Ivan Vagner Marcon

 

NÓS GOZOSOS


I

Tempo de excitações
(mesmo que escassas).
Paixões periféricas
e amores oblíquos.
Alguns detalhes espalhados
nos cômodos da casa.
A pressão arterial
exótica, bizarra e dissonante.
A sós...
Entre nós gozosos
de pele
e pêlo.
As estruturas abertas e aparentes
vazando o que não cabe no corpo...
As falhas escaldantes
justificando-nos...Pares mal ajustados.
...

II

No dia seguinte (mediano e sofrível)
os corpos leves...
As vontades abandonadas como um velho desenho a giz
E uma saudade dos gestos dançados e das palavras moles.

 

E FIM...


I

O tempo é o senhor das pautas
E das rotas:
Das linhas que ainda se farão pontes.

A mim
Apenas o íntimo,
O compenetrado e
O silêncio plural.

II

Na boca:
Um som lubrificado
A colar-me sorrisos.
Nos olhos:
Um instante singular
A impressionar-me as retinas.

Na pele:
Uma vontade pacificada
A explorar-me os relevos.

III

Um outro corpo:
Um exilado que me ouça bem
Bem me use...Bem me ouse...
Alguém que fim.

 

CÉU


Ontem não ví estrelas no céu
(também nenhuma delas me habitava).
Sem nuvens, estrelas ou anjos.
Um céu só.
Um céu vazio e vazado como essa saudade repentina...
...Sem começo nem fim...

 

PÉTALAS
(MENINICES EM CERQUILHO)


Trago em mim uma saudade:
Um vazio palpável que me persegue...


Saudade de tuas casas hoje em demolição
Das fotos desbotadas e das ovelhas coloridas...
Das charretes... Dos trens de tua estação...
De tantas chegadas... E outras tantas partidas.
Saudade é uma ausência
que um dia do passado rompe...
Saudade de meus tombos dos galhos de tuas goiabeiras...
Do céu de pipas... Do içá em teu vermelho chão
Saudade até daquelas velhas benzedeiras
Curando o quebranto com palito e carvão.
Saudade é uma chama que queima o peito e
nada aquece...

Saudade do bebedouro de cavalos de tua extensa avenida
E a falta (tanta) daquela tua paineira em flor...
Saudade da cancela e de tua antiga rodoviária
De nossa meninice...De nosso certo “interior”.

Saudade ao contrário do tempo é uma coisa que dá
e não passa...


Saudade das ruas e até de meu joelho ralado
De cada professora... Daquela nossa pouca idade
Saudade dos meus pés descalços naquele meu “cercado”
Que de concreto... Só me deixou a saudade.

Na memória resguardo cada uma de tuas rosas que desvaneceram
Mas ainda confiante em tuas sementes...

 

 

COCOON


Quero muito
Muito mais do que sou...
Tomar emprestado outros eus...
Roubar historias alheias...As tuas, quem sabe?
Encontrar-me num outro...E através de outros olhos
Enganar-me com uma felicidade diferente...
Certamente graúda
(apenas por não ser a minha).

Recompor-me
Tornar real o que sempre me foi medo.
Habitar meus vazios
Tudo novo...
Brincar de Deus...
Reinventar-me.


(Não mais fingir não sentir a dor que sinto e essa saudade a eclodir por dentro...)

Completar oque me falta
E expor o que sobra.
Em minha (des)ordem...
Dar liberdade para aqueles abraços vazios
E um alvará para os beijos que nunca enviei...

Eu
Que de mim,
Sempre fui um estranho...
Obrigando lagartas a tornarem-se borboletas...

2012

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