Praia de Dona Ana, Algarve, Portugal

"Esta bela praia fica na zona conhecida por Costa D' Oiro, nome devido à cor amarela/dourada das rochas que envolvem esta praia e que é a maior de entre as várias praias de beleza única, protegidas do vento e de águas calmas e límpidas, localizadas entre o porto da cidade até ao farol da Ponta da Piedade. A proximidade de Lagos torna-a concorrida no verão. As rochas, no areal, proporcionam sombra aos visitantes. O mar é calmo e os banhistas costumam nadar até à base das falésias e das rochas pontiagudas que despontam da água.

"Em Setembro de 2013 A Praia de Dona Ana foi considerada pela revista espanhola Condé Nast Traveller a melhor praia do mundo e a mais bonita de Portugal, onde se considera que brilha pela 'cor turquesa das suas águas que sobressai entre as escarpas naturais'. "

 

 

 

 

Adélia Einsfeldt
Autora Portal CEN
Porto Alegre/RS/Brasil

Café com poema


Na noite passada
um poema escrevi
decorei antes do café


a voz doce da menina
ainda me abraça
não esqueço


ao abrir a janela
couro de pássaros
acordam o dia


o silêncio da roa
pétalas desfolhadas
na madrugada


canto gregoriano
ao amanhecer
poema e café.

 


 

Agamenon Almeida
Brasil
www.agamenonalmeida.com

OUTRA VEZ
 
A vida passou tão rapidamente
Pequena fagulha, um lapso de tempo
Se quer percebemos o tempo vivido
Um tempo corrido que se foi com o vento
 
Tempo de criança, correr e sorrir
Sonhos tão loucos da bela juventude
Depois as certezas da maturidade
Que hoje a velhice relembra de tudo
 
Depois nostalgia, pequenos fragmentos
Onde tudo é resumo do tempo vivido
Camada a camada em tantos embrulhos
Procuramos sedentos como tudo passou
 
Onde foram parar as nossas belezas
E as nossas certezas, feito pérolas, cadê?
Tudo ficou registrado no livro do tempo
Agora lembranças para viver outra vez.
 
Agamenon Almeida

 


 

Amélia Luz – Pirapetinga/MG - Brasil

Gretas da história

A avó cansada repara a poeira do tempo
cochilando na cadeira de balanço
do velho casarão da fazenda sob os Trópicos.
Sobre a mesa além do pão e do vinho sonhos guardados
de uma pátria distante que deixou na mocidade
escondida além das ondas do oceano.
As contas do terço passam vagarosas
em seus dedos envelhecidos.
Ao cair da tarde, ao quase anoitecer,
eleva-se em confidente em rezas a Nossa Senhora
clamando às pastorinhas e à Virgem de Fátima.
Um chalé de lã cobre-lhe os ombros arqueados
quando na vitrola um fado chorado ao bandolim
 relembra a Mouraria e toda a sua gente.
Fita um tempo distante olhando uma paisagem do Tejo
dependurada na parede caiada da sala de visitas.
Balbucia emocionada num grito de amor:
 - ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA –
Há de ser quase centenária para no seu silêncio interior
ouvir o longínquo chamar da sua terra palpitando suas raízes
na raça lusa que traz no sangue abençoado e corajoso.
Anciã recolhe em seus braços os últimos ecos que teimam
a contar a sua história de trabalho e de conquistas.
E no dobre do sino da capela do cruzeiro
Revive a infância perdida que continua viva
nas lágrimas quentes de saudades que correm
entre as rugas profundas do seu rosto santo.

 


 

Anamaria Nascimento - Aracoiaba/CE/Brasil

Pai Exemplar

No caminhar repleto de ternura
construiu sua estrada com primor,
procurou dedicar-se à agricultura,
e de ninguém jamais guardou rancor.

Embora a vida fosse sempre dura
posso afirmar que nosso genitor
foi ser humano vasto de postura
na transmissão global do pleno amor.

Para nos ver seguindo com virtude
era gratificante o seu apreço
utilizado sempre em plenitude.

Por isso de meu pai jamais esqueço
a retidão mantida em completude
tentando acautelar-se de tropeço.


Anamaria Nascimento

 


 

André Anlub
Brasil
http://poeteideser.blogspot.com.br

 
Aquele tal abismo: não sei se me encara, pois há um venda em nossos olhos.

(manhã de 5 de agosto de 2015)

Foge daqui, dali, e vai fugir do próximo planeta que descobrirem. A opção não é pular do penhasco, tampouco tentar voar sobre ele (em pessoa física); talvez um salto de base jumping; a opção “fugir” está ligada, o botão colado com supercola e funcionando em duzentos e vinte volts. E agora, será que há um meio de não fugir da questão? mesmo em casa, deitado na cama, bebendo suco de limão e assistindo um show de reggae, a questão me persegue. Ela vasculha minhas gavetas e deixa recado; ela abre meus armários e deixa recado; vai aos meus potes de tinta, no rolo do papel higiênico, vai à caixinha de remédios, se infiltra nas minhas imagens de santos, nos meus perfumes e rascunhos de rabiscos. Está em tudo e todos. Fico assustado de pensar na vida que segue; não que esteja ruim, tampouco eu esteja infeliz, é que crio universos paralelos, mundos possíveis e passiveis de outros finais. Tudo dependendo de uma ou outra escolha importante que (não) tomei no passado. Meu corpo em metáfora emoldurou-se com um toque de filantropia; minha alma em pura denotação pintou suas bordas com um toque de nostalgia; assim foi-se o dia, e todo dia assim é assim é que vai. Num linguajar sacolejado por música, que me acompanha onde quer que eu vá, vivo e vive-se o momento como singular, como uma chuva rara que cai acalmando o calor, matando a sede e convidando-me ao mais verde vivente. Foge daqui, mas não foge de mim. Deixe seu cheiro seu rastro sua história e sua garantia de volta (caso queira); não seja breve nem longo, seja apenas o conforto para nós dois. Pense em mim, sim; mas não faça disso uma obrigação. A dosagem certa para cada sensação é chegar à beira do abismo do absurdo, mas não pular; brinque com ele, zombe dele, tomem um chá... Mas nem mais um passo à frente, pois extrapolar sentimentos é quase um se matar e continuar em subvida.

Às vezes esqueço seu nome, mas logo me lembro de que não faz a menor diferença.

(amanhecer de 26 de julho de 2015 – 05:15 am)

Noite romântica – ar de esperança, desarrumar da cama e arrumar de você. Mas foi sonho! Dia sonâmbulo, noite sonâmbula, ar de molambo, mar de mulata – cabelos longos – loucos gracejos. E foi sonho! Tarte tortuosa, previsão tortuosa, ar de verso e prosa, sol despontando na fresta do olhar de lado, no vale amarelo que vale mais que a oferta. E é real! O cérebro brilha com tamanha intensidade que expele uma luz forte, inspirativa e multicor pelos olhos; colore todo o ambiente e faz-me lembrar por um momento, momento único e ligeiro, que os olhos já foram castanhos. Sorrio aos poucos, bem devagar, mas logo a cachoeira despenca no real do real do mais que real da tempestade na alma. Da ascensão à queda, do porco assado do regozijo da embolia anorexia à dieta feita lá na casa do baralho, jogando baralho com a mãe Joana. Tudo não faz sentido no sentido errado da meta, na confusão das setas que se misturam aos olhos viciados. Nesse momento chega o bom dia, alegre, com pássaros coloridos que pousam na janela; com pão fresco que sai do forno, com sorrisos verdadeiros, olhos festeiros e muito mais tempos juntos; a atenção é gigante, também imensa são as conversas que esquentam os ouvidos; tudo é belo, pleno e bonito... tudo é perfeição. E novamente é sonho.

De longe o homem é apenas um ponto; de perto tão-somente continua sendo.

(tarde de 4 de agosto de 2015)

Sempre se sabe a real perspectiva do nada óbvio; finge-se às vezes não saber para continuar a ter graça tal coisa. Aquela mesma televisão grita novamente, mesmo a mesma estando desligada. A ilusão é clara e cala a coisa chula, imputa culpa nos culpados, desfaz o culto dos escutados, encurta aquilo e o faz voltar a ser isso; e é tudo isso, apenas tudo, para ver se cola. O que resta a todos é a sobra do futuro, é a esperança de Harley-Davidson na autoestrada; é a escultura da jornada pelas mãos de alguém como Niemeyer, talvez rodar nas mãos de Rodin... sabe-se lá! O dia nasceu velho, de barba por fazer e cabelos brancos que logo logo pintou de amarelo. À noite na espera, o maracujá gelado e o frio que aos poucos e cabreiro vai entrando pela janela, mas não esfria o ar viciado. É um mais um, na conjugação maluca que não aceita dar em dois. O mundo é isso ai, está claro, mas tenta-se transformar até as somas mais prosaicas e básicas em uma fórmula de Bhaskara. Apesar de muita gente tê-la de cor. Sempre se sabe o imaginário que virá à tona. É só parar por uns minutos e analisar os fatos. Mesmo no raso, mesmo no simples, mesmo o banal se repete em eco e navega dando a volta no tempo e se repetindo no amanhã. É fácil ser advinha, pois já se sabe as cores que irão colorir as próximas páginas. Pode haver mudança nos tons; pode haver um contorno mais grosso, ou fino, mas o desenho é um só. De longe, ao longe, a impressão de entrar na própria imagem; como um espelho de frente a outro, como olhar-se no espelho sabendo exatamente como é. Inicialmente veem-se os ossos em um contorno mágico – florescência –, e eles devolverão o olhar e serão prestímanos insanos; cada osso, dos grandes, médios aos pequenos, irá esbugalhar seus olhos até ressecá-los sedentos... Ira se dar então o além... verá seu interior, seu cerne; irá ver as cores que circulam e passeiam, se comunicam, se fundem em dégradés alucinatórios e estonteantes, como uma viagem segurando a mão de Alice. Sempre se sabe a real perspectiva; mas quase nunca temos a plena consciência disso.

Fiz agora, saiu feito pão quente; fiz pra toda a gente que de rabo de olho me olha.

(tarde de 3 de agosto de 2015)

Com a mente engarrafada, estilo 23 de maio em São Paulo na hora do rush, escuto a voz bem de perto me induzindo aos trabalhos: esculpir, pintar, escrever... Mas meu tête-à-tête é com o tempo corrido, sair saindo, com o tempo estilo Senna, vem chuva – sol – dia – noite, tudo novamente na mesma hora, em um falso passo, e tudo de velho/novo como um açoite ou um soco do Tyson. Nas pareidolias das sombras, onde vejo você, vejo chover e ninguém, vejo outra face, minha e de outrem; vejo o molhado que foi seco, o vai e vem em um escuro beco que me assusta com o ao vivo que já morreu e renasce. Implicitamente vive há quase quarenta e cinco anos dentro da minha cabeça, agasalhada, de gorro e com frio, minha razão; às vezes minha razão dá as caras, põe o pé na estrada, mas volta logo pois a comida está sempre na mesa e não pode esfriar. Vejo muito mais responsabilidades do que está evidentemente escrito nas testas. Inclusive na minha no espelho. Os ânimos estão animados e os números não são só matemáticos; expurga a pulga atrás da orelha (tenho cisma com essa pulga), vai-se em direção ao espaço ermo e preencha-o com o verdadeiro. Nervoso, roendo o osso; neurótico vestido com vestido exótico. Na televisão desligada chegou de vez o Agosto, sem saber de nada, apenas o que é de gosto; com absoluta certeza tenho quase absoluta certeza que Agosto fará do esperado o oposto, já que dizem as más línguas que se trata do mês do desgosto... Está errado! Olhem os sorrisos nos rostos, olhem o telhado acabado; veja se alguém olha de lado, e se olhar não trate como um encosto, em palpável e/ou imaginário pressuposto.

