Ano III - Agosto - 2010

Participação de Diversos Autores

do Portal CEN

 

 

 
 
 
APENAS UM MAR NOS SEPARA

Tito Olívio
 

Apenas um mar nos separa. Um mar calmo e remansoso, como as estrelas do céu, que as frágeis caravelas de Cabral sulcaram e atravessaram, para que se fizesse história e se unissem os homens espalhados pelo mundo desconhecido. Então, por que vivemos tão afastados, tão de costas viradas, nós, os escritores de Portugal e do Brasil, se até uma bela ponte (CEN-Cá estamos nós) une os nossos territórios, sem ser preciso utilizar um barco ou um avião? É certo que as diferentes formas de utilizar a língua portuguesa, de Camões, Eça e Machado de Assis são uma porta, que nem sempre é fácil de abrir para o entendimento livre dos homens, mas maiores dificuldades são por nós vencidas em outras circunstâncias. Recuando nos séculos, vemos que as nossas famílias são oriundas de um mesmo povo e, nessa época, com uma mesma língua. Somos, por isso, irmãos de sangue na família da História e a proximidade das nossas vidas, nas distantes  coordenadas geográficas, é um elo que deve resistir ao tempo.
O que verdadeiramente une os homens, como força indestrutível, é a vontade de ter felicidade e paz; por isso, temos de fazer um esforço, que nem terá de ser grande, para nos aproximarmos e comungarmos plenamente do mesmo ideal, que é o sermos arautos das necessidades, dos anseios, das alegrias e das tristezas dos nossos irmãos, que não têm voz. O escritor é o moderno paladino dos fracos e dos oprimidos, dos que sofrem de injustiça, de pobreza e de perseguição.
Lancemos as mãos por sobre o mar que nos separa, num arco-íris de imaginação e de realidade, e juntemos todas as páginas que escrevemos e depois troquemo-las entre nós, para que possamos saborear o que a tinta vai pondo nas folhas de papel! Com as nossas almas unidas, esta força será mil vezes maior e a nossa capacidade de intervenção duplicará.

 

 

 

 
Paraíso Imaginário

Ana Maria Nascimento
 

Mote:
Meu fetiche principal
vou te falar, podes crer
é teu olhar de cristal
que me faz embevecer.

(Airton Marinho)
Meu fetiche principal
transporta-me a melancolia
assim consigo, afinal,
viver em pura utopia.

Habituei-me a sentir
vou te falar, podes crer,
não deixarei de cumprir
o desejar de teu ser.

A beleza sem igual,
costumo dizer sorrindo,
é teu olhar de cristal
majestosamente lindo.

Em teus braços, meu amor,
conforto todo o meu ser
manifestando o valor
que me faz embevecer.

 

 



NOSSA RETINA


Aparecido Donizetti Hernandez

 

Pelo que passamos juntos,
Não há o controle do tempo,
As nuvens que encobrem o sol
Não encobrem sua luz,
Não turvam o esplendor de seus raios
E o calor que irradia.
O tempo que temos juntos
Não é controlado pelos ponteiros do relógio,
Que delimita e tenta ser o controle do tempo.
O tempo que estamos juntos é o que nossas retinas
Guardam e guardarão por todos os tempos...
Juntos somos como os raios do Sol,
Sua esplendorosa luminosidade,
Não como as nuvens que tentam
Sem poder ofuscar esse brilho,
Brilho que o relógio do tempo
Transporta pela eternidade
E viverá por todos os tempos...

 

 

FACES DA MULHER

Artemiza Correia


Menina inocente e pura
Jovem linda e atraente
Profissional independente
Mãe; já mulher madura.
A mais doce criatura
Firme forte e potente
Com sucesso ascendente
Uma verdadeira fortaleza
Tem estética, tem beleza
No mundo é “o expoente”.
 
É uma força estrondosa
Ardente, fria e medonha
Cheia de pudor, sem vergonha
Caliente, sexi e dengosa.
Sábia, pura e virtuosa
É sonho, é real, é façanha
Criatura comum e estranha
Submissa, arredia e atrevida
Canal direto com a vida
Que lhe brota das entranhas.


 


 

IRRELEVÂNCIAS

Cibele Carvalho


São coisas insignificantes,
pequenas, irrelevantes,
que não poderão, jamais,
influenciar em nós.
O que são belas palavras
diante de nossos atos?
Nada alterará os fatos
da nossa realidade,
do encontro de verdade
dos nossos corpos no leito.
O que são meros quereres
e vãs idealizações,
diante dos batimentos
de dois loucos corações?
Sutis insignificâncias
de que mantemos distância
em nosso ato de amar.
Não interferem nos beijos
e nem nos nossos desejos
- somos dois, neste lugar!


