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Portal CEN - "Cá
Estamos Nós"
Revista Novos Tempos
Junho 2013
Quinto Bloco

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Maia de Melo Lopo |
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Maria Aparecida Felicori |
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Maria Moreira |
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Maria João Brito de Sousa |
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Maria Tomasia Middendorf
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Mario Rezende |
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Marisa Schmidt |
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Odenir Ferro |
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Patrícia Dantas de Lima |
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Rita Rocha |
Maia de Melo Lopo
Lisboa - Portugal
MEU TEMPO
Eu desperdiço o acariciar do tempo e sem tempo me perco nele,
Mas que herança na lembrança da memória que vem tão longe,
Nesta vida sem sorte não me livro do tempo e sou escrava dele,
No vazio de mim mesma, vem na minha vil morte o desalento,
E o tempo no meu lar palaciano é casinha tão pobre ao relento.
Não é um vulgar castelo, é muito pior que viver num pesadelo,
Estou na boca do tempo, e ardente vivo no tecido da sua pele,
Montanha alta prende o amor, será no teu ódio onde me revelo,
Envolvente sorriso desgastado, mobilizado num grande desejo,
E me encontro no tempo a saborear o tempo do qual não te vejo.
No corpo sinto o sonho, é passado a magia do luar, me liberto,
amar é dor a gritar, no céu o vento do além dá tudo, obedece,
Num sopro endoidece, abre a porta, o mundo sente o deserto,
Hoje o silêncio está aqui, brota a vida na verdade, Deus eu sei,
Nada para ti, para mim, o tempo acolhe e em tanto nada te dei.
Maia de Melo Lopo

Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}
Nepomuceno - Minas Gerais - Brasil
NOME E SOBRENOME
Em todos os tempos, os pais tiveram e tem o direito de escolher nomes para seus filhos e se tem bom gosto e bom senso, conseguem escolher nomes aceitáveis e bonitos, outros totalmente desprovidos de discernimento e de senso critico, presenteiam seus filhos, com nomes que se tornam uma eterna carga pesada para seus infelizes possuidores.
Para os homens é mais fácil carregar nomes ridículos e estranhos, mas as mulheres não tem a mesma facilidade para encarar um nome que as torne alvo de brincadeiras de mau gosto e as vezes até ofensivas; se chamar Hermengarda, Liduvina, Severina ou outros que tais, não é nada fácil, mas ainda tem coisa pior, como a historia que vou contar.
Quando aquela menina nasceu, era uma criança linda: rosada, loirinha e com lindos olhos verdes, parecia um anjinho barroco; a família se reuniu para escolher o nome para a encantadora criança e capricharam na escolha, pois lhe deram o nome de “Emamaria Leite” e como criança não tem direito de veto, foi registrada e batizada com esse desastre.
Até chegar a idade escolar, a menina não percebeu que seu nome era uma premonição de aborrecimentos e vexames, mas no seu primeiro dia na escola, quando a mestra fez a chamada e disse com todas as letras: Emamaria Leite, as crianças começaram a rir sem parar e a professora não tinha como conte-las, porque também se segurava para não rir.
A criança voltou para casa chorando e pediu a sua mãe para trocar seu nome, mas a mulher se zangou e explicou, que Ema era o nome de sua avó materna e Maria de sua avó paterna e que a junção dos dois nomes era uma homenagem as duas bondosas senhoras, então ela pediu que o Leite do sobrenome fosse trocado, mas ai ofenderia seu pai e assim ficou.
Durante seus anos escolares, Emamaria Leite sofreu com os trocadilhos e brincadeiras maldosas de seus colegas e por isso não tinha amigas, ficava sempre só, triste e humilhada; ao atingir os quinze anos, tinha se tornado uma pessoa amarga, mal humorada e como não perdoava a família por aquele nome ridículo, raramente falava com os parentes.
Namorado nunca arranjou apesar de sua beleza, porque os rapazes não queriam enfrentar seus maus modos e assim ela envelheceu sozinha, enclausurada naquele nome e sobrenome mal escolhidos; Emamaria Leite só encontrou a paz, ao morrer com menos de setenta anos, o que prova que quando uma criança nasce, merece um nome simples e aceitável.
***
JUNHO
Chegou o mês de Junho
Veio gelado como é de tradição
Mas já tem milho no moinho
Para os bolos de São João.
O mês é frio e as festas são quentes
São as alegres festas juninas
Que animam e unem as gentes
Dancem meninos e meninas.
Primeiro vem Santo Antonio
Das moças casamenteiras
São João Batista vem depois
Para benzer as sementeiras.
Por ultimo São Pedro o pescador
Pescando e ensinando a pescar
Todos reunidos em louvor
Alegremente vamos festejar.
Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}