Mais fácil ser assado do que assim, aos olhos dos outros.

(tarde de 28 de julho de 2015)

Foi como um relâmpago: o Porshe avançava pela estrada sem curvas, ao som de Buddy Guy, a favor do vento, dentro desse óbvio invento em um tempo limpo. E sempre será assim, sempre será uma festa nessa ideia na testa que cria a mulher nua vista pela fresta. Claro que sempre que se conseguir fazer ser assim. Mas na real é um Fusca, que desce a ladeira sem freio, os buracos profundos no asfalto e no fim um poste que o racha ao meio. Sonhos ruins acontecem, são taxados de pesadelos; sonhos ruins são os meios (rodapés ou cabeçalhos) que os deuses tiveram para falar para a gente valorizar ao máximo o tempo acordado. Sendo Porshe ou Fusca, Buddy Guy ou eu na gaita, segue o amor na estrada – segue o foco no profundo. Letras doces, versos alinhados para uma carta de amor... Que horror! isso já está ultrapassado! Cartas seriam para frouxos? As conjunturas favoráveis ao entendimento geral, ao nascer ou pôr do sol, tudo como um magnífico cenário. Tiro as nádegas da envelhecida poltrona e o pijama e apago o cigarro proibido e esqueço-me do próprio umbigo e telefono para ela (tudo assim mesmo, sem “vírgula” e sem pensar muito). Com o horário britanicamente marcado e a camisa passada só falta um bom perfume e a carteira recheada de dinheiro. O corpo há tempos já anda sem um pingo de pudor ou orgulho. Rumo à vida, outra vida, outra avenida (ou tudo na mesma) outro papo furado e o mesmo motel barato. Já sei que acordarei sem jeito e com o peito sobrando espaço; sou um frenético quebra-cabeça de almas. Ou seria quebra-almas de uma mula sem cabeça? Foi como esse relâmpago – começo dessa lambança escrita – que a tarde se foi: levou o último resquício de agonia, deixou um raquítico com a disritmia de sempre sujo, mas puro sonhador acordado.

 


 

 

Antonieta Costa
Brasil

LINDA FLOR DO LÁCIO

A poesia pretende viajar,
Deixando sua pátria por momentos.
Deseja conhecer o além-mar
Transportada ao favor de brandos ventos.

Sem saber qual a veste para usar
Numa viagem feita em sentimentos
Ela desejaria captar,
No céu, algumas luzes de ornamentos...

Mas, fitando a terra amada enfim,
Viu que nela brotava linda flor
Do Lácio em esplêndido jardim.
Com seu coração pleno de amor
Colheu-a para enfeitar-se ao fim,
Vestindo-se de raro esplendor.

Antonieta Costa

 


 

Artemiza Correia
Ocara - CE - Brasil

O PODER DO ABRAÇO.

Por não ser objeto comercial
Não vende, nem tampouco se suplica.
Em qualquer situação, bem se aplica;
É para nosso corpo essencial.
Na alma sempre foi providencial;
Funciona com reciprocidade
Independente de cor ou idade
Cura depressão, saudade e tédio.
Teu abraço é eficaz remédio
Para o coração da humanidade.

 

 

***CandySaad***
Brasil

Setembro chegou!

Setembro chegou!
Colorindo e perfumando,
as varandas dos meus sonhos...
Quem dera a Primavera não ter fim...
Quem dera todos tivessem a sensibilidade
para entender a beleza e pureza de uma flor...
Ouvir o coro do canto das cigarras bailando por entre folhas
Ter novas esperanças renascendo...
 Sentir vida recomeçando com muito mais cores...
Sentir o cheiro verde das matas campestres...
Lençóis de flores e cores...
O cantar dos pássaros felizes,
as borboletas faceiras,
todas as janelas para o jardim...
Ver o sorriso das azaléias
das rosas e jasmins...
Ah quem dera o mundo fosse todo assim!

Publicado no Recanto das Letras
Código do texto: T1183384
***CandySaad***

 


 

Carlos Leite Ribeiro
Marinha Grande - Portugal
Amor de Filho (Teatro)

(A cena passasse numa rua e numa casa modesta de qualquer cidade)


Padre – Bom dia Doutor!

Doutor – Bom dia, padre Henrique. Por cá tão cedo?

Padre – Passei por aqui perto e quis saber qual a situação clínica do nosso querido amigo José Mateus, a que muito chamam “o Inventor”.

Doutor – O que é que quer que lhe diga, padre Henrique?

Padre – A verdade, pois esta, apesar de ser muitas vezes cruel aos nossos olhos, deve ser sempre dita.

Doutor – Será vontade de Deus?

Padre – Como lhe queira chamar, doutor...

Doutor  – A situação clínica do Sr. José Mateus, tem muito a ver com a sua idade, com o seu desgaste natural...

Padre – Só?

Doutor – E mais um problema cardiovascular, que se está a agravar.

Padre – Quer então o doutor dizer que o caso apresenta-se muito complicado, não é?

Doutor – Dir-lhe-ei mesmo mais do que isso. O caso apresenta-se muito crítico.

Padre – Pobre amigo, José Mateus! Bem, é a LEI  DA  VIDA – quem nasce tem de morrer.

Doutor – Nós, os cá da terra, nestes casos, pouco ou nada podemos fazer...

Padre – O filho, o Sr. Eng.º Hugo Mateus, já foi avisado?

Doutor – Ontem, tentei entrar em contacto com ele. Mas não se encontrava em casa, pois, tinha ido a Espanha tratar de uns assuntos da empresa que dirige, lá no norte.

Mandei há pouco a criada telefonar para a fábrica – o que já deve ter feito.

Padre  – Vamos então aguardar a chegada do Eng.º. Hugo Mateus.

(O telefone toca... )

Olívia  -... “Bom dia, Empresa Industrial da Marinha Grande ... Neste momento, o Sr. Eng.º. Hugo Mateus, não se encontra na Empresa... Não sei, mas estou a contar que ele não se demore muito. Quem fala? Ah, é da Marinha Grande. Diga-me por favor se o pai do Sr. Eng.º., está melhor? Oh, lamento muito a sua situação e desejo-lhe as melhoras... Pois é, é a Lei da Vida. Nestes casos é muito mais fácil dizer aos outros que tenham coragem... Pode estar descansada, sim,  que eu darei o seu recado ao Sr. Eng.º, quando ele chegar... Pode ficar descansada... Bom dia!”


...


Olívia – Senhor Eng.º Hugo Mateus. Bom dia!

Engenheiro  – Bom dia, Olívia. Há algum recado?

Olívia – Há vários, mas o mais importante, é um da Marinha Grande, que veio de casa de seu pai...

Engenheiro – O que quer dizer que o velhote está em apuros – não é, Olívia?

Olívia – Pedem o favor para o Sr. Eng.º. telefonar urgentemente para lá.

Engenheiro – Olívia, faça a ligação para o meu gabinete. Atenderei de lá...

...

5ª Pers. – Já repararam que está muita gente a entrar para a casa do Sr. José Mateus?

Possivelmente, o velhote morreu.

6ª Pers. – Não, ainda não deve ter morrido, pois, a sobrinha da criada, a Pureza, ainda esteve aqui há pouco e disse-me que o velhote ainda vivia.

5ª Pers. – Nestes casos, os amigos vão juntando à espera que o amigo dê o último suspiro.

6ª Pers. – Pois é. Estão à espera que o homem morra, mas como ele dizia: “Sou muito teimoso!”.

5ª Pers. – Ao fundo da rua, vem o padre Henrique...

6ª Pers. – O que quer dizer que a situação clínica do Sr. José Mateus, deve estar a complicar-se...

5ª Pers. – Sim, para o padre ir lá a casa a esta hora...

6ª Pers. – O padre Henrique, é amigo daquela família, já há muitos anos. Foi ele quem ensinou as primeiras letras ao Sr. Eng.º. Hugo Mateus.

5ª - Pers. – Por falar no filho – ainda não o vi por cá.

6ª Pers. – Eu também não. Mas não admira, pois, o Sr. Eng.º é administrador de uma empresa da Marinha Grande. Mas, se a situação estiver a complicar-se, não deve tardar aí.

5ª Pers. – Reparem, quem vem de lá a sair é a D. Albertina. Também uma velha amiga daquela família, já do tempo da mulher do Sr. José Mateus.

6ª Pers. – Da D. Áurea, santa senhora, recordo-me bem. Reparem, a D. Albertina, está a falar com aquelas vizinhas e a chorar muito. O que terá acontecido?

5ª Pers. – Ela vem agora para este lado…  D. Albertina, D. Albertina...
Albertina – Bom dia, vizinhas. Querem saber como está o Sr. José Mateus, não é assim?

5ª Pers. – É verdade. Como é que ele está, D. Albertina?
Albertina – Ora, como é que o pobrezinho está!... Está na última, mas ainda bastante lúcido.

6ª Pers. – Ainda não vi o filho, o Sr. Eng.º. Hugo Mateus...
Albertina – Ele ainda não chegou, mas, como já está avisado da situação do pai, não deve tardar a chegar. Bem, tenho que me ir embora, pois tenho que ir fazer o almoço ao meu marido e também mudar de roupa. Até logo, vizinhas.

5ª Pers. – Até logo, D. Albertina e muito obrigada pela sua atenção. Coitado do velhote!

6ª Pers. – Ainda me lembro quando o Sr. José Mateus provocou aquela grande explosão de gás, quando pretendia que um foguetão que ele tinha inventado, subisse ao espaço!

5ª Pers. – Eu também me lembro pois fiquei com a roupa que tinha a secar, toda chamuscada. Aquele homem nunca parou com os seus inventos,  e com alguns deles, teve êxito.

6ª Pers. – Como aquele saca-rolhas que com um sopro tirava as rolhas.

5ª Pers. – Reparem, ou eu me engano muito, ou é o carro do filho que vem aí... É ele é !

6ª Pers. – Olha lá, o Sr. Eng.º. Hugo Mateus, não é casado?

5ª Pers. – Ainda não é.

6ª Pers. – Mas ele é bastante jeitoso. Admiro-me não ter casado ainda...

5ª Pers. – Ele é muito fino e diz que ainda tem muito tempo para se casar.

6ª Pers. – Olha, o médico também está a chegar. É aquele que está a falar com o Eng.º Hugo.

5ª Pers. – E neste momento, vão entrar para a casa do velhote.

...

Engenheiro – Então doutor, pelo que me diz, a situação clínica de meu pai, é muito crítica?

Doutor – Direi mesmo que é muito crítica. Está medicamentado e, só por isso encontra-se, neste momento, calmo. Deve acordar daqui a pouco.

Engenheiro – Obrigado por tudo o que tem feito a meu pai. Mas, agora reparo: o padre Henrique está cá. Com licença, doutor...

Doutor – Vá, vá engenheiro, enquanto eu vou ver o doente.

Engenheiro – Por cá, padre Henrique?!

Padre – Então eu não devia de estar cá, nesta hora tão difícil para todos nós?! Não te esqueças de que teu pai é um grande amigo que tenho!

Engenheiro – Não o quis ofender, padre Henrique, até lhe agradeço o seu cuidado e interesse!

