Portal CEN - "Cá Estamos Nós"

Revista Novos Tempos

Junho -2013

Quarto Bloco

  João Bosco Soares Santos

  João Pereira Correia Furtado

  João Roberto Cônsoli     

  José Hilton Rosa

  Lucia Maria Chataignier de Arruda

  Lúcio Reis

  Luiz Poeta

 

 

João Bosco Soares Santos
Salvador - BA - Brasil


AFETO E TERNURA


O afeto, a ternura, o carinho e até mesmo o amor, neste instante social globalizado, estão a emitir sinais de hibernação, estagnação, decadência, e, ao que parece, até mesmo de extinção, entre avôs e netos, entre irmãos e até entre pais e filhos.
Os outros laços familiares já estão se esgarçando, atormentados, fustigados e quase sendo separados pela pressa do dia-a-dia, pela intraquilidade e pela ansiedade dominantes no cotidiano vivencial.
Os avôs e alguns pais, talvez porque tendem a morrer antes dos filhos ou a serem estimulados e até forçados a isolarem-se nas solidões dos asilos, partem de seus lares, levando em seus âmagos seus imensos, amplos e generalizados universos de ternura, afeto, carinho e paciência, arquivando-os e fechando-os em inúteis e até imaginárias urnas, por pouco virem sendo utilizados.
Apartados dos filhos, e cada vez mais distantes dos netos, os avôs, como as ovelhas melhores, mais nutridas e mais vividas, vão-se indo de seus rebanhos, quase à força, para o tonto e arrasador torvelinho da cadeia universal alimentar, a diminuírem-se, a esvaírem-se, a transmudarem-se e a transformarem-se em simples elementos nutritivos, afogando restículos, réstias, centelhas e até de espumas ou sombras de sonhos, ao tempo em que eles se vêem desgastando pelos degraus e estradas de vida.
As gerações que vão surgindo, quase desprovidas dessas belas, ternas e confortativas ligações, e, cada vez mais, a alienarem-se pelas confusas e quase sempre depressivas contingências sociais, já não dispõe condições, energias ou vontade de as ampliarem ou de as regenerarem, e, muito menos, de as estimularem, com cuidado, em quaisquer dos seus fios, vertentes ou aromas de ternura, afeto ou carinho, para as espalharem como semente.
A mídia universalizada e desumanizante, oral, escrita e visual, quando não pode destruir nem envenenar os já frágeis laços familiares, constrói-lhes espessas, múltiplas e grotescas capas isoladoras, na audaciosa, cega, muda, apagada, estranguladora e avassaladora onda de perturbação e destruição dos mais basilares e sagrados princípios constituidores e zeladores da família cristã, moral e ética brasileira.
Os problemas vivenciais avolumam-se; as preocupações da atualidade social ampliam-se em profundidade, volume e extensão; o tempo disponível para uma prazerosa, relaxante ou construtiva conversa fica menos longo e mais apertado; as oportunidades de demonstrações de amor e de solidariedade vão-se arquivando e se esvaindo; e os temas para conversas e discussões ficam cada mais desumanos, medíocres, repetitivos, corriqueiros, coisificados e coisificantes, e sem quaisquer graça ou interesse edificador.
Com reduzido tempo, desestimulados por falta de oportunidades e de bons exemplos, as pessoas, principalmente os jovens, dispersam-se física, mental, intelectual e até imaginariamente, atordoadas e apressadas pelas crescentes dificuldades, perturbadoras e atravancadoras de suas capacidades de discernir, de decidir e de poder querer, com solta liberdade, a sempre seguir em busca das melhores e mais acertadas e positivas escolhas.
E, a flutuarem nas ondas e espaços de algumas não-felizes decisões, as pessoas tendem a ficar mais frágeis, menos preparada e menos condicionadas para tomarem oportunas, precisas e sincronizadas decisões a favor dos seus sonhos, idéias e ideais, em palavras, ações e atitudes.
E assim, tendem, com a maior das probabilidades, a seguir somente pelas trilhas menos queridas, e a se atirarem para a desumana banda do materialismo e da automação imbecil e a reduzirem-se ou a transformarem-se apenas numa velha e ultrapassada máquina, desprovida de coração e de razão, e quase voltando a ser simples matéria de nutrição ciclal, prontíssima para continuarem, precocemente e desesperadamente, o ciclo vicioso e fatal da natureza, humanamente mortas e apenas vivas como eternas matérias siderais, em seu eterno bailado cósmico.

