Ano III - Junho - 2010

Participação de Diversos Autores

do Portal CEN

 

 

 
 
 
Alice Tomé
VENCER...
Lusa-Selecção é engenho e arte...

Portugal..., Lusa-Selecção
Na África do Sul ancorou
Todos juntos numa só mão
Registado assim ficou
...
Ergue-se a Lusa bandeira
Soam vozes e tambores
Abram-se as fileiras
Para a Selecção..., lusos jogadores
...
Delírio nas bancadas
Entra a Lusa-Selecção...
Entre ventos e cantatas
Ouve-se um trovão!
...
Quero vontade erguida
Grita o capitão
Memória Lusa vivida
Jamais a esquecerão
...
No livro de viagem
Em pedra irei gravar
Vossos nomes, vossa coragem
Vossa história irei contar
...
O povo Luso registou
Nos Anais da sua memória
Lusa-Selecção sempre lutou
Pelo lema da Vitória
...
Quantas lendas, quantas dores
Correm neste Mundial?!
Selecção Nacional carrega Amores
E, Saudades de Portugal
...
Vontade Lusa é baluarte
Deste povo de bem-querer
Lusa-Selecção é engenho e arte
Com vontade de VENCER...

© Alice Tomé, 19jun2010, Professora Universitária, Socióloga e Educóloga, ensaísta, e... Poema dedicado à Lusa-Selecção - Versus Selecção Nacional - com votos de Felicidades, sempre, Lisboa, Portugal . 
 
 
 
 
 
 
 
COPA 2010 BRASIL!!!

Efigênia Coutinho  

Nasci nos verdes campos deste Brasil
Essa é minha Pátria mais querida
A onde o céu é sempre mais azul
Tendo o ar puro muito mais vida!

Entre tropeços na bola e desencontro
Aproei, torcendo ao rumo da Vitória
Gritei, alto por todos os cantos.
Até escutar  GOL,  sabor da gloria!

Mais alto falou todo o coração
O sonho vai chegando mais perto
Vamos viver sim, muita emoção
Até ao fim desta Copa 2010 ...

Balneário Camboriú
15 de junho 2010

 

 

 
DOCE MEL
 
Alba Albarello

Linda abelha!
O mel que produzes
é o sopro da vida,
beliscando
as belas flores
de pequenos e
imensos jardins.
Não fazes diferença...
As resinas,
das árvores visitadas,
os frutos preciosos,
as sementes dos girassóis,
são o fino conteúdo de tua essência.
O encanto em suas finas flores,
formando
teus belos favos,
em tuas colméias.
Com rapidez, Paciência...Ternura...
Nos dão a doçura que contém a vida.
Do néctar das flores.
enfrentas, sem olhas,
solo, clima e temperatura.
Todas as espécies da natureza,
mantém o teu equilíbrio na defesa da vida.
 
 
 
 
 

 

TE AMAR!

Ana Paula Costa Brasil

Não posso andar sem parar.
Parar e voltar...
Chegar sem ter onde ficar,
voltar a andar
e ir sem querer voltar;
ir sem querer chegar
e ir sem ter porquê voltar;
ir sem saber como chegar;
chegar sem saber como devo voltar,
mas não consigo ir e voltar;
voltar não dá mais.
Nunca deixarei de ir para esse lugar,
de onde nunca pude deixar de amar.
Sem nunca ter de ir,
sem nunca ter de voltar;
canso-me de tanto ir e voltar;
voltar sem pode um dia chegar
a esse lugar para poder te amar.
Te amar sem voltar,
Te amar sem ir
e poder ficar para sempre te amar,
te amar como agora, mas sem parar,
sem parar de ir e de voltar.

 

 

VEM COMIGO

Aparecido Donizetti Hernandez 
 
Pegue em  minhas mãos,
Feche os olhos, venha comigo...
Para juntos vermos as nebulosas em Alpha Centauro,
Juntos ver as nebulosas! As estrelas nascerem!
Venha comigo aos confins do universo ver as estrelas...
E as que morreram...

Estrelas que não mais existem continuam a irradiar seu brilho no céu...
Irradiando sua luz no universo à velocidade da luz,
Seu esplendor continua a irradiar a luz
Mesmo que se foram há muito tempo
Mantêm sua luz nos céus.
 
Pegue em minhas mãos,
Venha comigo ver a escuridão...
Escuridão que o brilho de seus olhos ofuscam...
Seus olhos criam a claridade, a claridade da esperança de te ver.
Olhos verdes que refletem as estrelas na escuridão dos céus.
Dê-me as mãos, vem comigo, não me deixe na escuridão...
Escuridão de te amar e querer te ter - e não te ter -
Vem comigo... Não me deixe a escuridão;
Escuridão de minha solidão!

 

 

Eu queria...

Carla Alexandra Ezarqui

Eu queria sentir o sabor das palavras
doces
que saem do teu pensamento
através da caneta pelo tato da tua
imaginação
sobre o papel que sente junto de ti
desde a mais intensa alegria
à tristeza mais sofrível.
Sinto cheiro de felicidade
ao abrir com o meu coração
a carta que com sua mudez
vem contar-me todos os teus desejos
onde o segredo torna-se público
a todos os sentidos do meu corpo.
Fragrâncias e sabores entram em
sintonia
ao revelarmos a nossa real beleza
que se intensifica na mistura do tato
na união de ambas sensibilidades
à procura de uma satisfação
inexistente.
Eu queria sentir o que não se percebe!

 

 

 

 
Falar com o Eco

Carmen Lucia da Silva Cardoso

Falar com o vácuo
vazio, solitário.
falar sem palavras,
falar com incógnitas,
falar para o triste,
para o distante.
Instante que olho sem ver
o olhar que lanço,
que com dedos danço,
transfiguro, figuro,
em figuras, que não vejo,
imagino, idealizo,
não sinto, pressinto.
Seres solitários,
ausentes, carentes,
fracos, covardes,
misto de letras,
digitando sonhos,
que criam, recriam,
idealizam, desfazem,
porque não fazem,
não procuram,
não querem,
não mostram.
E a sós, calam-se.
 
 
 

 

O samba nas festas juninas

Cida Micossi
 
Da minha infância no interior
Lembro de tudo com muito amor
Entre outras coisas, está viva ainda
A doce lembrança das festas juninas.
Fazia frio, caía geada,
Mas mesmo assim toda a garotada
Ficava em volta da grande fogueira
Ouvindo o samba.
Que gente festeira!
 

O negro Caetano e a esposa Margarida, bela africana, saia longa colorida, colares e brincos de argola dourados todos os anos vinham de São Paulo para as festas juninas em Descalvado.
Eram aguardados por toda sua família: gente pobre demais, que mantinha no sangue e na alma a dolência da saudade e os hábitos oriundos de África. E que mesmo com poucas e desconfortáveis acomodações, tinham um lugar para os que vinham de fora. Estes, chegavam ao meio dia e vinte e oito, pontualidade invejável do trem da Cia. Paulista.
 
Quem também ficava feliz com a vinda deles era meu pai, pequeno comerciante, que venderia uma boa quantidade de mercadorias a essa gente unida em torno de seus respeitáveis e queridos entes. Sentia-se honrado em receber em seu modesto estabelecimento tão notáveis visitas.
À noite, vésperas de São João e São Pedro, Caetano tocava seu tambor em torno da fogueira enquanto sua esposa sambava embalada pelo canto-lamento e pelo calor do fogo que crepitava até o raiar do dia. Crepitar esse que devia arder nas entranhas, tamanha a saudade, a nostalgia da terra de seus antepassados. Crepitar que também remetia ao estalar do chicote na negra pele de seus irmãos, tão dura e curtida como o couro que recobria os tambores.
 
