzia e aguentou aquilo”, relembra Fernando Lopes. Para o cineasta, o ar de “herói romântico” de Salgueiro Maia marcou-o profundamente. “É uma imagem quase poética.”
A partir da chegada da coluna de Salgueiro Maia ao centro físico do poder político, os passos deste capitão confundem-se com a história do próprio 25 de Abril. Não há dúvida de que “é o melhor dos capitães de Abril”, como diz o jornalista Carlos Magno, e o responsável por aquela que é considerada por muitos a frase da Revolução: “Somos todos capitães.”
Há quem diga que se Otelo Saraiva de Carvalho foi o estratega e o cérebro da operação, Salgueiro Maia foi o seu braço mais importante. Diz Otelo no livro “Alvorada em Abril”, editado pela Editorial de Notícias, que “Salgueiro Maia iria ser o comandante das forças do Movimento mais sujeito a situações de perigo e de tensão ao longo do dia 25. O número de homens que tem sob o seu comando e o potencial bélico de que dispõe permitem-lhe, todavia, encarar com certo optimismo as situações de responsabilidade que se lhe vão deparando e sendo resolvidas”. De facto, “a sua extrema juventude, a sinceridade com que fez a comunicação entre o poder cessante e o novo poder, a tranquilidade, a coragem e a serenidade que soube transmitir nesse momento, fazem com que simbolize todo aquele movimento”, reforça a escritora Inês Pedrosa. Mesmo que uma onda de medo lhe retorcesse o estômago, Salgueiro Maia ia em frente.
Nascido em Castelo de Vide em 1 de Julho de 1944, Salgueiro Maia resolve fazer carreira militar. Em Outubro de 1964, ingressa na Academia Militar e, dois anos depois, apresenta-se na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, para frequentar o tirocínio. Em 1968 é integrado na 9.ª Companhia de Comandos, e parte para o Norte de Moçambique, em plena guerra colonial. A participação vale-lhe a promoção a capitão já em 1970. Depois de Moçambique vai para a Guiné. Regressa a Portugal em 1973, altura em que é colocado na Escola Prática de Cavalaria.
Como delegado da arma de cavalaria, acaba por integrar a comissão coordenadora do movimento das forças das armadas (MFA) que, entretanto, iniciara reuniões clandestinas. Após o levantamento das Caldas, de 16 de Março de 1974, no histórico dia 25 de Abril o capitão comandou a coluna de carros de combate que montou cerco aos ministérios do Terreiro do Paço. Para António Costa Pinto, historiador, Salgueiro Maia é “alguém que entra e sai da história muito rapidamente, sem se confundir com ela”. A escritora Alice Vieira acrescenta: “Foi o homem da acção, que ia à frente dos chaimites. É o herói em toda a sua ascensão popular.”
No final da tarde do dia 25, Salgueiro Maia força a rendição de Marcello Caetano, que entrega a direcção do governo ao general António de Spínola. Maia escolta Caetano ao avião que o transporta para o exílio. As notícias varrem o país como um “tsunami” de alegria e regozijo. A Revolução dos Cravos marcava o fim da ditadura em Portugal. Os Portugueses acordaram noutro país, com mais esperança. “Eu tinha 4 anos no 25 de Abril quando vi o Salgueiro Maia. Vi, da varanda da casa dos meus pais, aqueles tanques a passarem no Largo do Carmo, Rua D. Pedro V por aí acima. São das poucas imagens que retenho da minha infância. É exactamente da euforia das pessoas de que me lembro. Foi inesquecível”, conta, com entusiasmo, o compositor Bernardo Sassetti.
Em 4 de Abril de 1992 Salgueiro Maia morreu vítima de uma doença cancerígena. No cemitério de Castelo de Vide, quatro presidentes da República - António de Spínola, Costa Gomes, Ramalho Eanes e Mário Soares - vêem descer à terra o corpo de um dos homens que mais contribuiu para que todos eles pudessem ascender à mais alta magistratura da nação.
 