Padre – E tu, meu rapaz, como estás? Não queres que eu te trate pelo teu título académico – pois não?

Engenheiro – Claro que não, padre Henrique! Eu estou bem, mas como é lógico, muito preocupado com o meu pai.

Padre – Tens de ter resignação, meu filho... Como tu sabes, a idade não perdoa. Teu pai nunca parou de trabalhar, de inventar coisas.

Engenheiro – O meu pai e os seus inventos! Ele ainda deve estar a descansar – não é padre?

Padre – Está sob o efeito dos medicamentos, mas segundo o médico me disse, o seu efeito deve estar quase a acabar.

Engenheiro – E o meu pai já perguntou por mim?

Padre – Pois claro que sim, meu filho. O teu pai está lúcido. Ainda ontem me disse que queria falar contigo sobre outro seu invento. Mas não me disse do que se tratava.

Engenheiro – Nem às portas da morte, o meu pai descansa! O que será desta vez?... O pai e os seus inventos!

Padre – Olha lá, aquele invento contra os assaltantes de aviões, deu resultado?

Engenheiro – Entreguei o projeto às companhias de aviação. Ainda não me disseram nada.

Padre – E na tua opinião, como técnico, esse projeto é viável?

Engenheiro – Sim, talvez. O problema é encontrar um gás adequado para adormecer, momentaneamente, os assaltantes e os passageiros. Além do antídoto para a tripulação.
Padre – Então, digamos, que a ideia é válida e, no futuro, até poderá ser útil...

Engenheiro – Pois é. Até poderá ser útil, como o padre Henrique diz: se os técnicos desenvolverem a ideia.

Albertina – Desculpem interromper. Sr. Eng.º., o seu pai acordou agora e perguntou logo por si. Diz que lhe quer falar.

Padre – Então vamos lá, meu filho, pois, infelizmente, teu pai não deverá ter muito tempo de vida.   

Engenheiro – Passe, passe padre Henrique. Vá à frente, pois também conhece bem o caminho...

Padre – Vamos então entrar...   Olá, velho amigo! Como é que tu estás, meu velho?

Mateus – Eu... Estou bem ... Vivo …  E ainda... Não preciso... De um padre...

Padre – Olha José, eu estou aqui como um amigo que vem visitar outro, e não como padre. Mas, se tu não me quiseres aqui dentro, vou-me já embora...

Engenheiro – Desculpe, padre Henrique, mas meu pai quer falar comigo em particular. Por favor, não leve a mal  e  desculpe-me...

Padre – Eu compreendo, eu compreendo, meu rapaz. Vou já sair. Até já...
Mateus  – O padre.... Henrique ... Ele ... Já saiu... ?!

Engenheiro – Já sim, pai. Mas não te canses, tem calma.

Mateus – Eu ... Nunca .... Nunca ... Me canso ... Quero ... Falar contigo ... Pois .... Inventei

...

Engenheiro – Pai, não te canses, por favor. Podemos falar depois, quando tu estiveres menos cansado.

Mateus – Falar ... Comigo ... Depois ?! ... Olha que será difícil ... Naquela ... Naquela ... Escrivaninha ... Está ... Está .... Um projeto ... De transístor ... Para evitar ... Evitar o roubo ... De ... automóveis ....

Engenheiro – Pai, pai não te canses mais. Eu vou já buscar esses planos...

Mateus – Ai ... aiiii.... iii...

Engenheiro – Pai, já vou chamar o médico...

Mateus – Vai ... Vai .... Meu ... Filho ... lho …

Engenheiro – Doutor, doutor... O meu pai está a sentir-se muito mal...

Doutor – Vou já, vou já. Saia então por favor. Deixe-se sozinho com o seu pai...

Padre – Então, meu filho?...

Engenheiro – O meu pai, está mesmo muito mal!...

Padre – Tens de te conformar, é a Lei da Vida... Olha, o doutor vem aí...

Engenheiro – Então, doutor?!...

Doutor – Aquilo que nós esperávamos, aconteceu agora mesmo – seu pai, morreu...

...

Padre – Sei que estás a passar um momento, digamos, dramático. Mas tens de ir descansar, meu filho, Aqui na Terra, já está tudo terminado para teu pai.

Engenheiro – Ainda me parece um sonho... Meu pai morreu. Meu pai morreu …

Padre – Queres passar agora lá por casa de teu pai?

Engenheiro – Sim, tenho que passar por lá para dar as minhas ordens à criada e, trazer o dossier do último invento de meu pai.

Padre – Eu acompanho-te, meu filho.

Engenheiro – Obrigado, padre Henrique...

...

Engenheiro – Olívia, faz hoje um ano que meu pai morreu. Telefona para a Marinha Grande e diga à criada que não se esqueça de comprar flores, muitas flores... Para ele.

Olívia – Não me esquecerei, Sr. Eng.º.

Engenheiro – Há algum recado para mim?

Olívia – Telefonaram da Associação das Companhias de Aviação a comunicarem que o invento de seu pai, foi aprovado e, que dentro de pouco tempo, começará a ser utilizado. Dizem que querem comunicar com o Sr. Eng.º, para tratarem dos direitos de patente...

...

Engenheiro – “Já dizia o grande mestre Almada Negreiros: “Podem não considerar ou até mesmo destruir a vida de um homem – mas nunca conseguem destruir a sua obra!”. Pai, se me estás a ouvir, deves de estar contente, pois, conseguiste VENCER – embora depois de morto!”.

Carlos Leite Ribeiro

 


 

Carlos Lúcio Gontijo
Brasil
www.carlosluciogontijo.jor.br


EM MEMÓRIA DO PROFESSOR RONALDO JOSÉ QUIRINO (Poema em homenagem ao marido de minha filha e gentil amigo Ronaldo José Quirino, falecido aos 63 anos, no dia 22 de junho de 2015).

Cidadão Ronaldo José Quirino
Coração de homem e menino
Vocação de sonhador, psicólogo, professor e diretor de escola
Sempre disposto a abrir o leque do saber propulsor
Foi um dos fundadores da importante FUNEC
Flamejante Fundação de Ensino de Contagem
Que ali retumbou como sino despertador da educação
Possibilitando o ardor de novos horizontes aos jovens
Para Ronaldo ovos de eclosão de um mundo melhor
Mas desígnios do Criador o levaram a outro plano
Jogando-nos no desengano da ausência
Ensinando-nos o abraço arcano do invisível
Um laço de libertação ofertado pela divina providência
Que diante do amigo fisicamente morto
Passa-nos a radiante luz do conforto da esperança
Banhada na temperança do amor da vida eterna
E então enxugamos a lágrima com o lenço da lembrança!

Carlos Lúcio Gontijo

 


 

Carlos Saraiva (mongiardimsaraiva)
Mantena / MG / Brasil
AUSÊNCIA

Estou ausente no meu presente
Nos dias que tenho em mente
Sem coração e humanização
Onde os meus poros se fecham
Para não receber o pó e o frio
Arrepio que sinto até aos ossos
Os nossos filhos vagueiam por aí
Cansados de não saberem sonhar
Mecanizados sós e mergulhados
Na densa penumbra sem saudade
Quando o passado for esquecido
Restará um vasto e seco deserto
Semeado de carcaças sem idade
Onde as areias reinarão sem cor
Amor esquecido e aqui tão perto

 


 

 Cezar Ubaldo
Brasil
Poema da hora matinal

Quando desperto,
a madrugada traz-me desejos
que tento esconder
sob as vestes de minha alma.
Chamo então,a calma
que vaga por entre meu quarto
e abraço todos os meus sonhos,
até mesmo os da infância,esquecidos
e tento resistir,forte,
à ânsia que invade-me,
e abro a porta.
É aí,então,que as tuas carícias,
longe,vêm-me com o vento...

 

 

Cida Micossi
Santos. SP. Brasil
Nós e Laços

Nós dois
Entrelaçados, apaixonados...
De braços dados
Laços atados
Energias compartilhadas.

Chega o momento
Em que um puxa a ponta
E desata o nó,
Mas uma força
Extraterrena
Faz com que o laço
Antes desfeito
Então se ajeite
Muito mais forte
Bem mais sereno
Alegria só!

 

 

Denise Braga Melo

(bibliobraille) - DF - Brasil

Superação
 

E o tempo, passou…
e  a escuridão, clareou!
Onze anos se passaram,
e a cegueira...
não me amedronta mais.
Ela me desafia, sempre!
Olhe, quem puder olhar.
Sinta, quem quiser sentir.
Entenda, quem se colocar no lugar.
Ajude, quem se dispor!
Supere, se conseguir.
Respeite, pois foi assim que eu, decidi!

 

 

Dhan Ramalho
Fortaleza, Ceará, Brasil


Lá se vão meus anos
Com eles sinto amarelar minhas poesias sustentadas por um não sei o quê.
Tenho minhas lembranças numa espécie de ramalhete colorido
E quando vem o vento... Já se foram.

Cheguei cedo a minha própria partida.
O sino soou e o trem principiou.
Meu coração bateu num ritmo desenfreado,
Então eu corri, corri e corri, até ela.

Aqui estou.
Nas mãos a solidão de flores murchas.
No olhar, lágrimas secas de um tempo
Que passou, voltou e ficou

Dhan Ramalho

 


 

Dinorá Couto Cançado
(bibliobraille) - DF - Brasil

Ninho dos Colibris

Dentro do espaço, palestra ambiental
e, de fora, exposição sensacional.
Auditório Ninho dos Colibris, um achado
em um Palácio  bem diferenciado.
Na capital goiana o chamam de CRECI
e  o nome pomposo é Palácio Colibri.
No hall de entrada, vernissage pioneira
esculturas e quadros de primeira...
A escultura do anjo Gabriel  dominava
e cada admirador ali posava...
Um encontro de Ciências Humanas
reuniu muitas nações americanas.
Brasileiros de todos os cantos
peruanos, chilenos e cubanos.
Diálogos do Mercosul em união
Debatendo os temas, total união.

Dinorá Couto Cançado

 

 

Eliana Shir Ellinger
Israel

A quem posso perguntar?

Queria parar de chorar,
entender, esquecer...
acalmar meu coração,
não sentir dor de ter perdido,
o que havia possuído
e foi-se hoje em vão...

Queria entender o por que,
ao me traçar o destino,
aquilo que eu sem querer
pensava ser para sempre,
e foi-se sem nem saber...

Não poderei voltar, eu sei.
Nada posso consertar,
nada mais a esperar
do que me foi apagado,
ilusão de um ser amado...

A quem posso perguntar,
- mas que me a diga verdade -
sobre o que aconteceu ?
Vivo agora na saudade,
não há mais felicidade
que eu tinha num beijo teu....

Eliana Shir Ellinger
 


 

Francisco Ferreira
Brasil

Alicerces Suspeitos
 
De pisar o absurdo
meus pés andam calados
preso às alpercatas
rotas, arrochadas do destino.
 
Errático por caminhos
que outras línguas palmilharam
vou desbravando rochas em rotas
trespassadas de antigos sangues.
 
Orbitados ainda, meus dias iguais,
de palavras vis que em vão
alcei à lua num canto-uivo
de último cão danado.
 
Serão delas a matéria pútrida
com que calcarei meus alicerces
mais suspeitos,
tão movediços os caminhos.
 
Sólidas somente as culpas
em trilhá-los nu à luz da vida.

