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Portal CEN - "Cá
Estamos Nós"
Revista Novos Tempos
Nº II
Fevereiro - 2013
Segundo Bloco

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Cler Ruvver |
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Daisy Maria Gonçalves Leite |
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Donzilia Martins |
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Edilberto José Soares |
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Eliana Ellinger |
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Geraldo José Santa'Anna |
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Gerci O. Godoy |
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Gislaine Canales |
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Glória Marreiros |
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Heralda Víctor |
Cler Ruvver
São Pedro do Florido - Santo Antônio do Sudoeste – PR
SONHO BOM
Na prática de inventar estrelas, inventei você tão real - tão natural. Já tão sonhado. Nem tive a ousadia de sonhá-lo para mim. Apenas te sonhei da forma como é - homem para um coração de mulher. Não era preciso visualizar, mas visualizei o retrato da doçura, há muito tempo desenhada... E colorida com cores de alegria. E quem sabe até com a essência, de cada decepção, para contornar meu desenho e dar mais ênfase às coisas que acredito. Ei-lo aí, você, que já existia em mim. Acordou um sonho bom, por refletir-se tão bem nele. O sonho sensível que vivo acalentando, que me pede colo e não precisa chorar, porque a cada adormecer e a cada despertar, o maior carinho e o melhor sorriso, juntam-se para brindá-lo!
ABANDONO DA SAUDADE
Será que a tal saudade, é o mesmo que estou sentindo?
Toda essa falta medonha, que já não dá pra aguentar?
Ou será o sem você, que quer se multiplicar?
E o verdadeiro sentido, é conhecer o limite.
Dessa ausência tamanha, pedindo que acredite?
Então vou multiplicá-la, ao possível de aguentar.
Para da minha saudade, poder contigo falar.
Vou te contar bem certinho, todo o enredo da história...
De um amor que de mansinho, veio e ficou na memória.
Psiu... Preciso silêncio, para ouvir os seus passos...
Entrou aqui disfarçada, embrulhada em um abraço.
Sem querer fui hospedando... O amor foi se afastando...
E ela foi transformando, todo o meu peito em aço.
Meu coração atrevido, às vezes tenta bater...
Mas dá tremendo barulho, que é preciso conter.
Só ela, a velha saudade, pisa com passos macios.
Imitando a correnteza, entre as águas dos rios.
E o coração muito triste, já nem consegue cantar.
Poxa! Bem que poderia, ter me ouvido falar.
O grande amor quando vem, trás encantado do além.
Um lugar onde já tem, saudade para ficar.
Cler Ruvver

Daisy Maria Gonçalves Leite -
Brasil
Fim de Estrada
Chegamos ao fim da estrada ainda de mãos dadas. Com o coração cansado de tanto amar, sento a margem do caminho e com o olhar perdido no tempo e na distância, volto meu pensamento para o início desta caminhada. Lembro-me o que construímos juntos, as emoções conflitantes que nos atormentaram e os momentos especiais que nós vivemos. Parece-me ouvir tua risada quando dizias que eu sou como criança. Que atrapalho, mas faço falta. Será?! Como num filme revejo todos aqueles momentos, da nossa história, nos seus mínimos detalhes. Ouço as músicas que fizeram a trilha sonora deste filme. E tua voz pedindo: Canta pra mim. Canta! Engraçado: Tu és o cantor! Como as músicas eram ricas em poesia! Cheguei a pensar que a vida era cor-de-rosa. Ouvi ao telefone, na tua voz, os versos da canção que me prometestes. Mas, foi mais uma sinfonia inacabada nesta vida. Mais uma promessa que não se concretizou. Eu nada te prometi, mas depois daquele abraço e de uma voz que sussurrou ao meu ouvido: Estranho amor o nosso, na viagem de volta para casa, em pleno céu, bem pertinho das nuvens, escrevi os versos e ainda no aeroporto gravei no meu pequeno gravador, os versos e a melodia, do bolero: Estranho amor. Pergunto-me: Por que caminhamos tanto e não chegamos a lugar nenhum? Aí, me vem uma dúvida. Será que não chegamos? E o que junto realizamos?! Será que não valeu?!