Maria Moreira / Maria da Conceição Rodrigues Moreira
Belo Horizonte - MG - BR
Café Rima Com Fé
Parece brincadeira
Esta bebida primeira
Torrado e moído na hora
Feito por muitas senhoras!
Acompanhado de bolachinha
Na sala na copa ou na cozinha
Nos copos, ou nas xícaras
Ou até nas canequinhas
Será sempre bem vindo
O café de todo dia!
Com leite com pão
Com queijo ou requeijão
Até nas fogueiras de são João,
Ele acompanha o quentão!
Para o deleite brasileiro
O café vem primeiro.
Deu impulso no comercio
Fez ricos muitos fazendeiros
Para além mar se espalhou ligeiro
Na Alemanha foi beneficiado
E vendido aos brasileiros.
Arvore de ramas verdes
Que dão frutos vermelhinhos!
É bebida muito gostosa
O café brasileirinho !
Maria Moreira

Maria João Brito de Sousa
Oeiras - Portugal
SONETO A UMA QUALQUER LONGA VIAGEM
(Em verso eneassilábico)
Tenho mãos, tenho pés, tenho braços
Que ergo rumo às fronteiras da vida,
Que caminham, negando cansaços,
Nesta estrada de terra batida…
Passa o tempo e devolve-me aos traços
As memórias da estrada vencida
Na cadência sonora dos passos
Pelos becos que o são sem saída…
Tanto beco e ruela já vi,
Tanta curva já fiz, sem parar,
Que, hoje, posso afirmar que é aqui,
Nas lonjuras que já percorri,
Que estes passos irão conquistar
A batalha de “eu ser” quem escolhi…
Maria João Brito de Sousa