Francisco Ferreira

 


 

Gilberto Nogueira de Oliveira
Nazaré BA Brasil

NAVIOS NEGREIROS
SÉCULO XXI

Um velho barco com 700 almas
Parte de um país africano
Que foi destruído pelos europeus,
Em direção à Europa.
Ao chegarem, perguntam:
Podemos ficar?
A resposta é uma bomba
E o resultado é a morte de todos.

O oxigênio é coisa rara
Para os pobres africanos
Que vem entulhados e enlatados.
E os que ficaram, enlutados.
Homens, mulheres e crianças
Em busca de vã esperança.

19.000 já morreram
E a Europa não viu.
Mas o Mediterrâneo é testemunha
Das atrocidades cometidas
Para a extinção dos negros.

Os canais marítimos
São testemunhas oculares
Dos porões sem oxigênio
Dos corpos jogados ao mar
Magros e desidratados.
Seus cadáveres são encontrados
Em praias próximas.
Mas ninguém dá importância.
-Deixa que os peixes os comem.

Embarcam na mesma ideia
No canal da Sicília.
É sofrimento ou morte.
Só têm essas duas opções.
                                       
Lampedusa!
Símbolo de tragédias.
Alguns levam os filhos.
Fogem do desespero
E entram em outro pior.
Fogem de seu país
Fugindo de sua história.
Em direção ao mundo (civilizado?)
Que um dia lhes colonizou
Roubando todos os seus bens.

E o Mar Mediterrâneo
É o caminho mais curto
Em direção às suas tragédias.

Vocês não compreendem
Que os europeus só lhe querem
Como mão-de-obra escrava?

Vocês não compreendem
Que os nazistas europeus
Só querem seu subsolo?

Vocês não compreendem
Que a ONU, OEA e OTAN
São organizações criminosas?

Vocês não compreendem
Que para os europeus
Quanto menos negros, melhor?

É verdade.
A fome e o desespero
Os impede de pensar.

Gilberto Nogueira de Oliveira

 


 

Gladis Lacerda
Rio de Janeiro / Brasil

QUE PENA!
 
Cadê o amor que você prometeu?
Cadê o sonho que não foi vivido?
Cadê tudo o que poderia ter sido?
 
Morreu na promessa,
fugiu com pressa,
e ninguém viveu.
 
O sonho se perdeu.
O amor nem nasceu.
A felicidade voou
 
Por aqui, desconfio, nem passou!

 

 

Guida Linhares
Santos/SP/Brasil
FLOR DO AMOR


Em uma tarde que ia esmaecendo, sentada à margem de um rio
olhava pensativa as águas rolarem por entre os seixos
aqui e ali, desviando-se graciosamente em seu bailado
refrescante, sereno e ondulante.

Nenhum pensamento, nenhuma emoção apenas o olhar
acompanhando aquele movimento vital, obedecendo
ao ritmo e leis da soberana natureza.
Mas a emoção chegou e meus olhos marejaram....

No meio das águas, uma singela margarida boiava,
já despetalada, mas com o seu miolo amarelo vibrante...
Percebi que as três pétalas que restavam estavam firmes,
apesar dos tropeços aqui e ali, entre as pedras do rio.

Imaginei a Flor do Amor que se colhe com todas as pétalas
e depois uma a uma elas vão caindo, até que a última feneça!
E a maravilha do poder reconstrutivo da mãe natureza
faz com que renasçam outras margaridas, efêmeras sim,
mas serão o colírio dos olhos de quem colhê-las,
com o coração cheio de amor e beleza.

Guida Linhares

 


 

Heralda Víctor
Brasil
Aos Pais

Senhor!
Neste instante
Coloco-me na tua presença
Na condição de filha para rogar
Por meu pai e por todos os pais:
Presentes, ausentes, jovens, idosos
E os que já partiram para a eternidade.
Olhai Senhor, por todos os nossos pais!
Aos que estão doentes,
Quero pedir a graça da cura.
Aos idosos, o carinho e a presença dos filhos.
Aos desempregados, uma oportunidade de emprego.
Aos jovens, compromisso diante da paternidade.
Aos espirituais, perseverança na sua vocação.
A cada filho concede Senhor
O direito à presença do seu pai no dia-a-dia.
Jesus! Tu que és Filho, olha por todos os pais!
Deus! Tu que é Pai, olha por todos os filhos!
Para que juntos, pais e filhos,
Encontrem na partilha do abraço o valor da família.
Abençoa Senhor!
Todos os pais,
Todos os filhos,
Todas as famílias
Especialmente aquelas
Onde pais tentam ser mães
E mães atuam como pais,
Em substituição aos ausentes.

 


 

Isabel C S Vargas
PELOTAS/RS/BRASIL

Um templo da floresta perto de nós

Local intocado, virgem
Quase um santuário natural
Sem a ação depredadora do homem.
Um milagre nos tempos atuais.

Qualquer riacho em meio à população
É poluído, contaminado, proibido,
Devido à ação das concentrações urbanas
Sem responsabilidade com a natureza e a vida.

Mas este que se apresentou a nossos olhos
Deslumbrados com tanta beleza intocada
Parecia uma visão sagrada esquecida
Pelos homens afoitos e irresponsáveis.

Incrédulos ao ver tanta beleza
Todos os visitantes iam explorando
Com ávido olhar de curiosidade e respeito
A paisagem que se descortinava.

Riacho com águas claras, límpidas
Peixes de todos os tipos e cores,
O som das águas das cachoeiras
Tornavam o ambiente calmo,

Frondosas árvores, flores em abundância
Sequóias centenárias, figueiras com seus imensos galhos
E generosas sombras a acolher as pessoas.
Fazia-nos sentir em um ambiente quase sobrenatural.

Observando as belezas naturais
Respirando um ar tão puro
Era inacreditável estar próximo
De uma cidade com indústrias.

Todos os visitantes após desvendarem
O que foi possível de tão lindo local
Reuniram-se em torno de uma sequóia
E emocionados entoaram uma canção.

Cada um fez um pronunciamento espontâneo
Comprometendo-se a cuidar de locais
Com tanta beleza e riqueza natural
E assim promover a natureza.

Louvável atitude que deveria ser seguida
Por todas as pessoas que desejam salvar
 A natureza, o planeta para as gerações futuras
Que merecem um mundo melhor e seres melhores.

 


A importância dos jardins para a humanidade 

   Isabel C S Vargas


"No começo Deus criou um jardim. Éden era o seu nome. Segundo a tradição ele se situava na Mesopotâmia, provavelmente ao norte, e possuía um pomar e outras plantas que desenvolviam sem irrigação. Antes da sua queda, o Éden era um lugar de paz e de prazer, de fecundidade e de fragrâncias, com os encantamentos da música, do riso e da alegria. Depois dos primeiros reinados assírios, tornou-se um lugar recreativo, um paraíso mítico". (Gabrielle Van Zuylen).      

                                Jardins são expressões de humanidade. Indicam zelo, cuidado com a natureza, com o ser humano e com a qualidade de suas relações. A humanidade cultiva jardins desde a época das grandes civilizações da antiguidade, prova disto é que chegou até nós, através do estudo da história, menção sobre os jardins suspensos da Babilônia que eram dispostos arquitetonicamente em terraços elevados e irrigados por canais oriundos do rio Eufrates.

Nas residências atuais expressam cuidados que as famílias têm em embelezar seus espaços particulares e como forma de manter as crianças da família em contato com as coisas simples da terra, mesmo que seja em modestos canteiros, proporcionando-lhes noções básicas sobre a ciência, como época de plantar, a importância do cuidado com a natureza e as espécies para a preservação da qualidade de vida e até mesmo da própria humanidade. A nossa casa é nossa responsabilidade. O planeta é nossa casa. Ensinar responsabilidades e civilidade é função da família. Não arrancar aleatoriamente flores de um jardim, de uma praça é passar cidadania, respeito e educação. Na escola ao ensinar as crianças a plantar é ensinar sobrevivência e a importância das profissões e, sobretudo, ensinar a beleza da simplicidade, e como podemos embelezar um local com a singeleza de uma flor e muitas vezes com a sua exuberância intrínseca, natural, que nada mais é do que materialização da expressão divina.

Grandes amores, romances tiveram jardins como pano de fundo, cenário encantado onde é possível verificar a beleza da diversidade da flora, assim como a fauna encantadora que é atraída pelas belezas dos jardins, Pequenos seres como os beija-flores são visitantes de honra nos jardins, borboletas das mais variadas cores, que são em si mesmas a mais pura expressão da transmutação da vida, ensinando-nos que é preciso se transformar de algo primitivo em expressão de beleza e arte, através da aparência como em seu caso ou da elevação espiritual como no caso do ser humano.
Jardins privativos ou praças que são jardins comunitários mostram a preocupação individual ou do poder público com a coletividade oferecendo à comunidade gratuitamente espaços de beleza e convivência humana gratuita e que uma vez instalada é obrigação de todos preservarem.

 


 

Isabel Fomm de Vasconcellos

http://www.isabelvasconcellos.com.br

João Gancho

Meu nome é João Gancho. Um dia, quando ainda pequeno, cansei de olhar só pra cara da miséria. O rádio do vizinho (naquele tempo não tinha TV e muito menos internet) falava de coisas e coisas que eu jamais teria, nem sabia como eram. Olhei bem pra cara da minha mãe e disse: Velha, vou cair na vida.

A velha era linda. Gasta, acabada, esbodegada pela vida dura que tinha. O pai sempre bêbado, a perder seu salário inteiro nos cassinos brilhantes, jogando com quem podia e o velho não podia...Mas o vício é danado. Não escolhe condição.

Eu tinha 9 ou 10 anos. E andava mesmo cheio de ver meus irmãos (eram seis) passando necessidade.
Naquele tempo, no Brasil, a gente era pobre, mas não era miserável. Se meu velho não jogasse, somando o que ele ganhava com o que a velha fazia lavando roupa dos outros, daria pra viver com decência. Mas eu, na ingenuidade da infância, acreditava que, com uma boca a menos pra alimentar, a minha família ia viver melhor. E eu poderia conhecer a cidade, o mundo, as tais coisas das quais os rádios falavam.  

Minha mãe ficou olhando, como quem não tinha entendido:

Vai aonde, o menino?

Cair na vida, minha mãe. Sair por aí.

A velha sorriu um sorriso de sábia:

Não chegue tarde pro jantar, que hoje tem sopa. 

Juntei tudo o que eu precisava, ou achava que precisaria, para a grande aventura.

A velha me olhava com o rabo do olho, sem dizer nada. Ela jamais impedia a gente de concretizar um plano importante. Era uma velha sábia como poucas. Ficou só me observando. E senti que lhe devia lealdade. Então, quando a trouxa com as coisas ficou pronta, me cheguei muito manso, mas muito sério pro lado dela:

Não me espera pra jantar não, tá?

E amanhã?

Não sei quando, mãe. Vou tentar a sorte na cidade.

Vai com deus, Joãozinho.

E me sapecou um beijo na testa.

Isto foi há mais de 60 anos. Nunca mais voltei.

A cidade era dura e cruel, mas eu tinha bom jogo de cintura.
Montei minha caixa de engraxate, trabalhei duro no armazém, enfrentei bandos por um ponto onde pudesse ganhar a vida engraxando o sapato dos ricos. Vendi bilhetes da loteria federal. E aprendi tudo o que sei nas ruas de São Paulo.

Estudei, também, Deus sabe como. E venci a cidade. Fiquei rico, respeitado, estudei no Exterior, na condição de bolsista, arrumei emprego numa empresa multinacional e fui subindo, subindo, subindo. Até deputado virei.