 

***

 

PAI.

Que homem é esse que no calor ou frio,
Quer seja na fartura, quer seja no estio,
Sempre adoça o amargo e suaviza o sofrer,
Com a mais robusta força do seu querer?

Quem é o homem que sempre está presente,
Quer com seu corpo, sua alma e seu afeto,
Que como um deus, sempre onisciente,
Jamais se ausenta do filho tão dileto?/

Esse homem-amor; esse homem-compaixão,
Sempre repleto de carícias, ternura e afeição,
Em total bondade; e na mais inteira perfeição,
Transborda-se de lealdade, alegria e emoção.

É o pai; um gigante indomável,
Que na hora e no instante decisivo
Defende o filho de qualquer perigo,
Numa garra de fúria insuperável.

Só pode ser o pai; o homem responsável,
Que gerou, no instante mais intenso,
O filho-fruto de um amor inesgotável,
O produto-vida de um amor imenso.

 

João Bosco dos Santos

 

 

João Pereira Correia Furtado
Praia / Cabo Verde


ÁFRICA

Minha África, eu quero escrever sobre ti
Falar do teu tambor a tocar
Ritmo frenético
Da tua luxuria
E do teu Calor
Mas falta-me inspiração
E limito-me a ler
A ler tua história
O Egipto secular
E o Reino do Mali
Quero escrever África
Quero imaginar que sou poeta
E fazer um poema sobre ti
Mas não consigo
Já li sobre o Deserto de Saara
E sobre o reino do Congo
Cansado espreitei a televisão
Quero escrever sobre a tua beleza
Mas da televisão
Só vem noticias...
Sobre a guerra e Golpes de Estado
E tu és muito mais que isto
Não sei como te escrever África
Quero falar do teu amor
Da Afrodite
Mas de ti, só se fala da fome
E tens riquezas
Tens tua fauna e tua flora
África, desculpa-me,
Não consigo escrever sobre ti
Mas tenho a certeza
Vai aparecer alguém
Alguém inspirado e poeta
Para escrever desde o nascer do sol
Até o acaso da tua riqueza e da tua beleza
Minha África Misteriosa!

João Furtado

 


 

João Roberto Cônsoli
Belo Horizonte - MG - Brasil


A casa
 
A porta abriu-se!
Um vento sorrateiro
Levantou a poeira do assoalho,
Para a sujidade das paredes,
Que abandonadas,
Gemiam nos seus cantos...
 
Lembravam histórias
De antigamente:
Às vezes sorriam,
Às vezes choravam,
Muitas vezes calavam-se...
 
Lá fora, a morte anunciada:
A escavadeira a postos!
A porta fechou-se atrás de mim...
Logo, a agonia das paredes,
O desmantelamento
Das lembranças,
Transformadas em entulhos.

 

João Roberto Cônsoli
 

 

 

José Hilton Rosa
Belo Horizonte - MG- Brasil

Silencio

No silencio da noite, só
rolando na cama, pensando
o calor no meu corpo, molha meu rosto
somente sua voz, me lembro
amargurado com a ausência, infinita
um jogo de amor que já perdi, sempre só
aproveito o dia quente para viajar
chegar em um lugar para tentar me curar
volto e fico como parti, sem a sua presença
somente o seu silencio me domina
 

 