E de nossa cama, minha mãe e eu, 
Em meio ao frio, sob os cobertores
Ouvíamos o rufar dos velhos tambores.
O samba dolente remetia a saudade
Da velha África, dessa gente sofrida
E ouvia-se o triste canto, como um desabafo:
“Tatu cavucô, cavucô, chegou na arvi e parô”
 
E rodavam as saias aquelas negras, num ritual religioso que mantinham havia décadas e que nós, simpatizantes, respeitávamos e incorporamos como cultura.
Hoje, na cidade grande, na solidão de meu quarto com a tarefa de escrever sobre festas juninas, não poderia jamais deixar de reverenciar essa família tão unida em torno de seus ancestrais e de sua cultura.
Seu Caetano e família, Seu João Inácio e família, vocês não estão mais fisicamente entre nós, mas a lembrança e a saudade, essas, não partirão de nossas recordações e, enquanto viva for, os reverenciarei com o devido respeito e admiração de que foram dignos.  
 
Cida Micossi, Santos, 09/06/2010
 

 

 

 
INSTANTES

(Diana Camargo)
 
Existe um tempo,
Pequeno momento,
Apenas instante,
Na vida da gente.
 
Num desses instantes,
Olhares se encantam,
Mãos que se tocam
Lábios se encontram.
 
Num outro instante
de glória pra alguém,
um ser se completa,
É uma vida que vem...
 
E esse momento,
Pequeno instante,
Na vida da gente
Se faz delirante.
 
Existe o momento
da grande vitória,
Superados os limites,
Entramos na história.
 
Num outro momento
Um tanto sentido,
Um grito, um gemido
e uma vida se vai...
 
Assim, a cada momento,
Pequenos instantes,
Traçamos caminhos
Seguindo adiante...
 
E vamos vivendo
A vida da gente.
 
 
 
 
 
 
MILÚ NINFA  DO MEU RIO
 
 Eduardo de Almeida Farias
 

     Começo por avisar aos bisbilhoteiros de plantão que, não adianta procurarem em compêndios de mitologia porque não vão encontrar  a citação ao nome da ninfa Milu, pois tal deusa é pertença de águas de certo e recôndito rio não conhecido por nenhum antigo grego, e por Milú ter vivido, ou ainda viverá? em tempos bem mais modernos e por tanto não pertencido às calendas gregas. 
     Pois a Milú era uma bela menina lisboeta, simples mortal de carne e osso como qualquer outra moçoila lá da minha aldeia. Mas devido a milagres que só no meu rio Agadão costumavam acontecer, essa sílfide filha de mãe daquelas terras serranas, certo verão acompanhou sua mamã em férias a tão recônditos lugares. Com certeza já devidamente informada que, nesta terra havia um belo rio de águas límpidas que convidavam ao banho nos dias de verão, trouxe em sua bagagem um belo e luzidio maiô preto.  Até aí nada de extraordinário, apesar que nos dias de hoje é peça que se vai tornando rara, substituído em sua grande maioria por outra peça ou outras peças bem mais diminutas a que chamam de  biquíni, quando não de fio-dental. Pois o tal maiô ou fato de banho era peça pouco conhecida por aqueles imberbes rapazolas, e as meninas suas contemporâneas dispensavam seu uso, por ali tudo era mais natural. 
     Peça normal para as pessoas da cidade, ou de lugares mais próximos ao litoral,  mas não para aquelas gentes de distantes aldeias, que em sua maioria jamais teriam visto o mar  e, as que tinham tido essa ventura, ou desventura, pois, a tal ida até à praia mais próxima demandava alguns sacrifícios, pela lonjura e os minguados transportes naquele tempo. Os que tal aventura faziam era por recomendação médica  para tratamentos reumáticos e outros problemas de saúde. E a parte que era exposta do corpo das mulheres, era as pernas, pouco mais que acima dos tornozelos, quando muito até ao joelho,  facto que causava grande frustração nos homens, que torciam por uma lufada de vento que alevantasse a saia até às coxas, especialmente das  jovens e das mais bonitas.
     As raparigas e mães de família lá da terra costumavam banhar-se no rio, ao começo da noite, cuja única luz era o luar e, assim, fugirem ao olhares indiscretos de matutos de plantão, prontos a flagrar alguma visão curvilínea que os levasse ao paraíso,  tão zelosamente guardado por aqueles anjos, ainda que, nem sempre tão angelicais assim.  
     Certa tarde de domingo quando toda a canalha miúda e, não só, se esbaldava nas águas do poço da Várzea, que era a parte mais funda do rio, aparece a Milú que, após retirar sua roupa sobreposta ao maiô, deixava seu corpo bem torneado digna da mais bela ninfa, cantada em prosa e em verso por poetas sonhadores. Suas belas e brancas coxas mais se destacavam da cor preta e luzidia daquela peça de roupa tão sumária, deixando toda aquela turma estupefata e babando, por tão doce  e inusitada visão. Aos poucos foram cercando aquela “estrangeira”, pensando tratar-se de alguma deusa que, daquelas águas assim como num milagre, tivesse surgido e, num átimo tomado a forma humana, para deleite e encantamento de todos aqueles felizardos babacas de ocasião.        
     É bem certo o ditado: o fruto proibido, neste caso escondido, é sempre o mais apetecido. Quem hoje se importaria com as belas pernas de alguma Milú, de seios e de quase todo o corpo impudente expostos aos olhares indiscretos, não só na praia como na cidade? Pois o que antes era mistério, deixou de o ser, por isso perdeu a graça. A mulher deixou de ser musa, à medida que ficou desnuda. É apenas mulher, e sem o poder de despertar até  mesmo os sonhos eróticos, pois incorporou apenas a plástica, a estética, sem mais se preocupar com aquela beleza que às vezes os olhos não veem mas o coração sente. Não, não senhor, nem sempre o modernismo é o melhor. O homem precisa do mistério para poder sonhar, ainda que o sonho se desfaça logo ali ao dobrar da esquina da fantasia.
Felizes eram os gregos com seus deuses, suas musas e suas ninfas, porque assim podiam construir mitologias, reinos de utopias, sonhar, sonhar, enfim... 
 
 
 

 

VAZIO

Eliane Arruda - CE

Um coração conhece a incerteza,
quando  alguém  não quer mais escutá-lo,
fica sozinho, sem tons de beleza...
Dessa  tristeza quem irá tirá-lo?
 
Por tudo isso, vira um perdedor,
um pobre órfão, um coração descrente...
Pensava tanto em verdadeiro amor,
 o desencanto lhe tomou a frente!
 
A esperança não mais voejando,
no céu do amor, inexiste promessa
de barcos sobre as águas navegando.
 
Reina o vazio com indevida cor,
 e nada é belo, não adiantam preces,
restam lembranças, mas de um riso torpe.
 
 

 

 

Promessa
 
Heralda Víctor
 
Se acaso...
Não chegares, entenderei.
Se não voltares, aceitarei.
Depois da noite surge novo dia
Guardarei a rosa que colhi.
 
Entanto...
Se te encontrar vestido para o amor
Acolherei teu riso com cravo e jasmim.
 
Cantarolando nossa melodia
Prepararei para o jantar
Um manjar de iguarias,
Vinho e velas para celebrar.
 
Com alegria...
Perfumarei lençóis, vestirei cetim,
Acenderei incenso, usarei batom...
 
Aguardarei...
Na calada da noite silenciosamente
No apagar das luzes serás feliz, prometo...
 

 

 

MANTA DE RETALHOS...


Ilda Maria Costa Brasil

Cresci em quintais amplos
e em verdes campos,
tomando banho de chuva
e brincando na lama.
Meus brinquedos, na maioria,
eram improvisados.
Tais combinações,
na maioria das vezes, ficavam
belíssimas e artísticas;
noutras, travessas e perigosas.
Todas reproduziam um pouco
do meu estado de espírito
e assemelhavam-se
a uma imensa manta de retalhos;
retalhos coloridos e acinzentados.
Para unir as partes,
usei de emoções;
ora fortes e tristes,
ora suaves e delicadas.
Entre lágrimas e risos,
com gestos mecânicos e conscientes,
juntei pedaços
de minha doce infância.
No rosto e no coração,
um olhar maroto e muito afeto,
ao relembrar,
tão agradáveis momentos,
em que uni, com felicidade
e encantamento,
caminhos de minha vida,
dando-lhe um toque especial.
 