Tudo por uma paciência infinita e uma inacreditável habilidade para engolir e digerir sapos. 

Pouca gente poderia reconhecer em mim, importante personagem da pantomina nacional, o menino João Gancho. Nem eu mesmo sei o que foi feito dele, em tantos me tornei.

Doutor João. Deputado João. Comendador João. Presidente João. 
Só eu sei que, na calada da noite, sou o menino João. 0 que fugiu de casa antes do jantar.

0 mesmo menino que carregava consigo, aonde fosse, um velho gancho de carga, tirado do lixo, como se fosse uma joia. 

O gancho que me valeu o apelido e a vida porque foi olhando pra ele, conversando com ele como se fosse um amigo, nas longas madrugadas geladas da minha infância solitária da cidade, que eu percebi a mensagem da forma: enganchar.

Foi isso o que fiz então ao longo da minha vida: enganchei-me a todo e qualquer homem, a toda e qualquer ideia, a tudo, enfim, que eu acreditava estar no caminho da ascensão social e financeira. Nunca fui leal, a não ser aos vencedores, aos que podiam me arrastar, enganchado, em direção ao sucesso. 

Não. Minto. Leal eu fui à minha mãe, quando lhe disse que não voltaria para o jantar.


Isabel Fomm de Vasconcellos é autora, com 12 livros publicados e apresentadora de rádio e TV
.
 


                     

Um amigo ?

Ivone Boechat

Você quer um amigo:
Para andar na linha? Compre um trem.
Para guardar segredo? Alugue um cofre.
Para socorrer 24 horas? Constrói um hospital.
Para ir com você pra todo lado? Que tal um carro, uma bicicleta ou moto?
Para escutar você sem parar? Ligue o gravador...
Para dizer sim o tempo todo? Grave o seu próprio sim, na frente do espelho.
Para sustentá-lo nos fracassos financeiros? Compre um banco.
Para lhe dar a mão na hora do medo? Contrate uma babá.
Para carregá-lo nas horas difíceis? Chame um táxi.
Para massagear suas dores? Ligue para o massagista!
Para transportar suas reclamações? Chame o carro de mudanças...
E, por falar em mudanças, você realmente precisa mudar. Mude para o mundo da possibilidade. Não transfira para o amigo todas as suas ansiedades. Sim, o amigo existe, somos nós. O amigo faz tudo isto que foi descrito acima. E faz mais ainda. Além de ser trem, cofre, hospital, carro, gravador, espelho, banco, babá, táxi, massagista, carro de mudanças, o amigo tem a capacidade de discernir quem é amigo ou quem necessita desta relação de coisas e profissionais para usufruir, economizar, explorar.
Mude! Seja compreensivo, bondoso e todos vão querer ter um amigo assim, como você, como nós.
Ser amigo de si mesmo não é egoísmo. Seja bom para com você também.


“O homem bondoso faz bem a si mesmo, mas o cruel a si mesmo se fere”.
Provérbios 11:17
 


 

O fofoqueiro

 Ivone Boechat

O fofoqueiro é um tecelão juramentado in delivery à procura de meias verdades ou mentiras escancaradas que possa sair anunciando por aí pra derrubar alguém. Fofoqueiro que se preze mesmo não gosta de ver nenhuma vítima de pé, fazendo sucesso.


O fofoqueiro é invejoso, mas tem outros antipredicados bem mais inexpressivos no currículo. Para cumprir a meta diária de fofoca, ele é capaz de fazer o sacrifício de parecer bonzinho. E há quem acredite e se dispõe a fazer um pacto de paz, até a decepção dar-lhe uma rasteira.


O fofoqueiro não tem pressa: fofoca hoje, fofoca amanhã, ele sabe que o importante é não perder a oportunidade. Assim sequestra a vítima com as redes da dúvida e a faz refém do disse me disse.


O fofoqueiro tem duas grandes vantagens a seu favor: a vítima não tem defesa porque ele se esconde e rói as cordas pelas costas, na penumbra. O fofoqueiro finge-se simpático, por isso é bem aceito por um bom tempo.


O fofoqueiro se faz de vítima, de ingênuo, vive travestido de coitado e consegue enganar porque é persistente: Água mole em pedra dura...


O fofoqueiro vive de plantão à procura das brechas e ninguém, como ele, sabe aproveitar as oportunidades para desestabilizar a vítima; é mascarado, logo, pode passar despercebido por algum tempo no meio das pessoas corretas.


O fofoqueiro não suporta as palavras união, paz, harmonia. Se pudesse riscaria do dicionário dos outros, porque no dele não existem. Ele não tem luz própria e usa óculos escuros da maldade para se proteger do brilho dos outros...


 Toda família tem o fofoqueiro que merece. É nela que ele engorda e tem prestígio; alguns são promovidos a conselheiros; outros recebem o troféu da confiabilidade: conseguem enganar até que a verdade e a justiça cheguem de mãos dadas e acabem com a farra.

 


 

Jacó Filho
Brasil

AMOR VAZIO

Esquecer a mim no trânsito pela vida,
E do amor próprio não ser prioridade,
Fere-me ao ponto de ter a identidade,
Sem as ‘digitais’ da pessoa conhecida...

Dedicar tanto amor antes a terceiros,
O torna sem valor, com retorno vazio...
Provoca em todos,  um sentir arredio,
E clamores do ego pra ser o primeiro...

Persistir no engano que me faz sofrer,
E leva aos demais, dolorosos reflexos,
Originam traumas e males complexos...

Termino ofendido e nunca por querer...
Aprender me amar, evitando excesso,
Significa pra alma um belo progresso...

 

 

Joana Assis
Brasil
A Poesia

A poesia é a fala que não cala
O choro sufocado no peito
Grito reprimido no tempo
Emoção sem ação
Ato sem atenção
E o despertar da explosão
É a vida sem razão
Feita de emoção
O tempo que não espera
A lua que clareia a noite romântica
O amor que preenche o momento
O sentimento que sinto
E não tem explicação

Joana Assis

 


 

Jorge Linhaça
Brasil
Vinde ó morte

Vinde , ó morte, e dai-me guarida
Pois desta vida só levo o enfado
Foi-se o tempo em que fui honrado
Hoje o meu rosto é somente ferida

Pústula aberta sem alma e sem vida
É o que vê quem está do meu lado
Não mais um homem, apenas um fardo
Uma doença a ser suprimida.

Ah, doce dama, oscula mia boca
Num derradeiro ato de amor
Com tal lascívia que não seja pouca

Leva minh'alma pra onde ela for
Cessa o tormento desta vida louca
Nem o inferno é pior que esta dor.

" Quem semeia a paz colhe um mundo melhor"

 


 

José Hilton Rosa
Belo Horizonte - MG - Brasil

Procurando namoro

Cheguei agora
Vim fazer sua atenção
Coração doído
Vim de aclimação
Quero seu sorriso
Falar disso e aquilo
Rezar junto de um santo
Pedir saúde e muito juízo
Saudade daquele lugar
De seus olhos
Apenas lágrimas alegres
No altar, com você
Quero chegar
Muitos filhos
Vamos ter
Quando eu sair
Eles ficam com você
Quero pegar sua mão
Colocar o anel de ouro
Escrito meu nome
Num fórum assinar
Quero você de vestido branco
Com a benção de um padre
Para casa
vou te levar.

José Hilton Rosa
www.josehiltonrosa.recantodasletras.com.br

 


 

José Luiz da Luz
Brasil

Quem sou eu?    

Sou o reluzir na água da luz da lua;
O sabor das águas que nascem da fonte;
Os olhos da criança às nuvens insonte;
Sou o furor do sol que no éter flutua.

Sou a música do éter em harmonia;
A ordem dos astros em órbitas reais;
A luz das estrelas em ações vitais;
A força da nuvem cósmica bravia.

Sou o perfume da terra original;
A vida de todos os seres viventes;
O princípio que deu todas as sementes;
O infindo fluido cósmico universal.

Sou o princípio, o meio e o fim dos mundos;
O alfa e o ômega da criação total;
A imortalidade do espiritual;
A rapidez da luz, aos confins profundos.

Sou a inteligência mental dos pensantes;
A relatividade do tempo e espaço;
O frio do gelo, do fogo o mormaço;
As níveas nuvens, os raios penetrantes.

Sou o silêncio da ermida ornada em flor;
O espírito e a matéria estão em mim;
Eu não tive começo, nem terei fim;
Eu Sou Deus! Sou o Criador! Sou amor!

José Luiz da Luz
 


 

Leomária Mendes Sobrinho
Salvador-Bahia-Brasil

Forte como um rei

Quem tem medo é covarde.
Não lê a bíblia ,somente eu.
A destruição do verde
E a irritação do tempo
É uma catástrofe que quem perde
É o homem que o enfureceu.

Todo pau que vem abaixo
Não é madeira de lei.
É lasca para churrasco.
O tronco de árvore é duro,
Não se arrasta embaixo.
É forte como um rei.

Fico triste por você ,amigo,
Que tenha passado por isso...
Reflita, pois casa não é abrigo.
Mais o corpo, pense nisso.
Se o coração nasce contigo,
Cuide dele, não seja omisso.

A natureza faz manifestação,
É porque sofreu danos e sentiu.
É contra o homem a retaliação.
Porque destrói  a  quem nos cria?
Tudo na vida tem uma razão,
Se ela, foi Deus quem permitiu.

Depois de tanta atrocidade,
O responsável  passa a ser vítima,
Quando sente a anormalidade.
 Quem tem medo é covarde.
Pois a vida é uma grande verdade,
Para quem amor por ela sentiu.

Leomária Mendes Sobrinho


 

Luiz Carlos Martini
Restinga Sêca/RS/Brasil
Músico de casamento

 

Comecei tocando violino, depois larguei e comprei uma gaita de oito baixos. Um dia haveria casamento e tio Bernardo levou o pessoal para fazer as formalidades de casamento na cidade. Naquele dia eu e meu cunhado estávamos compromissados com o corte de eucalipto. Quando voltamos pra casa, a mãe perguntou se a gente não ia atacar os noivos na estrada, algo comum naqueles tempos, espécie de pedágio. De imediato o cunhado já pegou uma corda e estendeu da floreira de rosas até a cerca do outro lado da estrada e deixou ao chão. Ficamos esperando, até que ouvimos o barulho do 29 retornando. Fiquei sentado, perto de um portão, com minha gaita em prontidão. Eles tinham que parar, pois a corda foi esticada. Pra passar, conforme nossos planos, só pagando, nem que fosse uma guloseima. O carro se aproximou, o motorista percebeu a corda e parou. Nesse exato momento abri a gaita velha e um deles, o tio Bernardo, pulou do carro, correu em minha direção, levantou-me com cadeira, gaita e tudo e jogou o “pacote” prá dentro do 29.

- Espera aí cheguei do serviço há pouco!

- Não interessa. Vai ter que ir junto conosco.

Eles não tinham músico. Sobrou pra mim. Não tive alternativa. Depois do 29 passarmos ao lado da casa, desviar de alguns murchões de batata, desci cumprimentei alguns convidados e me acomodei num canto para animar a festa. interessante é que cada marca que eu executava recebia um pagamento. Quem pagava tinha o direito de sugerir a música. Às vezes o “cliente” não gostava de uma marca, mandava parar e tocar outra. Comecei ganhando uma moeda. Depois veio outro pedido, e mais outro e as moedas caindo no meu bolso. Voltei pra casa com os dois bolsos cheios de níqueis. Ao meu cunhado restou, enquanto eu animava o casamento, retornar de cara feia ao mato de eucalipto:

- Isso não vale! Tu vem com os bolsos cheios de dinheiro e eu, suando e cortando lenha lá no mato!