Infelizmente, nem toda história de amor tem um final feliz!
Pergunto: O que seria no amor um final feliz?! Seria aquele amor que leva a uma relação tradicional; casamento, filhos, bodas de prata, ouro, diamante, "até que a morte os separe?" E se durante o transcorrer deste tempo o amor acabou? Se houve apenas uma tolerância, geralmente da parte da companheira para chegar até ai? Isto pode se chamar de final feliz?
Mas se um amor verdadeiro, imenso como o mar, infinito como o espaço, não pode se concretizar e os dois seguiram caminhos paralelos vivendo a vida que o destino lhes determinou, mas cientes de que o amor não passou e que continua a pulsar nos seus corações no mesmo ritmo desde que se encontraram pela primeira vez, mesmo amando pessoas outras que foram encontrando na sua caminhada ao longo da estrada da vida e com elas compartilhando seus momentos? Cada amor é único! Então, creio que neste caso, podemos dizer mais do que um final feliz. Este não teve fim. E esta visão eu tive no momento em que disseste que somos como dois espelhos. Sim.
Dois espelhos, um defronte do outro, geram uma imagem infinita (*) Artur da Távola Livro: DO AMOR, Ensaio de Enigma
Daisy Maria Gonçalves Leite

Donzilia martins
Paredes/ Portugal
"2 Novos tempos"
Novos tempos, novas vidas, meu eterno recordar
Saudades que vão ficando bem presas no meu olhar.
Lembrando os tempos de outrora!
Ai! Como a minh'alma chora.
Chora pela ingenuidade, pureza, simplicidade,
Pelos sorrisos cantados nos sonhos da mocidade,
Pelos vestidos de chita nos folhos a fazer roda,
Nos favos de mel bordados, encastrados no peitilho,
Pelos cabelos de seda enleados numa trança,
Pelo suspiro da noite, pelo feitiço da lua presa aos dedos da criança
Que tão feliz saltitava pelos caminhos voando!
Restauro dentro de mim a infância adormecida.
Desço a escada do tempo e, na tela que o prende à vida
Está a imagem doutro tempo, meio tonto a fingir
Como se fora um espelho! Olho-o para o colorir.
Ele treme de cansaço? Mas no meio da esperança
Pega o verso pendurado à minha trança?
E o tempo volta a sorrir.

Edilberto José Soares -
Rio de Janeiro
O GRANDE COMANDANTE
O grande comandante é aquele
Que combate o bom combate
Que transforma inimigo em amigo
Que não deixa pela metade
O grande comandante é aquele
Que vê todas as possibilidades
Que vê todas as potencialidades
Que desenvolve a sua comunidade
Semeando a prosperidade
O Grande comandante é aquele
Que acaba com a guerra
Que semeia a paz
Quando é tempo possível
Quando é tempo de paz
Todo tempo é possível
Todo tempo é de paz
Pois só tem paz
Quem faz a paz
O grande comandante é a paz

Eliana (Shir) Ellinger
Hazorea - Israel
NOVA ESTRADA
Numa tarde chuvosa,
escuras nuvens cobriam
o céu, pés descalços na terra
molhada, devagar eu caminhava.
Em cada poça que pisava,
era como que se fossem
as tristezas que sofri,
saudades se afogavam
abandonando o apego dos
que se afastaram de mim...
Era a chuva lavando-me
as feridas, silenciando meus
cálidos sentimentos
em quietude profunda que
avança no tempo...
A cada passo, a leveza me embalava,
nada mais me atormentava
se do passado esqueci!
Tornei-me livre, vazia,
perdida na incerteza de qual
atalho seguir,
retornar minha vida,
novos sonhos construir...
Não curvei-me vencida!
