INA MELO

 

 Um domingo em Lisboa


Com certeza temos várias vidas. Algumas delas eu vivi aqui nesta encantadora cidade, berço dos meus avós. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a visitei. A primavera surgia junto com a Revolução dos Cravos. Uma Lisboa em evolução, foi a que conheci.
Tudo bem diferente do que imaginava, vendo-a sempre pelos olhos de um cunhado português apaixonado e fiel ao antigo regime. Outras vezes voltei e nunca me cansei de amar e sentir a semelhança entre ela e algumas das cidades do meu País.
Tudo me pareceu familiar. As calçadas, os velhos sobrados, ladeiras, o rio e o mar. Ah! Lisboa que mexe com o coração da gente ao cantar o Fado com respeito, silêncio e reverência. Aqui também a poesia fez morada através dos seus poetas e trovadores.
E a literatura? Quem não conhece e gosta de Pessoa e seus heterônimos, Eça de Queiroz, até hoje um ícone com as suas “farpas” que cabem perfeitamente na turbulência da vida moderna. E Antonio Alçada e Saramago, este último um dos maiores escritores modernos. Artistas, poetas, trovadores! Tudo tem nesta terra linda e querida de todos nós.
Depois de uma década, eis que retorno e outra face se apresenta. Uma cidade moderna, limpa e alegre. A tradição se preserva e os Monumentos bem cuidados guardam a história de uma terra tão velha que hoje tem um filho de mais de quinhentos anos.
Mas a modernidade dela está proporcionando aos visitantes tudo de bom, sem omitir nem desprezar a sua história, respeitando seus reis e rainhas, tratando-os sempre com a reverência merecida.
Hoje estamos mais perto, pois o mundo encolheu através dos meios de comunicação. Basta clicar e passeamos no Rossio, Mouraria e pisando as belas calçadas que tanta vida e beleza oferecem aos visitantes.
E o delicioso bacalhau, sempre acompanhado do melhor vinho, um deleite para os “gourmet´s” que vão ao Portucália, restaurante situado às margens do Rio Tejo. Visitando a parte nova da cidade, vamos passear no Teleférico onde uma vista maravilhosa se descortina. Abraçados rio e mar nos recebe com carinho e simpatia.

 

 

O SOLAR DE BERNARDA CARBRERA

  

            O sol de Cartagena brilhava forte no límpido azul do céu. Para o representante do governo francês aquele era o fim do mundo. Das muitas missões que lhe foram confiadas esta foi a mais difícil de aceitar.  Finalmente deixar as mordomias de Paris para vir se instalar naquela região do Caribe venezuelano, era quase um castigo, talvez pelas suas irreverências religiosas, pois não acreditava em nenhum Deus, fosse qual fosse à religião professada. Deus, para ele era um todo, o Universo, o homem e a sua força de raciocínio.

Passaria uma curta temporada na cidade, enquanto o titular definitivo pudesse ali se instalar. Por isso viera só, deixando a família em completo sossego. Para quase todos os que habitam o Continente Europeu, vir para a América do Sul era uma espécie de punição, principalmente nos paises menos desenvolvidos.

Ao chegar ao aeroporto, a noite descia sobre a cidade e no infinito as estrelas brilhavam de forma diferente. O ar era pesado, o vento soprava forte, silvando qual uma cobra. Arrepios percorreram-lhe o corpo. Depressa, entrou no carro que o esperava e deu ao motorista a direção do Hotel. Seguiram pela estrada afora.

- Impaciente, perguntou: Por que este nome tão estranho num moderno Hotel cinco estrelas?

- Respondendo à pergunta, falando um espanhol claro e correto, Solano Buendia disse: O Doutor conhece a história do Solar?

- Não. Olhando pelo retrovisor, Michel observou a cara marota e resolveu continuar a conversa. Conte-me amigo, que história é essa.

- Perdão, senhor, mas esta será a sua missão nesta cidade. Quanto tempo vai passar, perguntou?

- Espero que muito pouco.

De repente, um freio forte o jogou para frente. Assustado, abriu a porta do carro e desceu. Como num passe de mágica, as malas já estavam postadas na calçada e o carro ia longe. Foi então que se lembrou: não pagara a corrida. Bem, deixa pra lá, deve ter sido o Ministério. Quando menos esperou viu que um jovem de pele escura e cabelos cor de cobre carregavam a sua bagagem para o interior do Hotel. Seguiu-o rapidamente. As luzes bruxuleantes davam um aspecto sombrio ao Solar, apesar do luxo que se espalhava ao redor. Enormes candelabros de prata, cortinas de damasco, tapetes persas, espelhos dourados, tudo isso tornava o ambiente pesado e misterioso.