Luiz Carlos Martini
 


 

Maria Da Conceição Rodrigues Moreira
Brasil 

 Dia especial !


Este dia é de muita alegrias para mim,
hoje nasceu uma rosa em meu jardim
São flores singelas que se faz mais belas !
Os jasmins as quaresmeiras
As adálhas, e roseiras,
São todas companheiras , neste jardim sem fim!
Neste dia sem igual todas as flores das relvas
Se curvam para a flor mais bela
Que se chama Fran Mello!
Todos os votos de felicidades se tornaram real
As estrelas cintilam no céu
Os pastores entoam seus cânticos
Para reverenciar a maior que sempre se fez singela!

Maria Da Conceição Rodrigues Moreira

 


 

 Maria do Socorro Ramos
(bibliobraille)   DF - Brasil

Esperança

Simples ser alguém com amor
alegria no coração
sorrindo reluzente
esperando  ser alguém feliz...
Com sorriso de esperança
luz no olhar e carinho,
sorriso de alguém que te ama, meu filho
com amor, esperança, saudade
de alguém que te ama, meu filho!
Você é esperança de ser

alegria e sorriso,  um pequeno grão...
semente de amor no coração
de alguém que ama você, meu filho
sorriso, perfume, bosque do oceano
do infinito no amanhã...
Te amo sorrindo
sendo alguém amando,
esperança no olhar.
Experimente o leito de tua mãe, do teu pai
não esqueça de mim
que  sorriu, um dia, para mim, ao nascer
Luz,  amor, esperança
brotam no amanhã da família
de alguém que ama
o nascimento de uma criança.
 


 

Marina Moreira Pereira
Brasil

O  BOM  PAI


Qual a missão de um pai em relação
ao filho?  Conduzi-lo no caminho
do bem, pra que ele venha andar sozinho.
Dar-lhe guarida caso haja aflição...

Nunca deixar que lhe falte o carinho,
apoiar-lhe em qualquer situação,
como faz um bom anjo guardião
quando protege o mais pequenininho.

entre os dois deve haver cumplicidade
e também confiança e respeito,
vibrando os corações dentro do peito...

Isto  inclui muito amor, muita bondade
pra que haja uma vida venturosa,
no final... ela seja vitoriosa !

Marina Moreira Pereira
 


 

Mário Rezende

Brasil

ABSOLUTAMENTE LINDA

Bela flor que o orvalho da madrugada
amanhecida umedeceu
e que a natureza deliberadamente,
escandalosamente, favoreceu
ao dedicar tanta beleza.
Se te chamas Julieta,
na certa sou o seu Romeu,
do seu gineceu o androceu
e, com a certeza que o sol
volta para te despertar,
eu, enamorado,
vou, em todo tempo,
 te encontrar absolutamente linda
e para sempre te amar.

 


 


O LAMENTO DA IARA


Diaporã é a mais bela da tribo. Os lindos cabelos lisos e negros chegam-lhe à cintura e os olhos castanhos realçam a beleza do rosto atraente. Por isso, nas noites de lua cheia, ela se destaca entre as demais índias da tribo na dança do ritual sagrado quando as mais jovens oferecem toda a sua beleza a Jacy (a lua) recebendo em troca as bênçãos do céu.
As mulheres da tribo, da idade aproximada à de Diaporã, usam como roupa apenas uma espécie de cinto chamada ulurei, feito da casca de certa árvore. A presença dele significa que a mulher não está disponível sexualmente, a aproximação do homem só acontece quando ela é autorizada a retirá-lo.


Apesar disso, Diaporã amava Uambú, um jovem índio que estava sendo treinado para a caça. Namoravam escondidos quando ele voltava da mata e ela ia se banhar no rio, para não serem descobertos pelos outros índios da aldeia, pois tinham muito medo de serem apanhados desrespeitando a maldição do cinto. Para sua tristeza, ela estava prometida a Cauã, jovem guerreiro, filho do cacique. Iriam se casar logo após os respectivos rituais que os considerariam aptos a procriarem.


Diaporã costumava banhar-se no rio sempre ao entardecer e, então, estendia toda a sua beleza sobre as pedras mornas da enseada. A imagem da linda índia descansando sobre as pedras era muito sedutora e mística. Tudo que era belo na natureza parecia se concentrar ao seu redor: os pássaros cantavam sem cessar, as borboletas e as painas esvoaçavam com o vento da tarde que espalhava o agradável perfume das flores e o sol brincava de desenhar reflexos de luz nas águas do rio que, nessa altura, não tinham pressa e ficavam por ali passeando entre as pedras produzindo um agradável som de água corrente em pequenas quedas.

 
Passaram, então, a compará-la a Iara, a mãe das águas, até porque ela se assemelha à sereia descrita na lenda, que também costumava banhar-se nos rios ao anoitecer cantando uma melodia encantadora e envolvente. Os homens que a viam não conseguiam resistir à beleza e, seduzidos, impulsionados pelo desejo, pulavam nas águas, nos braços de Iara, e eram levados para o fundo do rio, de onde não saiam vivos.
Diaporã estava se tornando cada vez mais bonita, passou a ser desejada pela maioria dos homens da tribo e a despertar ciúmes nas mulheres. A única pessoa em quem ela confiava e fazia conhecer os seus segredos e anseios era uma indiazinha chamada Jacitim.


A trama do acaso, reforçada pela beleza de Diaporã e a comparação que lhe faziam a Iara, vieram lhe entristecer o coração e a complicar a sua vida, pois que, coincidentemente, Uambú, um dia, amanheceu morto na enseada, ao pé da pedra preferida de Diaporã para se estender após o banho. Outras mortes de índios jovens se seguiram sempre nas mesmas circunstâncias: todos os jovens índios que se deixaram levar pelo “canto da Iara” cobiçavam a bela índia, tinham sido vistos antes entristecidos ou tinham comentado a sua paixão, infelizes por não poder ter retribuído o seu amor -porque pela lei da tribo ela pertence a Cauã -, eram encontrados mortos nas praias ou boiando no rio, com o corpo envolto em algas. Embora todos desconfiem, também, que o seu coração não pertence a mais ninguém, está junto de Uambú.


Então, toda aquela aura de amor, proteção e devoção que envolvia a bela Diaporã, transformou-se em medo e desconfiança, atiçados pelo que dizia a lenda. Já se cogitava de expulsá-la da aldeia, devolvendo-a para o fundo do rio, de onde teria vindo e nunca deveria ter saído, para sofrimento dos pais e da indiazinha. Nessas circunstâncias, os índios que atingem a idade de ter uma mulher fogem de qualquer contato com a bela Diaporã, temendo o mesmo destino que os outros tiveram.


Cauã, que, apesar da garantia de tê-la como esposa, também pelo seu amor era capaz de tudo, fazendo valer a condição que a tribo lhe permitia, para impedir que a sua prometida fosse expulsa da aldeia e, para afastar os maus espíritos que rondavam a união que tanto desejava, casou-se imediatamente com Diaporã.


As mortes deixaram de acontecer e a lenda de Iara começou a ser esquecida. O seu canto não foi mais ouvido e toda a magia voltou àquele lugar. Diaporã, assim, pôde voltar a banhar-se nas águas, a estender-se sobre as pedras, como antes fazia, e entregar todo o seu amor a Uambú. Agora nada mais impede.


Mario Rezende
http://mercadoliterarte.com.br/978272/Causos-da-Boleia
www.recantodasletras.com.br/autores/mrrezende

 


 

Marisa Schmidt
Brasil

CRIAÇÃO

Deixe que eu assine a cena
construída em longo tempo
entre os ponteiros atentos
do relógio atemporal
que circunda o bem e o mal
Enquanto limpo os pincéis
as novas tintas escorrem
nos anis de tantos céus
e o carmesim dos que morrem
enrolados em frouxos véus
Os cães vagueiam famintos
no escuro em que os gritos
dos crentes criam novos hinos
que entoam corroídos mitos
justificando os assassinos
É medo, é susto, é conformação
seguindo no tórrido inverno
o riso frouxo, e a lágrima amena
do bêbado em distraído inferno
enquanto eu assino a cena....

Marisa Schmidt


 

Michelle F. Zanin
Brasil
Comadres

Você me conquistou
Retirou o vazio
Que imperava em meu núcleo
Não falo de apreço
Entre homem e mulher
Nossa relação é diferente
Somos comadres
Sei diferenciar
Os distintos gêneros
Que subdivide o amor
Sua companhia
Faz-me sorrir
Gosto de cavaquear
Trocar receitas
Simpatias
Para atrair o oposto
Aprendemos
Trocamos experiências
Compartilhamos vivencias
Discutimos narrativas
Espero que não se perca
Seja repassada
Nossa surpreendente amizade
Quero ver nossos filhos
Aprendendo a compartilhar
Amando-se
Aceitando-se
Por seu inigualável
Diferencial.

Michelle F. Zanin

 

Nadilce Beatriz Zanatta Posoni
Brasil
SAUDADE É VIDA.

É que de repente parece que nada mais importa
Quer seja com a alma
Quer seja com a raiva, o amor, a felicidade, a dor, a saudade, a ausência...
Nada conforta. E tudo é consciência.

Se a casa cair, não será tão catastrófico afinal
Pode ter havido um raio
E ali há de nascer uma árvore, uma pedra, uma ponte, um rio, uma miragem...
Nada é fatal. Então, nem a coragem

Quando o tempo fica para trás a medir espaço
Como se não houvesse ninguém
Para correr do destino, resignar-se à toa, perdoar às tontas, pedir uma graça...
Haverá colapso, se a ilusão usar mordaça

Conserva-se a tristeza para poder sorrir às ocultas
É pecar sem clemência
Quando da vida colhe-se orvalhos, flores, sementes, dias, noites, sinfonias...
Ideias insepultas, encharcadas de melodias.

Sonhar o que já foi perdido é secar uma lágrima com a saudade
Quer seja com derrotas
Quer seja com a vitória, a crença, a loucura, uma bravata, muita audácia...
Não existe a idade, só o viver com eficácia.

 

 

Regina Bertoccelli
Brasil

NESTE INVERNO

Quando o inverno chegar,
hospedarei minh'alma em teu coração,
em teu corpo farei minha morada.
 
Quando o inverno chegar,
em tua boca guardarei meus desejos,
em teus ouvidos deixarei meus segredos.
 
No calor do meu corpo aquecerei teus sonhos.
 
Eterna será a chama da paixão.

 

 

Ricardo De Benedictis
Brasil

CANTOR E AMANTE DA POESIA!     

Nasci na Rua da Itália
Na cidade da Bahia!
Meus pais, o Conto e o Romance
Nos tempos da fantasia...

Na minha infância a leitura
Era a grande distração
Por isso ganhei altura
Cantando ao meu violão...

Aos 25, escritor
Aos 40, produtor
Aos 60, utopia...

A mulher, musa querida
Cantei por toda uma vida
Minha amante, a Poesia...

Ricardo De Benedictis


 

Rita Rocha
Santo Antônio de Pádua - Brasil

 Há...

Restinho de saudades espalhado
e muito choro a seco reprimido...
No descaminho, a lágrimas sulcado,
mistério, amor jamais correspondido.

Também se escuta um tétrico gemido,
 tamanha a dor no peito concentrada.
E mesmo se chorar só escondido,
a face sempre ficará marcada...