Lucia Maria Chataignier de Arruda
Rio de Janeiro


HISTÓRIAS DE METRO - QUINZE MINUTOS DE FAMA 


Quinze minutos é o período que leva da estação Cinelândia, até a estação em que eu salto, para ir ao trabalho. Já há algum tempo, venho observando uma mulher que entra no mesmo vagão que eu e senta-se no primeiro banco, desses que andam de costas.  Se o lugar está ocupado, ela fica por ali mesmo, em pé.
Comecei a prestar atenção nela a partir de um pequeno detalhe: uma discreta tatuagem no seu tornozelo esquerdo, um MM.  Comecei a imaginar se seria o seu nome ou o do namorado, ou, quem sabe? Dos dois.  Presa a este detalhe, não atentei para o resto da pessoa.  Apenas uma olhadela geral.  Tenho estado muito cansada, e por conta disso não acho ocasião para organizar minha vida.  Nem mesmo minha agenda está em dia, como eu fazia antes.  Tenho que espremer os horários para marcar dentista, depilação, falar com o gerente do meu banco...
Um dia, por acaso, sentamos lado a lado. Eu e ela. Arrisquei uma olhadela e percebi seus traços finos, sua boca pintada de vermelho, seus cabelos louros, curtos, mas cheios.  Engraçado, ela me lembrava  alguém, mas não sei exatamente quem.  Talvez eu já a tenha visto na rua, ou quem sabe? Na minha loja, comprando alguma coisa...
Afinal, depois de tanto tempo, consegui me organizar.  Estou cheia de espaços vazios: uma horinha inteira entre o acordar e o entrar no batente.  E o horário do almoço que, cá entre nós, é bem generoso.  Uma hora?  Uma hora dá pra comer, fazer umas comprinhas e até tirar uma soneca lá na salinha dos arquivos.  Todo o mundo faz isso.  É verdade que é quente pra caramba, mas às vezes, vale à pena.
O gerente anda dando mole pra mim, mas acho que ele é casado.  Roubada.  Não vou entrar nessa de novo.  Já chega o Claudinho.  Nem quero me lembrar do Claudinho!  Só falava que estava pra separar, que a mulher era doente, essas baboseiras, e cráu!  Teve mais um filho com ela. Depois teve aquele fornecedor da loja.  Uma gracinha.  Caseiro, solteiro, loirinho e estrangeiro.  Me amarro num estrangeiro!  Declaração de amor em sotaque, é o máximo!  Até hoje me arrepio, com o “Ai, Maria” que ele gritava quando a gente transava.  E eu nem me chamo Maria.  Depois fui descobrir que Maria era a mãe dele.  Safado!  Gostava mais das caridades da mãe, que do meu foguinho.
Queria achar um cara bonitão, de bundinha arrebitada, cheio de versos, bom de cama e gosto de samba.  Tá difícil!  Também, que ninguém nos ouça, sou meio que feinha.  Queria ter peitão e bundão.  Não demais, mas um pouquinho, pelo menos.  Sou encardida de pele, cabelo ruim, baixinha.  Faço tudo pra parecer mais alta, mas não tem jeito.  Fico ridícula naqueles saltões.  É como a Fátima me disse: você tem que achar o seu tipo próprio e explorar ao máximo.  Mas que porra de tipo tenho eu?
Por falar em Fátima, hoje vamos direto da loja pro happy hour da Goiaba’s Grill.  A gente entra antes das sete e não paga nada.  Só se beber, mas aí sempre tem uns carinhas que pagam pra gente.  Do jeito que estamos duras, temos que aproveitar o bufê.  Enchemos a pança e agüentamos uns amassos.  Se tiver algum cara que não esteja bêbado, nós saímos.  Sempre em dupla, porque hoje em dia o mar não tá pra peixe.  Só dá tarado.  Não que eu seja santinha.  Nem ela.  Mas a gente tem que selecionar os que podem dar fruto e os que são bagaços.  Que nem os caroços que entram na loja só pra xeretar os preços e não comprar nada.  Foi assim que eu conheci o Pudim.  Era engraçado, ele.  Me fazia rir, coitado!  Mas ele era gordo demais e todo mole.  Quando tirou a roupa, foi um desastre.  Além da barriguinha gorda e branquinha, ele usava cueca de bolinhas.  Não consegui.  Mas acabamos nos tornando ótimos amigos.
A Fátima é useira e vezeira de fazer isso de filar comida.  Quando não tem nada em casa e não está a fim de encarar os homens, vai pros lançamentos e coquetéis.  É só isso mesmo que ela olha nas programações culturais: onde vai ter boca livre, ela aparece.  Não critico não.  Também faço isso.  Mas o que eu queria mesmo é ter, pelo menos, quinze minutos de fama!  Encontrar um americano que me achasse linda, me enchesse de presentes e me levasse pros States.  Mas tá difícil!  Se ao menos eu fosse igual àquela dona do metrô!  Ela sim, é bonitona, tem porte!  E tem a tatuagem dela.  Quem tatua, tem dono.  Eu não tenho nada disso.  Que merda de vida!