Maria Tomasia Middendorf
Rio de Janeiro-RJ-Brasil
NEM ERA NOITE DE NATAL
As três crianças, duas meninas e um menino, pediram um presente de Natal quando nem era Natal. O garoto pediu um carrinho de madeira; uma das meninas, a mais nova, pediu uma fita cor de rosa para enfeitar o seu cabelo louro com um laço de cada lado e a outra, um vidro de esmalte cor de rosa - existente até hoje, o natural da Colorama.
Com o passar dos dias, mais ansiosos ficavam.
A mãe daquelas três crianças já iniciara os preparativos para a comemoração, curtindo doces dos mais variados: de figo, de laranja, de cidra, de mamão maduro, a muraba apreciada pelos libaneses e outros tantos. Os amargos eram diariamente fervidos para que o amargor saísse e os demais eram curtidos ao sol, envolvidos com açúcar cristalizado, em tabuleiros enormes, até sua secagem.
O forno do fogão a lenha era constantemente abastecido com achas de lenha, para que se mantivesse sempre quente.
Os suspiros eram assados e, nas compoteiras, colocados os doces em calda - côco com gema, leite, baba de moça, ambrosia, etc.
Matava-se o porco caturra que vinha sendo engordado há alguns meses e sua carne era parte assada e armazenada em latões com torresmo e banha e parte moída para a famosa linguiça pura de porco, temperada com as especiarias apreciadas pelo povo daquela região, não faltando a salsinha, cebolinha e um toque de pimenta malagueta, curtida na fumaça que saía do fogão a lenha.
Era grande a movimentação durante todo o mês de dezembro e aquelas crianças não pensavam em outra coisa que não fosse os presentes que haviam pedido e que eram do conhecimento dos pais e dos amiguinhos.
Finalmente chegara o dia 24. Até o apetite, sempre voraz, desaparecia, tal a ansiedade delas.
Naquela localidade não havia ceia na véspera, mas, no dia 25, o almoço tinha tudo o que havia do bom e do melhor, nada faltando.
Na véspera do Natal, as três crianças eufóricas, assim que anoitecia, colocavam os seus velhos e surrados chinelos atrás da porta, porque não tinham sapatos.
Iam dormir, mas, cadê o sono? Não vinha, porque a euforia não permitia.
Assim que amanhecia o dia 25, todas as crianças saíam à rua para brincar e o barulho dos carrinhos chamava a atenção.
Aquelas três crianças acordavam da noite mal dormida e corriam até a porta para procurar os presentes sobre os seus chinelos, para que pudessem exibi-los para os amiguinhos. Mas os chinelos estavam vazios, no mesmo lugar, sem coisa alguma sobre eles.
Tristes, sentavam-se à soleira da porta da sala e ficavam olhando os seus amiguinhos brincarem.
Nunca houve presentes de Natal para aquelas três crianças: o menino fabricava os seus carrinhos com caixas de sapatos ou madeira que ganhava; a menina mais velha, jamais conseguiu o seu vidro de esmalte cor de rosa e a outra menina morreu. Para ser sepultada, finalmente, teve enfeitados os seus cabelos louros com os dois laçarotes de fita cor de rosa, um de cada lado.
Como essas crianças, ainda existem muitas outras... mas quem se importa?
Ninguém!
Maria Tomasia Middendorf
Mario Rezende
Rio de Janeiro - Brasil
NO ORKUT
Acabei de conversar com minha mãe. Hoje ela está num dia legal, do jeitinho que eu gosto. Ela fica até bem mais jovem, a gente logo percebe pela sua maneira de se arrumar, bem transadinha, tentando voltar alguns anos. Até que ela não está lá muito distante. Acho, inclusive, que ainda não perdeu o jeito.
Falamos novamente sobre sexo, e toda vez que rola esse papo, ela sempre fala: “Cuidado minha filha, o amor é cego! E, brincando, diz: “Se não fosse, eu não teria me casado com o seu pai. Rsrs... Eu: “Ih! Mãe, não esquenta! Tô nem pensando nisso ainda, eu quero mais é ir ficando, só pra beijar os garotos na boca, nada de mais.
Mas, sabe? Eu acho que ela bem tem razão. É claro, não do ponto de vista do relacionamento pós matrimônio, pois não sou casada. Na verdade, nem sei se vou entrar numa dessas, do jeito que minha mãe reclama! Rsrs... Estou falando isso, embasada no ponto de vista da "ficação". Nesse particular, modéstia à parte, eu já estou adquirindo certa prática. Estou chegando à conclusão que o amor é cego mesmo, porque tanto faz no escurinho ou no clarão do dia; na praia, em qualquer lugar, a apalpação, o amasso, é mais gostoso. Isto é: é melhor partir logo para o tato do que ficar só nos outros sentidos como a visão, por exemplo. Apesar de que eu ainda não experimentei o sétimo, que parece ser exclusivo da mulher, até porque o prazer está realmente no contato físico, isso eu já constatei, com muito gosto.
PEQUENA ESTRELINHA
Pequena estrelinha que brinca
de borboleta no meu dia.
Pequena estrelinha que brinca
de pirilampo na minha noite.
Pequena estrelinha que brinca
de mulher nos meus sonhos.
Pequena estrelinha que faz
meu coração ficar apressado.
Pequena estrelinha
que vai e volta, vai e não volta,
e me causa saudade.
Pequena estrelinha
finge que brinca.
Pequena estrelinha
finge que não brinca.
Pequena estrelinha
brinca que não finge.
Pequena estrelinha
brinca de brincar.
Pequena estrelinha
brinca de amar.
Pequena estrelinha
não brinca de borboleta,
nem de pirilampo.
Pequena estrelinha,
até quando vai brincar de não voltar.
Mario Rezende

Marisa Schmidt
Bertioga - Brasil
TRISTE DOMINGO
Perdão se meu verso triste
sem a flâmula da esperança
risca o domingo e insiste
em ver o que não alcança
Não tenho hoje o sorriso
nem canto em alegoria
meu verso hoje é preciso
para desbancar a alegria
Se há jovens a postos nas ruas
gritando por seus direitos
não há razão para as puas
pois há razão para os pleitos
Quero a polícia nas praças
protegendo o jovem cidadão
não quebrando suas vidraças
e batendo em moços no chão
Uma pátria tem esse nome
quando acolhe a liberdade
fora disso, a pátria some
sob o manto da inverdade...
Marisa Schmidt