Deixei meu ego fluir,
de compasso em compasso
esculpi-me e dentre as brumas
surgi, requintada de amor para
a nova estrada sem as perdas que vivi...
Como é bom ter nos olhos a beleza
da vida, ouvir o canto dos pássaros,
entoar o som da natureza,
conduzir-me a vastos caminhos,
trilhas sem fim, ter as mãos abertas
para os que precisarem de mim.

Geraldo José Sant´Anna -
São José do Rio Preto/SP
O ESPELHO
Olhando hoje no espelho vejo o quanto envelheci. Meus Deus!, clamo num sussurro incontido. Apalpo meu rosto delineado por rugas que se acumularam ao longo do tempo. Não havia as percebido com a intensidade que as vejo agora. Os cabelos brancos desalinhados, despenteados, rebelando-se a figura que se apresenta ali desenhada. Ainda ontem estava provando meu vestido de menina. Caminhando com graça e repleta de expectativas. Tantos sonhos modelados e tantas desilusões que se enfileiraram dia a dia, aguardando apenas sua vez de se anunciar.
Família rica? De forma alguma. Mamãe passara um bom tempo dedicando-se à família, depois decidiu que queria conquistar o mundo. Gostava de cantar, de dançar, de escrever versos. Uma artista. Acordamos uma manhã sem ela. Apenas um bilhete para meu pai que em seu silêncio nos sustentou. Era possível ver em alguns momentos uma lágrima que rompia a fortaleza e se apinchava resoluta denunciando sua dor e seu amor por aquela que o abandonara. Ele não se casou. Talvez o sofrimento tenha sido similar a uma espécie de ferrugem que o foi corroendo lentamente até comprometer sua vida. Definhou e morreu.
Assumi o desafio de viver sozinha. Muitos erros e muitos acertos. Caixa de mercado, atendente de loja de tecidos, faxineira de um Banco. No Banco passei a ser sistematicamente assediada pelo gerente, Felipe Jeremias. Acabei cedendo. Dali a gravidez. Totalmente indesejada. Relutei aceitá-la. Relutei mantê-la. Mas nasceu Robertson. A transferência de gerência me trouxe paz e ódio. Naturalmente Felipe não assumiu a paternidade. O olhar de Robertson me encorajava. Havia se tornado o objetivo, minha razão de existir.
Busquei de todas as formas oferecer o melhor a ele. Desdobrava-me. Pude ampliar meu salário mudando de trabalho. Na verdade o mesmo trabalho, mas em outro lugar. Um hotel de luxo, com contatos internacionais.
Naquela época não tinha essa aparência. Era jovem, bela, atraente. Cabelos negros e olhar profundo. Os olhos de Robertson são os meus olhos. Lembro-me de quando o levava para a escola, uniforme, lancheira e sua maleta sempre muito organizada. Muitas vezes ele se lamentou da ausência do pai, em especial nas datas onde as famílias se reuniam na escola ou nos momentos em que o foco era os pais dos alunos. Dia dos Pais, por exemplo. Nesses momentos ele se mantinha isolado, sentindo-se excluído e até culpado por não poder entregar um presente e receber um abraço. Para amenizar a dor dele reforçava que havia morrido, que estava com Deus. Esse meu descuido fez dele um ateu convicto. Se Deus o fazia sofrer não merecia sua atenção.
O sonho de Robertson era tornar-se médico. Empenhava-se para isso. Estudava muito. Na realidade vivia para o estudo. Acumulou desde pequeno vários certificados de Honra ao Mérito e medalhas que se traduziam em grande orgulho, em especial, para mim.
Aos poucos ele conseguiu contornar os obstáculos naturais de um menino pobre que alimentava um grande sonho. Na faculdade conheceu Lídia, que também cursava Medicina, e houve uma sintonia muito grande entre ambos. Lídia era de família abastada. Apaixonou-se por Robertson. Por ele e não por mim. Eu era uma faxineira e não tinha espaço nos ambientes que frequentavam. Gradualmente meu filho se afastou. Surgia para me entregar o boleto a ser pago, a relação de livros a ser comprada, a roupa o sapato que necessitava. Percebi que se envergonhava de mim e do meu trabalho. Eu o compreendia, embora sofresse.