 

 


CARTA A UM ANIVERSARIANTE


Cyroba Cecy B. O. Ritzmann


Hoje é teu dia e tens direito a festa, “parabéns à você”, bolo, presentes, abraços, beijos, presença dos amigos e eu estou aqui para compartilhar dessa alegria, pois tu a mereces.
Em uma confortável cadeira de balanço, não mais no balanço do colo de uma babá podes hoje estar sentado, mas o significado do dia é mesmo, só os painéis da vida que mudaram. É esse balanço que vai sacudindo a memória, trazendo à tona um mundo grandioso, vivenciando e nos lembrando dos presentes que recebíamos, cujo maior prazer era rasgar com euforia as embalagens e, depois de rápida olhada, deixávamos de lado o brinquedo e só nos detínhamos a segurar o que mais nos havia agradado, A gente se lembra da bola que, indiferente aos estragos que fazia, íamos atirando de um lado a outro da sala; o trenzinho que inocentemente já cruzou nossa vida em vários sentidos, não se importando com os solavancos que ia nos dando e nem com as direções que, inesperadamente, iam modificando nossa vida; o caminhãozinho de madeira colorida que já fez tantas mudanças e transportou tantas lágrimas e alegrias; os joguinhos que nos deram o sentido de ganhar ou perder, memorizar ou esquecer, que nos socializaram, fazendo-nos brincar com os colegas; a peteca que atirávamos para o alto como querendo empurrar as coisas negativas e recebíamos de mão aberta, num autêntico ensinamento de coragem. Ganhávamos roupas que vestiram tantos sonhos, ilusões, decepções; sapatos que aliviaram nossos pés nas longas caminhadas; livros às vezes desprezados, pois queríamos VIVENCIAR e não SENTIR, as emoções pelas experiências recebidas de autores que desconhecíamos; o quebra - cabeça que nos fazia caminhar, às vezes por vontade própria, outras, conduzidos por mãos amigas e até mesmo sem querer, ia se montando e a gente se encaixando sem saber como e porque; os castelos de madeira que habilmente íamos construindo, fantasiando e tornando realidade e às vezes, desabavam com um simples toque ou com um vento forte, avassalador, tombavam diante de nossos olhos aquilo que havíamos edificado com tanto amor; e brincávamos com os nossos amiguinhos: “ciranda, cirandinha... o amor que tu me tinhas”...
 E, agora, um balanço mais forte, sacudido pela mão de um netinho nos acorda para a realidade do dia de hoje, e verificamos que a vida não passou de um simples brinquedo: tudo se transforma, desgasta, acaba, muda de direção, enquanto vamos brincando e convivendo com novos ideais, novos valores, novas conquistas, novos presentes. E que melhor do que poder viver?
Com euforia deves rasgar novamente as embalagens dos presentes agora enviados por Jesus, valorizá-los e, com muita fé, agradecer a dádiva de estar vivo, saudável, amado, enriquecido no seu ego divino e brincando com os ensinamentos cristãos, erguer uma pirâmide de encontro a Deus.
Como uma cascata de luz, minha prece possa ser derramada sobre ti.
A sempre amiga...
 

 

 

Um rei muito bom


Ivone Boechat


Conta-se que um fanático rei mandou construir uma cama de ouro, muitíssimo valiosa, adornada com milhares de diamantes e mandou que a colocassem no quarto de hóspedes do palácio. Sempre que havia convidados o rei elogiava a cama e dizia do prazer que sentia por receber pessoas tão ilustres. Porém, existia uma condição: o convidado teria que se encaixar na cama que fora fabricada sob medida. Se fosse gordo, o hóspede deveria ser cortado para caber na cama, com a desculpa do preço e do valor da cama.
Era impossível encontrar alguém que se ajustasse ao tamanho do leito real, porque o homem médio não existe e o móvel do político-rei era de tamanho único, mas as pessoas são diferentes. Sendo o rei matemático, mandou medir a altura de todos os cidadãos e dividiu o resultado entre os cidadãos de sua cidade, assim obteve o tamanho do homem médio.
Na cidade havia pequenos, gente jovem, gente idosa, pigmeus, gigantes, porém o homem mediano não havia. E a cama do rei continuava matando o gordo, o magro, o baixo, o alto... O rei não tinha culpa nenhuma, ele tinha o maior prazer de receber as pessoas, elas eram culpadas, porque não cabiam na cama preciosa do rei. Tão hospitaleiro e tão bom! Ele tinha uma equipe de funcionários aptos para esticar o baixinho até caber na cama. Chegava morto, claro! Eram muito esforçados aqueles funcionários públicos, mas o homem era baixinho, a culpa era dele!
Que lição pode-se aprender! As políticas públicas existem, lindas, perfeitas, humanas, caríssimas, preciosas! Só que o cidadão não se ajusta a elas; eles não se encaixam nos hospitais abarrotados e com filas de espera, não se encaixam nas escolas sem professores, não se encaixam nas ruas infestadas de bandidos soltos, atirando pra todo lado, mas o rei tem o maior prazer de fazer o enterro do hóspede de graça - de graça não - toma o dinheiro do baixo, do gordo, do magro, do alto e o investe num cemitério pobre, cheio de mato, abandonado e triste, sem flores. O defunto foi culpado, porque não teve dinheiro para fazer um plano de saúde e um plano pós-vida. Que culpa tem o rei?
A educação, esta sim, é a verdadeira culpada! Por que não se educa para a competência de enxergar e distinguir políticas públicas de políticas privadas, mas, principalmente, aquelas que deveriam ir diretamente para as privadas públicas?
 

 

 


Anáguas, nunca mais...

