"SABENDO E RECORDANDO"

de Carlos Leite Ribeiro

 

 

Quarta Parte

 

 

Na manhã seguinte levantaram-se cedo, mas mal falaram um com o outro, não ser um seco bom dia e quando já estavam arranjados vamos descer para tomar o pequeno-almoço?

 

Já na estrada, Júlio explicou a Ivone que iam subir pela estrada que ontem foram para o Convento dos Capuchinhos.

 

- Queres dizer que vamos passar à cortada para o convento e subimos ainda mais?

 

- Certo. Vamos subir até ao Palácio Nacional da Pena, mandado construir por D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry, marido da rainha D. Maria Iº. Como ontem disseste, não gostas de ver velharias.?

 

- Isso foi ontem. Hoje já estou mais bem-disposta!

 

Antes passaram pela porta rotativa do Castelo dos Mouros, e subindo mais um pouco chegaram ao fim da estrada Sintra/Palácio da Pena. Passaram o portão e percorreram umas lindas alamedas antes de estacionar o carro no parque respetivo.

Daí, subiram uns degraus e uma pequena rampa e entrara na varanda que dá para a verdadeira entrada do palácio. Quando Júlio se dirigiu à bilheteira, soube que naquele dia não havia visitas pois o palácio estava em manutenção e limpezas.

Ela, quando soube, atirou uma sonora gargalhada. Ele, olhou-a de lado e também se riu.

 

- Júlio, tu já visitaste este Palácio muitas vezes e eu algumas. Vamos para outro lado.

 

- Tens razão, vamos até à Cruz Alta. Se eu ainda me lembrar onde se entra na estrada.

 

Foi fácil encontrar a estrada a partir do parque de estacionamento a Cruz Alta fica a cerca de 3 Km do palácio, num alto morro, e tem uma belíssima panorâmica, das mais belas de Portugal. Quando chegaram lá, viram com tristeza que a grande cruz de ferro tinha sido vandalizada. Encostaram-se ao varandim em frente aos degraus da cruz, donde se avista, num outro morro o majestoso Palácio da Pena. Voltaram-se para o outro lado.

 

- Júlio, parece que temos a nossos pés, Oeiras, Estoril, Cascais e ali mais adiante, o areal da praia do Guincho. E repara que se vê a ponte 25 de Abril e mais além a belíssima ponte Vasco da Gama!

 

- Ivone, é na margem esquerda do rio Tejo, vê-se da esquerda para a direita, o Montijo, Seixal, Almada (com o seu Cristo Rei), a Trafaria e Cova do Vapor, etc., e muito mais afastado o Castelo de Palmela (que só se vê em dias muito claros como está hoje); além do estuário do Tejo, que é em delta e também muito belo.

 

- Até parece que avisto uns golfinhos a saltar?.

 

Ficaram alguns minutos extasiados com tanta beleza que avistavam. Até que ele a lembrou:

 

- Então, com a morte de teu avô, tua avó ficou sozinha em Londres?

 

- Sim, ficou por lá mais cinco anos até se reformar. Depois, foi para a que chamava sua Paris, onde teve o amor de sua vida, e onde se empregou como secretária de uma empresa têxtil, onde o administrador era amigo da família.

Ela nunca se esqueceu de teu avô Rick Blaine e até escreveu no seu diário a seguinte passagem: A união de duas pessoas é uma sintonia de esforços e sentimentos que muitas vezes é cortada pelo destino.

 

- E nunca mais o procurou?

 

- Procurou sim. Pelos serviços secretos, soube que ele esteve em Moçambique e que tinha tido problemas com as autoridades. Antes de saber este pormenor, esteve quase resolvida a ir ter com ele.

Não foi com receio de ser rejeitada, pois teu avô, como até tu compreendes, era um aventureiro. Soube da sua fuga para a Argentina e daí perdeu-lhe o rasto durante anos.

 

- E soube que ele esteve no Brasil?

 

- Também soube assim como as atividades marginais dele. Tinha muita pena do Rick e chegou a admitir que talvez fosse por ela os desvarios dele. Esse pensamento (ou remorso) acompanhou-a até à morte.

Talvez pensasse que com ela, ele teria sido uma pessoa boa. Pelo menos é o que dá a entender no seu diário.

Na última nota que escreveu no diário, poucos dias antes de falecer, nunca a consegui decifrar: Trazendo grinaldas e roupagens divinas, ungindo de perfumes celestes. O Deus dos milagres, o Deus infinito, manifestou-se, a face voltada para todos os lados. Se o esplendor de mil sóis brilhasse ao mesmo tempo nos céus, seria talvez comparável ao irradiar do grande Ser. Foi esta sua última mensagem.

Em Paris, assistiu a um concerto do pianista Sam, grande amigos de ambos, que teve a gentileza de tocar e cantar especialmente para ela, As Time Goes By. Fatos que ela registou com emoção e grande ênfase, no seu diário.

 

- Também estou comovido com a tua narrativa.