Estava pensando: se eu achar uma roupa mais chamativa, posso comprar um daqueles sutiãs com enchimento e parecer mais favorecida. Não tenho grana mesmo, pra botar silicone!... Agora, até calcinha com bunda falsa, já existe.  Só vai faltar o lance do cabelo.  Posso juntar uma grana e comprar uma peruca. Louraça.  Que nem aquela da novela.  Quero ser chamada de loura azeda!  Vai ser o máximo!  Eu, Rosicleide, uma louraça!  Nossa, até me arrepio toda!
Como se não bastasse, entra no metro, a tal.  Hoje ela está diferente.  Tá com o cabelo meio solto, desajeitadamente penteado.  Cara!  Ela está de vestido decotadão, saia esvoaçante branca, de musseline.  Filha da puta!  Ninguém vai notar minha peruca e meus enchimentos!  Eu juro que já vi a cara dela antes, mas não sei aonde!  Vamos ver: temos quinze minutos pra apostar que homem vai sentar ao nosso lado.  Nós duas estamos sozinhas, sem ninguém ao lado. 
Sabia!  Sentou um cara ao lado dela.
Hoje é sexta-feira.  O gerente me convidou pra sair.  Achei que seria uma boa, porque há muito tempo não faço programas legais. A Fátima se vira.  O problema é que eu vou ter que me mirabolar pra mostrar que eu não tenho todos aqueles contornos que eu venho fazendo crer.  Dane-se: na hora a gente se entende.
Fomos ao cinema.  Ele é do tipo que gosta de filme antigo, preto e branco.  Foi até legal, a história, mas sou capaz de jurar que eu já tinha visto aquela artista.  “O Pecado Mora ao Lado”.  Gostei. Depois fomos jantar.  Não estou realmente acostumada a essas cortesias.  Engraçado que eu não tinha a menor noção sobre o gerente.  Ele sempre chega um pouco depois de mim.  Eu abro a loja.  Isso ficou acertado desde o tempo da Marialva, a outra gerente.  O resto das meninas só chega às nove em ponto.  Fátima, que é enrolada, sempre atrasa, mas ele não se incomoda, é gente boa.  Mas voltando ao gerente.  Besteira ficar falando “gerente”, ele se chama Mário. Mário Matoso.  Engraçado, ele não tem nada a ver com o perfil de gerente.  É tão fino!  Depois do jantar me levou em casa e nem mostrou intenções de entrar ou tomar mais um cafezinho.  Gentil.  Na verdade, eu fique é bolada.  Será que ele só quer amizade?
A loura azeda hoje estava carregando uma caixa de instrumento.  Deve ser um cavaquinho ou coisa que o valha.  Ela sempre usa saltão.
Hoje o Mário me convidou de novo pra sair.  Acho que desta vez ele toma uma decisão.  Preciso me afastar desses programas da Fátima.  Vou acabar ficando solteirona.  Esses carinhas da happy hour não são de nada.  É quentinha para uma noite e olhe lá.
Nove horas e ele não apareceu.  Estou puta!  Vou sair.  Será que a Fátima está lá no Goiaba’s?
Eu não mereço!  Ninguém merece a roubada que passei ontem! Hoje eu vou pedir demissão.  Não quero nem conversar com a Fátima nem com ninguém.  Ontem, ao sair, acabei encontrando o Pudim.  Ele me convenceu a dar uma voltinha pela Lapa, tomar um chope num barzinho, em vez de ir pro lugar de sempre.  Topei.  E quem eu vejo no tal barzinho?  O Mário com a louraça do metrô! Filhíssimo da puta!  O Pudim notou logo que eu me transtornei.  E aí, ele me disse que era pra eu não me preocupar não.  Aquela louraça era conhecida na redondeza.  Na verdade, nem loura, nem mulher ela era.  “Mas parece que seu chefinho é entendido, Marialva!”
Aí eu me lembrei aonde tinha visto aquela piranha!  Nas telas! Marilyn Monroe!  Por isso o tornozelo dela tinha aquela tatuagem!  Ou será que ela colocara as iniciais do Mário Matoso?  Então o meu chefinho gostava de um traveca?! 
Fui pra casa, misturando raiva e sentimento de vitória.  Eu podia ser mirrada e enchimentada, mas pelo menos era mulher.  Esse talvez fosse o meu sentimento mais forte: o de vingança!  Quinze minutos depois eu adormecia sorrindo ciente de que, se no percurso de metro ela era a estrela, eu agora poderia ter meus quinze minutos de glória.  Mesmo sozinha na cama.