Benedita Azevedo

Anáguas de morim
partidas de renda de algodão
bem engomadas.
Passadas a ferro
no ferro de carvão.
 
sobre anáguas de cetim
para proteger a pele
da goma passada a ferro
na anágua de morim.
 
Anáguas de cambraia
Para evitar que a goma
Da anágua de morim
Deforme o vestido de seda
E evite o farfalhar
Do vestido de tafetá.
 
Anáguas godê-em-forma
Para armar a saia
Do vestido de organdi
E mostrar a cintura fina
Da moça cheirando a jasmim.
 
Prefiro as calças compridas
E um blazer bem talhado;
A liberdade sem gomas
Ou anáguas.
 
Benedita Azevedo
Praia do Anil, Magé – RJ

 

 

 

Fim de tarde

 
Donzilia Martins
 

Recostada na cadeira fecho os olhos!
O mar de prata brilha, rebrilha
E traz até mim um perfume sonhador.
A brisa beija, acaricia, bafejando o meu rosto
Numa ternura eterna de um amante sedutor.
 
Ergue-me os cabelos, brinca com meus fios brancos
Em desalinho inebriante e descomposto, como o mar.
 
O mar! Fim de tarde! A cor da paleta multicor
Semeia na praia dourados pingos de luz e maresia.
A onda vai, vem, volta, some, foge e de novo em magia
Espraia, recomeça, indiferente à água que em tango dança.
E o meu olhar mergulha e jamais cansa.
 
Para esfriar o tempo, o banheiro embarca de prancha
 Agarrando o mar num frio abraço.
Para ele é vida, sal, sol, céu azul
Salpicando de chuva o dourado espaço.
 
Alguém o interpela:
Por que é que você vai à água?
Simpático e sonhador, sacudindo as gotas da pele bronzeada
Solta a voz do olhar num sorriso alongado pelo mar adentro.
- Venha também. Empresto-lhe a minha prancha…
A sedução! O grão de sol! A gota da vida que vale a pena agarrar
Neste fim de tarde à beira mar
E embrulhá-la na morna luz que dança.

 



TRADIÇÃO GAÚCHA

Ernesto Caruso


Cruz Alta
Essa querência que lembra Nosso Senhor
Empolgando essa gente
Que vibra canta e dança
As cantigas de antanhos.
 

Perpetuando tradições,
Ensinando à gente nova
O que fez quem já se foi.
Nossa História de luta,
De firmeza da fronteira,
Do espaço ocupado,
Da origem castrense,
Da fazenda de gado,
Do vigor na luta,
Contra bandeiras estranhas
Que aqui se quis fincar.
 
Canta gaúcho velho
Ensina ao gaúcho novo,
Como se fez a História
Deste imenso Brasil.
 
Lembra da nossa mistura
No cadinho do amor.
Cada raça participante
Foi apenas componente
Desta Nação resultante
Que nunca vão dividir.
                                              
Somos todos brasileiros.
Não interessa a origem.
Foi duro manter a unidade.
Ninguém vai destruir.

A nação é uma só
Com problemas pra uns e outros
Que vamos solucionar.
Nossa História é rica de exemplos.
Foi difícil construir.
                                              
Canta gaúcho velho
Ensina ao gaúcho novo
De bota, pala e bombacha,
De bomba, cuia e chimarrão.
Mostra pra toda essa gente
A grandeza do coração.

 


 

"Oração de Amor"

 
Evaldo da Veiga


Peço-te Deus, que não esqueçamos do quanto é bom
caminharmos juntos. Se eu sucumbir, entristeço você.
Mas nesta Oração em feitio de bate-papo, já que
falei de nós dois, quero falar dela também.
Meu mundo e o dela, o mundo de nós dois: você como testemunha,
observador, julgador e, acima de tudo, provedor.
Queira você, meu amado Deus, perdoar nossas falhas,
 desistências e, às vezes, a fuga empreendida de nós mesmo.
Mas fugindo do alongamento em respeito ao seu tempo,
em tantas vezes perdido em falsas juras e lamentos, exponho
 com brevidade e solicito providências: ela é minha vida e o meu sonho,
 minha alegria... Sei que eu e ela não vamos fugir,
não vamos sair da existência do outro.
Mas sei também que nem tudo depende de nós, a vida manda muito mais;
essa vida atende outros pedidos em usando o livre arbítrio concedido por você.
Sei ainda, que nem sempre essa vida, que no fundo,
 é comandada por todos, é mansa e suave, pacífica com a gente.
Até inexistindo má intenção, podem tirá-la de mim.
Mas até que separem nossos corpos, mas que jamais separem nossas almas,
onde está nossa verdadeira vida. E por derradeiro, meu Deus,
que jamais nos esqueçamos um do outro: eu dela,
 eu de você e você da gente.
Peço deferimento, só isso!
Até...


 

 


VOCÊ E EU
 
(Flor de Esperança)

 
Por esse bonito céu
Entre nuvens brancas voar
Envolvidos nas estrelas por um véu
Para além do mar
Te levo comigo amor meu
 
Coração te guardando
Meu corpo pelo seu aquecido
Momento único vivido
Almas nuas de amor flutuando
 
Seguimos no horizonte ao infinito
Sobre a luz prateada do luar
Emoções no ar a espalhar
Tomando conta do meu eu
Que é só seu


 



A DOR

 
Glória Marreiros


A dor é a magia em que me iludo,
no silêncio constante que me embala,
e minha alma leitosa como opala
reflecte no teu peito que desnudo.