 

- Eu comovida e com fome. Já estamos atrasados para o almoço. Aonde vamos hoje almoçar?

 

- Conheço um bom e romântico restaurante, que fica em São Pedro e não muito longe daqui. Talvez uns sete quilómetros.

 

Como Júlio tinha prometido, foram a um românico restaurante. Na saída do portão que dá para o Palácio da Pena, seguiram em frente por uma rua estreita e ainda feita em calçada do tempo dos coches. O interior do restaurante é revestido de azulejos muito bonitos, com o tema Agricultores tendo em quase todos a bela silhueta do Palácio da Pena. No cardápio escolheu Arroz de Tamboril, uma das especialidades da casa, e o vinho escolhido por ela, foi um macio e tinto Borba. É um prato que tem de ser feito na altura e por isso demora certo tempo.

 

- Júlio, estou cansada e emocionada com o que te contei. Além de estar esfomeada.

 

- Menina, estou nas mesmas condições. Vamos guardar a visita ao Castelo dos Mouros para amanhã e quando sairmos daqui, vamos diretamente para o hotel.

 

Depois do almoço que estava excelente, voltaram pela mesma rua estreita e no fim desta, cortaram à direita para apanharem a estrada que os iam levar a Sintra, passando pelo portão rotativo do castelo.

Chegados à cidade, compraram no bar sandes de queijo tipo Flamengo, fiambre e presunto de Trás-os-Montes. Além de sumos de frutos. Iam como na noite passada jantar no quarto.

 

- Até que enfim, que vou descansar  exclamou ela quando entrou no quarto do hotel. Enquanto me estico um pouco na cama, prepara-te tu para a noite.

 

- OK chefa. Vou tomar um duche e vestir o pijama. Fica aí com os anjinhos.

Entretanto, ela adormeceu. Depois de ter tomado banho, Júlio entrou no quarto e viu que ela estava a dormir, e acordou-a para ela se preparar.

 

- Porque os homens são tão chatos ao acordar uma mulher? Chato! Já vou.

 

- Fica calma, vai-te preparar enquanto eu me deito debaixo da roupa e com ar de brincadeira, ainda lhe disse não posso esquecer de ir ao armário buscar o cobertor sobresselente, para não aconteceu como aconteceu ontem?.

 

- Hoje não deves precisar do cobertor, pois a noite está mais quente da que a de ontem?.

 

Ele riu-se e não foi buscar o cobertor.

 

Quando ela entrou na cama, ele delicadamente compôs os cobertores para cima do corpo dela, que lhe agradeceu.

 

- Hoje sou eu que tenho frio. Deixa-me chegar um pouco a ti?

 

- Á vontade, madame!

 

- Vou virar-me para ti?.

 

Já era de madrugada quando foram comer as sandes que tinham levado. E ambos estavam com muita fome.

 

- Menino, agora com a barriguinha cheia, vamos deitar. Mas desta vez é mesmo para dormir.

 

- Doí-me muito as pernas, podias levar-me ao colo.

 

- Que gracinha?

 

Acordaram mais tarde do que do costume, mas muito bem-dispostos. Ele pagou o hotel e suas malas ficaram na arrecadação para não irem com o carro carregado para o Castelo dos Mouros.

Antes foram à pastelaria Piriquita tomar o pequeno-almoço (ou o café da manhã).

Já no castelo, depois de passar a porta giratória e comprar as entradas, foram até ao largo da cisterna (que servia também de prisão) e mais adiante, Ivone disse a Júlio:

 

- Agora temos de subir estas muralhas todas? Já não tenho pernas para tanto.

 

- Também me queixo do mesmo. Vamos subir pela ladeira, que é muito mais suave para subir e depois descemos pelas muralhas.

 

- Não sabia dessa ladeira e já subi (outrora) várias vezes as muralhas.

 

A subida foi um pouco penosa até chegar à torre, de onde se avista um soberbo panorama, desde Colares, praia das Maçãs, Azenhas do Mar e a vista estende-se até terras de Torres Vedras. E também a elegante silhueta do Palácio da Pena, diferente da que se avista da Cruz Alta, em três morros diferentes uns dos outros.

Calmamente sentaram no banco de pedra quase circundante da quadra da torre.

 

- Ivone, já descansamos um pouco. Queres recomeçar a narrativa?

 

- Deixa-me beber um pouco de água. Já terminámos o capítulo minha avó. ?

 

- Agora será o capítulo Mamã?

 

- Embora tivesse nascido em Inglaterra, minha mãe sempre se sentiu francesa. Lá fez seus estudos e conheceu o que viria a ser meu pai, português do Algarve, que já há anos trabalhava numa companhia de gás, em Paris.

E foi na capital de França que eu nasci e no jardim-escola, conheci um maravilhoso miúdo, que mais tarde viria a ser meu marido.

 

- Mas voltando a tua mãe.

 

- Infelizmente, sobreviveu pouco tempo à morte prematura de meu pai. Na parte final da vida de minha mãe, o casal Raymund e madame Emiliè, tomaram conta de mim e mais tarde adotaram-me. Raymund era o administrador da empresa têxtil onde minha mãe trabalhou.