No dia da formatura procurei colocar o melhor vestido, fazer-me bela para comemorar aquela conquista. O salão era luxuoso. Homens de terno e mulheres com jóias caríssimas, contracenando com minhas parcas bijuterias. Robertson olhou-me com surpresa e puxou-me a um canto indagando o que eu fazia ali. Perguntou-me como ficaria sua reputação se soubessem de quem era filho. Disse saber como eu havia conseguido cada centavo. Pediu que eu me retirasse discretamente.
Entendi. O dinheiro da faxina sempre havia sido insuficiente. Minha beleza permitia ganhar mais diante da oferta de alguns hóspedes que generosamente propunham uma noite com eles. Confesso que realmente aceitei. Uma, duas, muitas vezes. Cada boleto, cada obra, cada necessidade de Robertson foi atendida. Estava ali agora, sorrindo e celebrando algo que acalentava desde moleque.
Há anos não o vejo. Nunca mais me procurou. Deve estar envolvido com muitas clientes, plantões e outros cursos. Sempre fora estudioso. Não iria se contentar em parar por ali.
Estou aqui agora diante do espelho com o qual converso cada dia. Ele me ouve e compreende minha amargura. Não me condena, não questiona. Apenas me observa. Ele acompanhou meu declínio, testemunhando o surgimento de cada ruga, de cada cabelo branco que despontava. Talvez tenha sido acusador algumas vezes e insensível, pois nunca enxugou minhas lágrimas. Ficou apenas olhando-as caírem.
Sinto meu coração fraquejar, estou trêmula e cansada. Creio que agora irá presenciar minha morte. Morte! Talvez eu tenha morrido há muito tempo, somente não tenha dado conta disso. É provável que eu tenha morrido com a fuga de minha mãe, com a dor de meu pai ou o descaso de Robertson. Talvez tenha morrido quando abandonei a mim mesma.
Minha imagem está cada vez mais embaçada, nublada. Será que foi sempre assim?
Geraldo José Sant´Anna

Gerci Oliveira Godoy -
Porto Alegre RS/BR
RETRATO EM PRETO E BRANCO
que importa a idade das flores
perfumes matizes nomes?
são contratos de lembranças
vigentes em fases várias
por vezes tão diminutas
se agigantam, se engalanam
subindo degraus de pedra
paredes de sentimento
Sempre-vivas de papel
farfalham por entretantos
em meio à rezas e prantos
das capelas redivivas

Gislaine Canales
Balneário Camboriú - SC
Glosando Cidoca da Silva Velho
OUTONO DE SONHOS
MOTE:
Folhas mortas, no abandono,
numa tarde esmaecida,
vêm lembrar o triste outono
dos sonhos de minha vida.
Folhas mortas, no abandono,
rolando pelas calçadas
parecem noites sem sono
chorando nas madrugadas!
Tudo se torna tão triste
numa tarde esmaecida,
parece que nada existe,
que nem existe mais vida!
As tardes papel carbono
da minha desilusão,
vêm lembrar o triste outono
que chega ao meu coração!
Sigo só em meu caminho
com a esperança perdida,
com saudades do carinho
dos sonhos de minha vida.