A dor é uma rosa de veludo
na lapela do amor, em pompa e gala.
É noite de luar, que em nós exala
âmbar de coração inerte e mudo.

O medo de te amar é este pão
de angústia, que mitiga, que é bênção,
pouco importa a migalha ter bolor!...

Tu és uma alvorada que preciso,
um beijo bem maior que o paraíso,
que beija, sem beijar, a minha dor!

 


 

Antes que a noite chegue

Heralda Victor

 
Antes que a noite cale minha voz
Quero registrar meu verso adormecido,
Resgatar meu sentimento mais bonito
Amando e sendo amada outra vez.
 
Antes que a noite chegue a me chamar
Quero olhar os campos, o azul do céu, o mar,
Do pôr- do- sol em cálice recolher magia
Mesclar as cores numa flor que nasce
Deixar meu canto numa melodia.

Antes que a noite venha me solicitar
Quero fazer ciranda como em criança
Dar colo aos filhos que gerei
Deixando meu perfume de lembrança.
 
Antes que a noite venha e eu tenha que ir
Quero saber por quantas vezes fui amada,
Confessar ao pé do ouvido quanto amei
Ouvir que sou a eterna namorada.

Antes que a noite me convide a ir embora
No percurso da derradeira caminhada
Num tempo sem mensurar a hora.
Quero sentir o arrepio da madrugada.
 
Antes que noite me cubra com seu véu,
Quero explicar ao mundo porque vim
Sair desnuda gargalhando ao léu
Brindar em risos provocando o vento
Por meu estigma ter ficado em ti.
 
Antes que para sempre fique adormecida
Contudo sem ter perdido a esperança,
Contrita, num credo pedirei ainda:
Conceda-me, oh Deus! Um instante mais de vida
Quero ver o meu amor mesmo à distância.

 

 

CONTRA-SENSO


Humberto Rodrigues Neto

 
Quem dera, oh... Deus,  o ser humano fosse
mais fraternal e mais cristão, de sorte
que não herdasse o instinto de Mavorte,
contrário à vida, que é tão bela e doce!
 
Quanta alma pura fez de Ti o suporte,
e ao mal que nos judia contrapôs-se!
Quanta alma vil, de Ti distante, pôs-se
a criar engenhos de tortura e morte!
                                                                                           
 Estranha grei de gênios e estafermos,
num conúbio de crentes com pagãos,
eis o que é o homem nos exatos termos!
 
Sujeito a instintos nobres ou malsãos,
concebe a Ciência pra salvar enfermos
e inventa a Guerra pra matar os sãos!

 


 

Limpando a alma
 
Jandyra


Hoje não estou para ninguém...
Quero ficar com os meus pensamentos.
Sozinha... Pensar em tudo que fiz,
e que fizeram comigo.
Quero medir as palavras,
se é que isto é possível,
e fazer um balanço de minha vida.
Quero somar os prós e os contras.
Dividir minhas más ações em pedaços
tão pequenos, que sumam do meu pensamento.
Multiplicar o bem que fiz e fazer mais ainda
para minorar o sofrimento das pessoas
que realmente precisam de minha ajuda.
Não falo só no plano material, claro...
Tem pessoas que precisam mais de ajuda
no sentido pessoal. Uma ajuda em forma de carinho,
compreensão, um ombro amigo para desabafar.
Conselhos para resolver problemas insolúveis,
à primeira vista. Abrir uma porta para a solução
de um caso difícil, aos olhos de quem sofre.
Nós sempre podemos ajudar nosso semelhante.
O que falta é boa vontade, falta de tempo.
Primeiro queremos resolver os nossos problemas
para depois pensarmos nos outros...
Não pode ser assim. Temos que dividir o tempo
de uma maneira que haja hora para tudo.
Quero rever as pessoas que me fizeram o bem,
agradecer novamente, com um abraço cheio de ternura.
Reviver aqueles momentos tão bons em que me acolheram,
de uma maneira ou outra, num momento alegre
ou triste de minha vida. Nem sempre precisamos de auxílio,
somente em horas difíceis.
Àqueles que me fizeram mal, quero rever também.
Não para repudiar ou fazer pouco, mas, para dar o meu perdão...
Nem todos estão vivos, eu sei.
Àqueles com quem eu não puder falar, pedirei a Deus,
em forma de orações, que o faça por mim.
Ele saberá transmitir meu perdão
a todos que me maltrataram, caluniaram, desrespeitaram,
numa atitude tão vil que só agora posso perdoar.
Quero ficar com a alma limpa... O coração em festa,
sem guardar rancor nem amarguras
que prejudiquem o meu viver.
É como se Deus me abrisse o peito e tirasse de lá
tudo de negativo que exista.
Eu serei mais feliz e as pessoas também...
Em meu coração, em meu pensamento,
só haverá lugar para os bons...
Assim como você...