 
 
 
 
 
Ante os que partiram

Ilze Soares


É muito, muito difícil dizer adeus a um ente querido que parte antes de nós!
Já me despedi de tantos, que sei mensurar bem essa dor. Hoje, comecei a inverter os lugares... E se fosse eu que tivesse partido antes? Como seria essa minha viagem rumo ao desconhecido, deixando aqui todos aqueles que amo?
Nós sempre achamos que o sofrimento de quem fica é maior... Será mesmo? Tenho minhas dúvidas... Como se sentirá a mãe que parte, deixando aqui filhos pequenos
para que outras pessoas criem, eduquem, encaminhem para a vida?...
O que ela sentirá, do outro lado, ao ver esses filhos separados para adoção ou criados sem amor, submetidos a humilhações e sofrimentos?
Como fica um pai que sempre trouxe o sustento ao seu lar, ver a família desamparada,
estudos serem interrompidos, filhos tendo que trabalhar antes de se formarem?...
Cada um tem seu próprio sofrimento, uma percepção cognitiva diferente do outro.
Agora, imaginem os que veem a família desesperada, se lastimando, chamando por aquele que partiu...Sentem-se impotentes, revoltados, querendo ajudar de qualquer maneira, mesmo sem terem condições.
Sentir saudades é normal, o tempo pode passar à vontade, nunca esqueceremos os que nos são queridos. Eles também não se esquecerão de nós.
Choro de saudades, converso mentalmente com eles, dizendo-lhes que Deus nunca nos desampara, que eles sigam seu caminho, assim como seguimos o nosso, pois um dia estaremos todos juntos. Minhas lágrimas são de saudades, jamais de revolta. Acredite que Deus jamais nos desampara, que Ele nos ama e quer nosso bem. Confie sempre!
 
 
 
 
 
 
É assim a vida

Jandyra Adami


Na caminhada que faço sempre arrumo amigos. Um dia nos vemos, outros não, mas é sempre aquela turma fazendo cooper, para a saúde manter.
Chico é meu amigo faz tempo e quando podemos, vamos até o bar da esquina, bater papo, contar coisas da vida e assim dividir os problemas, as alegrias.
Chico me contou que está com a filhinha doente, faz um ano. Uma doença incurável e que, além de fazer a garota se acabar, todos sofrem com ela e nada podem fazer. O dinheiro também é pouco para tantas despesas.
O Tonho, coitado, foi abandonado pela mulher, que o trocou por outro homem, daqueles galãs que aparecem na vida somente para desfazer o lar alheio. Ela deixou filhos, mãe, tudo por causa de um amor passageiro.
Cada um conta um pouco de sua vida e eu também conto a minha. Os dias passam e a gente nem sente...
Já está quase no fim do ano. Logo as ruas começam a ficar cheias, com as pessoas fazendo compras para o Natal.
Como será o Natal de cada um de nós? Uma incógnita. Todos esperam que corra tudo bem, na paz do Senhor e a família reunida, que é o maior presente de Deus.
Certa noite, Chico me convidou para ir ver seu trabalho, pois nunca havia visto o meu amigo de caminhada, de boteco, trabalhar, e nem sabia o que fazia. Caminhamos uns quarteirões e logo vi um enorme Circo montado, num local plano, agradável...O povo estava chegando para a sessão e entramos pelos fundos até o camarim, onde meu amigo iria se preparar para a apresentação que para ele era um bálsamo, um descanso, uma alegria fazer o que fazia.
Chico era o palhaço Zuzu e querido não só pela garotada como também pelos adultos.
Em alguns minutos meu amigo estava pronto: cara pintada, nariz vermelho, peruca de cabelo amarelo, uma roupa enorme que cabia dois dele.
Chico estava feliz... O povo o esperava.
O espetáculo começou e todos os artistas deram aquela volta no picadeiro e saíram para esperar sua hora.
Voltamos para o camarim e ficamos conversando, quando um seu vizinho chega e, chorando, diz ao bom e grande amigo que sua filha acabara de falecer.
Mesmo por trás daquela pintura, de toda parafernália que um palhaço usa, eu vi no rosto do meu amigo o abatimento, a tristeza, as lágrimas escorrendo numa dor insuportável... Parecia que alguém tinha tirado seu coração. Eu o confortei e abraçados choramos muito... Eu não conhecia ninguém da família dele mas, quem não entristece com uma cena assim?
Alguns minutos se passaram e, lá dentro do circo começaram a chamar pelo Palhaço Zuzu. A platéia gritava seu nome num ensurdecedor coro. Eu quis impedi-lo de sair. Não era possível uma pessoa naquele estado emocional enfrentar uma multidão, para fazê-la rir.
Chico retocou a maquiagem, me deu um abraço e disse:
-Eu vou lá companheiro. O show não pode parar. O palhaço é a atração principal das crianças e não posso decepcioná-las. Tenho que primeiro cumprir meu dever, o de fazer o povo dar risadas, mesmo que meu coração esteja estraçalhado pela dor....
E lá foi o Chico, caminhando lentamente, quase sem forças, até chegar á cortina que o separava do picadeiro. De repente ele gritou:
- Hoje tem marmelada? E o povo respondia: "Tem sim senhor"...
- Hoje tem goiabada? " Tem sim senhor..."
- E o palhaço, o que é? " É ladrão de mulher..."
E assim meu amigo Chico fez o espetáculo e ninguém ficou sabendo que por dentro seu corpo ardia de dor, seus olhos deixavam escorrer lágrimas pela perda da filha há tão poucos minutos.
Eu fui embora pra casa, com o coração partido também, pensando como a vida é tragicômica
O homem de caráter cumpre o seu dever mesmo passando por cima de qualquer dor, de qualquer problema.
Lembrei então de uma frase que li há muito tempo e infelizmente não sei o autor:
"-Ri palhaço e o mundo rirá contigo... Chora palhaço e chorarás sozinho..."
 

 

 

 

 
A CIRURGIA NO VERSO

Joaquim Moncks

 
Não há como abordar com profundidade o gênero Poesia com pessoa que tenha uma visão diletante - amadorística - do fazer poético...

Para se chegar a um resultado apreciável, o que se tem de entender, inicialmente, é a dimensão do espírito humano e os seus diversos momentos na construção espiritual personalíssima.

A este patamar se chega pelo estudo da filosofia e através da leitura de textos de autores consagrados, ou seja, aqueles que têm estrada percorrida e história pra contar. E que se tenha uma visão altruísta do mundo. Acaso esta inexistir, a Poesia não se manifestará.

Portanto, em nada aproveita ao novato frequentar a qualquer "oficinação poética" antes dele se entregar a um comprometimento maior com a Poesia...

Corrigir a forma poética é o de menos, e quase nada acrescentará ao poema, que é o produto final... E disto pode restar no criador poético inexperiente uma imensa sensação de frustração. Muitos talentos futuros morrem neste instante...

Por estas razões, o analista, ao perceber as imperfeições, pouco deve interferir no texto de terceiro, mormente se ele for jovem. Somente o mínimo suficiente para funcionar como "instigação" à execução de "cirurgia", nos versos.

O que importa é fazer com que o iniciante - ele mesmo - faça a descoberta desta necessidade no processo de criação. Aquele que tem de "transpirar" a proposta poética - encontrar soluções criativas para o poema - é o seu autor.

Porém, dificilmente o autor do poema vai "mexer" no produto textual de sua "inspiração", sem o auxílio do analista crítico, que funciona como "provocador". Para o novato, usualmente, o poema surgiu assim e deverá permanecer assim, virgem de alterações...

Quase sempre a alta autoestima funciona contra o autor dos versos, embora este nunca claramente perceba, pois a catarse da "inspiração", na qual predomina a emocionalidade, exclui, as mais das vezes, o necessário processo de autocrítica do criador.

É tão forte o envolvimento criativo que este embasbaca o autor, na fase em que o poema "surge", principalmente quando relata o emocional lírico-amoroso ou a injustiça social.