Gislaine Canales

Glória Marreiros -
Portimão
O CANÁRIO CANTOR
Tudo era maravilhoso nos jardins do rei, que exibiam as flores mais raras, e as que mais se distinguiam pela sua beleza tinham campainhas douradas, que chamavam a atenção de quem tinha a rara oportunidade de os visitar. Estendiam-se até lá longe, à floresta de grandes árvores e lagos azuis. Um batalhão de jardineiros cuidava diariamente daquela maravilha, prestando especial atenção às sebes de alecrim, que rodeavam os canteiros de flores e deviam manter-se aparadas, para conservarem o seu papel de paredes protetoras dos quentes ventos do sul. Rosas, havia-as de todas as cores e matizes, de modo que, quem conseguisse ver o jardim de um ponto alto, julgava estar perante um magnífico tapete bordado. Caramanchões e grandes árvores frondosas ofereciam uma sombra amena aos que se sentassem nos bancos de pedra situados por debaixo. Esta jóia real subia ligeiramente, desde a floresta até ao sumptuoso palácio, todo em mármore branco e rosa, coroado de inclinados telhados pretos, que, vistos de longe, se assemelhavam a estranhos chapéus. Múltiplos caminhos cobertos de areão ruivo se cruzavam e bordejavam os canteiros, para que os membros da corte por eles passeassem nos fins de tarde, quando não havia chuva nem ventania. Quantos amores não começaram ali, naqueles bancos de pedra, protegidos do calor do sol!... Quantos outros amores não se viram ali terminados, entre as lágrimas de tristeza das jovens damas, para quem casar era a única forma de fugir ao férreo poder paterno!...
Nos ramos das árvores habitavam milhares de pássaros das mais variegadas espécies, que andavam de dia à cata de insectos ou sementes e dormiam de noite no tranquilo acolhimento dos troncos e folhas. Uns cantavam, outros não. Todos, porém, mostravam, envaidecidos, as lindas cores da sua plumagem. Entre esta passarada, vivia um canário que cantava tão bem, que as pessoas não podiam deixar de parar e ficar a escutá-lo. Os seus trinados, melodiosos e variados, subiam os jardins e chegavam ao palácio. O rei, quando terminava o trabalho diário e ia para o seu quarto, virado para o jardim, deitava-se na cama de dossel de brocado de Istambul, sobre a colcha de seda da China, com a janela aberta e relaxava a tensão dos seus afazeres, ouvindo o estranho canto do passarinho, como se estivesse no Paraíso.
A fama do canário, como se fosse uma simples lenda, passou para fora do palácio e em breve altos dignitários do reino começaram a vir à capital para visitarem os jardins reais e, de regresso às suas terras, falavam da cidade, do palácio e dos jardins, sem esquecer o maravilhoso cantar do canário. Não tardou que se falasse do estranho caso também fora dos limites do reino e, então, o rei passou a receber os outros monarcas vizinhos, que o enchiam de honrarias e riquezas. Não demorou muito que reis e imperadores do oriente, de África e dos confins da Ásia mandassem os seus embaixadores para obter um convite. Cavalos, camelos e carruagens douradas passaram a cruzar as estradas do reino e a desenvolver as regiões, porque as estalagens e o comércio local passaram a vender mais e muitos novos empregos foram criados. A agricultura teve de se esforçar para satisfazer as necessidades de uma crescente população de visitantes; ferradores e carpinteiros de carruagens tinham mais trabalho e contrataram mais empregados; aumentou a criação de gado para a produção de carne; os barcos de pesca viram o seu número ampliado, como também o seu tamanho, pois as costas do reino eram abundantes em peixe; nas estalagens precisavam de carregadores para os baús e de pessoal para servir; as mudas de cavalos não tinham mãos a medir, porque os animais chegavam cansados, era necessário ter outros para os substituir e tratar dos que ficavam. Era notório o desenvolvimento do reino e o próprio povo estava a viver melhor; lojistas, camponeses, pescadores, tecelões, sapateiros, etc., pareciam mais felizes.
Toda esta gente ignorava que o canário cantor estava na origem das novas riquezas e do aumento do trabalho. Talvez até nem o rei tivesse alguma vez pensado nisso, assoberbado que estava em receber reis, imperadores e altos fidalgos, em realizar banquetes e bailes de receção; mas o primeiro-ministro e o ministro das finanças sabiam-no. Viam o ouro entrar diariamente nos cofres do Estado. Eram os impostos dos vassalos, principalmente daqueles que tinham feito fortuna rapidamente, das taxas de passagem pelas estradas e pontes, bem como as ofertas magnânimas dos visitantes ilustres de outras paragens do planeta.