 

 

 


COMPROMISSO DE CRONISTA-POETA

 
José Wagner de Paiva Queiroz Lima


Sou Cronista-Poeta de tudo aquilo que a Vida nos proporciona de belo, digno, justo, nobre e encantador...
Sou o Cronista-Poeta do sonhos acalentados, dos desejos realizados, das utopias que trazemos conosco, de tudo aquilo que engrandece o Homem e a Humanidade...
Sou o Cronista-Poeta dessas cenas do cotidiano que encantam a alma e elevam o espírito da gente, tornando-nos muito mais felizes e dando à Vida significados mais profundos e nobres...
Sou o Cronista-Poeta dos Pais e Mães que amorosa e responsavelmente cuidam de seus filhos, encaminhando e acompanhando o seu processo de crescimento e aprendizagem na Vida...
Sou o Cronista-Poeta da criança espontânea, criativa, que se encanta com suas aprendizagens cotidianas e busca respostas para suas indagações de curiosidade e descobertas na Vida...
 

 

 


Das almas em solidão

Lígia Antunes Leivas

        
A noite se arrasta.
Ventos proferem sons fortes.
Atentas a todos os ruídos,
mãos estrangulam a inocência
(cada instante tem a cor da morte
e as palavras chegam transbordantes de silêncios...)
já nem sabemos mais o tom do céu
mesmo se o sol está lá fora...)
Sombras sobre sombras... Um frio enigma...
Ainda busco a palavra gêmea da alma
mas resta apenas solidão
neste silêncio tão sobre si.
 

 



NU...ÂNSIAS

Luiz Poeta

Luiz Gilberto de Barros - Rio de Janeiro  - Brasil - especialmente para o Recanto da Prosa ou Verso do Portal CEN

 
Teu corpo pinta o meu com tua pele,
Formamos uma tela em nosso leito
E na pintura a mão que nos impele
O toque é o semitom de um  tom perfeito.
 
Morena... as nuances que tu pintas
Misturam-se na tinta dos desejos
Eu pinto o teu amor para que sintas
A tinta do pincel que há nos meus beijos.
 
Misturo-me nos teus  recipientes
Que têm todas as cores do arco-íris;
Eu sinto esse esplendor que também sentes,
Quando o prazer te instiga a prosseguires.
 
Tu pintas minha pele, eu pinto a tua;
Desenho a luz da lua no teu ventre;
E quando estás completamente nua,
Tu pedes que em teu corpo eu me concentre.
 
No êxtase das formas caricatas
Do sonho diluído no prazer,
Pintamo-nos de cores abstratas
Que nem a dor consegue dissolver.

 

 

 

 

Somente ao Poeta ...


Maria Thereza Neves
 

Basta um fluxo,um ritmo de emoções
As folhas, as imagens fluindo em asas
Descobertas nos ventos, nos corações
No solidário espaço, âmagos das almas...

Basta desafios dos muros, gritos explosivos,
O ardor carregado, na versão descontrolada
Onde tudo continua, termina e recomeça vivos
Em mil navios, ancoras pela mão alcançada...

Basta uma voz, uma melodia, sentimentos ,
Das noites conflitantes e os dizeres gravados,
Nos versos que são espalhados no universo.

E basta saber-se nu diante do tempo, da hora
Acertada para a volta, ser a revolta da maré,
Ser o barro, a certeza da vida a fervilhar de pé.

 

 

 

bate a chuva

Marta Peres

a chuva mansa bateu
cedo na minha janela,
ela veio me encantar
trazendo pingos para meu olhar...

sua cantiga nem sempre é igual,
canta a chuva lá no meu quintal
e com música peculiar
mais parece cantiga de ninar...

da vidraça vejo lágrimas escorrer
são gotas que brilham
no verde do teu olhar...

e a chuva lava os telheiros
e lava as ruas e avenidas,
a chuva lava a alma
limpando sua ferida...

bate chuva, bate no meu quintal
limpa tudo direitinho
molha flores, árvores e jardins
molha minha tristeza
levando embora de mim...
 

 

 

Uma Nave Perdida

Pinhal Dias
(Sátira - Puzzle Virtual)


 Uma Nave que se julgava Perdida aos olhos humanos, nessa hora confundida e que aterrou em solo português, no Verão de 2009. Nessa hora chegou por perto uma presumível jornalista, a mesma se identificou junto de um dos elementos dessa «Nave»; a jornalista em questão deduziu à priori que estava na presença de extra-terrestres, uma engenharia ancestral e  imperfeita à semelhança de um australopiteco lunar…
Um deles ao sair da «Nave» por malandrice tropeçou na jornalista e logo tombou no chão…por ela foi agarrado e açoitado, com o vocabulário adequado…minutos depois se fez bonança.
 