Foi em Paris que me fiz mulher, estudei e comecei a namorar o Diogo, um português a viver em França.

 

- Ivone, e como vieste para Portugal?

 

- A empresa onde trabalhava Raymund, montou cá, perto de Loures uma sucursal e ele foi nomeado responsável dessa sucursal. Vim com eles para cá, onde terminei os estudos médios.

 

- Onde entra o Diogo?

 

- Meu marido, depois dos estudos em França, veio para Portugal para trabalhar numa fábrica de produtos agrícolas, em Mafra. Como estávamos sempre em contato por correio ou telefone, quando ele veio reatámos o nosso namoro, que mais tarde deu em casamento.

 

- Tens filhos?

 

- Tenho uma filha casada e que vive perto de Nova Iorque. Está numa gravidez e ultimamente não tem estado bem. E tu, Júlio, tens filhos?

 

- Tenho um que vive no Holanda, é casado com uma sueca e técnico de comunicações/Informática. Está bem na vida.

 

- Estou viúva já quase há cinco anos. E tu, há quantos anos?

 

- Já vai para oito. De vez em quando vou ter com meu filho, para não sentir tanto a solidão.

 

- Está na hora de descermos e regressarmos a Lisboa.

 

- Descemos pelos degraus do castelo, ou queres descer pela rampa?

 

- Vamos descer pelos degraus, pois em cada degrau, avistamos um belo panorama diferente.

 

Passaram pelo hotel para apanharem a sua bagagem, e aproveitaram para comprar uma guloseimas, antes de rumar a Lisboa.

 

- Vamos jantar antes de Lisboa? Perguntou-lhe ele.

 

- Conheço um restaurante na Amadora.

 

- E eu conheço um muito bom antes da Amadora, em Queluz, bem pertinho do majestoso palácio, onde nasceu e morreu, D. João IVº de Portugal e Iº do Brasil.

 

- Como não estamos de acordo, vamos resolver o problema lançando moeda ao ar. Queres coroa ou cara?

 

- Prefiro coroa?

 

- E desta vez ganhaste. Vamos então a esse restaurante em Queluz.

 

Pouco tempo depois, pararam no parque de estacionamento do restaurante O Abílio. Uma das especialidades deste restaurante, é escalopes de veado acompanhado por arroz, batata frita e saladas.

 

- Menino, mas sou eu que vou escolher o vinho. Hoje apetece-me um Gatão rosé, de acordo?

 

- Menina, completamente de acordo, para mais, já há tempos que não bebo esse precioso néctar.

 

O jantar correu tranquilamente e alegremente com conversa banal. Ambos estavam felizes, embora um pouco cansados. É que a idade não perdoa?.

Quando chegaram à porta da casa dela, ele com voz hesitante, perguntou-lhe:

 

- Posso subir também?

 

- Claro que não. Minha casa não é nenhum hotel!

 

- Então, podíamos ir para minha casa?

 

- Também não. Para mais, tu já me disseste que na tua cama, só lá dormiu tua falecida mulher.

 

- Querida, vou morrer de frio esta noite!

 

- Não vais não, meu querido. Enrola-te a um cobertor e vais ver que vais dormir muito quentinho. Um beijinho e uma boa noite com muitos e bons sonhos. Até outro dia e não te esqueças de me telefonares.

 

- Até outro dia!

Quando ela se afastava, ele tristemente, pensou: plano falhado.

 

Durante semanas, além do encontro diário no café, saíram alguns fins-de-semana, visitando, entre outras localidades, a Foz do Arelho (Caldas da Rainha); Nazaré; São Pedro de Moel, Praia de Pedrogão, Figueira da Foz, etc.

No primeiro fim-de-semana, ele levou um édredon, o que levou Ivone a perguntar-lhe:

 

- Júlio, para que é esse édredon?

 

- Menina, é para não morrer de frio durante a noite!

 

Ela atirou uma sonora gargalhada ao responder-lhe:

 

- Fica sabendo que nos fins-de-semana que passarmos juntos, eu quero que tu morras de frio�!!!

 

Um dia, ela com ar triste deu-lhe a notícia:

 

- Olha Júlio, minha filha está na parte final da gravidez que não está a corre-lhe muito bem. Está muito fraquinha. Assim, depois de amanhã vou partir para Nova Iorque, mas a ajudar e acompanhá-la.

 

- Eu posso ir contigo?

 

- Não Júlio. Vou sozinha e não sei quando voltarei. Aproveita e vai uns tempos para a casa de teu filho.

 

- E podemos contar pelo telefone e pelo computador?

 

- Sempre que possa, contactarei contigo. Fica tranquilo nesse aspeto.

 

No Aeroporto Internacional de Lisboa, despediram-se com um longo beijo.

 

- Então, nós?? Perguntou-lhe ele.

 

- Júlio, quando eu regressar, falaremos?.

 

FIM

 

Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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