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OS
TEMPOS
E
SUA
VOZ
PREFÁCIO
O
amor
é
uma
terra
estranha
cheia
de
surpresas,
idas
e
vindas.
Para
quem
ama,
a
vida
é
posta
toda
a
cada
momento,
de
certo
modo,
para
dizer
que
vivemos,
porque
repetimos
não
mais
do
que
um
mesmo
instante:
o
instante
buscado.
De
não
sobrar
pavio
aceso,
nenhuma
gota
a
queimar,
tudo
é
posto
em
chamas.
Giramos
em
torno
desse
nada.
Diante
da
falta
de
sentido
da
vida,
a
voz
é a
forma
que
toma
o
grito,
lá,
onde
a
vida
não
é
mais
que
um
tempo
sonoro
a se
cumprir
como
linguagem.
De
tanto
insistir,
sem
resposta,
cria-se
o
discurso,
para
tornar
audível,
ao
outro,
a
paixão
de
viver
esse
nada,
em
sua
borda
mais
incandescente,
como
o ar
que
entra
pela
primeira
vez
em
nossos
pulmões.
Quem
melhor
do
que
o
poeta
para
expor-se
às
chamas,
em
sua
intensidade
máxima,
para
testemunhas
o
que
de
melhor
vale
à
vida?
Exposição
deveras
mascarada,
na
medida
em
que
fica
entre
a
cera,
que
sustenta
a
chama
desse
amor,
e a
fumaça
a
evolar-se
em
poemas
sublimes.
E é
o
que
basta
para
cobrar,
do
leitor,
o
contaminar-se
de
seu
estilo,
de
sua
força
e
beleza,
enquanto
a
chama
evolui-se
em
meio
ao
vento,
alterando
as
consciências,
em
seus
objetivos
mais
práticos,
imediatos
e
diretos,
para
que
o
ser
ganhe
altura.
Ler
um
bom
poema
exige
esse
abandono
do
tempo,
do
cotidiano,
em
movimento
que
vão,
ora
ao
sabor
da
rima,
ora
a de
uma
deixa
que
só
aparece
no
final;
ora
ao
sabor
da
leveza
de
um
sopro,
ora
ao
impacto
do
retorno
à
palavra
que
faltou,
ou
quando
se
antecipa
um
tempo
ainda
futuro
para
o
sentido
das
reticências
do
começo.
Encontrar
esse
ponto
de
arrebatamento
talvez
seja
a
tarefa
mais
árdua
para
o
poeta
no
uso
da
palavra.
E o
que
dizer
quando
somos
convidados
a
prefaciar
a
primeira
aparição
de
um
poeta,
a
estreia
de
letras,
nas
paredes
das
páginas,
a se
oferecerem
como
marcas
de
chamas
que
por
ali
deixaram
seu
rastro
singular?
Tarefa
de
não
menos
abandono.
Fica
o
prefácio,
à
porta,
a
desejar
que
partam
os
poemas,
para
uma
terra
estranha.
É
melhor,
assim,
não
se
ter
a
chave.
E o
leitor,
é
deixa-lo
lançar-se
em
seu
comboio,
com
direito
a se
perder
de
saída,
entre
os
versos
de
ida
e os
de
retorno,
identificando
o
que
melhor
soe
afinado
com
o
movimento
de
sua
própria
alma,
essa
terra
estranha.
Ler
um
poema
é
sair
de
casa.
É
tempo
de
partida.
É
sempre
um
estrear.
Sem
prazo
de
retorno,
nem
direitos
adquiridos
de
um
sentido.
Mas
é
nesse
ponto
que
o
poeta
experimenta
o
percurso
completo
do
seu
próprio
abandono,
uma
vez
desapropriado
de
seu
rebento,
entregue
ao
mundo,
sem
fio,
sem
celular,
sem
carteiro.
Como
quem
solta
um
pombo-correio,
com
a
mensagem
em
suas
asas,
anuncia
que
estamos
diante
do
primeiro
livro
de
poemas
de
Eliane
Triska.
Ao
leitor,
cabe
desvelar,
nos
movimentos
de
nuvens,
por
onde
passa
o
sutil
traçado
de
suas
linhas,
a
aterrissagem
do
sentido,
o
mergulho
em
sua
sonoridade,
ou
estatelar-se
em
algum
rochedo,
na
dureza
de
algum
verso,
para
se
recobrar,
no
fim,
ante
o
próprio
voo
em
seu
reverso
de
leitor.
Em
Os
tempos
e
sua
voz,
Eliane
tem
o
ímpeto
de
uma
entrada
em
cena,
fazendo
do
soneto
uma
escolha,
enquanto
os
leitores
estarão,
eventualmente,
distraídos
entre
versos
brancos.
Mas,
quando
chegarem
aos
seus
poemas,
irão
se
surpreender
com
um
cenário
onde
a
leitura
toma
um
rumo
de
um
rastilho
em
ziguezague.
Depois,
virá
o
trabalho
de
encontrar
a
brasa
que
arde
sob
as
cinzas,
em
sonetos
que
tornam
vivos
os
versos,
bastando
um
sopro
da
rima.
Percorrendo
os
poemas
de
Eliane,
no
modo
com
que
os
dispõe,
bem
podemos
pensar
que,
para
quem
ama,
a
vida
e o
amor
são
um e
mesmo
experimento,
uma
terra
estranha.
E,
para
o
leitor
saber
o
que
se
colhe
da
sua
poesia,
é
preciso,
como
no
campo
do
amor,
que
deixe
seus
passos
perderem
a
ordem,
ao
ordenarem-se
pelo
vaivém
entre
o
lugar
de
aparição
do
sujeito
da
paixão
e a
frase
em
que
se
perdeu
como
objeto
amado.
Nessa
busca,
desalinhada
a
sintaxe,
sem
nexo,
a
licença
está
dada
por
si.
Entre...
Luciano
Fialkowski |