- O que veio fazer a esta Terra?
- Como vê baixei de esfera, onde ocupava, graus académicos planetários no regime “FreeportNave” … Estou aqui por missão secreta resgatar esse verdadeiro “Pinóquio” que se encontra aqui instalado e de passagem por este Planeta Terra.
- Acha que o consegue levar à certa? Se o vir reconhece?
- Sim! Penso e julgo que o vou reconhecer pelo nariz…
- E o que pretende fazer dele?
- Eu apenas fui comissionado a levá-lo até à Galáxia da Esfera Suprema dos Extra-Terrestres e pelo que sei nesse dia ele será condecorado com a sota de paus…
- Com a sota de paus!?  Hum… Esquisito… Que Lei é essa?
- É a lei da provação - «Pinóquio» será posto à prova, com o fogo eterno, caso resista então será condecorado como Padroeiro da Sueca, por um tratado que lhe assiste com a carta «sota de paus» jogo que entretém os embrulhos de mentes perdidas… O tempo não volta atrás … O oxigénio escassa e as queimadas aqui neste planeta são um autêntico inferno e a minha Galáxia não suporta estes gases que se acomodam lá encima…  
- Tem forma de o procurar?
- Claro que sim! Eu sou portador das coordenadas televisivas…
- Tome cuidado com essas frequências – Sabe que hoje é sexta-feira e terá uma informação nula…
- Sei sim, mas para nós faz mais sentido a captura enquanto dormem…
- E quando chegam acordar essa matéria (corpo) ficou para trás. Por isso vocês terrestres distam de nós com muitos anos de luz…
- Talvez sim!? Talvez não!? Então façam lá a vossa justiça porque a nossa já pifou…
 

 

 

   ... E SE EU GOSTAR, JÁ BASTA


Raymundo de Salles Brasil
 

Já não escrevo mais com lápis ou caneta,
Nem me debruço assim sobre o papel pautado,
E pra mim tanto faz se a tinta é verde ou preta,
Só não posso ficar com meu “PC” quebrado.
 
Estou ficando velho, mas não sou “careta”,
Não quero ver meu tênis, já, dependurado
Porque sei que me resta ainda outra faceta,
Ou talvez algum dom ainda inexplorado.
 
Os neurônios, eu sei, não estão com tanto fogo,
Mas eu os exercito, e peço mais um jogo,
O último talvez ao que minha fé me arrasta.
 
Não me deixem na mão agora no finzinho,
Quero fazer ainda um verso bonitinho.
Que ninguém goste até. Que eu goste. Isso me basta.


 

 

 

MAGIA


Regina Bertoccelli


Quando tudo virou poesia,
meu coração se encantou.
Não me contive de alegria,
até a inspiração voltou.

O amor em mim renasceu,
foi embora a melancolia.
Quando tudo virou poesia,
meu coração se encantou.

É uma euforia que contagia,
minh'alma a paz encontrou.
Vou viver esta doce magia,
em mim a tristeza acabou.
Quando tudo virou poesia...

 

 

O Nada... O Vazio... A Dor


Roze Alves

 
Um Nada, é como me sinto
O Vazio, é onde me encontro
A Dor, resultado de um suicídio
 
Nosso amor virou um Nada
Saltou no abismo do Vazio
A Dor ficou, velando o morto
 
Lágrimas rolam, a banda passa.
 
O que eras tu? Maquiavélico?
Amanhecer-M

 


 

 

QUE AMOR É ESSE, MEU DEUS? - Sá de Freitas

(À minha esposa) 


Conduz-me  esse "querer-te” ao desatino
 Que eu, de amor morrer, capaz seria,
Pois sem te amar jamais eu sentiria,
Meu coração nesse pulsar divino.

É algo assim tão lindo quanto um hino,
Que se transforma em branda sinfonia,
No Templo da minh'alma, em sintonia
Com o som de uma paixão que não defino. 

Velho amor, lindo amor, grandioso e ardente,
 Que só nós ler podemos, no romance
Que o passado escreveu para o Presente.
 
E se amanhã no mundo, (ao retornar-me)
Eu não tiver, de amar-te, qualquer chance,
Que então me aborte o ventre que gerar-me.
Samuel Freitas de Oliveira

 


 


 

ACRÓSTICO da CORRUPÇÃO
 
Sueli Bittencourt
 
C orrupção é causa de imensos males!
O riunda do egoísmo e da ganância,
R evolta, prejudica, contamina...
R esultando em violência e desordem...
U rge rigorosas providências!
P unição severa, máxima punição!
C ausas? Afastá-las urgentemente,
A liviando males que afligem o povo,
O casionando ordem e progresso à nação!

 



 


O Trem da Poesia de Tchello d'Barros

 

“Não há trem que eu não tomaria, não importa o lugar para onde vá.”
Edna St. Vincent Milay