Odenir Ferro
Rio Claro - SP - Brasil
CLAREZA LÍMPIDA DOS DIAS
Na transparência dos segmentos dos dias, entre os claros e os escuros, entre penumbras, restos de sombras, ou rente a pureza da nitidez luminosa, - os dias vão se seguindo rumo avante - um após o outro. Um intercalando-se ao outro. Todos marchando para o futuro, entreolhando-se entre eles, carregando dentro de cada qual, as marcas dos infortúnios e das glórias do seu passado.
Criando, mudando, transmutando e renovando-se, dentro os contrastes luminosos ou escuros. Pois os dias, na sua quase totalidade, são feitos de luz! Tudo é luz! Ou tudo deveria ser, luz! Luz também simboliza as clarezas feitas com transparência, nitidez.
Luz também indica os segmentos dos nossos comportamentos: - Ações, reações, com nitidez, claridades, transparências! - Nós, seres humanos, transparentes (pois cientificamente tudo e todos somos desprovidos de cores) - nos atos, procedimentos de modos sociáveis - clareza nas expressões das palavras, polidez, cordialidade! - Nitidez, como se fôssemos o verso do inverso de uma fotografia qualquer. Revelada em preto&branco, através duma máquina antiga. E também com filmes antigos.
Denotando-nos a revelação dum pálido ar de tradição quase rarefeita - nesta transição de dias que se seguem - um após o outro... Um interpondo-se, ou sobrepondo-se, ao outro; e sem que haja atropelamentos. Pois eles são criados pela Ordem Divina; num milagre eterno, dando-se aonde o tempo inexistente é!
A linha contínua da Vida, é composta por dias. Dias em que se dividem de momentos. E que se constroem em memoráveis anos. Por onde vai se desfilando a História que se compõe de inumeráveis histórias.
História de cada um. Cada qual de nós, seres humanos que somos. Vivendo em cada tribo que forma uma cadeia geral por nós todos. Em que temos a transparência da ígnea Luz motivada pela Fé! Na coerência da razão, da Justiça, do Amor, da Paz, União, enfim, neste todo que é vivermos agregados, dentro duma tribo. Aonde, dentro dela, temos ou não, as percepções da Sabedoria, para selecionarmos, elegermos, dignificarmos, os nossos Líderes.
E o mínimo que esperamos dos nossos Líderes, é que eles nos reconheçam como sendo uma massa, - representando a força, - através da união. O Poder, é nosso! Nós apenas o delegamos a eles, as ferramentas e as armas, para que eles - com consciência e sabedoria - ajam por nós!
Esperamos, na clareza límpida dos dias, de que eles se entendam e que nos mostrem de que maneira for, sendo pelos veículos de Comunicação, ou de qual forma for, - a positiva retribuição da força, que porventura, lhes delegarmos acreditando, na boa fé, que seja do modo mais correto, justo, dinâmico. Com expressivas palavras. Desejando que eles não se esqueçam nunca, de que lhes abrimos a corrente das palavras, como sendo um veículo de comunicação. Para que eles se dialoguem entre si, e conosco. Criando ideologias concretas. Se preocupando em difundir, acima de tudo, a integridade, a Paz, o Amor, e acima de tudo a Honestidade!
***
O VÔO DA LIBERDADE
Num panorâmico movimento cinematográfico
Produzido pelas objetivas lentes mágicas
Num rápido efeito cheio de abafados sons
Estagnados, no espelho da difusa ação
Traçada como desenho de luz e sombras
No Fórum, através do extenso envidraçado
Bem no alto, na janela do Salão do Júri,
Projetando-se contra o vidro refrangido,
Presenciei, sentado numa das cadeiras,
Uma pitoresca ação pela sobrevivência,
Que minh'alma filmou em Preto&Branco!
A cena, foi dum astuto gatinho em ação,
Tão gatuno, correndo ligeiro, parando,
Içando suas garras, mirando suas patas
Afiando os babados beiços pra pombinha
Que, tão desprotegida e quase indefesa,
Arrulhava numa paz, toda cheia de igualdade
Olhando o guarido azul infindo da cidade...
O gatinho todo esperto, içando o ágil corpo
Investiu suas patas e garras contra a pomba
Que, mui esperta, antes do certeiro golpe,
Fugiu mergulhando na imensidão azul do ar,
Alçando uma bela, brejeira, pomposa queda!
Imponente, bateu num vôo imenso, suas asas
Encontrando a força, que rege a liberdade!...
... ficou remoendo-se impotente, o gatinho
Ante sua incapacidade deprimente e triste
Por não poder prender entre suas ágeis garras
Aquela, que por instinto, fora a sua doce presa
Onde até então aparentava ser uma invencibilidade!
Odenir Ferro