À medida que o tempo passa, o autor vai se aperceber que só a genialidade nasce perfeita. Porém isto leva muito tempo, porque a sabedoria é fruto do talento e reflexão. Ela exige que pensemos sem pressa, mas com objetivos a atingir.

A Estética, em Poesia, é fruto de todas possíveis acuidades sensuais. Enfim, de alguns conchavos entre emoção e razão...

- Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2009/10.
 
 
 
 
 
 
 
VIDA

Juraci da Silva Martins
 

Quem poderá descrever-se ó Vida?
Ciência transcendental do existir...
Inexplicável Reflexo da plenitude,
Célula fecundada pelo espírito
Regada pelas veias do universo,
Explosão vicejante das vicissitudes
De todas as virtudes...
És canto e encanto, és riso e pranto.
Revelas-te nas vozes incendentes,
Nos risos inocentes energia e luz.
VIDA o que és então?
Apenas te sentimos como sopro...
Sentimento de Hiroshima
Vibrante em plena sintonia...
Estática nos rochedos e bronzes,
Sensível em todo o sentimento.
Até a morte te gera, no grão soterrado.
Alfa e omega de tudo e de todo.
O mundo pasma em reverências...
Ao sacrossanto Amém...
Ao supremo inventor e criador.
VIDA, marcas os tempos da evolução.
Um peregrinar, um Dom Maior,
Revezar de polens,
A fecundar-te ó VIDA enternecida...
Nascem os valores e penhores,
Dons e dádivas em resplendores,
Nada é inútil, nem riso nem pranto.
Tu ó VIDA, no entanto, sempre és:
Meio e canto, o tu do em todos.
Um eterno Creio... ópera das vicissitudes
VIDA, quem poderá descrever-te
Na mais explicita fidelidade?
Apenas te sentimos... fermento do existir
Afluir no universo...
A desabrochar nos elementos...
Pelo dom maior: o amor...
No estremo gesto da infinitude
Do supremo criador.
Que te gerou, ó vida!
 
 
 
 

 

Sou Gaúcha
 
Jussára C Godinho - Ju Virginiana
 

Sou gaúcha de verdade
Verdadeira rio-grandense
Eu prezo minha cidade
Digo mais: sou caxiense

Vou te oferecer amigo
Um bom churrasco no espeto
E com orgulho te digo:
Faço Trova e até Soneto

Um bom churrasco no espeto
Para amigo saborear
Muita Trova e até Soneto
Só vendo pra acreditar!

Só vendo pra acreditar
gente boa de montão
Vim aqui te convidar
Pra tomar um chimarrão!

Vem tomar um chimarrão
Amigos e companheiros
Um forte aperto de mão
Sentimentos verdadeiros

 CAXIAS DO SUL - RS - BRASIL
 

 
 
 
 
 
Até hoje
 
Lígia Antunes Leivas
 

      A chuva não dava trégua. Tocada a vento, guasqueava e levantava todo guarda-chuva, toda sombrinha. Melhor mesmo era pôr qualquer coisa na cabeça e enfrentar o aguaceiro até a entrada do banco. E assim fez.
    
     - Esta é a fila pra idosos?
     - Mas você não tá nessa de ficar na fila de idoso? Ou tô enganado? Mas se a necessidade é tanta, te deixo passar na minha frente.
    
     Uma sem-cerimoniosa risada que não deu 'pra segurar' deixou o 'gentleman' até meio desconsertado.... mas tinha saído tão naturalmente, que não merecia crítica. Ajeitando com a mão mesmo o cabelo que se desalinhara embaixo do chapéu de lã 'à peruana'  (comprara numa feira quando o frio tinha baixado de zero), ela se sentiu mais à vontade. Mexeu na bolsa pra pegar o papel que precisava pagar.
     - Imposto de renda também? Esse país é uma vergonha! Fazerem a gente pagar imposto de renda quando se ganha apenas um mísero salário! E professor, neste Brasil, não tem mais jeito mesmo! Não adianta greve, protesto, operação tartaruga, seja lá o que for... "Eles" não ligam a mínima! - Também professora?
     - Já aposentada. Na 'Federal'. Trabalhei como condenada por lá...
     - Bem que achei que já te conhecia. De lá. Sou de lá também. Área de cálculos. Contando o tempo pra me aposentar. Já disse pra um amigo que se intitula entendido em tempo de aposentadoria e tá sempre me informando quanto ainda falta pra eu parar, que ele me deixe me paz, porque quando chegar o dia, eu me aposento.
    
     Seu tom, super engraçado. Muito despachado, se bem que com um ar um tanto tímido. Nem bonito, nem charmoso. Tipinho comum. Boca estirada, larga. Cabelo muito curto, já grisalho um pouco. Estatura média, mais pra magro. Óculos de lente muito grossa. Um  tipo 'cálculo' mesmo! Mas extremamente simpático!  Melhor ainda: engraçado, fazendo a gente rir.
     - É assim que tu dás tuas aulas? O pessoal deve se divertir de monte! Vale a pena ter um professor assim na sala de aula. Mas não é preciso concentração pra se fazer tanto cálculo? Como consegues manter tudo bem administrado?
    - Eles são muito inteligentes! A gurizada hoje não é mais como na nossa época! Conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, inclusive rir junto. E tu trabalhavas na área de línguas, não é?
    - Como sabes? És adivinho?
    - Teu jeito de falar... a gente percebe. Muito 's', muito 'r'... essas coisas de professora mesmo.
    
    E o papo rolou por quase 40'. Ficaram sabendo coisas um do outro. Fizeram críticas ao governo, à educação, ao banco, à idade, ao tempo, à chuva...enfim, curtiram a 'fila' enquanto esperavam a vez. Puseram conceitos, preconceitos, relações pessoais, afetivas ("Trágicas, hoje em dia", ele falou), familiares... tudinho em dia. Ficou sabendo até a idade dele (mais moço que ela).
   
    - Pode passar, diz o caixa.
    Ela se aproximou do balcão.
   
    Já estava saindo, quando sentiu um toque no braço esquerdo (ele, no caixa ao lado).
    - Me deram já teu telefone. Até chegar no carro, vais te molhar toda.
    - Não tem importância. Já tô molhada mesmo. Tchau! Prazer, professor! Que tua aposentadoria chegue logo!
   
    O telefone seguido tocava...
    - Mas que importância tem se minha separação é recente? Minha mulher já tinha me dado o 'bolo' há muito tempo mesmo. Minhas gurias já  se encaminham na vida. Difícil ficar sozinho. E uma boa conversa sempre é ótimo. Pelo menos isso!  - Idade ?... Que coisa 'de idade'... 'não voga' - não foi o que disseste?  Então?... Te ligo amanhã.
     E os telefonemas e as mensagens continuaram.
     Apenas...
     Até hoje.
    
Pelotas, RS, BR
 
 

 

 
ORÁCULO
 
Luís Paiva Adães

Dizes que estás a morrer
Quantas vezes porque te assola o medo
Sentes o arrepio da morte
Desfaleces na descrença e na dúvida
Seja pela solidão ou mal trato
Seja pela podridão confusa
Que te consome
Que te cerca.
Mas estás viva
Estás numa confusão saudosa
De uma terra e entes queridos.
Estressada pelo efeito translativo
Que transcende, quantas vezes,
O raciocínio
A tua lógica.
Medita,
Pensa nos carinhos de espíritos passados
Sente o vento frio saudável
Sente a mensagem da Mãe Terra,
O murmurar da água
E vê.
Sente os nossos irmãos da montanha
O abraço amigo do mar e do deserto
Sente as vozes das aves
Os incessantes conselhos das flores campestres,
A força corpulenta da floresta
E medita
Vês a Luz que te acompanha?
Sabes o que é?
É apenas a Luz que te acompanha
Uma vela grande, com muita vida,
Olha bem
Sente o doce odor a rosas
Sente as mãos divinas que te amparam
Sente o amor próprio
E vê.
Estás dentro dum cilindro virtual
Podes ver tudo
Podes-te ver
Recuperar a tua coragem
Sai desse cilindro
Respira fundo
Medita com toda a força
Com toda a Paz
E Vive.
Quantas vezes o ilógico
É o sextante que nos permite
Navegar em águas profundas
Puras, límpidas, amenas.
Harmonia perfeita
No alinhamento astral
Dos teus pontos vitais
Numa simples oração
Ou numa prece silenciosa
Perfeitamente audível
Pelo Ser Maior.
Medita.
Vive.
 