Aí estamos nós, artistas de Blumenau, amantes da poesia, em plena praça do Biergartem, posando nesta foto para uma reportagem do Jornal de Santa Catarina, que contaria sobre nossa participação em uma edição no Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves. Creio que seja 1.996 d. C., ano da graça de Nosso Senhor. A participação dos catarinenses deveu-se ao ator Antônio Leopolski, que era professor do NuTE – Núcleo de Teatro e Escola, no Teatro Carlos Gomes. Conheci-o quando interpretou alguns personagens na peça shakespeareana Macbeth, dirigida numa versão vanguardista e experimental pelo Alexandre Venera dos Santos.
Leopolski era também adepto do Teatro de Bonecos, e com seu Bando Neon, apresentava-se em diversos circuitos culturais com suas performances e intervenções. Para esse congresso convidou vários teatreiros para interpretar e declamar poemas de autores da cidade na programação daquela semana poética que ocorreria na serra gaúcha. Participaram ainda a cantora Nana Toledo e seu violão mágico, o artista visual Tadeu Bittencourt, com seus slides do projeto Projetando Poesia, a pintura performática do Alex também se fez presente, o jovem diretor de teatro Sílvio da Luz e ainda o poeta Marcelo Steil, que participaria declamando seus poemas. Este relator foi convidado também, para declamar poemas próprios e para realizar naquela cidade uma nova versão do Bombardeio Poético, intervenção urbana que realizei em Blumenau no dia do cinqüentenário das bombas atômicas. A ação constituiu-se em decolar num teco-teco no aeroporto Quero-quero - no caso, o mesmo monomotor do qual eu saltava de pára-quedas com o pessoal do Clube de Paraquedismo Vento Sul – e sobrevoar a cidade, despejando aviõezinhos de papel com meus poemas impressos. Para esta ação, convidei os poetas Dênnis Radünz e Marcelo Steil, que com seus respectivos poemas, ajudaram-me a bombardear Blumenau.
Depois de uma reunião com o poeta Lindolf Bell, que nos deu uma cópia do poema A Geração das Crianças Traídas, o qual lemos no evento posteriormente, lá se foi a animada trupe poética em direção ao Rio Grande do Sul, em ônibus “de linha” convencional, passando por Lages e depois trocando de carro em Caxias do Sul. Lá pelas sete da matina, chegávamos na rodoviária de Bento Gonçalves, onde para nossa surpresa, fomos recebidos pelo poeta Pedro Fontoura, declamador de poesia gauchesca, sendo que já foi nos saudando com uns versos improvisados e umas cuias quentes do mais tradicional chimarrão, antes de nos encaminhar ao alojamento.
Foi uma ótima semana de atividades literárias e artísticas, com vasta programação cultural, onde todos participamos com muitas declamações, leituras e performances nos vários espaços onde se realizavam os eventos, especialmente nas escolas e espaços culturais. É claro que “os catarinas”, como os gaudérios nos chamavam, fizeram bonito, participaram com entusiasmo das atividades e representaram muito bem nosso Estado barriga-verde. O evento era também um festival de sotaques, pois estavam lá poetas de diversos Estados e alguns de outros países, como França, Itália, Portugal, Cuba, Argentina e Uruguai. Como na época eu já expunha em Blumenau uma parte de minha incipiente produção em Poesia Visual, foi para mim uma alegria conhecer no evento dois ícones dessa modalidade de expressão poética experimental, o uruguaio Clemente Padin e o português Fernando Aguiar, com os quais mantenho correspondência até hoje. E por falar em Poesia Visual, não poderia faltar por lá o maior conhecedor do assunto no Brasil, o mineiro Hugo Pontes, que na ocasião realizava a curadoria de uma mostra internacional de poemas visuais. Lá eu conheceria ainda o escritor viajante Aírton Ortiz, que escreve livros com relatos de suas aventuras mundo afora. É o autor de Passagem para a índia, onde relata suas aventuras pelo país de Gandhi, viajando exclusivamente em trens.
Tudo corria muito bem, quando na sexta-feira, penúltimo dia, o poeta Ademir Bacca, coordenador do congresso, me disse que seria impossível realizar o Bombardeio Poético na manhã seguinte, como estava previsto, pois os técnicos do aeroporto da região informaram que um fenômeno climático caracterizado por nuvens baixas impediria que o avião fizesse o percurso combinado. Normalmente uma notícia dessas nos deixaria de baixo-astral, no entanto, depois de uma semanada de poesia, de confraternização com poetas dos mais variados naipes, de autênticas vivências culturais, nada poderia abalar a moral. Mas o fato é que lá estava eu com um saco repleto de poemas impressos. Sim, a poesia às vezes enche o saco! O fato é que na manhã seguinte, em pleno sábado, com a cidade movimentada, com eventos cívicos na praça da prefeitura, o Tadeu Bittencourt e eu fomos escalados para dar uma entrevista numa rádio, na rua central, sendo que o estúdio ficava no último andar do prédio. Entrevista dada, contamos depois aos radialistas que naquele horário deveria estar acontecendo o tal bombardeio, quando o Tadeu, com sua experiência de marinheiro, percebeu na janela que a direção do vento dava para a praça da prefeitura onde aconteciam os desfiles e havia uma multidão na rua. Então o pessoal da rádio liberou para que fôssemos ao teto do prédio e de lá fomos soltando os poemas, que ao sabor do minuano, chegavam até o povo na rua central. De início pensavam tratar-se de panfletos políticos, no entanto, ato seguinte havia mesmo uns grupos que disputavam os poemas que lhes vinham chegando pelo ar.