O homem maduro, em plena forma física, elegante, cabelos lisos da cor da graúna, nariz afilado tal qual um deus grego, vestindo um terno cinza de corte impecável, destoava completamente do ambiente. O tempo que passou na recepção foi muito curto. Logo se viu entrando num elevador com porta de ferro antiga, brilhando como se fosse de ouro. Seguiu o taciturno jovem pelo corredor, forrado com passadeiras bordadas com esmero. Ao abrir a porta, ouviu as primeiras palavras do moço:

- Senhor, desejo-lhe uma boa estada neste Solar. “Buenas Noches.”

Michel foi logo tirando o paletó jogando-o displicentemente sobre a cadeira, largou os sapatos de cromo alemão e ao afrouxar a gravata viu as cortinas da janela balançando. Assustou-se e foi abri-las. Do terraço, pode vislumbrar uma belíssima noite coberta de estrelas e a lua qual rainha reinava soberana no céu do Caribe.

Respirou, despiu-se e saiu para conhecer o apartamento. De repente, viu-se por inteiro no grande espelho de cristal, com moldura de ouro. A imagem refletida não era a sua, mas a de um homem bem mais velho, bonito, de tez morena e cabelos cor de cobre. O corpo firme e dourado era forte e bem talhado.

Não deu importância, aquela terra era realmente cheia de mistérios. Foi para a toalete. Viu uma banheira em forma de concha preparada para o banho. Entrou, deitou-se nas águas tépidas e perfumadas, fechando os olhos para relaxar. Uma música estranha misturava-se com o vento que assoviava. Ah! Pensou. Deixara a janela aberta.

Adormeceu e como num passe de mágica, viu uma jovem e bela mulher, de pele branca, olhos azuis e boca vermelha qual uma maçã completamente nua a sorrir para ele. Esperava-o com uma manta estendida nos braços. Sem se preocupar com a sua nudez, levantou-se e caminhou em sua direção. Um leve arrepio percorreu-lhe a espinha. Será que estava dormindo ou acordado? Questionou para si mesmo. Não vacilou e aceitou que ela lhe envolvesse no manto perfumado. Apenas sentiu um cheiro acre e diferente de todos os que conhecia. Mas o calor no seu corpo era tão prazeroso que não se importou.

A jovem segurando-lhe as mãos levou-o para a imensa cama de ferro talhada com estranhos arabescos, coberta por um dossel dourado. Diante dele, um homem com quase dois metros, ela parecia uma menina. Frágil e linda. Algo chamou à sua atenção: A imensa cabeleira cor de cobre, igual a do motorista que lhe transportara do aeroporto. A mulher enxugou-o com leveza e tirando as vestes finas deitou-se ao seu lado. Ele não sabia o que fazer. Estaria enfeitiçado? Pensou. Estava com um intenso furor sexual, mas nenhum dos seus sentidos dava sinal. O sexo permanecia quieto e tranqüilo, como uma pequena ave adormecida. Aos poucos, tudo nele foi se acendendo, desde as narinas frementes até os bicos dos seios duros e firmes.

O gigante adormecido começava a despertar. A jovem mulher nua e transparente qual uma nuvem, respirava suavemente como se estivesse à espera de um gesto. O vento soprava forte e pingos da chuva batiam nas vidraças. Ele criou coragem e segurou as pálidas mãos que inertes, descansavam sobre o lençol. Eram quentes e macias. Aí aconteceu o inesperado. A mulher abraçou-o com força, beijou-lhe na boca, enfiando a língua qual serpente numa fúria avassaladora. Rolaram num fogo implacável. Estavam sedentos de desejo. Fizeram amor muitas e muitas vezes. Com toda a sua vivência com as mil mulheres que já possuíra, nenhuma delas conseguiu levá-lo a loucura do prazer, igual àquela pequena jovem com cabelos de cobre. Exausto e quase adormecido, viu quando a jovem caminhou para a varanda num passo leve, com a imensa cabeleira cobrindo-lhe o corpo e desapareceu.

Acordou com o sol derramando-se sobre as belas tapeçarias, onde milhares de jovens nuas, cobertas de flores dançavam. Levantou, tomou uma ducha fria e desceu para o café. Tudo o que acontecera estava gravado na mente e no seu corpo exausto de tanto prazer. O jovem que na véspera lhe encaminhara até o apartamento, com um riso nos lábios finos, perguntou: - Dormiu bem, senhor! Gostou da cama?

Depois de mais de seis meses vivendo naquela estranha e mágica cidade foi que soube da lenda. O luxuoso Hotel onde ele morava pertencera ao poderoso Solano Cabrera e no mesmo quarto que lhe fora preparado, estava enterrada a sua filha Bernada, que morreu por um amor impossível.

Ina Melo. Recife, Set.2009.   

Primavera no meu outono

Hoje é primavera no meu outono
dia lindo, radiante.
Chove colorido no meu jardim

Chuva e sol juntos numa
estranha sinfonia de azuis, verdes e laranjas.
Pingos transparentes caem das folhas

Um arco-íris se forma.
As flores riem, borboletas esvoaçam
espalhando felicidade.
É primavera e chove colorido
no meu coração

Recife/Agosto/2001

 

Índice de autores