 

 
 
 
O aviador Dinho

Luiz Carlos Martini


O Dinho é um sujeito bem decidido, tem domínio do que faz. É Grisalho e a barriga é, de leve, saliente. Vem de fora. Está na cidade para desenvolver um grande projeto empresarial e isso não revela de vez. Aos poucos, conforme a conversa anda vai se conhecendo seus planos... Na área do distrito industrial, no terreno terraplanado, onde ainda se vê a terra pura e avermelhada, há uma estrutura industrial a pleno vapor. Até que enfim uma empresa ali se instala e começa a operar. Lida com madeira. Até comentei com ele, que há uns cinco anos houve tentativa de se criar no município um projeto de florestamento com eucaliptos, variedade grandis, próprio para indústria moveleira. Não deu muita bola no que falei. O cara também é piloto de avião e tem notebock. Numa sala do prédio da esquina da Avenida Júlio de Castilhos com a Rua Domingos Pozzebon, onde funcionava um culto de igreja evangélica, a sala estava cheia e uma moça falava coisas interessantes, motivando e encantando a platéia. Tudo ia bem com todos absortos naquelas palavras bem colocadas. Quase no final da palestra, a moça direciona suas atenções para o título de um livro, de autoria dela, é claro. Tenta convencer, insistindo que todos comprassem aquele livro de capa branca e não mais do 50 páginas. Mais ao fundo da sala, me levantei e, aos brados, denunciei que aquela atitude era um golpe. Que a palestra não valia nada, pois não passava de uma estratégia comercial da ilustra oradora. “Não vou comprar esse livro”, gritei. E continuei, “não comprem, isso é enganar vocês”. Alguns devolveram os livros, para a palestrante que olhava pra mim, vermelha, cuspindo fogo. Ainda arrematei, “amanhã irei falar na rádio e vou denunciar essa turma de 171”. Ao meu lado, um assessor do Dinho fechava uma pequena maleta e nela enfiava pequenos badulaques. Saí pra fora e me deparei com as pessoas paradas na calçada, com a mão espalmada na testa, olhando pra os céus. Outros apontando um ponto azulado no céu fazendo movimentos entre as nuvens. Era o Dinho com seu avião! Atravessei a avenida e segui caminhando. Bom, hoje vou pernoitar na sogra, não dá mais do que uma quadra e meia de onde houve a palestra. Ué! Alguém deixou o portão aberto...
 
 
 

 

Contemplação

Lucas Cozza Bruno

Que lazer, tenho da minha janela!
Basta, apenas, olhar, do andar,
a minha rua.
Que magia! Quanto mistério!
Meu bairro, a cidade, o céu azul,
as ruas verdejantes, o Guaíba,
os morros, a cúpula da Catedral, tudo!...
Entre tanta beleza, este humilde poeta
descobre o brilho do pôr do sol,
fenômeno fascinante!
A cada dia, uma nova emoção!
Que cartão postal observo
do oitavo andar, do meu apartamento,
da minha janela.
Sinto-me o dono deste mundo,
do meu Rio Grande.
Vejo o céu coberto de nuvens brancas
e acinzentadas. O vento bate em meu rosto,
a chuva começa a cair macia e suave
e do asfalto sobe um intenso calor.
Há bagunça no trânsito,
mas não importa; o encanto não é quebrado!
Porto Alegre, é a ti que contemplo,
a Cidade que me acolheu,
a Cidade onde não nasci.
Sem dúvida, super valiosa, leal e valorosa.
Ó Cidade Sorriso, minha Porto Alegre,
Que muito amo!

 

 
 
 
BONITA BONITO
 
Malude Maciel
 

A cidade de Bonito é realmente bonita e, toda aquela região da periferia rural, com paisagens campestres de morros altos e baixos nas diversas nuances de tons verdes são cenários de inspiração para qualquer pintor, poeta e almas sensíveis que buscam recantos maravilhosamente belos, aqui mesmo, em nossas plagas nordestinas. Quanta coisa boa para apreciar!
Basta sair despretensiosamente, numa aventura singela e pegar a estrada por essas veredas da vida simples do nosso interior, não menos formoso que recantos da Europa, embora menos conhecido e valorizado, mas encantador. Com tranquilidade podemos alcançar o alto Bonito que, ultimamente tem se vestido de "ecoturismo" conquistando adeptos das aventuras, lazer, descanso, paz, muito verde e água abundante, além das encantadoras cachoeiras naturais. No Bonito Eco Parque, por exemplo, encontramos uma turma desfrutando dos parques infantis, bares, restaurantes, passeios a cavalos, passeios de charretes, pesque e pague, banhos em piscinas naturais e cascatas, esportes radicais como: tirolesa, arvorismo, rapel, trilhas, além do camping, piscinas artificiais e pousadas convidativas.
Outro ponto muito importante nesses passeios é a parte histórica, a cultura da terra e a tradição que além de impressionar, enriquece o conhecimento com fatos passados e o desenvolvimento atual, quando se pode fazer uma comparação entre épocas bem distintas da História brasileira e sobretudo regional.
No Engenho Verde tivemos a oportunidade de ficar numa mansão construída em 1841, por Louis Léger Vauthier (o mesmo engenheiro da construção do Teatro Santa Isabel, em Recife), dentro daquela arquitetura colonial, com majestosos arcos e desenhos franceses, retratando a vida de pompa e grandeza dos usineiros e coronéis que ali viveram, no auge de sua riqueza. Consta que nesse casarão de senhor de engenho, nasceu o poeta Hermilo Borba Filho que habitou a propriedade até seus 16 anos. Outras ilustres personalidades também passaram períodos de férias nesses lugares de extrema beleza e contato com a natureza.
Até hoje esse rico acervo tem sido preservado, passando de geração a geração, porém carece de mais empenho e cuidados para não acabar com o tempo. No programa: Pernambuco conhece Pernambuco vimos um convite para que todos possam desfrutar dos encantos que, às vezes estão bem perto, mas desconhecemos e não damos o devido valor.
Estivemos ainda na antiga Usina Serra Azul que ora desmorona ao léu, com seu maquinário enferrujando, as paredes caindo, num verdadeiro descaso. Ainda imponente, apesar de todo desgaste, está a fachada da casa grande. Erguida com muito desvelo, permanece mostrando sua beleza anterior, mesmo diante do abandono. Esses patrimônios deveriam ser tombados e mostrados às pessoas para conhecimento histórico, sendo marcos indeléveis do trabalho de toda uma gente numa região forte, batalhadora e de rara beleza.
 
Malude Maciel
Caruaru - Pernambuco - Brasil
Membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras.
 
 
 

 

Recordações

Nice Maria Botomé Cousen


Ele se chamava Joaquim, seu primeiro amor. Era grande para ela, tão pequenina; tinha corpo de pano e traços pintados numa avantajada cabeça de louçã que rachava ao menor descuido. Assim, lá ia ele para o Hospital das Bonecas, levado pela Tia da Menina, querido colo que sempre a embalava. Onde era o Hospital? Está perdido na memória, mas, certamente, não ficava perto de casa.
Algumas vezes, Joaquim demorava no Hospital e a Menina ficava de mãos vazias, conversando com os amigos imaginários ao telefone, pulando corda, brincando de “sapata”. Era uma longa espera para ela, até que a Tia ia buscá-lo e o devolvia aos seus pequenos braços.
Certo dia, perguntaram-lhe o que queria de presente, e ela, ressentida com as ausências repetidas de Joaquim, respondeu: “- Uma ‘Meca’ que faz com olhos assim...” e piscava para a Mãe ver. E, quando menos esperava, ela lhe chegou ao colo; linda, de tranças, boca rosada, olhos que abriam e fechavam, deixando ver a transparência de um lindo olhar azul. Suprema felicidade. Chamou-a de Loira, seu segundo amor. Essa quase não ia ao Hospital, não quebrava facilmente, era mais comportada que Joaquim, boneco travesso. Depois de tanto tempo, saudades de Joaquim e da Loira, lembranças de um passado que, embora tão distante, parece estar ali, ao dobrar a esquina, a sorrir para ela, a Menina...
 