Majestade, disse o primeiro-ministro numa das sessões semanais de trabalho com o rei, o país está a enriquecer a olhos vistos, o povo está mais contente com a sua vida e satisfeito com as festas que vossa majestade oferece todos os domingos.
Isso é bom, meu amigo! Muito bom! A obrigação dum monarca é tornar o seu povo feliz.
Isso é a pura das verdades, Majestade. Quis Deus dar-nos essa oportunidade e vossa Majestade, com a nossa modesta ajuda, soube aproveitá-la.
Bem gostaria de saber o que diriam os meus antepassados pelo que eu fiz por estas terras pobres, que me deixaram em herança? O rei lembrou-se, principalmente, do seu pai, que tinha passado a vida a divertir-se com a caça ao javali e ao veado, durante o dia, e nos banquetes e bailes da corte, à noite.
Senhor, interrompeu o primeiro-ministro. Falo-vos nisto com o coração cheio de alegria, porque também me sinto feliz pela pequena parte da minha colaboração, no desenvolvimento do reino e no bem-estar do povo; mas minha alma está triste e tenho andado com uma grande preocupação. Na verdade, o povo diz que «não há bem que sempre dure e mal que se não ature». Deus pode cansar-se de ajudar esta terra?
E por que havia Deus de cansar-se?
Senhor, o outro coçava a barba já branqueada e havia uma sombra nos seus olhos. A Bíblia está cheia de exemplos desses.
Não creio que tenha ofendido a Deus, para me castigar duramente.
Senhor, há dias, tive um terrível pesadelo, de que acordei todo cheio de suores frios. Lembrei-me dos estranhos sonhos do Faraó, no antigo Egito, que foram descodificados por José.
Um pesadelo? O monarca não entendia onde ele queria chegar.
Sabeis bem, Majestade, que o que enriqueceu este país e que todo o desenvolvimento económico assenta num pássaro, naquele lindo canário de canto celestial.
E daí?
Pois sonhei que o pássaro tinha fugido dos jardins. Tinha desaparecido.
De um salto, o rei estava de pé. Assustado. Terrivelmente assustado. Tal ideia nunca lhe havia passado pela cabeça e a incerteza de um possível desastre no futuro causava-lhe um desconfortável aperto no coração, enquanto bagas de suor lhe escorriam pelas têmporas.
Não! Exclamou.
O primeiro-ministro não retorquiu. Continuava a passar os dedos emagrecidos pela barba, como se isso o acalmasse. Olhava simplesmente o rei, a quem servia há muitos anos, com a fidelidade e a admiração dum cachorro.
Isso é grave. Muito grave. Como vamos conseguir que tal não aconteça?
Majestade, se me permitis, dir-vos-ei que tenho meditado no assunto e me parece melhor apanhar o canário e metê-lo numa gaiola, para nunca poder fugir.
Muito acertada ideia, sim senhor! Precisamos prendê-lo, antes que se lembre de abalar para outras banda, quem sabe à procura de uma fêmea diferente das existem nestes jardins. Um bicho não é coisa em que a gente se fie e seria a maior das desgraças se este país perdesse a mola do seu desenvolvimento. Que seria de nós? Que seria do povo?
Sinto-me lisonjeado, Senhor, por ter chegado a esta conclusão, que vos agrada. O primeiro-ministro parecia ter perdido o tom amarelado da pele do rosto. Que quereis que eu faça?
Mandai vir à minha presença o chefe dos jardineiros!
O rei mandou entrar o seu secretário, que vinha acompanhado pelo responsável máximo dos jardins, viu-os aproximarem-se da sua grande mesa de trabalho, inclinar-se numa reverência e esperar de pé, na sua frente e do outro lado do móvel de madeira exótica. Acabou de escrever o que tinha interrompido e pousando a pena de pato aparada, dirigiu-se ao jardineiro:
Julgo que é a primeira vez que lhe falo?