Ainda brilham, tristes, os sorrisos
nos lábios da pessoa mais amada,
nos olhos dos amantes, tão concisos
 à fala de um amor, tão almejada!...

Ainda há dor de amores já perdidos
vivendo dessa eterna e vã saudade
que, entorpecendo tanto seus sentidos,
não lhe permite achar felicidade.

Rita Rocha


 

Rose Mary Santana Matos
Brasil

A TRADIÇÃO DO LICOR – EM ARACOIABA - CE - BRASIL


Em Aracoiaba, o uso do Licor vem, além dos costumes oriundos de nossos colonizadores, tais como Portugueses, Franceses e Ingleses. Sua maior influência vem dos indígenas, principalmente das Tribos dos Jenipapos, com sua especialidade em licores do fruto do jenipapo, como também da tangerina, árvores que havia em grande abundância no município.


Daí, não faltar nas antigas residências aracoiabenses desde os séculos XVIII, XIX e XX e até mesmo atualmente, já no século XXI, apesar de agora com menos freqüência, uma Licoreira com minúsculos cálices, muitas vezes de cristal.


No passado, nas residências de ricos, pobres ou abastados, havia sempre um tipo de licoreira aposta à mesa, para os visitantes, especialmente nas datas em que nascia uma criança em Aracoiaba. A exemplo disso podemos citar as residências das Famílias que levavam bem a sério esse costume: Castro e Silva, Guedes, Paiva, Oliveira, Rocha dentre tantas.


Quanto à origem do LICOR, vem da destilação da água com líquidos aromáticos, já conhecida desde a Antiguidade. Podemos ver que, Pensadores como Hipócrates, Galeno e Plínio já escreviam sobre esse assunto. Mas foi somente em 900 a.C., que os árabes inventaram a produção do álcool por meio da fermentação. Porém, é improvável, que isto tenha ocorrido com cereais fermentados no Norte da Europa, pouco depois dos árabes, pois a produção de licores aconteceu depois.


No início, apenas adocicavam o álcool, aos quais, grosseiramente, adicionavam xaropes e ervas, tanto para dar gosto, como para fins terapêuticos.


Na Idade Média, o vinho e mais tarde o álcool, era o principal anti-séptico. Porém as plantas, raízes e ervas, eram pesquisadas pelos monges para a cura de várias doenças. No entanto, foram os alquimistas, que levaram tais pesquisas adiante.


Historicamente, registros apontam Arnauld de Villeneuve, sábio catalão nascido aproximadamente em 1240, como o inventor “das tinturas modernas, nas quais as virtudes das ervas são extraídas pelo álcool”.


Seu discípulo Ray Lulle, foi o primeiro a escrever o tratado sobre o álcool e a divulgar receitas de licores curativos, com álcool açucarado e misturado ao limão, rosas e flor-de-laranjeira. Há indícios da adição de pepitas de ouro às misturas, consideradas panacéias, ou seja, remédios para todos os males.


Villeneuve enfrentou problemas com a Inquisição por suas idéias avançadas. Mas, ao salvar a vida do Papa com uma poção de vinho, ervas e ouro, livrou-se da morte. Quando a Peste Negra espalhou-se pela Europa, no século XV, os licores associados a bálsamos vegetais e tônicos, tornaram-se medicamentos preciosos.


Em Aracoiaba, era comum a fabricação doméstica de licores e sua utilização nas cozinhas e confeitarias. Durante o século XIX, a indústria da destilação cresceu, surgindo no mercado muitas variedades de licores, quando os caseiros começaram a desaparecer.


Existem porém, vários tipos de licores, tais como: seco, suave, perfumados, de cereais, de frutas, enfim, dependendo do material de que são feitos.


Rose Mary Santana Matos

 

Sarita Barros
Brasil

Tapera Saudade


I
Tapera
Sangra meu coração
Quando passo por ti
Lembro meu lar primeiro
Gritos, risos, bulhas, calor
Meu paiamosenhor
Escravizado a nós
Por seu amor
Joões de barro
Os  pais, meu mano e eu
misturando à argamassa
Esperança, sonho, quimeras
Tijolo a tijolo
Pedra sobre pedra

Casinha nossa
casinha rosa
 
Rosas, dália violeta
Narcisos, gerânios, camélias
Mais dezenas de flores
Cores, formas, aromas
Compondo o jardim da mãe
Com borboletas, abelhas, pássaros.
Peixinhos no aquário
Ao lado da churrasqueira.
Chimarrão
Descortinando horizontes
No terracinho acastelado
Ao por do sol de Bagé
(o mais belo que já vi)
Ou junto à lareira
Em tardes hibernais
No relax familiar.
Churrasco no Xaraxéu
Ao meio dia meia noite
Ou ao final da tarde
Risos, vinho, amizade
Piadas, tinir de copos
Tangos, boleros
Sambinha e bossa nova
Cantados por mamãe e meus irmãos
 
II
Saudade
Tapera de ilusões
Meu pai ceifado
Nas areias tempo.
 
Apagou-se a chama
Fugiu o sol
Paredes geladas
Em seu hirto corpo
Alçou vôo da casa a alma.
Murcharam flores
Em seu ataúde
Com o jardim
Mais nossa alegria.
 
Confusa ciranda infernal
 
Negras nuvens
Em nosso céu
Morada vendida
Em meio à dor
Ficou a saudade
Tapera nos corações.

Sarita Barros


 

Semira Adler Vainsencher
Recife - PE - Brasil
http://www.caestamosnos.org/sebo/Semira-pesquisas/pesquisas_Semira_Adler.htm


Nos passos de Branca Dias (Semira Adler Vainsencher & Jacques Ribemboim)


Quem visitar o Alto da Sé, em Olinda, Estado de Pernambuco, no Brasil, não deve deixar de ir à casa de número 526 da Rua Bispo Azeredo Coutinho. Neste local, bem ao lado da igreja, talvez tenha funcionado uma sinagoga quinhentista, no interior da residência do casal Branca Dias e Diogo Fernandes, líderes da comunidade criptojudaica de então, e pioneiros na produção de açúcar em Pernambuco.


Hoje, servindo de abrigo a uma loja de artesanato, é possível se ver a piscina que provavelmente serviu de micvá, datada do século 16. Se isso vier a ser comprovado, estaríamos diante de uma descoberta arqueológica de grande magnitude.
No começo do século 16, Olinda tornou-se um centro de convergência de cristãos-novos1 que deixavam Portugal rumo ao Novo Mundo. Naquela época, Pernambuco iniciava sua produção açucareira, cada vez mais promissora e atrativa. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a situação dos judeus na Península Ibérica só piorava. Após serem expulsos da Espanha em 1492, foram convertidos à força em Portugal, a partir do ano de 1497. A Inquisição se tornava uma ameaça crescente e as novas terras descobertas poderiam ser a tábua de salvação para aquela gente.


A partir de 1537, após a chegada de Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania, acelera-se o processo de povoamento e urbanização da pequena Vila de Olinda, multiplicando-se os arruados, construindo-se casas, igrejas e até um hospital. Os cristãos-novos organizaram-se secretamente e mantiveram uma intensa vida comunitária judaica, formando sinagogas (esnogas2), estudando a Torá, guardando o Shabat e a cashrut, e comemorando suas festividades.


Toda discrição era pouca para evitar possíveis delações ao Santo Ofício. Os vizinhos, por exemplo, precisavam ser convencidos de que os hábitos judaizantes3 não eram mais que algumas esquisitices praticadas por aquela gente.


Neste ambiente, destacava-se o casal Diogo Fernandes e Branca Dias, que mantinha duas sinagogas, uma no recôndito da casa de Olinda, outra no engenho Camaragibe, a poucas léguas de distância.


Olinda quinhentista e o criptojudaísmo


A atividade criptojudaica em Olinda, no período de 1535 a 1631, foi das mais intensas.

 

Diversos personagens se destacaram na organização da vida comunitária, alguns, inclusive, gozando de enorme prestígio junto às autoridades locais, mercê de suas fortunas, amealhadas no comércio de açúcar, pau-brasil e miudezas em geral.


Não podendo recusar trabalhadores devido à escassez de colonos, os donatários credenciavam as pessoas de origem judaica com muitos dos direitos concedidos às demais. No meio rural, não era raro encontrar engenhos de propriedade de cristãos-novos. E na Vila de Olinda, os ofícios praticados por judeus eram os mais diversos:

 

ourives, boticários, notariais, alfaiates, sapateiros, sirgueiros (os que trabalhavam com seda), pedreiros, barqueiros, professores, entre outros.


Era um tempo de pioneirismo. Os primeiros escritores do Brasil eram cristãos-novos, como, por exemplo, Ambrósio Fernandes Brandão, autor de “Diálogos das Grandezas do Brasil”, e Bento Teixeira, com sua obra poética “A Prosopopeia”, publicada em 1601, pouco após a morte do autor.


Branca Dias


No burgo olindense em rápido crescimento, os israelitas logravam uma vida comunitária bastante movimentada, sob a liderança religiosa do já mencionado casal Diogo Fernandes e Branca Dias.


Um e outro tiveram suas vidas de vicissitudes. A de Branca, em particular, constitui uma verdadeira epopeia. Esta cristã-nova nascida em Foz do Lima, em Portugal, casou-se muito cedo e teve numerosos filhos. Acusada de práticas judaizantes pela própria irmã (e talvez também pela mãe) quando ainda vivia em solo lusitano, foi presa pela Inquisição e enviada aos Estaus (masmorras de Lisboa).


Neste tempo, seu marido já havia-se mudado para o Brasil, de modos a lhe preparar terreno para que pudesse vir depois. Portanto, os meses de cárcere devem ter-lhe custado o pior dos tormentos, privada da companhia do marido e dos filhos pequenos (àquela altura, em número de seis ou sete). Mesmo quando sua prisão foi relaxada, ficou impedida de deixar o país.


Mas Branca conseguiria escapar para o Brasil, não se sabe ao certo como, levando consigo as crianças. Decorriam já quase dez anos desde a separação do marido até que finalmente pudessem se reencontrar novamente, agora em Pernambuco.


E não se pense que este reencontro foi dos mais tranquilos. Ao contrário, Branca foi surpreendida ao saber que, enquanto estivera longe, Diogo manteve um relacionamento com a empregada, Madalena, vinda com ele de Portugal. Fruto desta união extraconjugal, nascera-lhe uma filha, Briolanja. Apesar da decepção inicial, Branca perdoa o marido e permite que tanto Madalena quanto Briolanja continuem vivendo em sua casa.


Mas nem tudo foi tristeza naqueles anos. Diogo havia recebido do donatário uma sesmaria para construir seu engenho, em sociedade com outro cristão-novo, Pedr’Álvares Madeira, perito na moagem da cana e produção do açúcar. Nesses anos que passara sozinho, havia prosperado e, além do engenho, possuía uma casa das mais confortáveis em Olinda. Ali passava seus fins de semana e a partir da chegada de Branca, começaria junto aos demais membros da família a celebrar o Shabat ao cair da tarde das sextas-feiras. E a vida seguiu em ritmo tranquilo, a família crescendo, os ritos judaicos realizados sem maiores percalços, apenas um pouco de discrição aqui, alguma dissimulação acolá, inclusive constando de idas frequentes às missas na Matriz do Salvador.


Mas o relativo sossego não perduraria por muitos anos. Por volta de 1554, o engenho é atacado e destruído pelos índios. A ruína do casal foi, inclusive, objeto de uma carta escrita por Jerônimo de Albuquerque, cunhado de Duarte Coelho, ao rei de Portugal, intercedendo para que socorresse Diogo.