 
 

 
 
"O verdadeiro amor não se conhece por aquilo que exige,
 mas por aquilo que oferece."
Jacinto Benavente


Simplesmente Amor

Nídia Vargas Potsch

Ao transbordar de emoção
Coração só quer amar
Satisfazer seu desejo
Acarinhar o outro
Com toda doçura
Que extravasa
De um afeto
Sonhador,
Namorar.

O Amor
Que nasce
 Tão pequenino
Como uma semente
Deseja de todo crescer
Expandir-se suavemente
Envolver,satisfazer-se,agradar,
Criar raízes fundas pra frutificar
Dar bons frutos e virar boa semente
E, incansavelmente,
 Começar tudo ... novamente ... outra vez ...

O Amor, simplesmente, nada mais quer do que Amar!

@Mensageir@
Rio, 10/06/2010
 
 

 
 
O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas

Paulo Monteiro


Quando o administrador do Projeto Passo Fundo convidou-me para publicar o livro eu resisti também cantando, com poemas inéditos, contra-argumentei propondo a edição de uma coletânea de artigos sobre temas históricos e culturais. Assim surgiu este O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas.
Os textos são praticamente os mesmos dados à letra de forma originalmente na imprensa, e depois divulgados em diversos sítios da Internet. Para a reunião em volume, porém, aprimorei as referências bibliográficas, procurando favorecer os leitores que desejarem se aprofundar nos temas tratados.
Sou, assim, extremamente grato a Saul Spinelli, diretor do extinto jornal O Cidadão, às jornalistas Geneci Carlot de Quadros e Joice Carlot, responsáveis pelo Jornal Rotta, à direção e colegas da Fundação Cultural Planalto, em particular da Revista Somando, aos sítios Projeto Passo Fundo, Luso Poemas, World Art Friends, Café História, O Melhor da Web, Verso e Prosa e tantos outros que acolhem meus escritos.
O caráter jornalístico, que não quer dizer apressado, é responsável por algumas repetições ao longo deste livro. A História é uma corrente de fatos, e não um fio retilíneo.
Tenho dito à saciedade: sou, fundamentalmente, um publicista, o que, no melhor vernáculo, significa aquele tipo de escritor que alguns tradutores versam “intelectuais públicos”. Escrevo para ser lido – e entendido. E com os clássicos da Língua Portuguesa aprendi que se pontua como se fala porque a fala é anterior à escrita.
Escrever, para mim, é um ato vital.
Defensor da escrita fonética, optei por não seguir as recentes alterações ortográficas.
O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas é uma pequena mostra de minha produção historiográfica. O amor à História se iniciou quando eu tinha treze anos e estudava na Escola Estadual Joaquim Fagundes dos Reis em Passo Fundo. Minha professora de Língua Portuguesa, Zilka Neff Rosa, solicitou colaboração para o jornal mimeografado da Escola. Apresentei um poema sobre Passo Fundo. Em certa passagem eu rimava as palavras “ruas” e “charruas”. Dona Zilka me chamou, explicou-me que os charruas não habitavam Passo Fundo, que aqui viviam guaranis e tapes, falou-me sobre licença poética. Depois de uma boa conversa acabou me sugerindo ler um dicionário de versificação e o livro “Passo Fundo das Missões”, de Jorge Edete Cafruni. Li os dois livros e apaixonei-me pela Poesia e a História, que não larguei mais. Por isso, uma das pessoas a que dedico esse livro é Dona Zilka.
Nesses quarenta e dois anos li milhares de livros, escrevi centenas de artigos sobre temas culturais e históricos. Acumulei material suficiente para publicar algumas dezenas de livros, mas dei apenas três a lume.
Aprendi com os grande humanistas que o historiador tem a obrigação de dizer a verdade ou, pelo menos, aquilo que considera a verdade. Por isso, não tenho qualquer condescendência com as chamadas personagens maiores da História.
Tenho um interesse particular no estudo das revoluções rio-grandenses. Na verdade, o que eu quero é entender essa questão da valentia gaúcha. Isso me levou a concluir algumas coisas que me parecem terríveis e que estão com todas as letras em diversas passagens do livro.
Durante milhares de anos a História, a exemplo da Filosofia, ficou reduzida à condição de simples escrava da Filosofia.
Os líderes das principais civilizações passaram à História na condição de verdadeiros semideuses. Apenas com Voltaire, em 1756, com o Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações, a História passou a ser considera como criação humana. Entretanto, especialmente em termos de história local e regional, os líderes são considerados representantes divinos.
Como afirmou recentemente o ministro Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal: “Há quem chegue às maiores alturas só para fazer as maiores baixezas”. Por isso é que sigo a lição do velho Jules Michelet: “O historiador, que é o juiz do mundo, tem por primeira obrigação perder o respeito…”
Não sou condescendente com as baixezas daqueles que chegam às alturas. A maioria dos historiadores, em especial os que escrevem sobre a história local e regional, não passam de ficcionistas incapazes de compor uma quadrinha de pé quebrado. Há pessoas que, pensando serem historiadores, entoam loas aos abutres.
Para mim, em seu maior número, as páginas de nossas revoluções, como de todas as revoluções pampianas, foram escritas com sangue e vergonha. E as páginas que a História reserva para os matadores em série e outros degenerados são o melhor lugar para alguns semideuses gaúchos.
No meu entendimento, a história da caudilhagem é uma sucessão imensurável de roubos, latrocínios, estupros e massacres. E é insustentável o argumento de que os caudilhos devem ser julgados segundo o ambiente em que viveram. Aceitá-lo seria negar que até mesmo leis ancestrais como o Código de Hamurabi ao Decálogo Bíblico, sempre reconheceram as práticas caudilhescas como crimes dos mais graves que alguém poderia cometer; aceitá-lo seria admitir a vontade de cada um como única e universal norma de Direito.
Apresento muitos desses crimes em O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas, como a matança dos lanceiros negros a 14 de novembro de 1844, justamente às vésperas de Antonio Vicente da Fontoura, seguir para o Rio de Janeiro como representante dos farroupilhas. para acertar a paz com o Império.
Assim, gostaria de contar com o comparecimento de todos os interessados no estudo da História, no lançamento do livro, dia 16 de junho de 2010 (quarta-feira), às 19 horas, tendo como local o auditório da Academia (Av. Brasil Oeste, 792), em Passo Fundo. Na oportunidade, receberei a generosa e ilustrada contribuição de diversos amigos, como os historiadores Adelar e Setembrino Dal Bosco, o psicólogo clínico, poeta e pensador Getúlio Vargas Zauza, que já confirmaram suas presenças, para discutirmos os temas tratados nas “linhas e entrelinhas” do livro.
A capa de O Massacre de Porongos & Outras Histórias Gaúchas é arte de Everaldo Siqueira. Reproduz os lanceiros farroupilhas (do quadro Carga de Cavalaria, de Guilherme Litran, acervo do Museu Júlio de Castilhos), sobre fotografia de Paula Tatsuia Machado Monteiro, retratando trecho da Rua Teixeira Soares, entre as ruas Paissandu e Uruguai, onde existia uma casa de Manoel José das Neves (Cabo Neves) que serviu de quartel às diversas forças imperiais e republicanas, que passaram por Passo Fundo, durante a Revolução Farroupilha. Ali também acamparam muitos dos lanceiros negros massacrados no Cerro de Porongos. (Passo Fundo, 30 de maio de 2010).
 
 
 

 

FAÇA-ME FELIZ!

Regina Bertoccelli

Impeça que eu fique entristecida,
cante pra mim uma canção.
Fale de chegada e não de partida,
abrace-me com paixão.