 

Lucia Maria Chataignier de Arruda


 

 

Lúcio Reis
Belém do Pará - Brasil


Poética Política
 
Prática para propor e produzir porcaria
Passo a passo no paço para procederes podres
Pelos países populistas e por países poderosos
Proceder de poucos, pressionando o povo
Povo pobre, pedinte e pacificamente passivo
Parlamentos pingando potente pus
Proxenetas provocantes no predatismo como paixonite
Pessoas passando privações
Precisando de pequeno pedaço de pão
Pagando piores e perenes pecados
Poucos pousando polpudas porçõe$
Provindas de pesados pagamento$
Para perdulários e pusilâmines políticos
Pensando por paradigma do poder pelo poder
Privilegiando parentes próximos
Pisando, pisoteando princípios positivos
Piorando passo a passo o porvir
Projetando purpurina para o populacho
Pornográfico populismo e porco porfiar
Poesia e política parece piada
Política para pornografia se  pensarmos em pornéia
Poesia é poesia
Porém podemos no parlamento profetizar
Papagaio de pirata ou polvo paraguaio
Papagaio sem pena e polvo sem pintura
Porque? Pergunta-me!
Parece e é sim: péssima piada
Petróleo, pré-sal, povo precisando e pedindo
Produção para perdoar pedido$ de países
Presidente pisoteando o português
Pense e pare! É preferível pousar de palerma politicamente perfeito
Pensando pacientemente, palavra por palavra, parece perdido o País, o povo e a Pátria
Pergunte-me que País é esse? Precisamente respondo-lhe: Brasil, País de bobos e espertalhões
Pátria de pobres num País poderoso.
PP? Parece: pior para o povo, e é!

 

Lúcio Reis


 

 

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro


FÁBULA SELVAGEM

 

Luiz Gilberto de Barros – às 11 h e 26 min do dia 30 de dezembro de 2011 do Rio de JaneirTexto Publicado na Antologia Infantil da Associação Internacional de Escritores e Artistas - Literarte