É verdade, Majestade. Eu vejo-vos muitas vezes passeando nos jardins. O homem falou sem se atrapalhar, demonstrando o hábito de falar com o pessoal da corte, que, em geral, lhe gabava o trabalho e trocava com ele curtas conversas sobre as flores. Dada a sua posição, não apresentava aspeto de trabalhador. Embora, os sapatos fossem umas botifarras grossas e feias, as calças e a camisa estavam limpas de nódoas e de terra. Segurava o gorro de lã com as duas mãos e isso dava-lhe um maior à-vontade.
Pois quero aproveitar esta rara ocasião para lhe dizer que estou muito satisfeito com o seu trabalho. Adoro rosas e todos os dias as tenho, frescas, na minha mesa de trabalho.
Muito agradecido, Majestade! O jardineiro tornou a inclinar-se.
O rei olhou para a jarra de prata cinzelada, que continha um enorme ramo de rosas amarelas. Todos os dias a cor das flores mudava, para se tornar sempre novidade. Gostava que elas fossem sempre todas da mesma cor. Tornou a fitar o homem e disse:
Agora, vamos ao motivo por que o chamei aqui! Já viu o canário cantor dos nossos jardins?
Saiba vossa Majestade que o vi algumas vezes e o ouço todos dias, como toda a gente.
Pois quero que o apanhe e o meta numa gaiola. Não mande fazer isso a ninguém! Trate o bicho com muito cuidado, para não o magoar! Depois, venha entregar a gaiola a este senhor! Apontou o servidor, que se mantivera calado durante todo o tempo. É o senhor Secretário. Entrega a gaiola apenas a ele e pessoalmente. Entendeu? Só? a? e-le? e? pe-sso-al-men-te! A mais ninguém. Seja a quem for. Entendeu?
Entendi perfeitamente, Majestade. Entrego a gaiola, pessoalmente, ao senhor Secretário. Terei de apanhar o pássaro de noite, quando estiver a dormir, que é quando ele não reage.
O encarregado não era um simples trabalhador, mas um homem com estudos em botânica, geometria e um pouco em matemática. Estudara arte e conhecia muitas obras antigas. Sabia, portanto, que devia ser importante o que ia fazer e qual a sua responsabilidade no cabal cumprimento da ordem régia.
O canário, preso numa vulgar gaiola de arame, como se de um perigoso cadastrado, penalizado pela justiça dos homens se tratasse, permaneceu no aposento de trabalho do rei durante alguns dias, enquanto foram encomendar a um ourives uma linda e grande gaiola de arame de ouro, assente numa base do mesmo metal. O rei, achando que a preciosa ave merecia uma casa tão bela quanto o seu valor, exigiu que fosse uma verdadeira obra de arte, que a humanidade viesse a recordar durante séculos e séculos. Assim os visitantes, além de poderem deliciar os ouvidos com o canto mavioso do pássaro, podiam também maravilhar os olhos com a esplêndida gaiola de ouro.
Quando o monarca se sentia fatigado do trabalho, levantava-se e ia dar uma espreitadela ao animal que, no poleiro de pau, parecia olhar o seu novo mundo como se de outro planeta tivesse vindo. Afinal, até não lhe encontrava uma beleza que rivalizasse com a sua voz. Nem nas penas, nem na cor. Vira já canários lindos, de variegadas cores e tons, e aquele cantor, de trinado divino, tinha bastantes parecenças com um vulgar pardal de telhado.
Desde que aqui está, não tornou a cantar. Disse para o primeiro-ministro, muito preocupado.
O zeloso governante encontrava-se igualmente preocupado, mas procurou não assustar o monarca, retorquindo:
É natural que estranhe a sua nova moradia. Deve ser por pouco tempo. No entanto, sabia que a infausta notícia de que o canário cantor perdera o pio já tinha saído dos limites territoriais do palácio e dos seus jardins. Isso não augurava nada de bom para os interesses do reino.