Diga que por mim sente atração,
que jamais serei esquecida.
Impeça que eu fique entristecida,
cante pra mim uma canção.

Quero ao seu lado curtir a vida,
ter paz e viver em comunhão.
Com a alma protegida,
afugento a solidão.
Impeça que eu fique entristecida...
 

 

 

 
Marginalidade

Ridamar Batista

Vivo na contra mão,
sou totalmente marginal
quando cruzam comigo
sem perceber sorrio e digo
Boooom diaaaaaa!
Sabe? saído mesmo do coração.
Sou capaz de pular um muro por causa de uma flor
e também saio de casa ao meio dia
sol estourando momonas
levando água para um cão sedento
eu não existo!
ainda sedo o meu lugar na fila
para qualquer que esteja
muito mais apressado que eu
aliás, nunca estou com pressa
Sou marginal, diferente, esquisita
fico cheia de emoção quando o sol se põe
e quando a passarada canta de manhã
eu juro que é para mim
e chego até  responder seu canto
lembro-me até hoje
de coisas engraçadas que fizeram
meus filhos, sobrinhos e amiguinhos deles
ainda me pego rindo de cada um
como se fosse hoje mesmo.
Acredito no amanhã, sonho e tenho fé.
Sou tão esquisita que ainda posso
andar na praia procurando conchinhas
e quando a onda quebra fico olhando os peixinhos
voltarem correndo para o mar.
Gosto de ouvir o granido fino das gaivotas
e até lhes ofereço algum marisco.
Marginalidade total a minha
que ainda acredito no amor
na fantasia de ser feliz
fazendo piada do cotidiano
Como quem não leva nada a sério
levo a vida sem sentir o peso
da dor, da solidão e dos anos
 ainda sou capaz de mergulhar
num copo de vinho tinto
todas as tristezas banais
que por acaso me venham visitar.
MArginal demais
sou capaz de viver em paz!
 
O prazer de ser livre é tão intenso que abrange qualquer forma de amor ou de amar... é como se o tempo bastasse, a vida fosse um eterno deleite e o sol num brilho constante fosse feito para mim.
Ridamar Batista
 
 
 
 
 
 
FLOR DE LÓTUS
 
Rose Mary Moura Brasil
 

 A Flor de Lótus é uma figura mística que envolve vários aspectos da vida. Seu caule cresce através da água e suas raízes mantêm-se submersas à lama. Com os raios solares, a flor desabrocha e cresce, transformando-se em uma verdadeira obra de arte da natureza.
        O crescimento da Flor de Lótus tem um significa todo especial e representa o progresso da alma que mesmo vindo da lama materializa-se na primavera e acaba superando todas as dificuldades que lhe surgirem na vida.
         Na Grécia, é considerada como planta sagrada e no Egito o lótus se faz presente no interior das pirâmides e em seus antigos palácios como planta sagrada pertencente ao mundo dos deuses.
        Na Pérsia ela é símbolo de imortalidade.
        Para os chineses, ela é símbolo de fertilidade e segundo lendas, uma Flor de Lótus só nasce a cada cem anos.
        Na Índia, essa flor testemunha a criação do universo, onde Buda (mestre filosófico e espiritual fundador do budismo)  é representado sobre uma Flor de Lótus.

        “Buda (sânscrito-devanagari: transliterado Buddha, que significa Desperto, Iluminado, do radical Budh-, "despertar") é um título dado na filosofia budista àqueles que despertaram plenamente para a verdadeira natureza dos fenômenos e se puseram a divulgar tal redescoberta aos demais seres. "A verdadeira natureza dos fenômenos", aqui, quer dizer o entendimento de que todos os fenômenos são impermanentes, insatisfatórios e impessoais. Tornando-se consciente dessas características da realidade, seria possível viver de maneira plena, livre dos condicionamentos mentais que causam a insatisfação, o descontentamento, o sofrimento.”

       A Flor de Lótus era a preferida do poeta e dramaturgo brasileiro Dr. Salomão Alves de Moura Brasil, o qual compôs uma música sobre a mesma, dando-lhe vida, através de uma Opereta de sua autoria: “Flor de Lótus, Minha Estrela”.
 

FLOR DE LÓTUS

(Letra e música de Dr. Salomão em Caleidoscópio)

Nasceste puro, meu amor,
Tão delicada e linda flor,
A recender suave odor...
Beijou-te o Sol, beijou-te a Lua,
E, com desvelo, te embalou,   (bis)
Somente a estrela, que flutua,
Além do céu, não te beijou;
Mimoso véu te preparou
Para abrigar-te, neste mundo,
Da insidiosa crueldade,
Do vitupério e da maldade,
Que te prepara a humanidade,
Com frieza e falsidade!...

Mimosa estrela, ouve este grito,
Alucinante e sem igual,
Que, de além céu, lá do infinito,
Vem, devolvendo-te o cendal;
“Chegou bem tarde este teu véu”.
A FLOR DE LOTUS feneceu!...
Hum!... Hum!... Hum!...  (bis)

 

 
 
 
 
De: S. Potêncio,  “Fernanda...Fica!...” 

Fernanda!,... era uma vez!
-  a Flor Bela que nos Espanca!
Que nos açoita e nos desanca,
Da nossa displicente morbidez!...
 
Fernanda ela não é!?...
Ou será talvez,
- a encarnação da nossa eterna avidez...
Do conhecimento lírico... tão burguês!...
 
Daquilo que nos falta e ali está!
O tempo inteiro enraizado,
Tão profundo, - tão gentilmente encapuçado,
 - neste nosso eterno fado... em Lá!... 
 
De escrever, de nos ler de nos viver,...
De dentro para fora em tempo inteiro...
Que da vida o nosso sangue sai do tinteiro!
 
Eu não sei pensar sem reflectir!,...
E por isso eu não vivo só a fugir.
- Também vivo aqui parado a ressurgir.
 
A vida vem,  e ela vai por aí à solta,
Nos meus versos, meus poemas, minhas lutas...
Das cavernas do meu corpo às tuas grutas.
 
Fernanda!,... Maria dos nossos dias!,
Poetisa exteriorizada enquanto dorme,
Na sua fonte agonizante e tão disforme...
 
Não te vás, fica conosco!,...
Eu vos espero, eu vos conclamo,
A vida nunca morre em clima fosco,
Aqui  a tua  luz eterna eu reclamo.
 
Reclamo, - óh Fernanda o teu texto,
Veio de novo a conclamar aos teus leitores,
Que de ti já não separam seus Doutores!
 
Está escrito e vais ter de nos escutar!
O amigo Angelo vai concordar,
Que tu não podes abandonar
-  esta luta de na terra cá ficar.
 
Oh...Fernanda... a "Alma Lusa" te convoca,...
e tu não podes recusar nem tugir, nem mugir
Esta querela!,... a vida pela morte se não troca,
Tu  escreve!, escreve muito!, ó Flor Bela a florir.
 
A eternidade te agradece,
E nós os poetas de permeio,
Te juramos, te adoramos em nosso seio!...
-  fica!, --- tua escrita é tão bonita!...
Fernanda fica!...
 
- Silvino Potêncio - Autor de: "Eu, o Poema e a Rima"!  
Natal/Brasil
Fernanda!... Fica!
 
 

 

Tania Montandon
 
Amado,

Revendo meus silêncios,
Vasculhando minhas lembranças
Na história elaborada de tudo que vivi
Descobri que nada é mais belo disso que em ti vi
O brilho das canções que acaricia meu sorriso
Abrindo meu coração, está sendo este meigo anjo
Que já não consigo deixar de pensar com tão forte emoção
Naturalmente teu ser me transforma, sem aviso, imprevisto
Quero mais cuidar de mim na esperança de te fazer feliz
O que a distância não alcança, a ânsia de lutar avança
Algo que bate e sente de repente esta vontade infantil
Quero te ver sorrindo, partilhando o que há de bom contigo
Sem medo de perigos, nada é impossível
Porque o que sinto é real e bonito
O desejo de acariciar-te com respeito
Ver-te como o homem mais feliz do planeta
Nada mais me passa na cabeça
Quando te sinto aqui no peito
Revendo meus silêncios,
Vasculhando minhas lembranças
Descobrindo que não sou mais criança
O brilho que sinto é a vontade de cantar-te no ouvido
Esta frágil e movente verdade: EU te AMO!!
 