Como participei na coluna de Salgueiro Maia na madrugada do 25 de Abril de 1974 - Por: Eduardo Graça
Pelo 35º aniversário da revolução, em homenagem aos meus companheiros de armas

Capitão Teófilo Bento 
Quando eclodiu o 25 de Abril, cumpria serviço militar, como oficial miliciano, desde finais de 1971, no quartel do Campo Grande, em Lisboa. Nunca soube a razão de não ter sido mobilizado para uma das frentes da guerra colonial. O destino reservou-me passar quase três anos a ministrar instrução militar a recrutas de toda a sorte, alguns deles, por sinal, bem ilustres.
Foi o Capitão Teófilo Bento que me contactou no início de 1974 e não sei já como chegou até mim. Talvez tenha sido após o «Golpe das Caldas», em 16 de Março, pois, nesse dia, foi-me dada ordem para permanecer no quarto. Na manhã do dia seguinte, se bem me lembro, lá me mandaram sair. O golpe tinha fracassado. Falei, por esses dias, com o Capitão Teófilo Bento num carro estacionado próximo do 2º GCAM, no Campo Grande. Ele queria saber se havia algum oficial miliciano de confiança no Quartel-general de Lisboa.
Tratava-se, pelo que percebi, de um ponto fraco na rede dos militares que preparavam o golpe. Mas não havia um único miliciano de confiança, que eu conhecesse, em serviço no Quartel-general. Após este encontro fiquei com a certeza da inevitabilidade de que algo de sério ia acontecer. Estava, de facto, em marcha uma acção de envergadura para derrubar o regime. 
Mantive a maior descrição. Não falei a ninguém acerca desse encontro. Mas tomei as minhas providências. O ambiente era de medir forças dentro dos quartéis. Após o fracassado «Golpe das Caldas» todos os movimentos eram observados e o ar que se respirava estava povoado de ameaças. 
Na expectativa do combate
Os dias que se seguiram ao 16 de Março foram de expectativa e tensão crescentes. Sabia que alguma coisa iria acontecer. Os contactos multiplicavam-se e os boatos inundavam as conversas.
Soube, em meados de Abril, após o contacto com o Capitão Teófilo Bento, mas não por ele, que o golpe seria para os finais de Abril. A informação havia chegado pela via política e não pela via militar.
Teriam que ser tomados os cuidados adequados a uma situação de confronto armado em que poderia correr sangue. Ninguém acreditava que o regime caísse sem oferecer feroz resistência. Seria mais que provável o confronto militar pelo que era prudente estarmos preparados para essa situação.
Os camaradas de armas
Os militares, oficiais do quadro, que preparavam a revolta tinham a consciência da inevitabilidade do confronto militar. E os milicianos também. Era um confronto que havia que preparar com todo o cuidado. Fiz contactos discretos com os amigos que colaboravam no que havia de vir a ser o MES.
Deixei mensagens e recados mais ou menos enigmáticos. Muitos dos avisados fizeram vigília no dia errado ou foram surpreendidos no dia certo. Nada disse à minha família.
Mas alguém tinha de ser avisado para que na minha unidade militar, o 2º GCAM, se pudesse apoiar, com eficácia, a tomada do poder. Avisei o João Mário Anjos e o António Dias, meus camaradas de armas. Devemos ter acertado, entre nós, os passos a dar naqueles dias. 
O último aviso
No dia 24 de Abril fomos contactados no quartel por um colega do curso de oficiais milicianos. As últimas dúvidas quase se tinham dissipado. A acção militar ia ser desencadeada na próxima madrugada.
Fui a casa do Eduardo Ferro Rodrigues, meu amigo de juventude e de todas as militâncias, na Travessa do Ferreiro, para o avisar de que alguma coisa (o golpe) se iria passar nessa noite. Era fim da tarde. A RTP transmitia um jogo do Sporting, com um clube da Alemanha de Leste, para uma eliminatória das competições europeias de futebol. Deixei o recado e pus-me a caminho.
O combinado era reunir um pequeno grupo de que faziam parte o João Mário Anjos, o António Mil-Homens (já falecido) e o António Dias, na casa deste, em Benfica, aguardando o sinal musical (E depois do Adeus) que anunciaria o desencadear da operação, a nível nacional.
Era perto de minha casa e lá fui preparado para o que desse e viesse. Mas o sinal nunca mais surgia e adormeci deitado no chão.
A espera sem fim