Bem, essa intervenção não foi assim aquele bombardeio todo, como previsto no projeto original, entretanto, de uma maneira improvisada e meio que subversiva até, fizemos com que a poesia chegasse até as pessoas. A atividade causou um certo burburinho, o que chamou a atenção de uma equipe da TV Futura que estava na cidade, e por conta disso acabei sendo convidado para a gravação de uma matéria onde três poetas brasileiros e três estranjeiros fariam declamações de poemas aos passageiros do trem Maria Fumaça, um dos mais tradicionais passeios turísticos de Bento Gonçalves. Como ainda havia muitos poemas impressos, tratei de levá-los também, e assim que a Maria Fumaça se pôs em marcha, tratamos de invadir cada vagão, onde cada um dos cerca de quatrocentos turistas recebeu em mãos um poema de meu livro Olho Nu ou do recém lançado Palavrório. Como nesse trajeto estavam programadas algumas atrações da cultura gauchesca dentro dos vagões, os passageiros pensavam que os tais poemas estavam inseridos nessa programação, onde acabei fazendo papel de gaúcho, sem querer, um gaudério de araque, sem sotaque nem bombacha, ainda que neto do maestro gaúcho Frederico Klein. De qualquer forma, a panfletagem literária serviu de preparação para o que viria a seguir. O grupo entrava em cada vagão e após uma breve apresentação iniciava-se um sarau de poesia, onde os poetasse revezavam nas declamações. Ao final de cada vagão, nos despedia-mos sob aplausos acalorados e muitos agradecimentos.
Ao final de nossas tertúlias improvisadas, depois de gravações e entrevistas, ficamos no último vagão, em assentos reservados para nós e seguimos viagem, agora na condição de passageiros normais, digamos assim, no famoso Trem do Vinho, como também é conhecido. Nos vinte e três km do trajeto, passamos por diversas estações, que eram paradas estratégicas, onde os passageiros desciam para degustar produtos da culinária regional como queijos e salames, sempre bebericando vinhos e espumantes. Interessante que à cada estação o povo estava mais alegre! Numa delas houve apresentação de um grupo de jovens senhoritas, com trajes típicos italianos, que dançaram uma coreografia da cultura de seus antepassados colonizadores, uma simpática forma de preservar as tradições locais, assim como existem os grupos folclóricos alemães, em Blumenau. Noutra estação, entre um e outro copo de cabernet, descobrimos uma fonte dos desejos, dessas em que se faz um pedido e, à maneira da Fontana Di Trevi, em Roma, joga-se por sobre o ombro uma moeda. Voltar ali foi o desejo pedido, que num futuro não muito distante, foi plenamente atendido. E seguimos viagem, passando pelos arredores das cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi, apreciando as belezas dos pampas, com seus verdes cor de erva-mate, capões e pradarias do Vale dos Vinhedos, como é conhecida a região.
Mas as apresentações culturais não aconteciam apenas nas estações. Dentro dos vagões, em pleno movimento, a cada rodada de vinho, diversos artistas apresentavam-se. Havia desde músicos apresentando a típica canção nativista até poetas declamadores dali da região, que improvisavam no ato suas sextilhas rimadas, semelhantes aos repentistas nordestinos. Havia também um esquete com teatro de comédia e mais tarde um grupo de dança de Tarantela, onde os dançarinos após uma demonstração, convidavam os passageiros para dançar com eles. A moça que me tirou para dançar era tão linda, mas tão linda, que cheguei a pensar mais tarde que fosse a Giselle Bündchen antes de ficar famosa. Depois descobri que a ubermodel vivia em outra cidade.
Agora degustando uma taça de chardonnay, contemplava o céu azul daquelas querências, no agradável e leve sacolejo ritmado da Maria Fumaça. Estava nesses devaneios quando lembrei que não cheguei a viajar no trem de Blumenau. Mas não era exatamente a primeira vez que andava de trem, quando criancinha teria viajado no trajeto de Piratuba à Marcelino Ramos, percurso que hoje também existe nos mesmos moldes turísticos do trem em que me encontrava. E também havia percorrido pequenos trechos nos arredores de Lages, numa locomotiva da RFFSA, um trem militar do 1º Batalhão Ferroviário de Engenharia Militar, onde prestei o serviço militar na condição de voluntário. E o que o soldado 884 do sexto pelotão estava fazendo ali? Ora, descarregando os vagões com as sacas de cimento, onde cada uma pesava cinquenta quilos! Bah, prefiro o romantismo do trem da serra gaúcha, tchê!
Enfim, a última parada foi na fábrica Tramontina, onde os turistas desceram para visitar o show-room da tradicional empresa. Optei por ficar no vagão, curtindo os efeitos da equação poético-etílica, quando para minha surpresa, as moçoilas da apresentação de dança, pensando não haver ninguém nos vagões, e foram para o outro lado do trem, e com seus vestidos de trajes típicos, na maior farra, dançavam um animado Can-can! Mais tarde lembraria com nostalgia dessa Maria Fumaça. Foi no trajeto do Canal da Mancha, a bordo do ultra moderno Eurostar, onde sob uma velocidade de 150 km/h em poucas horas se faz o trajeto Londres-Paris. Na ocasião, uma funcionária tentava me vender um suco de laranja no vagão claustrofóbico, abaixo do nível do mar. Naquele momento trocaria toda aquela modernidade européia pelo romantismo nostálgico, o bom vinho, os poetas e o sorriso de uma musa naquele dia distante, no trem da poesia.
 


 

 


 
 

Arte final topo da página criada por Iara Melo

Fundo Musical: Catedral

Compositor: Tanika Tikaram

Versão: Christiaan Oyens/Zélia Duncan

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 

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