Eliane Triska

 

 


 

Os girassóis de Van Gogh

Eliane Triska

 

Colhi meus girassóis... Se olhavam tristes.
E os coloquei no vaso dos guardados
Onde, só, a beleza nunca existe,
Pra sempre poder vê-los abraçados.
 
Pintei-os, um a um... Eu quis assim.
E dei-lhes por moldura a poesia,
Do pólen espargido de um jasmim.
E o pincel quis dar forma ao que sentia.
 
Ó natureza morta sem anseios.
A dor seca a vida dos teus veios
Não chorem girassóis ao meu olhar!
 
- Alegrem-se! Feliz os mostro ao mundo
E no vaso me assino: um moribundo
Que enfim os pode imortalizar!

 

Prelúdio

Eliane Triska

Tuas palavras orquestraram
um irrecusável bailado.
Aceito o louco e inusitado prazer
de dançar nos braços do teu gozo.
Abandono-me, à espera ainda sem tema,
e me esqueço do teu sorriso rijo, 
ferido e solitário,
com que matas o poema.

 

Meia clave
 
Eliane Triska

Por tudo, amor, és ingrato.
Se me vês com a mão erguida,
Vem e serve o meu prato,
Dar-te-ei minha comida.
 
Não me condenes, tão-só,
Se me finjo quando choro.
Meu canto? Sou ré! Mi-dó!
Em nós, sol-si-fá? Te imploro!
 
Alguém, se mais do que a mão,
Aponta o dedo... Que triste!
É só meio coração?
Há um meio-deus que o assiste?
 
Uma herege! Assim me tomas...
Eu confesso e me ajoelho,
Tu e eu, se duas somas,
É o mesmo rosto em espelho.

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