Nessa espera sem fim, na madrugada de 24 de Abril de 1974, a certa altura alguém me acordou com incontida emoção. Tinha passado a canção. Era mesmo a sério. A noite ia alta. Saímos os três. Eu e o João Mário Anjos metemo-nos no carro do António Dias que, conduzido por ele, caminhou para a 2ª Circular a caminho do Campo Grande. O António Mil-Homens saiu para a baixa da cidade.
O nosso objectivo era tomar posição dentro do 2º GCAM (2º Grupo de Companhias de Administração Militar) o mais cedo possível. Mas, ao contrário do que aconselhava a prudência, não o fizemos logo. Antes fomos dar uma volta de carro pelas redondezas a ver o que se estaria a passar na EPAM.
Passamos defronte da EPAM (Escola Prática de Administração Militar) e conseguimos ver o Teixeirinha junto ao muro, equipado de arreios, preparado para integrar o grupo que ocuparia a RTP. Não observámos nenhum outro sinal da acção iminente.
Regressámos à 2ª Circular para reforçar a observação do movimento começando a desconfiar que ia ser um novo 16 de Março. Um fracasso. Encetamos, de novo, o caminho do quartel do Campo Grande. Ao entrar no Campo Grande surgiu, inesperadamente, diante de nós, uma coluna militar.
Finalmente sinais de acção
Retenho muito viva na memória a imagem do carro do combate que encabeçava a coluna irrompendo diante de nós. Tinha surgido da escuridão uma coluna militar que tomaria a direcção do centro da cidade. Vislumbramos um carro «nívea» da polícia na penumbra que não esboçou qualquer movimento.
O Campo Grande não era como hoje. Havia um desnível e o carro de combate que vinha na nossa direcção deu um salto rápido para tomar contacto de novo com o chão. Foi uma espécie de salto mágico que desde esse momento, com frequência, me assalta a memória. A emoção que senti é indescritível. Era um sonho que se tornara realidade. Fomos, certamente, os únicos que assistimos, ao vivo, a esse momento.
Soubemos, mais tarde, que aquela era a coluna, oriunda de Santarém, comandada pelo Capitão Salgueiro Maia. Naquele momento colocava-se a opção de cumprir o nosso objectivo e entrar no quartel ou seguir atrás daquela surpresa entusiasmante.
Na peugada da coluna de Salgueiro Maia
Perante o dilema de entrar, de imediato, no Quartel do Campo Grande, ou seguir atrás da coluna militar, tomamos a opção de nos incorporarmos na coluna. Mas antes deixámos o João Mário Anjos no quartel. Eu com o António Dias ao volante do Datsun 1200, matrícula HA-79-46, segui atrás da coluna de Salgueiro Maia.
A caminho da Avenida da República pensei com os meus botões na fraqueza aparente da força militar que havia de ser decisiva no destino do 25 de Abril. Um soldado que era visível num dos carros apresentava um aspecto de uma fragilidade impressionante. Era uma coluna militar pouco convincente, pelo aspecto exterior, ostentando sinais de fraca capacidade militar.
Na Avenida da Liberdade lembro-me de ter visto um polícia tomar a iniciativa de mandar parar um ou outro carro para não perturbar o avanço da coluna. A madrugada ia alta e saíam clientes do «Cantinho do Artista» no Parque Mayer. Éramos, certamente, os únicos perseguidores da coluna cuja missão concreta desconhecíamos.
Rua do Arsenal
Tomada a decisão de ver com os próprios olhos o desenvolvimento da acção militar, fomos sempre atrás da coluna atravessando a baixa no sentido do Terreiro do Paço. Chegada à Rua do Arsenal a coluna parou. Os tanques posicionaram-se no terreno.
Havia um vaso de guerra no Tejo e a discussão era se estava a favor ou contra o movimento revoltoso. Decidimos que chegara a hora de abandonar o local pois não era aquela a nossa guerra. Não podíamos ficar mais tempo sacrificando a nossa própria missão.
Ultrapassámos a coluna facilmente e seguimos em frente. Sempre fiquei com a convicção que a vitória da Revolução foi decidida na Rua do Arsenal antes dos acontecimentos do Largo do Carmo. O povo ainda não tinha descido à rua.
Estávamos na fase das puras operações militares, propriamente ditas, sem as quais não seria possível desencadear o verdadeiro processo político que precipitaria a queda do regime. Afinal as forças armadas estavam a prestar um serviço público que poderia redundar num pesadelo para os seus protagonistas.
O renascimento da liberdade