 


 
 
 
LEMBRANÇAS

Tânia Regina da Silva Guimarães

Cérebro, que guardas de tão precioso?
– Lembranças da infância.
São dez horas;
hora de brincar de balanço.
Balanço esperado, aguardado, do qual participamos da construção.
Quem vai ser o primeiro?
Já passou o almoço,
a louça foi limpa,
as panelas areadas e secas ao sol.
À tarde, a diversão é construir estradas
no pátio com direito a ponte,
lago,
árvores,
galhos
e castelos vermelhos.
E, assim, vamos construindo a nossa estrada!
Enquanto isto, na varanda, elas conversam,
costuram,
tricotam, bordam...
E, mais uma semana se passou. Fim de semana!
Domingo, hoje, é dia de missa, vestido novo, com fitas e
rendas de broderi.
Doces lembranças!
 
 
 

 

PACA, TATU, CUTIA NÃO!

Tchello d’Barros *


Talvez possamos categorizar como cultura inútil se contarmos por aqui que a brincadeira de criança “Paca, tatu, cutia não!” vem do tempo em que os portugueses chegaram por essas bandas e tiveram que se adaptar à gastromomia indígena, com suas estranhas iguarias tropicais. Reza a lenda, hoje parlenda, que pacas e tatus eram pratos muito apreciados, mas as cutias não iam à mesa por conta de uma crendice das índias, que acreditavam que se comessem a carne daquele roedor, teriam filhos mirrados e fracos. E talvez de nada adiante avisar que as linhas seguintes sejam um exercício duchampiano de juntar elementos tão diferentes entre si. Marcel Duchamp mudou a história da arte juntando numa mesma obra objetos completamente distintos entre si, como um banco e uma roda de bicicleta, ou um conjunto de cubos de açúcar em mármore numa gaiola. Aqui, a experimentação se dá no âmbito vocabular: juntar em parágrafos os bichinhos da parlenda acima mencionada com três temas onde dizem que o melhor sempre é não ter opinião.
 
Paca? Sim!
É um bichinho bonitinho pacas! Marronzinho, com pintas laterais, vive pelo continente cumprindo sua função de sair da toca apenas em noites sem lua, à cata de comida. Meu avô gaúcho, Friedrich Klein, tinha como atividade lúdica, digamos assim, a caçada, lá pelos arredores da cidade catarinense de Brunópolis, onde foi escrivão, e de vez em quando aparecia com algumas paquinhas, era aquela festa entre os amigos. E o que tem a ver esse bichinho tão simpático com um assunto espinhoso como a religião? Nada! Apenas que se você disser por aí que não é caçador de pacas ou do que quer que seja, estará tudo bem, ainda mais nesses tempos onde é moda ser ecologicamente correto, correto? Da mesma forma, se alguém disser que não é membro de nenhuma religião, denominação ou seita, também estará tudo bem. A quem irá importar se a pessoa é teísta, ateu ou panteísta? Crentes, céticos ou gente ocupada demais, poderá ser socorrida na hora definir-se, pelos sites de relacionamento, que lhes emprestam a genérica postura “tenho um lado espiritual independente das religiões”. Uns dizem que o importante sempre é “ter fé”, enquanto outros argumentam que “todos os caminhos levam à Deus”. Concluímos aqui com Saramago, que nos lembra que “na hora da morte, ninguém é ateu.”
 
Tatu? Sim!
Eis aí um bichinho realmente bacana, que também não incomoda ninguém, com sua própria armadura protetora, inveterado degustador de formigas, é assim responsável pelo equilíbrio ecológico dos locais onde vive. Dizem que o Tufão, memorável cão de caça de minha cidade de origem era um bom farejador e caçador de tatus, perdizes e afins. Provei uma vez essa carne saborosa num churras promovido por uns paranaenses na cidade catarinense de Gaspar. Mas o que tem a ver o pobre animalzinho num parágrafo que pretende tratar de um assunto democrático como a política? Nada! Nem o fato do bichinho ter sido homenageado em letra de música dos também memoráveis Mamonas Assassinas. O fato é que se alguém disser que nunca comeu tatu, ninguém vai dar a mínima, estará tudo bem. Mesma coisa se alguém disser que não participa de nenhum partido político. Ninguém vai olhar de cara feia, se a pessoa não conhecer o programa ideológico dos principais partidos políticos, quanto mais os anões, os tais partidinhos de aluguel. Aliás, ninguém vai xingar uma pessoa que não sabe o conceito que diferencia partidos de esquerda, de centro e de direita, base fundamental para a opção na hora de votar. Quem quiser conferir, que faça a pergunta ao primeiro jovem com idade legal para esse exercício de cidadania, o tal sufrágio universal do voto. Apenas pergunte, como quem não quer nada.
 
Cutia? Não!
Esse sim é um bichinho dos mais simpáticos, também chamado de cotia, é um herbívoro que tem até uma coloração muito bonita, pois seus pelos tem o efeito aguti, ou seja, cada pelo tem até três cores formando nuances de tonalidades e até mesmo um efeito dourado quando reflete os raios do sol. Na falta de alguma historinha com cutias, apenas lembro que esse era o nome de uma rede de casas lotéricas na cidade de Lages, na época em que lá prestei o serviço militar. Mas o que será que anda fazendo esse roedorzinho tímido aqui num parágrafo que trata dessa paixão nacional chamada de futebol? Nada, outra vez! Nem o fato de que meu pai, que foi jogador profissional, tenha tido carreira curta, por conta dos acidentes de trabalho. Era torcedor do time Internacional, de Porto Alegre. Era um colorado, como se diz. E crescer em casa de um fanático por futebol, nos faz desde cedo acreditar que é importante torcer para algum time, assim este cronista quase se tornou torcedor de alguma equipe em evidência na época, foi por um triz. Os antropólogos e psicólogos apontam várias razões para alguém torcer para um time de futebol, ainda mais num país como o Brasil, onde “o futebol é o ópio do povo”, no dizer do dramaturgo Nelson Rodrigues, que assim parodiava Karl Marx, que por sua vez teria dito que a religião seria o ópio do povo. Especulações à parte, a questão é quando perguntam ao sujeito para qual time ele torce. E se ele torcer o nariz e confessar que não torce para nenhum, se não “é” de nenhum time, é impressionante a cara de espanto do interlocutor. É como se o sujeito, o sem-time, dissesse alguma barbaridade, é como o Caymmi, a nos lembrar que “quem não tem samba no pé, bom sujeito não é”.
 
Então, está tudo muito bem se o cristão não tiver religião. Está tudo muito bom se o camarada não pertencer a nenhum partido político. Agora, como confiar num sujeito que simplesmente não torce para nenhum time de futebol?   
 
* Tchello d’Barros é escritor e artista visual.
 
 
 

 
 
O QUE EU FIZ

Tito Olívio
 
Para roçar teu corpo, fiz-me vento.
Para beijar-te a boca, fiz-me fruta.
Fiz-me constelação no firmamento
P'ra me poderes ver em noite enxuta.
 
Fiz-me abraço pra ter-te um só momento,
Mas, ante a tua escusa, fiz-me luta.
Para amares-me, fiz-me pensamento
E para ser teu leito, fiz-me gruta.
 
Para te comover, fiz-me tristeza
E para me aceitares, fiz-me alteza.
Enfim, para te ter... tudo foi pouco.
 
Desejo fiz da carne apetecida.
Por um dia de amor daria a vida
E tu não me quiseste. Fiz-me louco


 
 

 

 

Arte final topo da página criada por Iara Melo

Fundo Musical: Catedral

Compositor: Tanika Tikaram

Versão: Christiaan Oyens/Zélia Duncan

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 

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