Fernandes de Oliveira Cerqueira

 

 

EM DIAS DE CHUVA


Nestes dias que chuva insiste em cair
Eu finjo não mais sentir
E ajo agora por instinto
Se eu pudesse não mais fingir
E de tudo o mais não fugir
Muitos saberiam que hoje não minto.

O meu olhar se entristece
E nunca reconhece
O que é o amor
Meu coração não se enternece
E lágrima pelo rosto desce
Já não sei se de alegria ou dor.

Desconheço o que é amizade
Finjo não merecer felicidade
Enfim tudo é-me triste
Quero enganar-me com verdades
Sou tão forte e tão covarde
Sentimento a mim nenhum existe.

Talvez a tristeza
Queira acompanhar-me nesta empresa
Nesta tortura sem fim
Pois só há a frieza
Em não reconhecer a presteza
Daqueles que se aproximam de mim.

A água que tudo renova
Arrasou-me e me colocou à prova
Não dando mais vida
Só me resta deitar a cova
Dela nada espero agora
Finar talvez seja a saída.

Fernandes de Oliveira Cerqueira

FILHO DO GUETO


Sou o medo oculto,
O ódio latente,
Sou fruto e subproduto
Da sua mente,
Um indigente
Entregue ao álcool,
Um pivete
Preparado para o assalto,
Sou o resultado da divisão
Desigual de riquezas,
Sou a arma engatilhada
Na cabeça de inocentes,
As palavras não ditas,
A truculência da policia,
A balada de sexta,
A atitude inconseqüente,
Sou o dedo do assassino no gatilho,
O caráter de muitos políticos,
O desrespeito aos outros
E a si mesmo,
Sou o desejo de um anjo demoníaco,
Um deus,
Um homem aflito
Por ter o filho dominado pelo vicio,
No entanto, nem sempre digo
Os caminhos que sigo,
Bons ou ruins, enfim,
Só interessam a mim,
Mas deixemos de lado os segredos
Porque sou filho
Da periferia,
Da inconsciência de meninas,
Do medo,
Do desemprego,
Da entrega licita,
Da disputa de esquinas,
Sou um afro-brasileiro
Sujeito ao preconceito,
Sim, sou mais um filho do gueto.

Fernandes de Oliveira Cerqueira

Não cultivo a língua em pormenores


Não cultivo a língua em pormenores
nas vírgulas e acentos graves
mas não são dela donos, os senhores
que aos meus versos põem entraves.

a vagar estão qual rapinas aves
em busca de carnicentos odores
e qual Pilatos que nas águas lavem
a boca dos comentários zombadores.

se prevalecer a força, morre o diálogo
e sendo o verso metafórico e análogo
se postará de forma sempre enfática,

mas jamais, em nenhum momento,
haverá de se sobrepor ao sentimento
ou ao meu lirismo a matemática.

Fernandes de Oliveira Cerqueira

Aprecio de ti, oh! Donzela, as madeixas


aprecio de ti, oh! Donzela, as madeixas
e se ao alcance estiver um segundo
prazer maior não haverá no mundo
e terei assim revogadas minhas queixas

prefiro vagar pobre e imundo,
oh Donzela, mais bela das gueixas,
a pensar que por um instante me deixas
maior será o penar e sofrer profundo.

tenhas-me ao menos por compaixão
a lareira deixas-me dormir como um cão
mas lanças sobre mim teu cobertor.

viver não posso, com essa paixão
e assim, vai-me romper o coração
e irei morrer, verás meu estertor.

Fernandes de Oliveira Cerqueira



2012

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