Era a velha questão da liberdade que se jogava naquelas horas. Participei, com os meus dois camaradas, João Mário e António, num daqueles momentos da história em que algo de essencial muda.
A mudança do destino da vida de toda uma comunidade e de um povo. Um daqueles momentos raros de fusão em que um regime, que no dia anterior parecia inexpugnável, cai fulminado como se nunca tivesse tido apoiantes e seguidores.
Assistimos e participámos, ao vivo, a uma página ímpar da nossa história, aos últimos minutos de um regime de opressão e ao renascimento de um regime de liberdade.
De saída daquela situação de acompanhantes anónimos da coluna militar, comandada pelo Capitão Salgueiro Maia, ainda nos cruzámos com a coluna de Cavalaria 7 que vinha ao encontro dos revoltosos. Era comandada, soube depois, pelo meu conterrâneo Brigadeiro Junqueira dos Reis.
O caminho de regresso ao nosso objectivo passou pela Ajuda onde o pessoal da Polícia Militar (PM) discutia o que fazer na estrada de Monsanto. Ao longo desta digressão pela cidade, sempre pensei que a desproporção de forças era demasiado grande, enorme e arrasadora, e que a coluna revoltosa não seria capaz de resistir a um ataque determinado. Receei que fosse destroçada em poucos minutos.
Salgueiro Maia
Afinal o Capitão Salgueiro Maia era um homem de coragem. No confronto decisivo da Rua do Arsenal foi o sangue frio de Salgueiro Maia que tornou vitoriosa a revolução. A sua serenidade face à força inimiga obrigou a que o soldado atirador, sob ordens de um subordinado do brigadeiro, não fosse capaz de premir o gatilho. A serenidade do Capitão Salgueiro Maia, sabendo que tinha a sua cabeça na mira do atirador, congelou a situação.
Acredito pelo que presenciei que só a conjugação da coragem do Comandante da força revoltosa de Santarém, o desespero do comandante da força do regime e a recusa do soldado em disparar permitiram o desenlace feliz daquela situação que, no plano militar, era absolutamente desfavorável aos revoltosos.
Assim se decidiu o destino da revolução. Entretanto tínhamos prosseguido o nosso caminho e entrámos pacificamente no 2º GCAM.
A liberdade
Nos momentos de ruptura é necessário fazer escolhas. No período pós 25 de Abril as nossas escolhas resultaram, algumas vezes, de erros de avaliação resultantes de apressadas opções ideológicas e intelectuais.
Nunca duvidei, pessoalmente, da primazia que a liberdade deve tomar no confronto com a justiça. Mas, em todos os tempos, em épocas de crise, em períodos pós guerra ou pós revolução, se suscita a questão da relação entre a justiça e a liberdade.
Camus escreveu, no período pós 2ª guerra mundial, algo que sintetiza, com clareza, o alcance deste dilema: «Se me parecia necessário defender a conciliação entre a justiça e a liberdade, era porque aí residia em meu entender a última esperança do Ocidente. Mas essa conciliação apenas pode efectivar-se num certo clima que hoje é praticamente utópico. Será preciso sacrificar um ou outro destes valores? Que devemos pensar, neste caso? (…) Finalmente, escolho a liberdade. Pois que, mesmo se a justiça não for realizada, a liberdade preserva o poder de protesto contra a injustiça e salva a comunidade…»
Foi este, em síntese, também o nosso dilema. A nossa escolha, neste dilema histórico, foi a liberdade. Hoje não me interessam tanto as pessoas com as quais partilhei os acontecimentos do passado. Interessam-me mais aquelas com as quais possa partilhar os acontecimentos do futuro.
Mas não esqueço as marcas gravadas a fogo na minha memória pelo 25 de Abril de 1974 nem as pessoas admiráveis com as quais vivi esse sonho inigualável que foi a reconquista da liberdade. Se a nossa consciência de homens livres tem algum valor, preservemos a capacidade de não nos deixarmos aprisionar pelo esquecimento e pelo medo. Para que nunca se cumpra o receio que Jorge de Sena, um dia, expressou nos seus versos: «Liberdade, liberdade, tem cuidado que te matam.»
 
Nota: O nosso particular amigo e Autor CEN, Coronel Henrique Lacerda Ramalho, residente em Cuiabá (Brasil), fez parte deste Movimento do 25 de Abril, conhecido também como a Revolução dos Cravos.

 

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal

 

 

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