Quando o poderoso elefante viu o camundongo, deu um pulo tão alto, que acabou caindo em cima dos hipopótamos, fazendo um estardalhaço sem precedentes. A água da lagoa explodiu para todos os lados. Parecia uma explosão nuclear de penas, pêlos e escamas voando pelo ar.
Correu todo mundo que estava bebendo água na lagoa. Até um jacaré enorme esqueceu-se da sua vida aquática e subiu em uma árvore frondosa  e multicolorida,  assustando os leões que cochilavam à sombra  e  expulsando os barulhentos chimpanzés e pássaros que se deliciavam com os abundantes frutos ali existentes.
Foi um surpreendente alarido, uma bagunça que de selvagem só tinha mesmo os animais da floresta. Uma debandada geral. Todo mundo correu: búfalos, veados, zebras, hienas, coelhos... até as jibóias,  lagartos e outros répteis saíram em ziguezague mato afora... o céu parecia um arco-íris surrealista! Morcegos, araras, papagaios, águias, gaviões e diversos outros pássaros enlouquecidos colidiam sob o sol numa estridente confusão de asas
Que fofoca!
A bicharada protegeu-se como pôde: a tartaruga pulou nas costas de um rinoceronte em disparada; um sapo agarrou-se ao pescoço de um urubu-rei  que derrubou uma garça no brejo quando deu a primeira batida de asas; um suricato mergulhou na cachoeira e um morcego herbívoro largou a frutinha que comia e acabou colidindo com uma girafa estabanada que olhava para trás enquanto corria.
- Que foi isso ? – perguntou a leoa matriarca espavorida e esbaforida de tanto correr mato afora.
- Acho que foi um tsunami, respondeu um bagre que pulava em direção ao rio, tentando voltar  para a água.
- Parecia mais um terremoto: nunca vi tanto bicho galopando na várzea – completou um flamingo abóbora, azul de tanto terror.
- Vai ver foi uma bomba nuclear, alinhavou um antílope com um dos chifres virado para frente.
- Ai, minhas costas ! – reclamava um hipopótamo - caiu um avião em cima de mim ?
De repente, todos observaram o elefante. Ele estava simplesmente desmaiado.
- Caramba ? Para um bicho desses desmaiar, é porque alguma coisa muito grave aconteceu. Será que a terra está acabando ? – indagou um gorila coçando a cabeça.
- Ei, gente, parem de fofocar e vamos acordar o bicho ! – convocou uma onça pintada.
Isto feito, todos encaminharam-se na direção do paquiderme.
A mais qualificada para esta missão foi a coruja porque, afinal, era uma celebridade em termos de sabedoria.
- Calma, gente, além de bastante experiente, porque observo comportamentos da fauna e da flora, eu conheço muito bem este tipo de animal. O elefante é muito  sensível e precisamos ter muito tato para conversar com ele. Eu, que sou uma coruja e sempre descanso de dia, analiso cada um dos movimentos da floresta até o anoitecer, quando saio para caçar... eu e os morcegos temos muito em comum e...
- Ei ! Você é muito prolixa ! Pare de filosofar e desperte logo o bichão ! – interpelou o papagaio.
Ensimesmada e segura de si, a coruja foi cumprir sua aparentemente facílima missão.
- Olhem como se faz: primeiramente, acaricio a orelha do nosso companheiro com a leveza das minhas penas; depois, converso com ele:
- E aí, amigo... está melhor ? – falou bem baixinho.
Entretanto, bastou a ave sussurrar ao ouvido do maior animal da floresta, que o terremoto iniciou-se: o elefante deu um salto maior que o primeiro e voou do chão sobre a copa da mesma árvore onde o jacaré ainda se encontrava pendurado.
Foi uma devassa: caiu todo mundo do tronco e dos galhos da árvore – quem voava ou até quem  não voava, voou, inclusive o crocodilo.
O grupo assustado que voltara gradativamente após a confusão debandou de novo. E tome bater de cascos, escamas e asas. A coruja foi parar do outro lado da lagoa. Agora, ela é que estava desmaiada.
O jatobá não aguentou o peso do elefante e foi vergando até encostar no chão – mas não quebrou.
Quando o elefante soltou-se dela, a bichinha tornou-se um elástico e pum !
Todos os bichos que ainda lá estavam foram arremessados no ar. Alguns caíram em cima de outras árvores e arbustos; outras – ainda bem – dentro d´água.
Porém,  como nem tudo na floresta são uivos, pios e coaxares, a calma foi retornando gradativamente.
O papagaio foi incisivo: - Afinal, meu amigo... o que aconteceu ?
Foi um... um... um... rato enorme !
- Este aqui ? – perguntou um guepardo.
- Tira esse bicho daqui ! Tira esse bicho daqui ! Socorro !
Ia começar tudo de novo e todos já preparavam seus músculo para uma nova disparada.
- Calma, gente ! Calma !  - Era uma naja  que mais parecia um periscópio observando o mar.
- é  um ratinho de pelúcia !
- De pelúcia ? – o coro estrondou na savana.
Um sagui segurava o ratinho pelo rabo.
Assim, a paz voltou àquele pedacinho de planeta e todos puderam caçar, pastar, voar e brincar à vontade.
Sobre uma rocha no monte mais algo da região, enquanto roía uma saborosa castanha, um ratinho de verdade - que observara tudo à distância - falava orgulhosamente para um grupo de camaleões.
- Puxa, gente... eu sou uma celebridade ! não sabia que tinha tanto poder!
Moral da história: Quanto maior o medo, maior o tombo do elefante.

 

***


PERDO...ÂNSIAS
 
Eu te perdoo por me amares... também peco
E sempre peço  um beijo teu por penitência,
Desses bem longos que se dão por insistência,
Quando um suspiro voa mais longe que um eco.
 
Eu me perdoo por te amar, há nesse encanto
De poesia diluída em sentimento,
Um coração que encontra o teu por um momento
E que ao pulsar, o faz no tom de um acalanto.
 
Portanto, amada, se me amas, não magoes
Com raciocínios rebuscados, o que sentes;
Porque nas grades da razão, basta que does
O teu amor aos nossos sonhos inocentes.
 
Eu absolvo o nosso amor,  se ele é pecado,
É o mais romântico, feliz e sedutor
Dos sentimentos, pois repousam nesse amor
Dois corações num coração... apaixonado.

 

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros
 

 

 

 

 

 

 

 

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