Ao mesmo tempo que se aguardava a conclusão do trabalho do ourives, vários operários afanavam-se para erguer um camaranchão, onde a preciosa gaiola viesse a ser colocada, vista e apreciada por todos. Feita em finas colunas de mármore, a obra ficava situada por detrás do palácio, na parte final e mais alta dos jardins, podendo, portanto, ser vista de todos os caminhos e canteiros floridos, bem como das quase cem janelas das traseiras do grande edifício. Ali, rodeado de verdura e de flores, o pássaro sentir-se-ia como no seu anterior ambiente.
Agora, os cortesãos, quando iam passear para os jardins, demoravam-se um pouco a verificar o estado do andamento da construção do caramanchão, porque viviam todos sob uma tensão enorme. Havia necessidade de terminar a obra, para restituir ao canário cantor o seu ambiente natural, já que, depois, ele certamente voltaria a cantar.
O ato de inauguração foi uma grande festa. Os duzentos cortesãos, damas e cavalheiros, vestidos com as finas sedas e rendas que os cofres do reino lhes proporcionavam, aglomeravam-se junto ao caramanchão, onde tinha sido colocada a áurea gaiola. Por detrás desta mole de gente fina, a banda, com fardas em azul e vermelho e os reluzentes instrumentos de sopro, esperava a chegada do rei para começar a tocar. O Governo também estava presente.
Finda a cerimónia, ficaram de guarda dois soldados, que seriam alternados, de modo a não abandonar o seu posto, nas vinte e quatro horas.
Dois dias passaram e o rei continuava triste.
O canário não canta. Lamentou-se para o primeiro-ministro, incapaz de realizar as suas tarefas.
Não sei que faça, Majestade. Também ele tinha tristeza na voz e no semblante. Será que Deus se esqueceu de nós?
Não sei. Não sei.
Senhor, estou muito preocupado com o futuro.
Tinha razão o primeiro-ministro no seu negro agoiro. Com efeito, no dia seguinte, subiu custosamente a ampla escadaria de mármore, que dava acesso ao largo portão dourado do palácio, acenou com a mão aos porteiros e esperou, no magnífico átrio, que fossem chamar o secretário do rei. Era sempre este que o conduzia ao gabinete de trabalho real e o anunciava ao monarca, antes de lhe ser permitida a entrada.
Majestade! O primeiro-ministro ficou de pé, frente ao rei, com a papelada na mão esquerda, e inclinou a cabeça, onde a cabeleira esbranquiçada já rareava.
O monarca sentiu um arrepio nas costas e teve um mau pressentimento. O rosto do governante estava da cor da cinza e os olhos eram baços, como os do algoz, que espera o condenado em cima do patíbulo.
O canário morreu. Disse ele.
BRAILLE
Vem ter comigo, à noite, à minha cama
e lê o meu poema, em seu festim!
Apazigua o brilho que há em mim,
incendiando o corpo, em minha chama.
O sol dum grande amor sempre derrama
inconfundível paz que não tem fim,
é como o paraíso dum jardim,
onde o néctar transcende a sua fama.
Depois, dança comigo a valsa eterna
e purifica o vinho da cisterna
que embriaga de amor o nosso baile!
E, se o facho da luz te deixar cego,
meu amor, acredita, não te nego
o prazer da leitura feita em braille.
Glória Marreiros

Heralda Victor
Florianópolis - SC- Brasil
Tão lindo
Na cálida lembrança
O cheiro da manhã
No hálito da flor
Entrando na janela
Como a vida é bela!
Ao longe
O sol se pondo
Um riso de criança
O ulular do vento
A folha que balança
A lua encantada
Quanto esplendor!
O desabrochar da flor
Os pássaros em revoada
Quando a tarde finda
A fonte murmurando
O mar que não se cansa
Um anjo entre as nuvens
Quanta coisa linda...
Porém,
Mais belo ainda
É ouvir o teu cantar
É não pensar no adeus
É contemplar os céus
Olhando o infinito
No azul dos olhos teus.
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