Patrícia Dantas de Lima
Porto Alegre, RS
Outra porta escancarada. Confesso que não tenho medo de assombrações humanas, embora o mundo dos sonhos me traga as histórias mais bizarras - que nem ouso imaginar, quando sou livre, para a construção das minhas torres interiores.
- O que é isso, deus dos meus dias? O que são estes sonhos que se confundem com a vida que acredito e tenho por real, como a parte verossímil de mim; o lugar que se ergue em fantasias, e traz algo inteligível para que meus passos não se confundam no lapso de minhas confusões.
Ando por uma espaçosa casa, de vãos claros e vasta mobília, de sótão e porão, de varandas que dá para um bosque - sua imensidão causa medo -, medo de quê? Ainda não sei. Se é real, parte como algo inexplorado dentro de mim, talvez seja essa a razão psicológica ou minha autoexplicação da ficção que os sonhos arquitetam. - E quando a mobília, a casa, o dia de chuva e os raios de sol não são reais? Terei de saber da suprema realidade das coisas?
Vi um dia desses um escritor que perambulava pela rua vendendo sua obra, não parecia muito feliz, mas trazia um agradável semblante, de quem escreveu a história dos outros e disse tudo a respeito da condição humana. - Pensei: eis o poeta de alma nua. Também não ouso dizer que essa imagem delineada da pobre criatura seja real. Há mundos imersos dentro de mim, que saem, vagabundeiam, voam pelos espaços ermos, e não são reais como desejaria que fossem.
Povoados são meus universos paralelos, que atuam e fazem do real o eco experimentado pela sensibilidade caótica que alguns personagens mais aguçados trazem dentro de si, e se salvam em suas próprias armadilhas, para espantar o caos que sobrevive inalterado no enredo das horas.
De onde vêm os sonhos e as cores encantadoras e cruéis que montam e juntam seus palcos opostos? - Sei que os meus brotam de dentro de mim, sem medidas, espaçosos, permissivos, que não bastam em seus devaneios. Sinto que são únicos e suspensos por uma ponte que liga minha realidade ao infinito inconfessável que temo revelar. Eles vêm à noite ou a qualquer momento que encontram seus portais abertos; ficam à espreita e se portam como nuvens carregadas em suas tonalidades escuras, borradas com pincéis surrados pela exatidão dos traços, como a vida que carrega suas histórias - sem cortes.
***
POESIA (Entre desconhecidos)
Hoje senti o mundo vestido de um sol opaco
quase não entendi que era eu quem estava ali
tenho um corpo que sente os raios das manhãs
não esquiva, não retrata, cintila, ofusca
Parei diante das vidraças de cada loja que passava
e vi que em todas refletia um rosto bonito, incompreendido
por quem? Pelo sol, pelo tempo, pelo mundo, pelas cores
Também refletiam pessoas que eram felizes
fiquei indecisa e incompleta na minha expectativa
de encontrar um parentesco entre aqueles estranhos
eram meus desconhecidos que não se entregavam
Não consegui desvendá-los e tirar um reflexo de mim
captei o que sentia como o resíduo que se podia jogar fora
fiz uma viagem interior e espero retornar no dia seguinte
Patrícia Dantas de Lima

Rita Rocha
Santo Antônio de Pádua / Brasil
Poema é...
Desabafo d`alma que sai do coração
é tristeza ou ternura... emoção.
Sentimentos expressos no amor,
na saudade,na vida ou na dor...
É o canto de uma triste canção
nas mãos tangentes de um violão.
É um fado movido pela dor
é voz melancólica. É clamor!
Ser destaque nesta constelação
com brilho e determinação.
É atirar as flechas com ardor
e atingir o coração e o amor.
É a certeza divinal na oração
E a esperança da libertação.
As mãos que imploram ao Senhor,
e a fé contrita numa graça expor.
Rita Rocha
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