Branca Dias decide, então, abrir uma escola de moças em Olinda, com o intuito de ajudar no orçamento doméstico. Eram muitas bocas a alimentar, pois o casal já tinha sua prole completa, constituída por três filhos e oito filhas, dentre os quais, Brites, que nascera corcunda e deficiente mental, e Manoel Afonso, sem os braços. Estas crianças foram, inclusive, alvo de atenção especial dos pais. Branca, pessoalmente, ensinou Manoel Afonso a escrever com os dedos dos pés; e, para Brites, guardou a digníssima função de ser a “guardiã da Torá”, coisa que não é comum de ser designada às mulheres.sa onde moravam e onde Branca ministrava as aulas ficava na Rua dos Palhais, onde residiam alguns dos nomes de maior prestígio na sociedade olindense.

Precisamente ali, mantinham também a sinagoga secreta, isto é, “faziam esnoga”. Um dos amigos da época, Thomas Lopes, era encarregado de desfilar pelas ruas, conclamando os fiéis para as festas e para o Shabat, usando como sinal um pano amarrado aos pés.


A sessão seguinte descreve a casa atual onde provavelmente existiu a esnoga quinhentista. Antes, porém, recomendamos um cuidado especial ao leitor, para que não se confunda a Branca Dias de que estamos falando, com pelo menos duas outras.


Uma dessas teria vivido cerca de duzentos anos após sua homônima de Olinda, e foi alvo das perseguições de um clérigo local, sendo por fim queimada pela Inquisição. É sobre esta “Branca Dias da Paraíba” que Dias Gomes escreveu sua famosa peça de teatro, “O Santo Inquérito”, levada aos palcos brasileiros na década de 1970 (com Regina Duarte no papel da protagonista). Houve, ainda, uma “terceira” Branca Dias, personagem de um romance ficcional escrito no século 19, por Joana Maria de Freitas Gamboa, uma senhora de família tradicional recifense, que a descreve como protagonista na Guerra dos Mascates, acontecida em 1710.


Diferentemente da Branca da Paraíba e da Branca dos mascates, a “nossa” Branca Dias, a de Olinda, morreu de causas naturais em 1589, já com idade avançada para os padrões da época. Para sua fortuna, não testemunharia a chegada do visitador do Santo Ofício à capitania de Pernambuco, quatro anos depois.


Mesmo assim, nos livros das denunciações, seu nome, assim como o de Diogo Fernandes e os dos filhos e netos, constaria como dos mais frequentes. Nem mesmo a pobre e doente Brites escaparia do furor inquisitorial, sendo presa e enviada a Portugal, onde morreria como mendiga, perambulando pelas ruas de Lisboa.


A sinagoga da Rua dos Palhais


O imóvel da Rua Bispo Azeredo Coutinho, 526, apresenta indícios de estar no local onde viveu Branca Dias e a família. Por conseguinte, pode ter sido palco da primeira sinagoga constituída nas Américas. Conforme as “denunciações”, registradas nos livros do Santo Ofício, Branca e Diogo viviam na Rua dos Palhais. Há controvérsias a respeito da localização desta rua, havendo quem afirme que se trate da mesma Rua Nova, onde moravam alguns dos mais ricos olindenses, tais como os cristãos-novos João Nunes e Duarte de Sá, mercadores e financiadores de açúcar.


A confusão dos nomes advém da própria leitura dos livros da Inquisição. Em alguns dos depoimentos, o logradouro é anotado como “Rua do Salvador”; em outros, “Rua detrás da Sé”, “Rua principal da vila”, “Rua que vai da Matriz para o Colégio de Jesus”, confundindo-se, pois, com a Rua Nova, que tem epítetos semelhantes. Ao que tudo indica, as duas ruas, Palhais e Nova, podem ter sido uma a continuação da outra, sendo a primeira, a que corresponde ao trecho que passa ao lado da Sé e desce até o Seminário de Olinda (antigo Colégio Real Jesuíta). A Rua Nova seria, então, o prolongamento na direção da Ladeira da Misericórdia.


Em todo caso, é certo que habitavam perto da Igreja do Salvador (atual Igreja da Sé).

 

Ora, é sabido que o casal congregava a comunidade a fazer esnoga, às sextas-feiras, e que escondiam uma Torá de tamanho reduzido. Ao que tudo indica, formavam um minian e também possuíam uma micvá. Muitas das denúncias que foram feitas após a morte de Branca foram levantadas por suas ex-alunas.


As evidências de que o atual imóvel seria a casa da sinagoga não param apenas na especulação locativa. Em seus jardins, há uma inusitada piscina de época, que pode ter sido precisamente a micvá dos Fernandes. Como se não bastassem os indícios, observa-se que a fachada do imóvel atual exibe no testado uma instigante figura em alto-relevo que lembra uma Torá. Este tipo de decoração não é comum nas fachadas em estilo neoclássico ou eclético que ainda hoje existem nos bairros tradicionais do Recife e de Olinda, remanescentes do final do século 19 e começo do século 20. Seria apenas uma coincidência?


O atual proprietário da casa, Marcos Antônio Gomes, conhecido como “Marcos de Olinda”, não sabe precisar a origem da piscina nem da decoração da fachada. A sua “Galeria de Art & Artesanato São Salvador” foi instalada após a compra do imóvel ao renomado artista olindense, Giuseppe Baccaro.


Como se sabe, em 1631, a Vila de Olinda foi arrasada pelo incêndio cometido pelos holandeses, logo após a invasão. Um único imóvel restaria inteiro àquela tragédia, não se sabe exatamente qual, além de algumas igrejas em destroços. Dificilmente um prédio daquela época conservaria seu estado original. Assim, como aconteceu a praticamente todas as velhas residências quinhentistas, os imóveis seriam reconstruídos ou restaurados inúmeras vezes até chegarem aos seus formatos atuais.


No pátio interno da casa, um portal construído com tijolos aparentes, ligados por uma espécie de argamassa, demonstra ter sido alvo de intervenções nos últimos anos, fato que se percebe ao olhar de perto e verificar que alguns dos tijolos são ligados por cimento comum. Este portal dá acesso à piscina, cujos elementos constitutivos são de épocas diversas, mas, seguramente, as pedras do fundo são do século 16 (apresentando incrustações de mariscos, provavelmente retiradas dos arrecifes de Olinda).


A comprovação de que a piscina teria sido ou não uma micvá quinhentista não será uma tarefa fácil. As medidas exatas que determinariam sua autenticidade – e que são requeridas pelos rabinos de hoje – dificilmente foram respeitadas naqueles tempos difíceis, em um ambiente em que não se podia praticar o judaísmo às abertas, e onde os costumes eram arrefecidos ou pelas distâncias aos centros europeus ou pelas rudezas típicas de uma terra ainda tão nova.


Se a casa em questão representa de fato o local da antiga sinagoga de  Branca Dias, bem, deixemos que o tempo traga a resposta.


1 Cristãos-novos: judeus convertidos ao cristianismo na Europa. De modo específico, o termo alude aos judeus convertidos à força em Portugal entre o final do século 15 e o começo do século 16.


2 Esnoga: Sinônimo de sinagoga. É frequente usar este termo para designar pequenas sinagogas improvisadas no interior das casas.


3 Judaizar: praticar o judaísmo (secretamente).


4 Criptojudeus: Cristãos-novos que continuavam a praticar secretamente o judaísmo, sob constante ameaça de serem delatados à Inquisição.

Cronologia de Branca Dias:


1515 (ou data anterior): Nasce Branca Dias na cidade portuguesa de Foz do Lima.


1535: Vinda de Diogo Fernandes para Pernambuco; Branca permanece em Portugal.


1542: Diogo recebe do donatário uma sesmaria para construção de um engenho (Camaragibe).


1543: Branca Dias é presa pela Inquisição em Lisboa.


1545 (circa): Branca Dias chega a Olinda.


1554 ou 1555: O engenho é atacado e arrasado pelos índios. Branca abre uma escola de moças para ajudar no orçamento da família.


1565: Morre Diogo Fernandes.


1562: Branca aceita fazer uma sociedade com Bento Dias, de modo a salvar o engenho Camaragibe (também chamado de Santiago) da ruína.


1589: Morre Branca Dias, de causas naturais.


1593 a 1595: Branca Dias e seu marido são alvo de diversas denúncias post mortem, quando da Visitação do Santo Ofício a Pernambuco.


Esnogas quinhentistas de Pernambuco


1. Esnoga de Olinda, do casal Branca Dias e Diogo Fernandes;


2. A sinagoga do mesmo casal, localizada no Engenho Camaragibe;


3. A sinagoga de Miguel Henriques, nos limites da Vila;


4. A sinagoga do roçado de Diogo de Paiva, em Tejucupapo, Capitania de Itamaracá;


5. A esnoga de Fernão Soares;


6. A esnoga da roça do Capibaribe, de Manoel Rodrigues Monsanto;


7. A esnoga que ficava no partido de canas de Pedro da Costa Caminha;


8. A esnoga do engenho São Martinho;


9. A esnoga do engenho São Bento, de propriedade de Ambrósio Fernandes Brandão.


Semira Adler é pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Jacques Ribemboim é professor da UFRPE

 


 

Walter Domingues David
Salvador BA Brasil

O HOMEM QUE VENCEU NA VIDA
                  
O homem que venceu na vida é aquele que amou muito, o amor no seu sentido mais amplo.
Que trabalhou bastante, cumpriu o seu dever e sempre se esforçou na busca da evolução espiritual e cultural.
Cultivou a alegria pois soube valorizar o dom da vida. 
Foi útil e solidário pois soube usar o aprendizado que buscou, para a iluminação do seu caminho e consequentemente a conquista de relativa felicidade partilhável.
Conquistou o respeito e a estima de muitos.
Cumpriu a sua missão e deixa o mundo num grau de evolução, melhor do que quando a ele chegou.

Walter Domingues David


 

Wilson de Oliveira Jasa
Brasil

ALEXANDRE JASA (Soneto)

Grande Alexandre Jasa, pai querido...
Foste justo e magnífico guerreiro;
sinto meu coração muito ferido,
pois partiste deixando o filho obreiro.

Foste na tua infância destemido,
pois em teu ser o Amor vinha em primeiro;
conquistastes mil glórias, bem vivido,
tu foste o bom exemplo brasileiro.

Nasceste excelso pai, nobre Paulista...
Neste solo sagrado, do amor veio.
Tu foste honesto, leal, muito idealista...

Ser grande como tu na vida anseio;
pois vejo o teu valor nessa conquista,
e sigo teu exemplo, no qual creio.

(Para ALEXANDRE JASA – In Memoriam – 1923-1990)

 


 

ZzCouto®
Brasil

SOLIDÁRIA POMBINHA!
 
Perto daquela casa branquinha,
onde o sol nascia dourado,
avistei a voejar uma pombinha,
à procura do reino encantado.
 
Qualquer coisa poderia escrever,
sobre aquela pomba querida,
do olhar de quem ama viver,
ao que está próximo da partida.
 
Quando o sol se escondia,
  seu refúgio era na casa branquinha,
com a esperança de um novo bom dia,
no coração da desamparada pombinha.
 
Solidária, voa com a Paz almejada,
junto ao sol que sorria e voltava a brilhar,
nas asas da pombinha amada,
que conduzia a Paz, para no mundo reinar.
 

 

 

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